segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O Último Final de Semana - Parte I

Carol dirigia pela estrada semi-escurecida, envolta em seus pensamentos. Não ligara o rádio, apesar
de sempre fazê-lo quando dirigia por muitas horas. Mas não daquela vez. Queria pensar. Nem sabia ainda porque tinha aceito aquele convite para ir novamente à casa de Rodrigo depois de tudo o que acontecera entre eles no passado. Já tinha percorrido aquela mesma estrada muitas vezes, há sete anos, quando todos estudavam na mesma faculdade e eram amigos inseparáveis. O e-mail era claro: "Preciso ver você novamente. Por favor, esqueça tudo o que aconteceu no passado, pois eu preciso urgentemente de você. Não me abandone..." a urgência daquelas palavras cortaram seu coração ao meio, embora Carol odiasse que aquilo tivesse acontecido.

Aos poucos, sua mente foi viajando de volta ao momento em que ela tinha visto Rodrigo pela primeira vez, comendo um sanduíche na cantina da faculdade. Ela estava sentada sozinha em uma das mesinhas, entre a balbúrdia alegre dos outros jovens que circulavam em volta dela. Mas quando ela o viu, seus olhos ficaram presos na imagem dele, no rosto, no sorriso, nas mãos que seguravam o sanduíche. Carol sabia que já estava apaixonada por aquele estranho perfeito, ou por aquele perfeito estranho. Por mais que tentasse, não conseguia tirar os olhos dele. 

Até que ele percebeu, e sorriu para ela, e de repente, ela teve a sensação de que as nuvens de um céu tempestuoso se abriam e mostravam um infinito perfeitamente azul, imaculado! Logo ela retribuiu o sorriso, e ele convidou-se para sentar-se com ela. Dali, ficaram amigos, e uma semana depois, estavam namorando. Carol parecia ter encontrado seu príncipe encantado! Ainda não sabia que aquele jovem lindo, cheio de vida, simpático e sedutor, transformar-se-ia em um sapo horroroso... que ela continuaria a amar com a mesma intensidade. 

A paixão intensa que tinha por ele fazia com que Carol não enxergasse certos sinais alarmantes: ele sempre pedia-lhe dinheiro emprestado e esquecia-se de devolver... às vezes, ela ficava sabendo que ele fora visto em alguma boate após deixá-la em casa, e morria de ciúmes. Mas ele sempre conseguia convencê-la de que estava apenas com amigos, que encontrara por acaso. E ela se deixava convencer porque já não conseguiria viver sem ele. Faria qualquer coisa, acreditaria em qualquer mentira para não perdê-lo! E ele retribuía seu amor com noites intensas de muito sexo e paixão. Ela nem percebia que aquilo que ele lhe dava, não era e jamais seria amor. Só queria viver aquele sentimento.

Nem percebeu quando Gina, sua melhor amiga, apaixonou-se por Rodrigo. Assim como também só ficou sabendo que os dois estavam saindo há meses depois que ela recebeu a notícia através de um amigo. A úncia coisa que ela conseguiu fazer, foi entregar-se àquele amigo, num gesto de vingança. Mais tarde, ela descobriu que os pais de Rodrigo  já tinham morrido há muito tempo, quando ele ainda era criança, e que ele fora criado por uma tia que também já estava morta, mas que lhe deixara a casa na praia, um apartamento no qual ele não chegou a morar porque ficava em outra cidade distante da faculdade, e algum dinheiro. Quanto, ninguém sabia realmente, já que mesmo após receber sua herança, ele continuou pedindo dinheiro emprestado a todos.



Mesmo após saber da traição e da mentira sobre a morte dos pais, Carol o perdoou, embora tivesse rompido para sempre com Gina. Achou que as lágrimas de arrependimento que escorriam profusamente dos olhos dele, enquanto ele estava ajoelhado aos seus pés pedindo perdão, eram verdadeiras e sentidas. Não quis admitir que ele só queria dinheiro para pagar o aluguel no final do mês. E ela nunca se lembrava de perguntar a ele por que ele não alugava o apartamento herdado da tia a fim de pagar seu aluguel, embora este pensamento permanecesse no fundo de sua cabeça, querendo emergir. E quando perguntou-lhe por que ele não vendia a casa na praia, onde eles iam apenas algumas vezes ao ano, Rodrigo quase chorou: disse ser um lugar do qual trazia muitas lembranças de infância, embora ele sempre escorregasse para longe quando alguém tentava perguntar-lhe sobre sua infância ou adolescência.

Mais alguns meses se passaram, e sempre que ela tocava no nome de Gina, Rodrigo falava dela como se fosse uma mulher fria, sedutora, que o forçara a traí-la. Fazia-se de vítima, e Carol adorava quando isso acontecia, pois quanto mais ele atacava a reputação de sua ex-amiga, igualmente ressaltava o quanto Carol era uma pessoa bacana, justa, honesta, que jamais daria bola para o namorado de sua melhor amiga.

Até que, quase um ano após Carol descobrir sobre a traição, sua ex-amiga Gina apareceu grávida, dizendo que o filho era de Rodrigo... e ela teve que admitir que os dois nunca tinham parado de se ver.

Terminar com ele deixou-a em grande depressão. Trancou a faculdade por quase seis meses. Sua vida sem ele - mesmo sabendo o quanto ele mentira - era apagada, sem brilho... precisou fazer análise durante mais de dois anos para finalmente tirá-lo de sua cabeça (mas nunca de seu coração, e por isso, Carol estava ali naquele carro, atendendo ao que ela dizia ser o último chamado de Rodrigo ao qual ela atenderia).

Enquanto isso, Gina viajava de ônibus para o mesmo local. Pensava mais ou menos nas mesmas coisas. Terminara  tudo com Rodrigo há muito tempo, e também tivera sua parte de sofrimentos até poder dizer que o tinha esquecido o suficiente para continuar com sua vida. 

Lembrou-se do quanto ele pareceu feliz ao saber da gravidez, e acreditou nele quando ele insistiu que ela fosse a um médico de família para cuidar de sua saúde e da saúde do bebê. Não reparou que a clínica para onde ele a levara era uma clínica de aborto. Rodrigo segurou-lhe a mão fortemente, e o tempo todo, dizia o quanto estava feliz com a notícia, embora demonstrasse um nervosismo que ela pensou ser perfeitamente normal. Eram os únicos pacientes do tal doutor. Rodrigo alegou que o médico só atendia com hora marcada, e que dava sempre um intervalo de vinte minutos entre cada consulta. Acrescentou com entusiasmo que ele não era como os outros médicos que marcavam a mesma hora com várias pacientes ao mesmo tempo, fazendo-as esperar; não! Dr. Macedo era um médico especial, para quem o dinheiro que ganhava pelas consultas era a coisa menos importante.

Ao ser atendida, Rodrigo disse que preferia aguardá-la na recepção, e Gina entrou sozinha. Achou lindo vê-lo sentado na salinha azul, torcendo as mãos e engolindo em seco, um leve sorriso nos lábios. Sentiu-se muito segura naquele momento.

 Dr. Macedo cumprimentou-a com secura, mas ela achou que fosse por profissionalismo. Foi logo pedindo que ela se despisse e vestisse um avental e uma touca que estavam no banheiro. Carol obedeceu-o. Depois, ele pediu-lhe que deitasse na maca, e ela obedeceu. Deu-lhe um remédio para tomar, dizendo que era para dar contraste no exame de ultrassonografia, e ela mais uma vez fez o que ele tinha pedido sem discutir, confiante em Rodrigo. 

Quando acordou, havia um lençol sujo de sangue. Havia instrumentos ao lado da maca, também sujos de sangue. Ela gritou. Dr. Macedo veio correndo, e mandou que ficasse quieta de maneira rude. Ainda tonta, Gina perguntava o que ele tinha feito com o bebê. Rodrigo entrou na sala, e os dois começaram a discutir. Dr. Macedo dizia que havia pensado que "A moça estaria de acordo," e xingava muito Rodrigo. Mandava que ele saísse dali levando Gina e que nunca mais voltasse. Ele a carregou até o carro, e ela vomitou no assento. 

Ao chegarem em casa, ainda  no carro Gina mal podia acreditar no que Rodrigo tinha feito com ela, com o bebê deles! Ele pedia que ela se acalmasse, pois tinha feito o que era melhor para todos, pois a amava e não achava que era a hora certa para terem um filho. Afinal, nem tinham terminado a faculdade. Dizia que a amava muitíssimo. Gina chorava. Chorou até sentir-se fraca demais até mesmo para chorar. Sentiu a hemorragia descendo pelas suas pernas e banhando de vermelho o banco do carro de Rodrigo. Ele praguejou, dizendo que era porque ela tinha feito muito esforço, ao invés de repousar como deveria. Levou-a a um hospital, onde ela foi atendida de emergência. Mais tarde, ela descobriria que jamais poderia ter filhos novamente, pois precisou fazer uma histerectomia total a fim de conter a hemorragia e a infecção. 

Dizia que a primeira coisa que faria ao sair do hospital, seria denunciar o médico, mas Rodrigo desencorajou-a, dizendo que ele desaparecera sem deixar vestígios, e que remexer aquela história só faria com que os pais dela - católicos fervorosos - ficassem sabendo de tudo, e que ela deveria poupá-los de tal desgosto. Tanto falou, e tanto segurou sua mão, e chorou, e lamentou-se dizendo que a amava muito e que se arrependera, que Gina... perdoou-o.

Mas o argumento que mais contribuiu para que ela o perdoasse, foi quando ele disse junto ao seu ouvido, numa noite em que a segurava apertado em seus braços na cama enquanto ela chorava: "Gina, no fundo, você deveria saber que aquela era uma clínica de aborto assim que entrou, mas não quis admitir. Não teria coragem de fazê-lo sozinha, precisou que eu a levasse lá, e até o último momento, você se enganou ao tentar bloquear a informação sobre a verdadeira atividade daquela clínica. No fundo, você sabia que eu estava fazendo a coisa certa, e por isso, não protestou. Você sabia. No fundo, você sabia..."  Ela engoliu a verdade daquelas palavras, sem nada dizer ou pensar. Apenas reconheceu que ele tinha razão, e que o fato de não mais poder ser mãe, era o preço que estava pagando por aquilo.

Foram viver juntos - ele mudou-se para o apartamento dela, que pagava quase todas as despesas. 

Meses depois, ela chegou em casa e chamou por ele. Ele não respondeu. Correu até o armário, e viu que Rodrigo tinha levado embora todas as suas roupas - e também alguns discos, livros, aparelho de som, telefones celulares e todo o dinheiro que estava na gaveta, e que ela reservara para o aluguel do mês. Nunca mais ouviu falar de Rodrigo, até que recebeu o e-mail implorando-lhe que fosse até a casa de praia onde tinham sido felizes tantas vezes. E Gina simplesmente foi.


(continua...)



2 comentários:

  1. Beleza Ana um conto bem elaborado com mistérios e curiosidades da fraqueza humana.
    Um conto que promete fortes emoções.
    Parabéns Ana. Vamos seguir.
    Meu terno abraço,

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