quarta-feira, 22 de julho de 2015

A PRAIA DOS SONHOS - PARTE FINAL





Um dia, quando Anita pegou no computador para falar com os meninos, não houve resposta. Pensando que se tratasse de uma falha na conexão, ela resolveu tentar novamente algumas horas depois, mas não conseguiu. Quando Fernando chegou do trabalho, ela disse a ele o que tinha acontecido, e ele telefonou para a pousada, mas o telefone apenas dava sinal de ocupado, e os celulares dos meninos também não davam resposta. Mais uma vez, ele tentou o computador, mas não conseguiu fazer contato. Foram dormir aflitos, e passaram a noite em claro, conjecturando sobre o que poderia ter acontecido.

De manhã, Fernando lembrou-se:

-Mas como eu não pensei nisso antes? Ainda tenho o telefone do restaurante do Manuel! Vou ligar para lá e pedir que ele dê uma olhada no que está   acontecendo com os meninos.

Dizendo aquilo, ele procurou o número entre os contatos do seu telefone. Ao perguntar por notícias dos garotos, enquanto Anita aguardava ansiosa ao seu lado, Fernando sentiu seu estômago encolher ao ouvir a conhecida voz de Manuel:

-Seu Fernando, eu achava melhor vocês virem para cá o mais rápido possível. Aconteceu uma desgraça.

Anita viu o marido empalidecer enquanto escutava a voz de Manuel falando com ele, e ela agarrou o braço do marido, sacudindo-o:

-O que ele está dizendo? Pelo amor de Deus, Fernando...

Fernando sentou-se no sofá, sinalizando para que Anita se acalmasse, e ao desligar o telefone, contou-lhe o que tinha escutado, e Anita não pode conter um grito de desespero. Partiram naquele mesmo dia de volta à Praia dos Sonhos.

Anita chorou durante todo o voo. Não sabia em que estado ia encontrar Jorginho. Não sabia o que fazer, o que dizer a ele. Fernando tentava acalmá-la, mas ele também estava muito nervoso. Eles e os garotos já não se encontravam pessoalmente há quase quatro anos, e embora se falassem por computador ou telefone, a sensação que ela tinha é que os meninos faziam parte de um outro mundo que corria paralelo ao deles. De repente, ela sentiu o quanto tinham sido relapsos quanto aos meninos, ficando tanto tempo sem aparecer. Ao mesmo tempo, sabia que eles não eram seus filhos, não eram responsabilidade dela, mas mesmo assim, ela sentia que os amava como se o fossem. Anita sentia-se culpada por não ter insistido em levá-los embora. 

Fernando olhava as nuvens que passavam pela janela do avião, com os olhos rasos d'água, enquanto lembrava daquele mês em que eles conviveram de perto com Jorginho e Leo. Deixaram para trás um menino de onze e um rapaz de vinte e um anos, e agora encontrariam apenas um adolescente de quinze anos, com o coração totalmente despedaçado. Pedia a Deus que lhe desse sabedoria sobre como agir.

Ao chegarem à pousada na Prais dos Sonhos, saíram do carro e Anita olhou em volta: duas das casinhas tinham sido queimadas. De repente, aquele lugar paradisíaco lhe pareceu o inferno na Terra! Fernando foi logo entrando na casa onde ele sabia que Jorginho e o irmão moravam, mas encontrou a porta aberta, os móveis quebrados e nenhuma viva alma. No chão, o computador despedaçado. Roupas espalhadas. Nem sinal do menino.

Já Anita, seguindo sua intuição, foi andando pela praia. Sabia que Jorginho não poderia estar ali naquela casa destruída. Alguma coisa guiou-a. Ela foi caminhando até que viu, ao longe, um rapaz sentado em uma pedra, olhando o mar. Ela parou. Naquele instante, Fernando a alcançou, e os dois gritaram juntos o nome de Jorginho. O rapaz olhou para eles, erguendo-se. Anita e Fernando correram na direção dele, e ele correu para eles. Quando os três finalmente se abraçaram, as lágrimas rolaram soltas, misturando-se à areia salgada.

Mais tarde, Jorginho contou-lhes o que acontecera:

-A pousada estava indo bem, até que chegou uma nova hóspede. O nome dela era Lorena. Achei-a esquisita desde o começo, ela tinha um visual meio-grunge, só vestia preto e nunca ia à praia. Mas ela e Leo começaram a namorar. Um dia, no aniversário dela, ele concordou que ela levasse alguns amigos até a pousada para um luau. O que ele não contava, é que os amigos da Lorena eram todos um bando de drogados, uns caras muito esquisitos. Trouxeram uma banda de rock pesado, começaram a tocar muito alto. Um dos hóspedes saiu furioso no meio da noite, dizendo que tinha vindo aqui para descansar e que aquilo era inadmissível, e ele foi vaiado pelos amigos de Lorena. Eles jogaram comida e cerveja em cima dele, e ele saiu furioso no meio da noite, entrou no carro e foi embora. Eu e Leo tentamos acabar com a festa, mas não pudemos controlá-la.

Jorginho deu uma pausa em sua narrativa, e Anita segurou sua mão, tentando encorajá-lo:

-Eles puseram fogo na casa. Tentei apagar... enquanto isso, a polícia chegou. Acho que foi o turista que os chamou. Os mesmos policiais que costumavam vir aqui tomar nosso dinheiro e surrar meu irmão. Os caras esquisitos entraram nos carros e sumiram, mas eles agarraram Leo e o levaram com eles... eu implorei para que não fizessem aquilo, mas ninguém me escutou. Lorena ficou escondida em seu quarto até a polícia ir embora, e depois, quando saiu, subiu na moto do meu irmão e sumiu também, sem nem se despedir, sem perguntar se eu estava precisando de alguma coisa...

Jorginho chorava muito. Fernando abraçou-o.

-E quando tudo isso aconteceu, Jorginho?

-Há quatro dias.

-E onde encontraram seu irmão?

-Ele... estava caído na praia. Foi seu Manuel que encontrou ele...

Anita sentiu seu coração acelerar, enquanto as lágrimas embaçavam tudo em volta. Jorginho continuou:

-Só que dessa vez eles bateram muito forte...

Anita sentiu a raiva crescer dentro dela:

-Mas desta vez eles vão pagar caro pelo que fizeram. 

Jorginho tentou acalmá-la: 

-Eu dei parte, Anita, desta vez eu dei parte, e eles estão sendo investigados. Mas eu corro perigo aqui, por isso, não estou em casa.

-Aonde você está dormindo? - perguntou Fernando.

-Em uma caverna que só eu conheço. Eu mesma a encontrei. Fica no alto daquela colina. Estou lá há dois dias.

Ele apontou para uma entrada ao longe, e Anita pensou no quanto aquelas duas noites deveriam ter sido solitárias e muito tristes para Jorginho, e no medo que ele sentira. Ela ainda não sabia como, ou se ele concordaria, mas daquela vez, ele iria voltar para casa com eles. E Jorginho não retrucou quando ela afirmou aquilo em voz alta.

Existe um momento certo para tudo. Muitas vezes, queremos que as coisas aconteçam na hora quem desejamos, da maneira que queremos, mas a vida tem caminhos que nem sempre dependem da nossa vontade. Anita, Jorginho e Fernando tinham chagado ao final daquela história, o que significava que estavam no começo de uma outra - sem tantas dores e dificuldades para Jorginho, sem mais sofrimentos e sem medos. Uma história que teriam que aprender a escrever juntos daquela vez, e fazer sempre o melhor para que ela tivesse um final feliz. 


FIM





2 comentários:

  1. O amor é complicado, mesmo sabendo o mal que rondava, Jorginho amava por demais seu irmão para deixá-lo sozinho. Só saiu, quando perdeu o irmão.
    Ana, fiquei curiosa e, quem ficou com a pousada?
    O menino deixou o que herdou dos pais?
    É, às vezes, é melhor iniciar do nada!
    Obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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    Respostas
    1. Olá, Maria Teresa, Estes detalhes eu prefiro deixar por conta da imaginação do leitor. Obrigada pela leitura e comentário! Grande abraço.

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