segunda-feira, 13 de julho de 2015

A PRAIA DOS SONHOS - PARTE VI



Jorginho quase não dormiu naquela noite, pensando no quanto seria bom ter, finalmente, uma vida tranquila novamente, com dois adultos protegendo-o, sem precisar sentir-se sempre tão só e ter tanto medo... ao mesmo tempo, em seu coração, sentia que se fosse com Anita e Fernando, estaria traindo o irmão, por mais que ele insistisse em sua partida; sabia que o irmão precisava dele, e que só estava tentando ser forte pelos dois, mas que a separação seria tão difícil para ele quanto seria para si mesmo. 

Na manhã seguinte, ao raiar do dia, o irmão entrou em seu quarto todo animado, e foi logo escancarando as janelas:

-Acorda, preguiçoso! Vamos todos dar um passeio hoje. Vamos para a ilha!

Leo sabia o quanto o irmão adorava a ilha – uma pequena ilhota sem nome a alguns quilômetros da costa, onde eles gostavam de ir quando o pai era vivo. Os três passavam o dia por lá, pescando e  brincando de náufragos... nunca mais voltaram lá, desde a morte dos pais. Ainda sonolento, Jorginho pulou da cama para vestir seu novo calção de banho, camiseta e chinelos – mas não sem antes cobrir o corpo com uma generosa camada de filtro solar. Enquanto o irmão espalhava o creme em suas costas, ele perguntou:

-Leo... por que você não quer ir embora?

Sentiu a respiração do irmão em suas costas:

-Não sou mais um garotinho. Tenho que aprender a viver sozinho e a vencer sozinho. Meu destino é ficar aqui e cuidar de tudo. Este lugar foi comprado com o esforço dos nossos pais, Jorginho. Não posso simplesmente vender tudo e ir embora... mas você ainda é uma criança. Deveria ir com eles, suas chances serão bem melhores. Você tem escolhas.

-Mas você também tem! Lembra que a mamãe sempre dizia que a gente podia mudar de vida a qualquer momento?

Leo jogou a camiseta sobre Jorginho, cobrindo-lhe a cabeça de brincadeira:

-E ela estava certa; mas pra isso, a gente precisa estar a fim, e eu não estou. Quero ficar. Esta é a minha escolha, e como não nascemos grudados nem nada, acho que você se daria muito bem se fosse. 
Anita e Fernando são pessoas muito bacanas.

-Eu sei... e eu gostaria muito de ir, você sabe que eu quero estudar biologia. 

-Então vá! Mas agora, vamos embora que o dia já raiou e eles estão nos esperando na praia! Todo mundo já tomou café, só falta você.

Dizendo aquilo, Leo saiu do quarto, escondendo as lágrimas por trás de um sorriso, e foi ter com o casal. Anita percebeu que ele estava chateado, mas nada perguntou. 

Na ilha, tiveram um dia maravilhoso, fazendo piquenique na praia com os quitutes que Anita preparara e os peixes que Fernando e Leo pescaram. O casal estava ansioso para saber o que Jorginho tinha decidido, mas ninguém queria tocar no assunto com medo de estragar aquele dia perfeito. Cada vez mais, Anita afeiçoava-se a Jorginho, indo de encontro a tudo o que ela pensara sobre maternidade até aquele momento. 

À noite, depois que Fernando e Jorginho dormiram assistindo TV na sala, ela foi até a varanda, onde sentou-se, olhando o mar prateado pelo luar, lá em baixo na praia. Leo sentou-se ao lado dela fumando um baseado, o que deixou-a meio-perplexa:

-Não sabia que você fumava essas coisas, Leo...

-Incomodo?

Ela sacudiu a cabeça, negando:

-Na verdade, não... mas não acho que seja bom pra você...

-Bobagem. Tem coisa muito pior. Eu só dou uns tapas de vez em quando, nada demais. 

Ele olhou para ela, e percebeu que estava séria demais, tentando conter sua desaprovação:

-Viu só? Não sou mais um menininho, Anita. Não daria certo brincar de casinha com vocês...

Ela irritou-se:

-Por que está falando assim comigo, Leo?

Ele encolheu os ombros:

-Nada... é que eu sou assim mesmo. Sou um idiota, desculpe.

Ela mudou de assunto após algum tempo em silêncio:

-Vamos embora na próxima semana, Leo. Já faz um mês que estamos por aqui, e temos que voltar ao trabalho.  Vocês  irão conosco?

-Ele negou com a cabeça:

-Eu não. Mas estou tentando convencer meu irmão. Vocês são pessoas legais e podem dar a ele uma boa vida... eu sei que ele vai acabar aceitando ir com vocês.

Ela sentou-se virada de frente para ele:

-Como você sabe?
-Meu irmão ficou muito carente depois que nossos pais morreram. Ele sente medo e desamparo o tempo todo. Na escola, os outros meninos ‘zoam’ com a cara dele porque sabem que ele não tem pais para defende-lo, e eles não me levam à sério. Meu irmão sente medo e solidão. Ele ainda precisa de pais. Depois que vocês chegaram, ele mudou. Começou a rir novamente, coisa que não fazia mais. Ele ama vocês. E sabe que precisa de vocês. 

Anita respirou fundo. 

-Mas ele precisa de você também, Leo.

-Não; ele acha que eu preciso dele. Ele pensa que se for embora, eu vou ficar maluco e não vou saber tomar conta de mim. Mas fique tranquila, ele vai com vocês... anteontem eu contratei um outro rapaz para me ajudar na pousada, e ele vai sentir que não preciso mais dele. E amanhã chegam novos hóspedes. 

Ela riu:

-Vai coloca-los na suíte máster?

Ele deu uma gargalhada, concordando.

Na manhã seguinte, enquanto Leo acomodava os novos hóspedes  – um casal em lua-de-mel  – Anita e Fernando tomavam café da manhã, quando Jorginho juntou-se a eles. Sentou-se à mesa em silêncio. 
Fernando quebrou o gelo:

-Bom dia, Jorginho. Dormiu bem?

-Hum-hum. 

Anita encheu a xícara de café com leite para ele, fazendo também um sanduíche de pão com manteiga. Ele deixou que ela o servisse, agradecendo. Enquanto ela preparava seu café, Jorginho sentiu o quanto era bom ser cuidado por outra pessoa novamente... olhou o novo funcionário na recepção, e pensou, pela primeira vez, que o irmão poderia ficar bem sozinho, mas nada disse. Depois do café, ele desapareceu por algum tempo, só retornando na hora do almoço, quando Anita, Fernando, Leo e os novos hóspedes partilhavam um churrasco. O menino estava calado e pensativo. Leo e Anita trocaram olhares, mas ainda acharam melhor – no que concordaram em silêncio – não fazer nenhuma pressão sobre ele.

O tempo ia passando; os hóspedes foram embora, e chegou um pequeno grupos de idosos – quatro amigos. Ficaram apenas dois dias, e seguiram viagem. Conforme o dia de voltar ia chegando, Anita e Fernando sentiam sua ansiedade crescer. De repente, a decisão de Jorginho era a coisa mais importante que já lhes acontecera, e ficariam realmente desapontados se ele decidisse não ir com eles. Leo trabalhava na pintura dos chalés, com a ajuda de Fernando. Anita ajudou, comprando algumas colchas e móveis para mobiliar os quartos, e toalhas de banho e roupas de cama novas. Logo, eles tinham mais dois chalés disponíveis para alugar, e a notícia corria na vila, chegando aos turistas. 
Na véspera da partida, Anita e Fernando perguntaram a Jorginho se ele já tinha tomado uma decisão, e o menino, que naqueles dias andava calado,  apenas sacudiu a cabeça, negando. Anita insistiu, o coração apertado:

-O que isso significa? Você ainda não decidiu, ou decidiu que... não vai?

Ele dirigiu a ela um olhar ansioso, e correu até ela, abraçando-a.

-Você sabe que eu queria ir... mas não posso.

Fernando, que via tudo de longe, sentiu os olhos arderem. Anita e Jorginho permaneceram abraçados por alguns instantes, e Fernando aproximou-se deles, dizendo:

-Não se preocupe, Jorginho. Não estamos zangados com você, e não vamos abandoná-los. Nós entendemos. Mas mandaremos sempre dinheiro para vocês, e manteremos contato através do computador que demos ao Leo. Podemos também passar férias aqui, ou vocês podem viajar até lá para nos visitar. Mas não se esqueça: som os como uma família agora. Não se acanhe de pedir nada que precisar. 

Finalmente, chegou o dia da despedida. De manhã cedo, quando Anita foi bater à porta do quarto de Jorginho para despedir-se – Leo e Fernando carregavam as malas para o carro – descobriu a porta entreaberta e a cama vazia. Ela ficou triste, mas entendeu. O casal abraçou Leo com força.
No voo de volta para casa, que foi feito quase em silêncio, Anita sentiu que alguma coisa, uma mudança muito importante acontecera dentro dela durante aquela viagem.

 Quando o avião pousou, ela respirou fundo e secou suas últimas lágrimas.

Eles se comunicavam por computador quase todos os dias, e ficaram felizes em saber que a pousada ia bem, e que os meninos não mais passavam nenhum tipo de necessidade. Planejaram passar as férias na praia novamente no ano seguinte, mas a mãe de Anita adoeceu e ela não pode ir. No outro ano, foi o pai de Fernando que ficou muito doente, e acabou falecendo. No terceiro ano, no qual os meninos é quem tinham decidido ir visitar o casal, o recepcionista da pousada pediu demissão, e eles não puderam ir, pois tinham que cuidar da pousada e contratar um outro ajudante. 

(continua...)



Um comentário:

  1. Olá Ana, a história está interessante, estou acompanhando...
    Obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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