quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A Casa do Caminho de Pedras - Parte X




Aurora levou um grande susto, pois nunca tinha visto alguém que já morrera. Tinha sonhos e ouvia vozes, mas nunca tivera assim uma visão tão clara, como se Marta estivesse viva, diante dela!

Levantou-se da cadeira, derrubando um vidro de tinta vermelha, e achou que era um mau presságio... ao erguer os olhos, a imagem da mãe tinha desaparecido. 

Lá na cidade grande, Jorge e Helena conversavam. Ele acabara de contar a ela que a liberdade de seu filho tinha sido negada, e que não poderiam apelar mais. Helena chorava. Sentia ainda uma enorme vontade de “por as mãos naquela filha de uma prostituta” e vingar-se de uma vez pelo que acontecera à sua filha Jane e ao seu filho Eduardo! Mas Jorge pediu-lhe que se acalmasse e ouvisse o resto da história que tinha para contar. Ela respirou fundo, e tomando um bom gole de bebida alcoólica, procurou prestar atenção ao marido:

-Helena, eu sei que passamos mais que dois anos de nossas vidas odiando Marta e sua filha pelo que aconteceu à nossa menina. Desejamos nos vingar, e achamos que Eduardo estava tentando apenas vingar a morte da irmã ao assassinar Marta. Mas eu preciso que você me escute com muita atenção... pare de beber, por favor, e me ouça (ele tirou o copo da mãe da esposa):

-Hoje recebi um telefonema. Uma das amigas de Jane. Lembra-se de Gilda? Ela pediu-me se podia conversar comigo, e disse que me procurasse no escritório. 
-E ela esteve lá? O que ela sabe? O que queria dizer?
-Ela estava com Jane no dia em que ela morreu, e contou-me tudo. Só não se manifestou antes porque não queria complicar ainda mais as coisas. Mas ao saber que eu estava tentando libertar Eduardo mais uma vez, ela decidiu que era hora de dizer o que sabia.

Helena ficou lívida, e concentrou-se nas palavras do marido:

- Ela me disse que ambas tinham ido à casa de Marta algumas semanas antes da morte de Jane, onde ela pedira uma poção para conseguir emagrecer. Você se lembra, ela sempre foi um pouco gordinha... Gilda falou-me que ela começou a tomar o remédio, e que realmente estava conseguindo emagrecer e controlar o apetite.

-E por causa daquela megera que exercia medicina ilegalmente, nossa filha morreu envenenada!
-Não! Espere, deixe-me terminar! Dias depois, Jane pegou o irmão roubando dinheiro do cofre da casa.  Ela brigou com ele, e o fez devolver tudo. Gilda também estava presente naquele dia, e testemunhou tudo.
-Meu filho, roubando dos próprios pais? Não acredito!
-Mas é verdade, Helena...

Jorge parecia triste, cansado e envelhecido.

-Eduardo estava viciado em cocaína. Roubava para pagar a um traficante que o estava ameaçando. Já tinha, inclusive, participado de um roubo a uma casa de veraneio, e Jane sabia de tudo. Ameaçou contar-nos tudo se ele não parasse.
Helena lembrou-se das muitas vezes em que vira o filho agir de forma estranha ou tornar-se subitamente agressivo, mas ela decidira ignorar e por panos quentes, protegendo-o e fingindo que estava tudo bem. Lembrou-se das reclamações da escola, e de quantas vezes ela fora chamada para conversar com a diretora devido às atitudes de bullying do filho em relação a alguns colegas. E também da forma como o defendeu ao saber que ele tinha cometido um assassinato!

Jorge continuou sua história:

- Bem, ele não parou... naquela noite em que Jane morreu envenenada, Gilda havia estado com ela, e viu quando ela tomou o remédio preparado por Marta, como fazia todos os dias. Era ainda dia claro, logo antes do almoço, e ela tomou o remédio como sempre fazia. Não se sentiu mal. Continuou agindo normalmente. Gilda disse que estava entusiasmada, pois via que Jane estava realmente perdendo bastante peso, e decidiu provar o remédio. Se estivesse envenenado, ela teria morrido também. 

As duas marcaram de sair juntas à noite. Quando Gilda chegou aqui em casa – estávamos viajando, lembra-se? – e subiu até o quarto para encontrar nossa filha, viu quando Eduardo entrou no quarto. Como chovesse muito, e houvesse  muitos trovões ele não ouviu quando ela se aproximava. Ela achou a atitude dele estranha e ficou escondida, observando-o através da porta entreaberta. Viu que Jane estava deitada na cama, inerte, e viu quando João, usando luvas, colocou o remédio que ela estava tomando, dado por Marta em um copo com água. Ela achou aquilo estranho, e ficou escondida. Quando ele saiu, Jane entrou. Chamou por Jane, mas ela não respondeu: nossa filha estava morta! 

Helena tampou a boca com as mãos, horrorizada:

-Você está dizendo que foi Eduardo que matou a irmã?!

Tristemente, Jorge respondeu que sim, acenando com a cabeça.

-Eu não acredito nessa história! Meu filho não faria uma coisa dessas! E por que ele mataria Marta?
-Porque Marta era médium, e sabia do que ele tinha feito, e tentara incriminá-la. Gilda disse que o telefone de Jane tocou enquanto ela estava no quarto, e ela atendeu. Era Marta, desesperada. Queria saber se Jane estava bem. Elas conversaram por alguns minutos, e Gilda decidiu mentir, dizendo que a amiga estava dormindo. Mas Marta disse que sabia que ela estava mentindo, e que ela deveria chamar a polícia. Então ela confessou tudo à Marta.
Mas ficou com medo. Assustada, Gilda desligou, e usando uma toalha, apagou suas digitais do telefone de Jane. Enquanto saía correndo da casa, apavorada, esbarrou em Eduardo. Ele percebeu que ela tinha visto tudo. Ameaçou-a de morte, se ela contasse alguma coisa, e apavorada como estava, Gilda acabou revelando a ele que Marta sabia de tudo. Logo depois, ele a matou com um tiro, naquela mesma noite, enquanto sua filha Rúbia dormia no quarto ao lado. E Gilda saiu em viagem, com medo de Eduardo. Só voltou meses depois. E há testemunhas que o viram próximo à casa de Marta na noite do crime, como você sabe. Nosso filho matou Jane, Helena... sua própria irmã!

-Mas toda essa história pode ser mentira! Eu não posso crer, não posso! Gilda mente! E se marta era médium e sabia de tudo, como não adivinhou que Eduardo ia matá-la? 

-Minha querida, nem sempre os médiuns sabem de tudo... eles não sabem de todas as coisas que estão para a acontecer. Ninguém sabe. E eu conversei hoje com Eduardo. Contei-lhe a história antes de vir para casa. Ele confessou tudo. Nosso filho matou duas pessoas. E cometeu vários assaltos.

Dentro daquela casa, as trevas da tristeza invadiram todos os espaços. Mais tarde, Helena seria encaminhada para tratamento psicológico em uma clínica. Ao sair da clínica, faria uma visita ao filho. Ambos se abraçariam, chorariam e perdoariam os pecados um do outro.

Ao mesmo tempo, Helena perceberia que passara todo aquele tempo tentando culpar uma pessoa inocente pela morte da filha, e que aquilo não fazia mais sentido. Deixaria Aurora em paz.

(continua...)


Um comentário:

  1. Olá, Ana
    Bom tudo para nós.
    O que trazemos na memória, da velha infância ?
    Também, não sei.
    Portanto estou cá, para desejar um dia agradável, refletindo que, a maior obra do Criador, é você.
    Um abraço.

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