segunda-feira, 8 de junho de 2015

A PRAIA DOS SONHOS - PARTE II





Do outro lado da cidade, um casal de turistas tenta aproveitar o calor do sol em uma praia movimentada. Em volta deles, vendedores ambulantes gritam seus pregões, e um alto-falante berra uma música de axé com uma letra irritante. Uma criança passa correndo e gritando no meio das esteiras onde os dois descansam, jogando-lhes areia. Um cão a segue. Uma mulher arma sua barraca bem junto a deles, tapando o sol. Os dois se entreolham enquanto ela começa a espalhar seus pertences na areia: ela começa a armar suas cadeiras de praia, enquanto o marido deposita um enorme isopor sob a barraca. Duas crianças ranhetas começam a brigar. A mulher grita com elas, e uma delas começa a chorar alto.

O casal se entreolha mais uma vez, e sem nada dizer, começam a recolher suas coisas. Hora de voltar para o hotel. Na recepção lotada, precisam esperar dez minutos até que o recepcionista lhes estenda a chave do quarto. Depois, aguardam ainda mais pela sua vez de entrar no elevador cheio. Ao abrirem a porta do quarto, uma lufada de ar gelado quase os congela. A mulher exclama:

-Nossa! Eu já tinha pedido para não ligarem o ar condicionado tão alto desse jeito!

O marido, ao chegar no banheiro, diz:

-E não trocaram as toalhas de novo. Eu pedi hoje de manhã. 

Um carro de som tocando música de má qualidade passa berrando na avenida lá embaixo. A mulher olha as ruas lotadas de carros, vendedores ambulantes e turistas. Os dois tiram as roupas suadas e cheias de areia, e enquanto a banheira enche, sentam-se lado a lado na cama. Mais uma vez, chegam a um acordo silencioso: precisam dar o fora dali, daquelas férias infernais. É Anita, a esposa, quem fala primeiro:

-Vamos alugar um carro, ouvi dizer que existem ainda algumas praias desertas lá para o norte. Quem sabe, encontramos o nosso pedacinho de paraíso para finalmente começarmos a celebrar nossos vinte e cinco anos de casados?

-Você está certa. Vou fazer isso agora mesmo, assim que dormir um pouquinho...
-Agora mesmo ou assim que dormir um pouquinho, Fernando? Eu não vou aguentar ficar aqui mais um dia.

-Vamos tomar um banho juntos primeiro – ele sugere, com olhar malicioso.

Horas depois, os dois estão colocando as malas em um carro alugado e rumando para o norte. Sem destino certo, sem saber onde se hospedarão, ou aonde chegarão. Alguém sugeriu um lugar chamado Praia dos Sonhos, mas disse que ficava muito longe do centro, cerca de três horas de viagem, e que só havia um único hotel ruinzinho e duas pousadas, que deveriam estar com seus poucos quartos alugados no mês de janeiro. Mas garantiram que haveria poucos turistas naquela área, devido à falta de infraestrutura. Anita e Fernando adoraram aquele comentário sobre a falta de infraestrutura, e decidiram partir imediatamente. 

Após dirigir por uma hora, Fernando viu que a estrada asfaltada deu lugar a uma de terra batida, que ficava cada vez mais esburacada e difícil. Teve que parar o carro uma vez para livrar-se de um galho de árvore no meio do caminho, e Anita ficou morrendo de medo, achando que fosse uma tentativa de assalto, mas nem mesmo ladrões andavam por ali. Mato de um lado e de outro. Buracos e solavancos sob um sol infernal... graças a Deus, o carro tinha ar condicionado. Mas de repente, a estrada estreita começa a alargar-se e os dois percebem que o mato começa a rarear, e a paisagem se abre. Eles deparam com um mar verde-esmeralda após uma enorme faixa de areia fina e branca.

Anita e Fernando saem do carro, sentindo o vento morno cheirando a maresia, e ficam por alguns instantes contemplando a beleza da paisagem. A praia deserta e maravilhosamente silenciosa os atrai para um mergulho. Antes de entrar na água, enquanto se despe, Anita olha em volta e de repente tira toda a roupa - inclusive o biquini - antes de jogar-se nas águas verde-esmeralda. Mas o sol já se despedia, e eles sabem que precisam encontrar um lugar para passarem a noite, e assim, entram no carro novamente. Após mais ou menos trinta minutos, Fernando dirige entre um corredor de pequenas casas pintadas com cores suaves, e centão  chega a uma pequena vila.

Percebem um pequeno movimento de pessoas - na maioria, turistas estrangeiros. Saem do carro, e de mãos dadas, caminham entre diferentes sotaques, até chegarem em frente a um aconchegante restaurante cujo telhado é feito de palha. A noite apenas começara, mas atraídos pela música e pela suavidade das luzes dos pequenos lampiões sobre as mesas rústicas, o casal decide entrar para comer alguma coisa. 

Logo são atendidos por um simpático rapaz (Anita logo nota sua pouca idade e a beleza do seu rosto de menino). Ele vai logo se apresentando, enquanto estende um cardápio para o casal:

-Bem-vindos ao nosso restaurante! Meu nome é Leo, e vou servi-los esta noite.

Anita e Fernando se entreolham, e Fernando diz, após olhar o cardápio com Anita durante algum tempo:

-Obrigada, Leo. Acho que vamos pedir duas cervejas por enquanto, e também... uma porção destes bolinhos de peixe... são bons?

Leo sorri, iluminando a noite:

-Bons? são os melhores que vocês já comeram. Mais alguma coisa?

Anita sorri. Fernando sente uma empatia imediata com o rapaz, e acaba se apresentando:

-Não, é só por enquanto. Desculpe, esquecemos de nos apresentar, Leo. Meu nome é Fernando, e esta é Anita, minha esposa.

-Tudo bem com vocês? Estão vindo de onde?

É Anita quem responde:

-Nós estávamos na cidade, mas tem muito movimento por lá. Queríamos um lugar mais tranquilo. Acabamos de chegar.

Os olhos de Leo brilham:

-Então já tem onde ficar?

Fernando respira fundo:

-Na verdade, ainda não... tem algum hotel por aqui?

-Bem, aqui na vila só temos um hotel e uma pousada, mas já estão cheios. Mas eu tenho uma pequena pousada, a meia hora daqui. Ainda tenho um quarto livre. Se quiserem eu digo como chegar lá. Ou então vocês me esperam sair, e eu os levarei até lá. Costumo sair às onze da noite.

Anita sorri:

-Obrigada! Acho que vamos querer sim.

Fernando a olha com censura, pois acabavam de chegar em um local desconhecido e ela já estava aceitando convites de estranhos. Às vezes, ele se irritava com a falta de cuidado da esposa e sua facilidade exagerada em confiar nas pessoas e em fazer amigos. Ele diz:

-Bem, na verdade, Leo, agradecemos sua atenção, mas vamos pensar. 

O sorriso do rapaz apaga-se por um instante, mas mesmo assim, ele concorda com a cabeça, sorri novamente pedindo licença, e vai providenciar o pedido. 

O dono do restaurante, "seu" Manuel, que escutara a conversa toda, aproxima-se da mesa:

-Boa noite. Meu nome é Manoel, e sou o dono do restaurante. Podem confiar em Leo, ele é um rapaz excelente. Mora na cidade há alguns anos, todos o conhecem por aqui. É boa pessoa!

Anita sorri, e ela cutuca a perna de Fernando sob a mesa. Ele ainda tenta argumentar:

-Mas... não tem nenhuma vaga por aqui mesmo, na vila?

-Com certeza não. O hotel é bem pequeno, e a pousada, idem. O lugar que Leo ofereceu é sua única opção. É bem simples, humilde mesmo. Mas tem água limpa, chuveiro, uma boa cama e um teto sobre a cabeça.

Fernando responde dizendo que vai pensar melhor, e "seu" Manuel se afasta. O casal discute em voz baixa, e acabam concordando em ficar na pousada de Leo. 

(continua...)




Um comentário:

  1. Boa tarde, a historia é cativante, julgo que a continuação vai trazer algo desagradável para um dos elementos do casal, melhor é esperar para saber.
    AG

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