quarta-feira, 29 de julho de 2015

A PESCARIA






Assim que chegou à fazenda do falecido avô a fim de verificar documentos necessários à abertura do inventário, Glauco desfez as malas com as poucas roupas que trouxera para usar nos próximos dois ou três dias. Não tivera muito contato com o avô, pois ele mudara-se com os pais para a cidade e o velho senhor permaneceu na fazenda a fim de tocá-la para frente enquanto pudesse. Mesmo assim, lembrava-se dele com alguma saudade, devido às poucas pescarias que fizeram juntos quando Glauco ainda era criança e lá vivia. Podia lembrar-se da fala mansa e arrastada do avô, que dizia: “A vida que seus pais procuram na cidade grande á uma ilusão. Isso aqui sim, é vida verdadeira! Aqui se come do que se planta. A gente suja as mãos de terra para plantar e colher o alimento. Isso sim é vida de verdade!”


Glauco repetiu aquelas palavras para o pai, que zombou delas: “Esquece isso, filho. Seu avô está caduco. É melhor você crescer na cidade grande, perto das melhores escolas de gente realmente civilizada. Não quero que meu filho vire um matuto.” 



O que o pai não previra ou considerara ao tomar sua decisão, foi a violência. Nem todo mundo na cidade era civilizado, como descobriram à duras penas.


Glauco tinha apenas dez anos quando o pai foi morto em um assalto a banco. A mãe ficou sozinha para cria-lo, mas morreu de doença ruim pouco depois que Glauco terminou a faculdade. Ele foi ficando na cidade, onde conseguiu um excelente emprego em escritório de engenharia e vivia em um apartamento considerado bem localizado. Tinha muitos amigos no escritório, e achava que era feliz. 

Quando recebeu a notícia da morte do avô, Glauco já tinha trinta anos, e descobriu que tinha se esquecido quase que totalmente da existência dele... ficar na fazenda era algo que ele não pretendia; assim, aconselhado pelo advogado, partiu rumo ao antigo lar a fim de dar entrada no inventário para que pudesse vender logo a fazenda.


Quando lá pôs os pés, Glauco foi recebido com entusiasmo pela já idosa Hermelinda, a antiga cozinheira dos seus tempos de infância. Tentou esquivar-se do abraço da agora quase estranha senhora, mas ela o pegou de jeito, estreitando-o por um longo tempo, fazendo com que Glauco recordasse das tantas vezes em que aqueles mesmos braços tinham-no levado para a cama quando adormecia no sofá da sala. 


Quando desfazia as malas, colocando nas gavetas esvaziadas para ele as suas roupas, ouviu-a gritar lá embaixo, chamando-o para o almoço. Ao descer, deparou com seu antigo amigo de brincadeiras, o Juvenal. Reparou o quanto a vida os tinha afastado: Juvenal tinha a pele curtida pelo sol, e suas roupas simples diferiam das roupas elegantes que ele mesmo vestia. Quando falou, Glauco descobriu que Juvenal mantinha o mesmo sotaque caipira do qual seu pai tanto fizera questão de livrá-lo, e sentiu uma pontada de piedade. Ambos sentaram-se juntos à mesa, e Glauco ficou sabendo que Juvenal tinha sido convidado por Hermelinda, que pensou que ele gostaria de rever o amigo de infância.


Glauco respondeu com paciência às perguntas que o amigo fizera sobre a vida na cidade, tentando ser gentil. Perguntou, embora não estivesse realmente interessado em saber, o que ele tinha feito naqueles anos que os separaram, e Juvenal, abrindo um largo sorriso amarelado, respondeu-lhe: “Adivinha só! Eu mais a Rosinha casamos e temos dois filhos!” Glauco tentou aparentar surpresa, sorrindo e exclamando: “Ah, é mesmo? Que bom!” (No fundo, pensou: “E pensar que um dia gostei da Rosinha... eles foram feitos um para o outro, são iguais.”). Perguntou: “Além de filhos, o que você faz aqui nas horas vagas?”


O amigo deu uma gargalhada, tomando um gole de pinga, dizendo: “”Hora vaga é o que não tem muito por aqui não... mas quando sobra um tempinho, nós anda à cavalo, nada no rio, pesca... como a gente fazia quando era criança, lembra?” Glauco concordou com a cabeça, e uma sombra de nostalgia passou sobre ele. Sacudiu-a com força: “Acho que você se esqueceu que eu não nadava. Eu nunca aprendi a nadar, Juvenal. Sempre tive medo de água.” O amigo concordou, coçando o queixo: “É verdade! E também era um péssimo pescador, dos mais ruim do mundo! Mas mesmo assim, entrava no rio e molhava as pernas!”


Glauco sentiu-se um pouco incomodado com o comentário de Juvenal sobre seus dotes de pescador; afinal, não estava acostumado que os outros falassem de seus defeitos. Sempre era tratado com respeito e admiração. Retrucou: “Nem tanto! Até que eu dava pro gasto... de vez em quando, eu pegava alguma coisa.” O outro respondeu: “Que nada! Nem tirava o peixe do anzol! Teu avô é que tinha que fazer isso. Você ficava com nojo, vê se pode!” mais descontraído, Glauco disse: “É... mas pelo menos eu tirava o peixe da água.” Juvenal fez cara de mistério, arregalando os olhos. Hermelinda retirava a mesa do almoço enquanto distribuía sobre ela os doces em compota para a sobremesa. 

“Quero ver se você é bom mesmo em pesca; quero ver se você consegue pegar o Julião!” “Julião? Quem é esse?” Abrindo os braços, Juvenal exclamou: “O maior peixe dessa região. Seu avô tentou muito pegar ele antes de morrer. Muita gente tentou e não conseguiu. Tenho certeza que um frangote da cidade que nem você é que não ia conseguir mesmo...” Com o orgulho ferido, Glauco disse: “Eu até que tentaria...Se não tivesse que voltar logo para a cidade. Só vim pegar uns documentos para dar entrada no inventário e vender logo esse lugar.”


Hermelinda e Juvenal se entreolharam, baixando os olhos logo em seguida. Juvenal não conseguiu disfarçar sua tristeza, enquanto Hermelinda enxugou as lágrimas no avental. Glauco perguntou: “Algum problema?” Juvenal olhou para ele com os olhos magoados, e Hermelinda voltou para a cozinha: “Bem, você é o dono disso tudo agora. Pode fazer o que quiser. Mas a Hermelinda nunca saiu daqui, desde que veio morar, aos dez anos de idade, e ela não tem pra onde ir. Também não sei se o novo dono vai deixar eu ficar mais a Rosinha e os meninos... mas é você que é o dono, Glauco.”

Glauco arrependeu-se de sua crueldade: “Ora, um inventário pode demorar anos para ficar pronto, e depois, vender a fazenda não será muito fácil. Ouvi dizer que ela não vai muito bem, e está com algumas dívidas altas. Enquanto isso, vocês tem , quem sabe, um ou dois anos para decidir o que farão.” Juvenal acenou com a cabeça, concordando. Engoliu sua tristeza, e tentou fazer o ritmo da conversa voltar ao tom alegre de antes: “Aposto que você não consegue pegar o Julião!” Glauco, que não gostava de perder desafios, pois tinha na veia o dom da competição, sentiu que a frase surtira um efeito incômodo dentro dele. Ora, ele sabia de muito mais coisas do que aquela gente matuta que parara no tempo, e não havia nada que eles fizessem que ele mesmo não pudesse fazer melhor. Assim, disse: “Mas é claro que eu pego!” “Pega não. Aquele bagre tem parte com o Demo. Esperto que só ele!” “Ora, você está me dizendo que um peixe pode ser mais esperto que um ser humano? Não posso acreditar! Amanhã mesmo eu vou começar a investir em um equipamento de pesca bem moderno. Também vou fazer um curso rápido de pesca. Tenho certeza que eu posso pegá-lo.” 


Juvenal tirou o sorriso do rosto, e disse solenemente: “Tem certeza mesmo?” 

Aquela mudança no tom de voz do amigo fez com que Glauco sentisse um arrepio na espinha, mas mesmo assim, ele afirmou: “Tenho certeza absoluta!” “Pois bem; então vamos fazer uma aposta: se você pegar o Julião, a gente junta nossas tralhas e vai embora daqui assim que o novo proprietário colocar o pé na soleira; se você não conseguir pegar o Julião, você não vende a fazenda; entrega a direção dela pra mim e eu boto ela pra dar lucro pra você.” Glauco engoliu em seco: fora desafiado. Mas estava disposto a cumprir o desafio, pois não havia nada que ele desejasse que não conseguisse. O sabor da competição já molhava seus lábios quando ele respondeu, apertando a mão de Juvenal: “Feito! E para selar o acordo, vou mandar redigir um documento, assinar e lavrar em cartório!” “Ora, não precisa disso não. A gente confia na sua palavra!” “Não, eu faço questão. Pra mim, tem que ser tudo preto no branco! Se eu não pegar o Julião em uma semana, a fazenda não será vendida e você será nomeado o novo administrador!”


Dois dias depois, documento redigido por advogado e assinado por Glauco, Juvenal e uma testemunha, e lavrado em cartório, Glauco começou a ler e pesquisar na internet tudo o que podia encontrar sobre pesca. Também foi a uma loja especializada e seguiu os conselhos do vendedor a fim de conseguir o melhor e mais sofisticado material de pesca que havia disponível. Até passou algumas horas no riacho, pescando alguns peixinhos menores para ensaiar. Tomou aulas de pesca com um pescador profissional e aprendeu a jogar a linha feito um pescador de verdade. Adquiriu iscas artificiais de todos os tipos e fez muitas perguntas aos moradores locais sobre os hábitos do Juvenal. Conversou com os pescadores que tinham tentado carapturá-lo antes dele para ver se descobria onde eles tinham falhado. As pessoas observavam seu esforço, e admitiam que, para um novato, Glauco “profissionalizara-se” pescador rapidamente! 


Finalmente, ele comprou um belo barco à motor. Aprendeu a guia-lo em poucas horas, e logo passava correndo com ele bem no meio do rio. As pessoas ficavam às margens, lamentando-se por Julião, que estava com os dias contados. Afinal, ele já tinha virado uma lenda local.

Quando sentiu-se pronto para enfrentar seu desafio – cerca de dez dias depois de assinar o documento – Glauco chamou o amigo. 


“Valendo a partir de agora: se eu não trouxer o Julião dentro de uma semana, cumprirei o trato.” Dizendo aquilo, pegou suas tralhas no começo daquela noite enluarada e foi para o barco, que logo sumiu dentro da escuridão do rio. Juvenal sentiu um aperto no coração e arrependeu-se por ter desafiado o amigo, mas enquanto pensava nisso, vendo-o afastar-se com o barco cada vez mais, compreendeu que era tarde demais para arrependimentos.


E Glauco tinha todos os melhores equipamentos. Também adquirira a técnica. Tinha um excelente barco, e conhecia de cor os hábitos do velho e temperamental peixe. Sabia que ele sempre aparecia daquele lado do rio nas noites de lua cheia. Sabia que gostava de ir comendo os pedacinhos de pão que eram jogados na superfície da água antes de entrar na briga. Sabia também que já quebrara centenas de varas de pesca, mas não seria capaz de quebrar a sua, moderna, resistente e flexível, preparada para puxar até cinquenta quilos de peixe brigador para fora d’água. Ele não teria nenhuma chance. Chegou a sentir dó do Julião. Mas a lua iluminou o branco dos seus dentes quando ele jogou o anzol na água, após atrair Julião com os pedaços de pão.


Algumas horas se passaram. Julião nadava em volta do barco, desconfiado e faminto ao mesmo tempo. De repente, deu um pulo para fora d’água, e Glauco, impressionado, viu seu couro brilhar ao luar feito prata da mais pura. Também teve a impressão de que, por um breve momento, seus olhares se cruzaram, e Julião avaliou-o melhor. Após mais algumas horas passeando em volta do barco, o peixe simplesmente nadou para longe. Aquilo repetiu-se nas próximas três noites.

Finalmente, na quarta noite, Julião mordeu a isca. A briga foi feia! Varou a noite, adentrando a madrugada. Vencido pelo cansaço, quando o sol já despontava no horizonte e seus raios começavam a espalhar cristais pelas águas do rio, Glauco pensou em desistir. Já estava ficando tonto pelo esforço e as muitas horas sem comer, quando, de repente, assim do nada, Julião deu um salto para fora d’água e pulou dentro do barco. Parecia dizer: “Ok. Você venceu, já que me quer tanto. Faça bom uso de mim.”


Com cuidado, tentando controlar sua excitação, Glauco tirou o anzol da boca do peixe, que estava estranhamente calmo. Enquanto o fazia, observou-o mexer as guelras no esforço de continuar respirando. Sabia que o bagre era um peixe esquisito, que podia levar muito tempo para morrer. Observou-o durante um bom tempo, e constatou o quanto Julião era bonito; pensou: será que haveria uma “Juliana”? Aquele pensamento deixou-o um tanto melancólico, mas Glauco tentou varrê-lo para longe. Mal podia acreditar que tinha conseguido, pois apesar de dizer a todos que tinha certeza absoluta que pegaria Julião, no fundo, duvidava de sua capacidade. O peixe estava sereno, e olhava para seu algoz sem nenhum ódio. Glauco sentiu-se incomodado. Cobriu-o com um saco de estopa e deu partida no motor do barco. 


Enquanto o barco percorria devagar o caminho de volta, Glauco foi tomado de nostalgia. Ouviu a voz distante do avô acordando-o de manhãzinha, antes mesmo de clarear: “Quem quer pescar com o vô?” Sentiu mais uma vez a excitação que sentia enquanto pulava da cama, vestia a roupa e calçava seus tênis velhos para a acompanhar o avô. Tantas coisas das quais já tinha esquecido! Fechou os olhos por um momento e viu as mãos fortes e as veias grossas montando as varas de pesca, segurando o canivete para cortar o náilon, traçando círculos no ar enquanto ele contava histórias. Sentiu o cheiro suave da colônia após barba que o avô usava; há quanto tempo não pensava naquele cheiro, naquelas mãos, naquela voz? Viu-se enxugando uma lágrima com o dorso da mão. Sentiu muita culpa por não ter procurado o avô, por não ter participado mais da vida na fazenda. 


Quando o barco aproximava-se da margem, Glauco viu a pequena multidão que o aguardava, ansiosa. Viu quando Juvenal tirou seu chapéu, apertando as abas com as mãos. Sentiu a angústia daquelas pessoas, pois sabiam que tinham perdido a aposta e teriam que procurar outro lugar para reaprender a viver. Aguardavam sua chegada em silêncio, a angústia estampada nos rostos. 

De repente, Glauco desligou o motor do barco, deixando-o parado na metade do caminho. Só se ouvia o canto dos passarinhos. As pessoas na margem do rio se entreolharam confusos, tentando adivinhar o que Glauco iria fazer. Viram quando ele descobriu Julião, que ainda estava bem vivo, e com esforço, jogou-o de volta ao rio. 



O peixe nadou para longe, dando vários saltos na água enquanto se afastava. Depois, voltou e nadou em volta do barco como se agradecesse. 




À margem do rio, as pessoas sorriram,  tranquilas.



3 comentários:

  1. História linda Ana, o amadurecimento nos revela mais humanos. Precisamos enfrentar desafios, para perceber que ganhamos muito,
    quando perdemos.
    Obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  2. Adorável Ana, esse maravilhoso conto ratifica a importância de nunca desistirmos de nossos ideais altruísticos. Os desafios existem para ser enfrentados, e, sem persistência não há vitória ou sucesso. Meu carinho e meus aplausos.

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  3. Boa tarde, Ana!

    Amiga que conto maravilhoso! Parabéns, querida!

    beijos ternos,

    San

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