domingo, 12 de abril de 2015

As Ruas das Árvores que Choram - Histórias em Petrópolis




AS RUAS DAS ÁRVORES QUE CHORAM – PARTE II

Caminhar pelas ruas arborizadas de Petrópolis, sem pressa. Olhar bem os casarões antigos, as mansões bem conservadas que ficam ao longo da Avenida Koeller, Rua Ipiranga, Santos Dumont, D. Pedro, Barão do Rio Branco, Rua da Imperatriz. Muitas delas foram transformadas em pontos comerciais, devido ao alto custo de manutenção e o tombamento pelo Patrimônio Histórico. Caminhar pelo centro da cidade, e ver os poucos sobrados históricos que sobraram e conservaram-se como eram originalmente. Visitar pontos turísticos como o Museu Imperial,  A Encantada( casa onde viveu Santos Dumont) o Museu de Cera, O Palácio da Princesa Isabel, O Trono de Fátima, o Palácio de Cristal... percorrer o burburinho da Rua Teresa, ficar engarrafado no trânsito da Rua do Imperador, tomar café nas padarias, lanchonetes e casas de chá da Rua Dezesseis de Março depois de fazer compras nas lojinhas, e finalmente, sentar-se para descansar em um dos bancos da Praça D. Pedro, enquanto se observa as pessoas e carros passando. 

Uma cidade pequena. Uma cidade planejada – a primeira cidade planejada do Brasil, embora haja controvérsias. Mas o planejamento há muito “desplanejou-se” com a invasão das encostas, a superpopulação e a construção desenfreada de prédios e condomínios de luxo em áreas que deveriam estar preservadas. 

Mas eu quero falar de uma outra Petrópolis, uma cidade que foi planejada, antes de tudo, no céu. A cidade onde as árvores choram. Não sei se elas choram também em outros lugares, mas sempre que alguém senta-se sob uma das árvores de Petrópolis, ou permanece sob elas durante algum tempo, se ficar atento logo perceberá que está sendo espargido de leve por um líquido misterioso. Não sei se é seiva ou chuva acumulada nos galhos, mas mesmo em épocas de seca, quando eu fico no jardim de casa sob meu pé de laranja, sinto um leve borrifo que faz a pele arrepiar. Eu não quero saber se o mesmo acontecesse nas outras cidades, com outras árvores. Quero acreditar que somente as árvores Petropolitanas choram. Prefiro erguer os olhos para as copas verdejantes e ver a água borrifada de repente, assim do nada, e acreditar que alguma fada invisível está sentada em um dos galhos espargindo seu perfume. 

Nestas ruas eu escrevi a minha história. As casas são testemunhas da passagem do tempo sobre a cidade e seus habitantes. Muitas das pessoas que conheci, e com quem convivi, já não mais fazem parte desta paisagem, mas é como se os seus passos tivessem ficado marcados nas calçadas, e seus olhos permanecesse entre as copas das árvores, e eles me veem enquanto eu passo. Me perdoem se um dia vocês por acaso (ou por vontade própria) vierem parar aqui e não conseguirem enxergar nada do que eu digo; se a magia e a beleza que eu vejo e sinto em Petrópolis não chegar até o coração de vocês, eu peço desculpas. É que eu nasci aqui. A primeira coisa que eu enxerguei quando vim ao mundo, foi o céu Petropolitano pela janela do quarto onde fui parida, num 29 de setembro obscuro. Meus primeiros passos foram dados aqui, e minhas primeiras palavras – lidas e escritas – foram proferidas aqui. E é enxergando esse mesmo céu que me recebeu que eu pretendo fechar os olhos, quando chegar a minha hora. 

(continua...)



4 comentários:

  1. Olá, querida Ana
    Estou acompanhando sua série, amo Petrópolis...r
    Av. Ipiranga, muito minha familiar há 24 anos... devo ir por lá em breve...
    Bjm pascal

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  2. Ana eu senti o choro das árvores, à medida que lia o texto, tamanho o amor que você sente por sua cidade. Acho muito linda sua relação com o lugar em que nasceu e vive até o momento, suas raízes fincadas nesse chão, que lhe dão tanta alegria. Deve-lhe doer muito a expansão e exploração desordenada do espaço, avançando e destruindo o que ainda existe. Agradeço, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  3. Olá, Ana:

    Em um domingo gelado, típico de Curitiba, de céu cinzento, triste, depressivo, ao fazer uma pesquisa sobre Petrópolis, me deparo com os seus belíssimos textos e com a inspirada imagem poética: "As Ruas das Árvores que Choram."
    Moça, você escreve muitíssimo bem. Seus textos, envolvem, emocionam, nos fazem viajar!
    Voltei ao tempo da minha infância e adolescência, em Petrópolis. Lembrei dos vagalumes, que invadiam o meu quarto à noite, iluminando tudo, parecendo estrelas luminosas. Que saudade!
    Confesso, que nunca tinha reparado nas árvores que choram (que pena!), mas lembrei-me das marias sem vergonha, que enfeitavam o meu jardim e de TODO o resto.
    Após 24 anos de ausência, estou me preparando para voltar para Petrópolis, mas tenho muito medo de não encontrar mais a cidade que deixei. De só encontrar uma caricatura do que ela foi. O medo é tão grande, que chega a me doer o peito.
    Quando saí daí, em 1991, após intuir que a cidade seria destruída e que toda a beleza e qualidade de vida que usufruíamos, deixaria de existir, vejo que a minha intuição estava certa.
    Mas, ainda restaram "as ruas das árvores que choram" e o céu azul, de um azul tão intenso, que não se vê em lugar algum desse planeta.
    Obrigada por compartilhar as suas lembranças conosco. Só lamento que sejam só lembranças. Petrópolis merecia ser preservada, guardada e protegida, como uma obra de arte de um pintor famoso.
    Como "as árvores que choram", também choro por ti, minha linda e maltratada Petrópolis. Ainda bem, que tive o privilégio de usufruir todo o seu apogeu.
    Será que vale a pena voltar? Eis a questão...

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    Respostas
    1. Obrigada pela leitura, Lia. mas pode vir tranquila, ainda encontrará muitas coisas bonitas por aqui, embora a cidade tenha mudado.

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