segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Série SEGREDOS - Conto 6 - A verdade de cada Um





"A fama produz os aplausos, mas não a alegria. Produz o assédio, mas não elimina a solidão."

Team Bios bandido



A imagem sorridente na TV angariava não apenas fãs, mas muitos seguidores nas redes sociais. O rosto belo, de tez imaculada, as palavras que pareciam sinceras mas eram ensaiadas arduamente para que soassem como verdadeiras, as roupas da moda e a até mesmo a maneira 'natural' mostrando interesse pelo interlocutor com a qual ela se inclinava na cadeira durante as entrevistas, enfim, tudo, era ensaiado.

Mariana virou uma imagem criada pela mídia. Antes de tornar-se famosa, era apenas uma garota normal, de origem humilde, até que sua voz foi descoberta em um programa de calouros. E era através da voz que ela melhor se expressava; não quando falava, mas quando cantava. Seu maior desejo sempre fora alcançar o maior número possível de pessoas, e poder viver de cantar. Sabia que era talentosa o bastante. Só precisava de uma oportunidade.

Assim, passou horas intermináveis naquela fila, e quando estava finalmente diante dos juízes que diriam se ela entraria ou não na competição, Mariana tremia. Mesmo assim, ao sinal de um deles, soltou a voz, de olhos fechados, e quando os abriu, todos olhavam para ela, boquiabertos, aquele brilho de lágrima querendo cair. Foi unanimente aprovada, e venceu o concurso em todas as etapas. 

De repente, Mariana morreu e deu à luz à Mari Lewis. Cortaram seu cabelo, modificando-lhe  a cor, colocaram em seus dentes placas de porcelana tão branca que eles reluziam quando ela sorria; escolheram suas roupas, sapatos, maquiagem, discurso. Ela não poderia mais cantar o que gostava. Daquele momento em diante, após assinar o contrato, sua voz não seria mais sua: pertenceria aos cartolas e ao público. Modificaram até mesmo o seu passado, exagerando nas passagens tristes, e escondendo o fato de que ela já tinha sido casada uma vez. Escreveram-lhe um novo roteiro de vida.

Percebeu que a família e os amigos se distanciaram, pois sentiam que ela não pertencia mais entre eles. Quando telefonava, era tratada friamente até por sua melhor amiga. Entre os familiares, uma discussão surgiu bem na noite de natal, que ela conseguiu passar em casa após muitos sacrifícios e horas de voo,  quando alguém pediu que ela cantasse, e Mariana disse estar cansada: "Ela só canta para quem paga, gente." Após tal comentário, que Mariana tentou relevar, ela ainda cantou duas ou três canções, acompanhada pelo violão que sempre levava aonde quer que fosse. Ao terminar, a mesma pessoa comentou: "Nos shows você canta bem melhor."

Na manhã do dia 25 de dezembro, após a noite fatídica que rendeu-lhe mais alguns inimigos, ela pegou seu voo e foi fazer sua apresentação de natal, do outro lado do país. Precisava esquecer o que acontecera, e dar o seu melhor, pois seu público a aguardava.

Ao finalizar a maquiagem diante do espelho do camarim, Mari Lewis descobriu que Mariana estava morta para sempre. Não reconheceu o rosto que a olhava no espelho, e ao mesmo tempo, também não reconhecia mais a velha Mariana. Não sabia quem era. Estava rodeada de pessoas que só a queriam devido a sua fama e dinheiro, e descobrira na noite anterior que aqueles que ela pensava que a amavam pelo que ela era, a invejavam. Sentiu-se um nada entre duas pessoas que não existiam. 

Após o show e os aplausos, Mari Lewis foi encontrada morta no camarim; ninguém jamais soube explicar o motivo de sua overdose. 







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