quarta-feira, 25 de março de 2015

Eu a Vejo - minimalista

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Ela passa por mim segurando o regador. Molha as plantas da varanda, os vasinhos na janela, a roseira no canto do jardim. Dá um longo suspiro, coloca a mão na cintura como sempre faz, num gesto inconsciente. Olha em volta, dirigindo o olhar para a esquerda, em direção à montanha. Vê a neblina que beija a superfície lisa da pedra com delicadeza. Contra o pôr do sol, observa os milhares de criaturas que voam na maciez da tarde, as asas transparentes. 

Ela olha para a casa. Imagina coisas que eu não sei contar. Desce o caminho, passa novamente por mim, mas não me olha. Lava algumas louças que estão na pia da cozinha, passa  a vassoura no chão. Pensa no que poderá preparar para o jantar enquanto estende a roupa. O crepúsculo cai sobre a casa, e ela acende as luzes - não gosta muito do escuro. Encostada à parede do corredor, eu a vejo passar em direção à sala de estar. Liga a TV, e tenta assistir alguma coisa, mas os pensamentos voam para longe, pela janela, perdem-se naquela estrelinha que começa a brilhar lá longe... será que ela pensa em mim?

Desliga a TV e coloca uma música suave. Caminha descalça pela casa. Acende um incenso. A casa olha para ela, e a entende. As duas se conhecem muito bem e sentem-se à vontade juntas. Ela chega à janela, e olha o jardim. Aspira o perfume da grama recém-cortada. Um beija-flor faz charme, chegando bem perto dela, e depois voa para longe, desaparecendo por trás do muro de hera. Estou bem ao lado dela. Nossos cotovelos se tocam, e posso ouvir o som de seu coração batendo. Mas ela não me olha.

Pega um livro, enrodilhando-se na poltrona. Abre ao acaso em uma das páginas, e lê com atenção, e eu sei porque: ela acredita que os livros tem poderes mágicos e que podem interagir com os leitores, dando-lhes as respostas que eles procuram. Ela suspira. Sussurro em seu ouvido o meu nome. De repente, ela ergue a cabeça e olha em volta. Parece inquieta; leva uma das mãos à garganta, e vejo a pele do seu braço arrepiar. Ela me sente. Uma sombra de tristeza passa sobre seu rosto, criando pequenas dobras em sua testa. Seus olhos ficam marejados.

Eu a vejo. Ela me sente, e se pergunta onde estou.


3 comentários:

  1. Olá amiga passando para deixar o meu carinho e agradecimento pelas visitas e a atenção a mim dedicada, pois amo suas visitas e comentários.
    Domingo é dia... Do descanso merecido, dos encontros com a família, com amigos e amores. Encontrar consigo mesmo, com suas crenças, ou apenas com a natureza. Um brinde ao nosso Domingo, que ele venha recheado de bênçãos!! Que sejamos livres de preconceitos. Que nenhum de nós se esqueça da força que existe dentro de cada um e que essa força vem de Deus. Um abençoado Domingo de Ramos. FELIZ PÁSCOA!
    Abraços da amiga Lourdes Duarte
    http://professoralourdesduarte.blogspot.com.br/
    http://filosofandonavidaproflourdes.blogspot.com.br/

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  2. Ela deve fazer tudo sempre igual e seus sonhos estão longe dos sonhos de quem a observa.Um beleza de texto onde a poesia espalha-se sobre heras, neblina e viaja nas asas do cuitelinho.
    Lindo demais Ana.
    Leitura gostosa que nos leva em cada canto da casa, em cada ato da personagem que leva sua vida alheia aos nossos olhos.
    Gostei muito.
    Abraços

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  3. Muito tocante! Vou levar para a minha página de arte que tenho no facebook e para o meu blog. Beijinhos de luz

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