terça-feira, 18 de agosto de 2015

O DIÁRIO DO FIM - PARTE I





O DIÁRIO DO FIM


Era o ano de 2019. Aquele verão fora o mais quente de todos os anos, diziam os noticiários da TV. Os termômetros chegavam a marcar 40 graus à sombra, e mais de 45 ao sol nos dias mais quentes. Eu me sentava em meu jardim, à sombra do velho carvalho, e olhava a grama ressecada e o que restara das plantas. Genaro, meu jardineiro, sugeriu que plantássemos um canteiro de cactos para dar alguma vida ao jardim enquanto as chuvas não chegassem, e eu concordei. E aquele era o único cantinho que emanava alguma vida naquele jardim que já fora um dos mais bonitos das redondezas. 
Genaro também cuidava do poço e da mina d’água. Eu morava em uma tranquila rua sem saída, onde havia poucas casas. A maioria das minas da minha rua já tinham secado, e alguns dos poucos moradores simplesmente fecharam as casas e foram para o sul do país, onde as chuvas torrenciais inundavam as ruas. “Melhor ficar onde tem enchentes do que onde não tem água”, um deles declarou. Todas as outras regiões do país, exceto o sul, que estava inundado pelas enchentes, sofriam por causa da seca prolongada. O clima tinha enlouquecido, e não apenas no Brasil, mas no resto do mundo também. Assistíamos na TV notícias sobre o restante do mundo que falavam de neve na Grécia durante a primavera, frio no verão californiano, derretimento mais acelerado das calotas polares e temperaturas que atingiam 40 graus na Suíça.
 Genaro dizia que a mina que abastecia a nossa casa ainda estava em um bom nível, mas também me aconselhou a economizar o máximo que pudesse e a não “ostentar” muito para evitar olho gordo de vizinho. Dizia: “Em tempos de crise, melhor não mostrar muito, dona Elisabeth”. Achei melhor seguir seu conselho. 
À noite, eu via ao longe as queimadas varrendo as colinas. Diante de tanta seca e tanto calor, como as pessoas podiam tocar fogo no mato daquela maneira? A situação era caótica, mas ninguém parecia dar a importância devida. Afinal, a raça humana tem a estranha mania de achar que as tragédias só acontecem em outros endereços, nunca em suas casas, e algumas pessoas são capazes de reconhecer o caos mesmo estando vivendo dentro dele.
Naquela época, eu tinha quarenta e seis anos e morava sozinha com Renan, meu marido. Meus dois filhos gêmeos de vinte e três anos, Bruna e Ian, moravam e estudavam em Lisboa. Quando nos falávamos, diziam que a situação por lá também não era nada animadora; havia também necessidade de economizar água, pois o racionamento era severo, e as chuvas não chegavam. Além disso, a crise que assolava o país já deixava quase metade da população desempregada. Havia muitas passeatas, e quando eu as via acontecer pela TV, rezava para que Bruna e Ian estivessem em lugar seguro.
Lídia, minha jovem vizinha de trinta e dois anos, dizia que as pessoas estavam exagerando:
-Ouço falar em crise desde que nasci, Elisabeth, e todo mundo sempre reclama que a situação não está boa. Nunca esteve! Acredito que logo tudo voltará ao normal, e nós nos recuperaremos, como sempre tem acontecido. Depois dos suicídios em 1929, a vida continuou e houve grande progresso. E depois dos arrochos salariais, desemprego, casos de corrupção no governo e tantos outros problemas, que começaram no Brasil por volta de 2012, todo mundo tem sobrevivido e seguido em frente. Assim foi, tem sido e será!
Mas Lídia não pode continuar sustentando seu discurso quando a firma de software onde trabalhava fechou e  demitiu todos os funcionários, sem pagar os seus direitos, e ela teve que ir embora e voltar a viver com os pais em Curitiba. Saiu sem nada, pois nem sequer a casa conseguira vender. Ninguém tinha dinheiro para comprar, e mesmo se tivessem, quem compraria uma casa onde não havia mais água? Algumas pessoas só sentem a crise quando ela bate à porta. Lídia e eu nos despedimos em uma tarde de quinta-feira, no portão de minha casa. Ela me abraçou chorando, entrou no carro e partiu. Sua casa juntou-se à longa fileira de casas com portas e janelas fechadas e jardins mortos da minha rua. 
Ainda havia, no final da rua, em uma casa antiga e castigada pelo tempo e a falta de cuidados,  uma velha senhora que vivia sozinha e não tinha filhos que se chamava Berta. Devia estar com setenta anos, e nunca fora muito sociável. Poucas vezes tínhamos conversado com ela, e certa vez, quando a bola das crianças que brincavam na rua caiu em seu terreno, ela a jogou furada por cima do muro. Ela não saía de casa, e costumava encomendar no mercado local as coisas que precisava para viver, como comida, água e outros produtos. Eu sabia, pois já vira o caminhãozinho do mercado parar em frente ao seu portão várias vezes.
Eu saía de vez em quando para dar uma caminhada pelo bairro. Era um lugar tranquilo e bonito, com um pequeno centro comercial a mais ou menos duzentos metros de distância de nossa casa. Levava a sombrinha aberta para obter alguma sombra, já que o calor do sol era causticante, e mesmo assim, ficava com a pele avermelhada. Ia ao armazém buscar alguns legumes – que estavam cada vez mais absurdamente caros devido às dificuldades de plantio e cultivo. Eu e meu marido íamos nos virando conforme dava...  a água estava cada vez mais cara, e apenas alguns podiam contar com o benefício dos carros pipa. Eu tinha em casa quase uma centena de litros d’água armazenados no porão. Tinham sido comprados aos poucos, durante meses. Meu marido, que trabalhava em uma firma de meteorologia, dizia que mais tarde precisaríamos deles, e eu lamentei muito ter que admitir que ele estava certo quando a hora chegou.
Conversando com o dono do armazém, ouvi-o dizer, desanimado, que estaria fechando as portas em alguns dias, pois a falta d’água, a diminuição do número de clientes e o encarecimento das mercadorias o obrigavam a isto.
Em uma das minhas caminhadas, após comprar meio quilo de batatas e algumas maçãs que começavam a murchar, deparei com uma menina. Sentada à beira da calçada, descalça, suja e muito magrinha, ela chorava baixinho. Aparentava ter por volta de cinco ou seis anos. Tinha cabelos pretos e muito lisos, embora sujos. Era uma criança bonita, mas muito maltratada. Aproximei-me dela e perguntei seu nome, e ela me olhou assustada e desconfiada. Repeti a pergunta, e ela murmurou: “Sara.” Olhei-a durante mais algum tempo antes de abaixar-me para poder ver seu rosto melhor. Lágrimas sujas escorriam pela face da menina. 
-Por que você está chorando, Sara? Cadê sua mãe?
Ela não respondeu, secando os olhos com as costas da mão. Repeti a pergunta, e ela disse que não sabia onde a mãe estava, e nem se lembrava onde morava.
-Há quanto tempo você está sozinha?
Ela encolheu os ombros.
-Mas para onde foi sua família?
-Não sei... eu acordei um dia e eu estava sozinha.
-Você tem irmãos? Tios?
Ela negou com a cabeça.
-E quem está cuidando de você?
-Ninguém.
Levantei-me, respirando fundo; não podia deixar aquela criança ali, sozinha, debaixo daquele sol. Abri a garrafinha de água que tinha levado comigo e ofereci-lhe um gole do que tinha sobrado – quase meia garrafa. Ela bebeu tudo. Peguei na mão dela, e levei-a comigo. Sara não tentou impedir-me, apenas seguiu ao meu lado. Fui conversando com ela, tentando saber mais:
-O que você tem comido nesses dias, Sara?
Ela não respondeu; novamente encolheu os ombros, olhando para o chão; parecia estar muito confusa.
-E você tem estado sozinha o tempo todo? Ninguém cuidou de você?
Mais uma vez, ela negou com a cabeça. 
-Onde estão seus vizinhos?
-Não sei... – e ela começou a chorar de novo.
Mil pensamentos e sentimentos me atormentavam; eu tinha plena consciência de que precisava ajudar aquela menina, mas ao mesmo eu pensava em quantas mais havia como ela naquele momento. Além do mais, eu e meu marido também estávamos com dificuldades, pois com a inflação cada vez mais alta, o dinheiro ia ficando cada vez mais curto para podermos comprar o que precisávamos para nos sustentar. Ele já tinha cogitado sobre demitir Genaro, mas e sabíamos que ele era pai de dois meninos ainda pequenos – de onze e treze anos - e que ficaria em grandes dificuldades se nós o demitíssemos, já que a maioria de seus antigos clientes já o fizera. Além de nós, naquele momento difícil Genaro contava com apenas uma outra casa onde trabalhar. 
Ao chegarmos em casa, sentei a menina à mesa da cozinha e servi-lhe uma refeição – arroz, feijão salada e carne, que ela devorou rapidamente, pedindo mais um pouco. Depois, comeu uma maçã e bebeu quase meio litro de suco de laranja. Notei que seu rosto já ganhara alguma cor. Ao terminar sua refeição, Sara ficou me olhando timidamente, enquanto brincava de enrolar uma mecha de cabelo no dedo. Parecia estar esperando que eu a mandasse embora. Mas eu sabia que não poderia fazê-lo. 
Levei-a até o banheiro, e coloquei-a sob o chuveiro, dando-lhe um sabonete. Massageei seu cabelo com um pouco de xampu, e enrolei-a em uma toalha, levando-a no colo até o quarto de minha filha Bruna. Vesti-lhe uma camiseta, que ficou bem grande, mas era o que eu tinha no momento, e mandei que ela ficasse ali, dando-lhe uma das antigas bonecas de minha filha. 
Telefonei ao meu marido:
-Por favor, veja se consegue roupas de menina. Aparentemente, seis anos de idade.
Ao passar pelo quarto, ainda ao telefone, olhei-a e vi que tinha caído no sono na cama de minha filha, abraçada à boneca. Fechei as venezianas e deixei-a descansar, ligando o ventilador para refrescar o calor do quarto. 
Enquanto isso, meu marido indagou:
-Como assim, roupas de criança para quem?
-Uma menina. Recolhi-a na rua, estava sozinha. Chorava, tinha fome e sede. 
Silêncio. Ouvi a respiração profunda de Renan, e senti sua reprovação. Há dias ele tinha me impedido de recolher um cão perdido, dizendo que não podíamos salvar todo mundo, mas desta vez, tratava-se de uma criança, e eu disse isso a ele. Senti sua desaprovação no tom da voz, quando antes de desligar, ele disse:
-Está bem.
À noite, quando Renan chegou em casa, eu e Sara assistíamos TV. Ela não falava muito, e eu não pretendia afeiçoar-me muito a ela, e então não puxei conversa. Ficava o tempo todo segurando a boneca como se ela fosse uma tábua de salvação, e não me olhava nos olhos. Quando eu falava com ela, respondia ‘sim’ ou ‘não’ apenas balançando a cabeça, olhando sempre para meus pés. Renan olhou-a, e beijou-me a testa. Apresentei-o a Sara:
-Sara, este é Renan, meu marido. 
Ela olhou-o, mas nada disse. Apertou mais a boneca. Ele ajoelhou-se perto dela, e ela afastou o corpo ligeiramente. Renan estendeu a ela duas bolsas:
-Veja Sara, são para você. O que acha de ir lá dentro e vestir o pijama? Você sabe o que é um pijama?
-Ela apanhou a bolsa, sinalizando ‘sim’ com a cabeça, e saiu correndo em direção ao quarto, carregando as bolsas em uma mão e a boneca na outra. 
-Comprei também um par de sandálias para ela, espero que sirvam. 
Ficamos nos olhando, e ele me abraçou, e depois foi trocar de roupa. 

(CONTINUA...)




3 comentários:

  1. Oi Ana, pelo menos em seu conto é fácil levar uma menina pra casa.
    Pensei algumas vezes, em trazer uma menina, mas é tanta burocracia, que tive de desistir. Agora, sozinha, é mais difícil ainda.
    Vamos torcer pela Sara, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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    1. Olá, Maria Teresa, as circunstâncias do conto são diferentes; eles vivem um epílogo. O mundo enlouqueceu, o clima enlouqueceu, a água está acabando, e se ela não recolhesse a menina, ela morreria.

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    2. Outro blog seu hein!! Muito bacana, vou favoritar. Beijos.

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