quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O DIÁRIO DO FIM - PARTE III






Acordei na manhã seguinte com as vozes e risos das crianças brincando no quintal. Era como se eles e Sara se conhecessem há muito tempo. Cheguei à janela e observei, sem ser vista, enquanto eles corriam, brincando de pega-pega. Percebei que Sara muitas vezes deixava-se pegar por Luisinho, que era mais novo e corria menos que o irmão. Eles corriam e brincavam sem a menor preocupação, e pensei no quanto crianças são sempre crianças em qualquer lugar, e em qualquer situação. Pensei também que eu gostaria de ter ainda um pequeno sentimento de otimismo que me restasse... enquanto eu os observei, ainda pude sorrir e esquecer-me de que vivíamos em uma época sombria, apesar do brilho e calor escaldante do sol. De repente, Sara ergueu os olhos e deu comigo olhando para eles. Ela parou de correr por um instante, e me sorriu.

Genaro e Renan foram até a casa de Dona Berta para ver como iam as coisas. Enquanto isso, eu e Dora ficamos preparando o almoço e cuidando da arrumação da casa. O calor forte fazia com que fosse difícil movimentar-se, varrer, ficar ao vapor do fogão da cozinha. Mesmo tendo o ventilador ligado ao máximo, a impressão que dava era que uma massa de ar quente era deslocada em nossa direção; mas se o desligávamos, era ainda pior! 

Por volta das onze horas, o termômetro da varanda marcava trinta e sete graus à sombra. Olhávamos para o céu a procura de nuvens de chuva, mas ele estava límpido, azul e tranquilo. Nenhum vento sequer para amenizar o clima extremamente quente. Eu e Dora nos sentamos à varanda para descansar – o almoço já estava pronto – e servimos suco de laranja gelado às crianças. Naquele instante, Renan e Genaro voltaram da casa de Berta. Disseram ter batido insistentemente, mas ninguém respondera, apesar de terem ouvido o cão latir. Pensavam que ela podia estar dormindo ainda, e acharam melhor voltar após o almoço. Mas o mesmo se deu: o cão latia desesperadamente, mas ninguém atendeu a porta. Genaro tomou a decisão de entrar à força, afinal, Berta já era uma mulher bastante idosa, e ele temia que algo tivesse acontecido a ela. Arrombaram a porta, chamando por ela. Logo sentiram um cheiro horrível. Seguindo os choramingos de Bubo, o cão Beagle de Berta, chegaram ao quarto e depararam com a cena que já esperavam: ela estava morta, e parecia que  há mais de três dias. 

Chamamos a polícia. Tivemos que prestar depoimentos. Foi uma tarde horrivelmente quente e desagradável. Quando levaram o corpo de Berta, Dora ficou com as crianças dentro de casa para que elas não vissem o carro da funerária passando na rua. Adotamos Bubo, o cãozinho de Berta, que estava faminto, sedento e muito assustado. O policial perguntou-nos se conhecíamos alguém a quem pudessem avisar sobre a morte de Berta, mas tudo o que sabíamos era que ela jamais recebia visitas e não tinha parentes. Genaro voltou à casa de Berta à noite, e trouxe em um carrinho de supermercado os mantimentos que encontrou na despensa, alegando que ela não precisaria mais deles... no porão, Renan encontrou várias latas de comida e muitas garrafas de água, o que também recolhemos. Era terrível a sensação de estarmos invadindo, mas Berta realmente não precisaria mais daquelas coisas. 
Aproveitei e levei para casa também alguns vidros de xampu, sabonetes e cremes hidratantes que estavam no banheiro. Chegando em casa, enquanto guardávamos as coisas, fui tomada por uma vontade enorme de chorar, mas segurei-me, para não assustar as crianças. Eu sentia como se estivéssemos fazendo parte de algum daqueles filmes sobre o fim dos tempos, no qual as pessoas entram nas casas vazias para pegar o que puderem. 

Nosso porão e despensa estavam abarrotados, e calculamos que se economizássemos, a comida daria para muitos meses. Genaro começou a procurar um canto mais sombreado no jardim, onde plantou alguns tomates, alfaces e pimentões. A água para rega vinha das sobras da cozinha e dos chuveiros. Decidimos que tomaríamos banhos de dois minutos a cada três dias, embora ainda houvesse muita água no reservatório, pois não sabíamos quanto tempo ficaríamos sem chuvas. As  crianças  passavam bem sem terem que tomar banhos diários, mas eu me sentia horrível. Para mim, era uma das coisas mais difíceis de se fazer. Eu amenizava o calor usando uma toalhinha molhada no corpo, e depois, cremes hidratantes. Dora e os outros faziam o mesmo – tudo para podermos ter água por bastante tempo.

Os dias passaram, e os canteiros de legumes começavam a dar alguns brotos mirradinhos – a água para regas não era suficiente, o que fazia com que as plantas não crescessem muito, mas era tudo o que tínhamos, e Genaro cuidava delas como se fossem seus próprios filhos. Utilizava as cascas de legumes que sobravam, moídas, como adubo; erguera uma proteção sobre a plantação com um tecido escuro, a fim de protegê-la do sol forte. Ele a removia apenas de manhã bem cedo. 

Ainda assistíamos pela TV o caos que estava acontecendo em todo o planeta, com a falta d'água, a crise financeira e o medo das  pessoas, que fazia com que se tornassem cada vez mais violentas. Eu estava muito preocupada com meus filhos, pois desde que me comunicara com eles, há quase dez dias, recebendo a notícia de que estavam voltando ao Brasil, não conseguira mais contatá-los. Tentei a embaixada, que prometeu ajudar-nos, mas mesmo assim, não conseguiam notícias. Diziam que tivéssemos paciência, pois havia muitos casos como o deles. 

A falta de chuvas fez com que o nível dos  rios baixasse drasticamente, causando também falta de energia elétrica durante muitas horas por dia. Era muito difícil conseguir coisas que antes eram simples de serem obtidas, como combustível, água potável, alimentos industrializados, velas, querosene, alguns medicamentos, etc... . 

Em nosso bairro, poucas casas ainda estavam ocupadas, e em nossa rua, especificamente, apenas a nossa. As crianças brincavam com Bubo, o cão de Berta, alheias a tudo o que acontecia em volta delas. Tinham um mundo próprio, e algumas vezes, escutando suas conversas, descobri que brincavam de 'pioneiros'; era algo quer tinham visto na TV. Precisavam sobreviver com muito pouco em uma cidade que estava sendo construída. Eu pensava no quanto os adultos precisavam aprender a ser cmo as crianças de vez em quando e brincar, a fim de aliviar a tensão. 

Eu mesma estava angustiada, e só conseguia pensar em meus filhos. Certa manhã, enquanto todos ainda dormiam, acordei para mais um dia quente, seco e cheio de poeira. Levantei-me da cama, e ao passar pela sala, olhei pela janela e avistei a velha gruta que minha mãe, falecida há anos, mandara construir no nosso jardim. Há quanto tempo eu não ia até lá? De repente, senti uma urgência muito grande de desabafar sobre meus medos com alguém, e dirigi-me sem mais delongas até o local onde ficava a gruta, encrustrada em uma grande parede de pedra natural no jardim, sombreada por um cedro. Enquanto eu olhava para a imagem da Virgem e rezava, senti que as lágrimas que eu vinha tentando conter caíam finalmente, inundando meu rosto. As palavras faziam-se desnecessárias. Eu apenas chorava, olhando o rosto da santa. Foi quando senti o som de passos atrás de mim, e senti uma pequena mão segurar a minha; era Sara.  Ficamos um pouco sde mãos dadas, e ela me sorriu. Disse:

-Eu me lembro de tudo. Sei quem eu sou agora. Sei de onde eu vim.

Ajoelhei-me junto dela, olhando-a nos olhos:

-Que bom, Sara. Conte-me tudo, então.

Ao invés de obedecer-me, ela secou minhas lágrimas com sua mão, perguntando:

-Por que você está chorando?

-Porque estou muito preocupada com meus filhos, querida. Não sei onde eles estão.

Ela fechou os olhos por alguns segubndos, respirando fundo, ainda segurando minha mão, e depois, olhando-me nos olhos, afirmou:

-Não se preocupe; eles estão muito bem. 

-Como você sabe?

-Eu apenas sei. Confie em mim.

Percebi que alguma coisa naquela criança tinha mudado. Ela falava como se fosse um adulto, e seu olhar me tranquilizava de alguma forma, e não sei porquê, eu soube que podia confiar nela, acreditando em suas palavras. Inexplicavelmente, senti que uma onda de alívio tomava conta de mim. 

(continua...)


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