segunda-feira, 17 de abril de 2017

A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO II







Eu estava chegando em casa da escola um dia, e quando fechei a porta do hall, ouvi vozes na sala. Alguma coisa me fez parar e escutar um pouco da conversa antes de entrar: eram minha mãe e minha avó. Fiquei feliz em ouvir a voz de minha avó, pois eu sabia que ela e papai não se davam muito bem quando ele vivia, e que por causa disso, ela nos visitava muito pouco – sempre quando ele não estava – e nossos encontros de família, quase sempre tensos, eram limitados a natais e alguns aniversários. Quem sabe, pelo menos uma coisa boa poderia advir da morte de papai, ou seja, a reaproximação de vovó? 

Ela era uma mulher na casa dos setenta anos, alta, esguia e muito bonita. Se eu pudesse escolher um sinônimo que bem a definisse, seria elegância. Eu me orgulhava de minha avó, e durante muito tempo, ela foi meu ‘role model.’ 

Quando criança, eu ficava na frente do espelho tentando copiar-lhe os gestos, olhares e a também a maneira como ela se sentava sempre reta, as costas totalmente encostadas no espaldar das cadeiras, as pernas com os tornozelos cruzados e levemente inclinados para o lado esquerdo do corpo. Conseguia tomar uma xícara de chá inteirinha sem fazer qualquer ruído quando a xícara encontrava o pires. Por mais que eu tentasse, não conseguia realizar aquela façanha. O tom de voz quase nunca se erguia, mantendo-se sempre no mesmo nível em que podia ser claramente escutada sem soar irritante aos ouvidos de ninguém. Só ouvi minha avó gritar uma única vez, pouco antes da morte de papai. Ela e mamãe conversavam a portas fechadas no escritório de nossa antiga casa. Nunca fiquei sabendo o motivo. 

Parada no hall, em silêncio, respirando devagar para não chamar a atenção das duas, escutei; vovó dizia:

-...Eu sempre soube que acabaria assim. Jander não tinha tino para os negócios. Afundou a empresa. Felizmente, seu pai desmembrou parte dela e a colocou no seu nome antes de morrer, ou ele teria afundado com tudo.

-Mamãe, por favor, eu não gostaria que continuasse a falar assim de Jander. Não é justo, agora que ele se foi e não está mais aqui para se defender. 

-É verdade, ele não está mais aqui. Pois quando estava, defendia-se muito bem. Mas vamos deixar este assunto de lado, Letícia. Você sabe que a casa estará sempre de portas abertas para receber você e minha neta. Pense melhor no assunto. Poderiam mudar-se para lá no momento que desejassem. 

-Agradeço muito, mamãe, mas eu e Jordana estamos bem. Acho melhor eu tentar levar a minha vida e fazer alguma coisa por ela e por mim mesma, para variar. Queria aprender a ser mais independente. 

-Mas pelo menos, aceite a mesada. É de coração, e vocês ficariam bem mais tranquilas.

-Está bem, eu aceito, não estou em condições de ser orgulhosa. 

-E me deixe pagar a escola de Jordana. Coloque-a de volta no Nossa Senhora de Lourdes.

Naquele momento, eu respirei fundo e fiz um ruído de propósito, para denunciar a minha presença. Entrei, e vovó ergueu-se da cadeira, abrindo os braços para mim. Abracei-a, aspirando seu perfume delicado, e depois disse:

-Escutei parte da conversa, vovó, e gradeço muito tudo o que faz por nós. Mas prefiro continuar na minha atual escola. Fiz alguns bons amigos, amigos verdadeiros. No Nossa Senhora de Lourdes, descobri que não fiz nenhum amigo. Assim que eu e mamãe perdemos tudo, as pessoas viraram as costas para nós. Nenhuma de minhas antigas amigas me procurou, nem as de mamãe. Fomos esquecidas, deixadas para trás como lixo. Quero uma vida mais verdadeira.

Vovó me olhou longamente, e senti minha autoconfiança esfriar; mas ela apenas acariciou meu rosto, dizendo:

-Está bem, querida. Que seja como você quiser. Sei muito bem do que você está falando, mas infelizmente, nesse mundo nós somos julgados pelo que representamos – posição social, dinheiro, essas coisas. Pode não ser uma ideia muito agradável e verdadeira, mas é assim que as coisas são.

Eu agradeci de novo, e emendei:

-Mas há pessoas verdadeiras, Vó Aurora. Estou feliz em poder conhecê-las finalmente, em minha nova escola. 

Eu pensava em Shirley, Adílio e Laura; de repente, comecei a pensar também em Diana, que apesar de ter sido muito agressiva comigo, pelo menos não teve medo de mostrar o que realmente era. 

Quando vovó saiu, minha mãe veio ter comigo. Eu estava em meu quarto, já de roupa trocada, pronta para almoçarmos. Vó Aurora recusara o convite de juntar-se a nós, pois tinha um compromisso com as amigas no clube. Minha mãe bateu, e eu mandei-a entrar:

-Jordana... podemos ter uma conversa?

-Claro, mãe. Entre, sente-se aí na cama.

Notei o quanto ela parecia cansada e triste. A morte de papai ainda a fazia sofrer muito, pois eram um casal muito apaixonado. Ela não podia contar muito com vovó para desabafar, e suas amigas antigas também a tinham deixado do lado de fora de seus mundinhos perfeitos assim que o funeral terminou. Mamãe nunca falava de si mesma comigo, fazendo questão de que eu a enxergasse como um porto seguro, alguém em quem eu poderia confiar em todos os momentos, e não um adulto fraco que não podia cuidar de si. Ela emagrecera alguns quilos, e seus cabelos, antes tão bem cuidados, permaneciam presos em um coque à altura da nuca. As raízes precisavam de retoques, mas ela parecia não ligar. Mesmo assim, era uma mulher muito bonita. Puxara à minha avó. 

Ela sentou-se, alisando a colcha com a mão. Parecia tomar coragem para me dizer alguma coisa. Finalmente, ela me olhou – eu estava sentada na cadeira da escrivaninha, bem em  frente a ela.

-Jordana... nós não falamos muito sobre a morte de seu pai. Quero saber como você está. 

-Bem... na medida do possível, estou bem, mamãe. Acho que já superei, se é que é possível superar a ausência de alguém que a gente ama tanto. Mas... acho que você entende o que eu quero dizer.

-Sim, entendo... já faz mais de um ano.

Atrevi-me:

-E você, mãe? Como está?

Ela demorou um pouco a responder. Era difícil para ela falar sobre aquilo. 

-Bem, acho. As noites são mais difíceis. Acho que sempre serão. Eu... estou procurando emprego, como você sabe. Ainda temos dinheiro suficiente para alguns anos sem preocupações, e agora que finalmente resolvi aceitar a mesada de sua avó, nós ficaremos bem, mas... quero fazer alguma coisa por mim mesma. Você compreende?

-Claro! Já está mais do que na hora. Quero dizer, você merece ser feliz, mãe. Ainda é jovem e bonita. 

-Você está mesmo bem nessa escola? Não gostaria de voltar para o Nossa Senhora?

-Não. Estou realmente bem. Fiz alguns amigos. O Sidarta é um colégio bem diferente do outro, mas é muito bom assim mesmo. É uma escola particular, temos bons professores. A única diferença, é que ele não é bilíngue nem oferece cursos complementares, como línguas, artes, esportes... fora isso, é perfeito. E nós podemos pagar. 

-Não, querida... se a questão for dinheiro, saiba que não é problema, filha.

-Já disse, está tudo bem, mãe.

Ela fez silêncio, depois disse:

-Por que não traz suas amigas aqui?

-Vou trazê-las, mãe. Posso convidá-las para o almoço na sexta?

-Pode sim, filha. Farei aquela massa deliciosa que aprendi na internet. 

Mamãe andava aprendendo a cozinhar, e estava indo muito bem. Sorri, e pegando na mão dela, fomos almoçar. 

Na sexta-feira, cheguei em casa com Shirley, Adílio e Laura. Apresentei-os à minha mãe, que sorriu e foi muito gentil com todos. Adílio comentou ao pé do meu ouvido o quanto minha mãe era bonita, e disse que tinha entendido de onde eu tirara a minha beleza. Laura foi quem passou mais tempo conversando com mamãe. Enquanto isso, Shirley andava pela sala, examinando porta-retratos, almofadas, tapetes e tudo o que seus olhos pudessem alcançar. Reparei que ela pediu para usar o banheiro e demorou um pouco mais do que o normal. Depois, veio pelo corredor, olhando as fotos de família na parede. Também atreveu-se a abrir a janela da sala e olhar para baixo. 

Almoçamos, conversando sobre os assuntos da escola. Foi uma tarde leve e agradável. Shirley trocou poucas palavras com minha mãe, mas foi educada. Percebi que elas não exatamente morreram de amores uma pela outra. Quando meus amigos finalmente foram embora, eu e minha mãe nos jogamos no sofá da sala. Eu já sabia o que ela ia dizer, mas esperei.

-Gostei deles, filha. Parecem legais... quero dizer, refiro-me ao menino e à Laura, de quem gostei muito. A outra menina... Shirley... achei-a um tanto abusadinha. 

Eu tentei levar na brincadeira:

-Imagine... ela é ótima, mãe! Minha melhor amiga. É que ela é assim mesmo, sempre curiosa.

-Ela é bem diferente de você. Filha... acho que ela não combina com seus modos, com sua educação... é claro que eu posso estar errada, mas você sabe que eu dificilmente me engano quanto ao caráter das pessoas. 

Naquele momento, um sininho de advertência soou bem baixinho no fundo da minha cabeça, mas eu não queria pensar no assunto, e fiz com que ele silenciasse. Ao invés disso, parti em defesa de minha amiga:

-Não se preocupe, mãe. Teremos outras oportunidades para desfazer a má impressão. Também não gostei dela assim que a vi, mas Shirley tem se mostrado uma amiga presente e bastante fiel. Ela ajuda a todos. Sabe, é muito boa em matemática. 

-Mesmo assim, ela é diferente de você... muito diferente.

Eu pus minha mão sobre a dela:

-Nós somos diferentes agora, mãe. Nossa vida é diferente. Nosso mundo é diferente.

Ela concordou com a cabeça:

-Talvez você tenha razão. 

Mamãe acabou arranjando um emprego em uma imobiliária, como corretora. Eu não conseguia imaginar minha mãe vendendo casas, mas ela conseguiu sair-se muito bem logo na primeira semana, vendendo um apartamento e uma sala comercial por um bom preço. Após um mês, já conseguia uma boa comissão. Mesmo assim, vovó recusou-se a deixar de mandar a mesada. Minha mãe aceitou-a, e pudemos viver mais folgadamente, embora bem longe do estilo ao qual estávamos acostumadas. 

Ela vendeu seu Mercedes e comprou um carro bem mais em conta – zero, mas bem mais simples. Logo, minha mãe estava fazendo amizades no trabalho, e saindo para ir ao cinema e aceitando convites para almoçar com suas novas amigas. Fiquei feliz; as coisas estavam realmente indo bem. Vovó estava muito mais presente em nossas vidas, e ela permitia que eu convidasse meus amigos aos sábados para usar a piscina de sua casa. 
Novembro chegou rapidamente. Minha festa de aniversário de 16 anos foi lá; pude convidar meus amigos da escola, e vovó contratou um bufê maravilhoso. Também deu autorização para eu contratar um DJ. A festa foi no jardim da mansão, e tudo estava lindo. 

Na noite da festa, pouco antes que os convidados chegassem, mamãe me deu de presente um vale compras em uma butique da cidade, dizendo que eu precisava comprar roupas novas, o que me deixou muito feliz, já que não comprava nada novo há quase um ano. Agradeci, beijando-a. Vovó me abraçou e deu-me uma caixinha de joias, e quando abri, havia uma correntinha de ouro e um pingente com um relicário que continha uma foto dos meus pais. Comovi-me às lágrimas; achei lindo ela fazer aquilo por mim, mesmo não gostando de papai. Ela disse:

-É uma maneira de você sentir que ele está perto de você. 

Depois, elas despediram-se de mim, dizendo que eu aproveitasse a festa, e recolheram-se na outra ala da casa, bem longe do barulho das comemorações. Vovó deixou-me seu mordomo, dois garçons que havia contratado e duas copeiras. Fora eles, não havia mais nenhum adulto na festa. A única condição que minha avó impôs, é que não houvesse bebidas alcoólicas na casa, e eu prometi cumprir a promessa. 

Por volta das nove da noite, Shirley finalmente apareceu. Foi quase a última convidada a chegar, o que causou muitos gritos de boas vindas e urras. Ela realmente roubou a festa: bronzeadíssima, devido às idas à piscina de minha avó, ela usava um vestido de lamé prateado, bem colado no corpo, que se abria logo abaixo dos quadris, em uma saia godé que terminava acima dos joelhos. O decote era um pouco profundo demais para o meu gosto, mas não chegava a ser vulgar. Ela tinha clareado os cabelos, e tive a impressão de que fizera algum tipo de tratamento neles, pois ao invés de ressecados e manchados como sempre, estavam com aparência saudável e macia. Shirley estava linda! A pele bronzeada destacava seus olhos claros e dentes muito brancos. 

Seus trajes extravagantes contrastavam com meu vestido de linho e seda bege com rendas cor-de-chá, simples e de corte reto, que mamãe escolhera para a ocasião em uma das mais badaladas lojas de alta costura. O dela parecia ser alguma coisa barata, comprada, quem sabe, em uma loja de departamentos, mas tinha bem mais efeito.

Ela veio até mim, desfilando como se estivesse em uma passarela, e me abraçou com força. Depois, estendeu uma caixa; agradeci, e abri, e enquanto abria, notei que as outras pessoas estavam ansiosas para saber o conteúdo da caixa. 
Era uma caixa de camisa, e pensei tratar-se de um vestido ou uma blusa, mas quando abri, mal pude acreditar no que estava lá: era um enorme pênis de cera, cercado por acessórios eróticos. Acho que corei até a raiz dos cabelos, e fechei a caixa. As pessoas insistiam para ver o conteúdo, mas eu estava tão sem graça, que abracei a caixa com força, me negando a abri-la. Esperava que ninguém mais insistisse, o que logo aconteceu, mas Shirley tomou-me a caixa de repente, expondo a todos o seu conteúdo. 

Algumas pessoas riram, deram gargalhadas. Mas as que me conheciam melhor, notaram meu constrangimento e se afastaram quietas. Olhei para Shirley, tentando entender o motivo daquela brincadeira horrível e sem graça. Eu me sentia agredida, humilhada e traída ao mesmo tempo. Mas ela apenas ria, dizendo:

-Uma pequena iniciação sexual para minha amiga querida! Agora que fez 16, já pode ir treinando!

Laura fez de tudo para tomar a caixa de Shirley, mas não conseguiu. Adílio me pegou pela mão e me puxou para longe dali. Fomos para um canto afastado do jardim, e o DJ colocou uma música bem alegre. Logo, todos estavam dançando e se divertindo novamente. Comecei a chorar. Adílio me abraçou, e recostei a cabeça em seu ombro.

-Por que ela fez aquilo comigo, Adílio?

-Não foi nada pessoal. Shirley gosta de ser o centro das atenções. Ela nem sabe o que fez. Não ligue tanto, Jordana. Vamos voltar, é a sua festa de aniversário.

-Não consigo. Acho que nunca mais vou aparecer lá.

-Deixa de ser tola, venha comigo. A galera já esqueceu o que houve. Eles conhecem a Shirley, sabem que ela é totalmente sem noção. 

Naquele momento, Shirley apareceu, rindo muito, acompanhada de Laura, que parecia muito zangada; Shirley perguntou:

-O que houve? Não gostou do presente?

Adílio, muito sério, ralhou com ela:

-Você está maluca, Shirley? Não tem noção de nada?

Ela ficou muito séria, dizendo:

-Deixe a gente à sós, Adílio.

Ele tentou protestar, mas ela ergueu um pouco a voz. Ele olhou para mim, como para certificar-se de que eu estaria bem. Assenti com a cabeça, e ele foi embora com Laura. Shirley se aproximou, me estendendo uma outra caixa.

-Este é seu presente. O verdadeiro. O que você realmente merece, pela pessoa bacana que você é. Desculpe se eu te perturbei, não quis te deixar tão ‘bolada.’ Era só brincadeira!

Hesitei, mas ela sacudiu a caixinha, com o sorriso mais doce do mundo. Peguei-a e abri: era um anel de prata, muito bonito. Agradeci, soltando um ‘obrigada’ quase inaudível. Ela sorriu de leve:

-Viu? Eu amo você, sua tonta! Agora vamos voltar para lá. Me desculpe novamente se eu de alguma forma te chateei! Vou tentar pegar mais leve com você. Porque você é... diferente.

Ela me olhou, e pude ver um carinho muito grande nos olhos dela. Achei que tinha sido uma reação exagerada de minha parte, e voltei com ela para a festa, pensando em como os outros nos olhariam, mas para minha surpresa, ninguém nos olhou. Era como se nada tivesse acontecido, e aos poucos, fui me soltando novamente. A noite toda, ela foi muito atenciosa comigo. 

Depois que partimos o bolo, o DJ começou a tocar músicas mais movimentadas ainda, e todos fomos para a pista de dança. 

À certa altura da noite, vejo Shirley surgir de dentro da casa segurando duas garrafas de bebida. Fui até ela:

-Não podemos trazer bebidas alcoólicas para a casa! Vovó me proibiu!

Ela riu, sacudindo uma garrafa em cada mão:

-Ora, mas estas não foram trazidas! Já estavam aqui o tempo todo. 

Adílio e Laura se entreolharam, e pareciam nervosos. Eu disse:

-Shirley, as garrafas são de minha avó! Coloque elas de volta no lugar! Por favor!

-Mas o que é uma festa sem birita? Você faz 16 nos hoje, precisamos comemorar de verdade! 

Fui categórica, e mandei que ela colocasse as garrafas de volta imediatamente. Ela pareceu entender, e me pedindo desculpas, foi em direção à casa, levando as garrafas. Mas quando Shirley já estava à porta, um dos convidados – Julio, um rapaz de 18 anos que convidei a pedido de Shirley, pois mal o conhecia – a interceptou, e acabou tomando-lhe da mão uma das garrafas. Ela foi para dentro da casa, voltando de mãos vazias. Fui atrás de Julio, mas ele já abrira a garrafa e estava bebendo do gargalo, passando para outras pessoas. 

Logo, alguém surgiu de carro, e depositou algumas caixas de cerveja no chão. A coisa fugiu ao meu controle. Às três da manhã, havia jovens bêbados de roupa e tudo dentro da piscina, urros, gritos, vômitos pelos cantos do jardim, plantas pisoteadas, e até uma briga que resultou em uma mesa de doces virada e alguns copos quebrados. Eu olhava aquilo tudo sem saber o que fazer, pois nas festas às quais eu estava acostumada, aquele tipo de coisa nunca acontecera antes. 

Laura despediu-se quando notou que a coisa ia ficar feia, por volta das duas da manhã. Ela tinha ido com Adílio, que sentiu-se na obrigação de acompanhá-la de volta para casa. Antes de sair, ele me disse: “Se eu fosse você, chamava sua avó.” Mas eu não o escutei, e me arrependi logo depois. 

Às quatro, havia algumas pessoas dormindo nas espreguiçadeiras do jardim. O DJ estava desfazendo o palco, e a música cessara totalmente. Eu tentava acordar as pessoas, pois não queria que minha avó acordasse e deparasse com elas. Estava desesperada, tentando colocar latas vazias de cerveja em sacos de lixo, recolher cacos de vidro quebrado e colocar a mesa de pé novamente. Pedi ajuda ao DJ, mas ele negou, dizendo que não estava sendo pago para aquilo. Shirley não estava em parte alguma. 

De repente, Adílio apareceu novamente, sem Laura. Sem nada dizer, ele levantou a mesa, e pegando um saco de lixo, começou a me ajudar com as latas de cerveja vazias. Com a ajuda dele, consegui esconder as provas da bebedeira bem antes de vovó acordar. Adílio também acordou os jovens que estavam adormecidos, levando-os para fora da casa. Pedi desculpas a vovó pelos copos quebrados, dizendo que tinha sido um acidente, mas ela não se importou, dizendo que coisas assim sempre aconteciam em festas de jovens. 

Estávamos – eu, mamãe e vovó – calmamente sentadas à mesa da sala de almoço, tomando nosso café da manhã, quando Shirley apareceu do nada. Estava um tanto descabelada, a maquiagem borrada, carregando as sandálias na mão. Ao nos ver sentadas à mesa, ela estancou no meio da sala, parecendo constrangida. Mamãe e vovó a olhavam como se ela fosse um ET ou algo assim. Mas minha amiga não perdeu a graça. Aproximou-se, desejando-nos bom dia, e disse:

-Festa maravilhosa! Desculpe interromper o café da manhã de vocês, mas eu já tinha ido embora quando notei que tinha esquecido minha bolsa. Voltei para buscar. Estava sobre o sofá da sala... sinto muito pela inconveniência. 

Vovó olhou-a dos pés à cabeça, mas nada disse. Eu não conseguia dizer nada. 

Mamãe tentou apaziguar a situação:

-Bem, já que está aqui, por que não se junta a nós e toma o café da manhã? 


Shirley me olhou, e eu assenti com a cabeça. Vovó fez sinal para que a copeira pusesse mais uma xícara e talheres à mesa. Shirley calçou as sandálias rapidamente após sentar-se. Ajeitou os cabelos com a mão, passou os dedos sob os olhos para tirar o excesso de rímel borrado. Eu ri discretamente. Ela estava realmente constrangida pela primeira vez na vida, acho. Fiquei me perguntando de onde diabos ela surgira, e onde tinha dormido. Ainda pensava sobre isso, quando, do mesmo lugar de onde ela tinha vindo (sala de estar), surgiu um jovem com cara de sono, abotoando as calças; era Julio. Ele também parou diante da mesa, e após dizer um ‘bom dia’ entre bocejos, saiu pela porta da frente e não olhou para trás. 

Graças a Deus, mamãe e vovó pareciam bem-humoradas naquela manhã. As duas se entreolharam, e notei um sinal de riso no canto da boca de vovó. Shirley tomou três xícaras de café preto e mordiscou um biscoito. Depois, tomou quase uma jarra de água. Vovó perguntou:

-Por um acaso você bebeu, mocinha?

Senti meu rosto esquentar. Mas Shirley manteve a calma:

-Não! É que comi bolo demais e o açúcar me faz sentir sede. Eu jamais bebo. A propósito, gostaria de agradecer por ter sido convidada para essa linda festa. Tudo lindo, muito bem organizado, ótimo bufê! 

Vovó tomou um gole de café, e agradeceu. 

Após aquelas cenas constrangedoras, Shirley despediu-se educadamente, dizendo que precisava ir para casa. Agradeceu novamente pela festa e pelo café. Mamãe ergueu-se da mesa, dizendo:

-Estamos indo também. Jordana precisa dormir. Se quiser, eu a deixo em casa. 

Pela segunda vez, vi Shirley agir como se estivesse constrangida. Na verdade, parecia quase em pânico:

-Não precisa, obrigada!

-Eu insisto.

-Eu moro do outro lado da cidade! É longe daqui.

-Eu também. Não custa nada, eu a deixo em casa.

-Não, obrigada, não se preocupe. Na verdade, já liguei para minha mãe e ela vai me pegar ali na esquina. Adeus. Tenham um ótimo domingo!

E ela saiu quase correndo da casa.


(continua...)


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A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO III

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