quinta-feira, 13 de abril de 2017

A MÃO E O LAÇO








CAPÍTULO I 

Jamais me esquecerei do dia em que a conheci. Como poderia? Ela me salvou de uma possível surra na hora do recreio. Eu era a aluna nova, transferida do Centro Educacional Nossa Senhora de Lourdes, uma das escolas mais caras da pacata cidade de Rio das Acácias, frequentada apenas pela nata da nata da sociedade local. Minha nova escola, o Colégio Sidarta,  apesar de ser particular, era bem mais em conta. Mamãe teve que me transferir para lá quando fiz quinze anos de idade, um ano após a morte repentina de meu pai. 

Eu estudara a vida toda no Nossa Senhora de Lourdes, e mudar-me de lá foi bastante traumático. Tive que deixar para trás as minhas amigas, meninas com quem cresci. Mas o mais traumático, não foi deixar a escola, mas perceber que ao fazê-lo, as meninas com quem cresci e que considerava minhas amigas passaram a ignorar-me. Se nos encontrássemos na rua, elas cumprimentavam com um sorriso sem graça, e após trocarmos algumas palavras, iam logo embora, até que que os cumprimentos reduziram-se a simples “Ois.” Eu não fazia mais parte do mundo delas. Se eu telefonasse para alguma delas, as mães diziam que não estavam em casa, ou que estavam estudando para alguma prova importante e não podiam ser interrompidas, mas que elas ficariam felizes em passar algum recado. Mas elas nunca ligaram de volta. Não demorou muito para eu perceber o que estava acontecendo.

Após a morte de meu pai – ele suicidou-se sem deixar sequer um bilhete, após decretar falência em sua empresa de engenharia – mamãe teve que apertar o cinto; o dinheiro que restava na conta ainda daria para um ou dois anos, se economizássemos bastante, e havia três imóveis em nome dela que foram transferidos para o meu nome e vendidos logo em seguida, por aconselhamento do Dr. James, amigo e advogado de meu pai. Alguns meses depois, ela demitiu o motorista e o mordomo, e então, a arrumadeira, a cozinheira e a diarista. Seis meses após a morte de meu pai, ainda morávamos na nossa mansão, mas os custos de manutenção eram altos demais, os impostos eram exorbitantes e então, finalmente, a justiça tomou-nos a casa para pagamento de dívidas.

Nós nos nos mudamos para um prédio de apartamentos no final da rua, em um bairro afastado do centro da cidade. Nossa rua era sem saída e tinha poucas casas – a maioria delas, em mal estado de conservação, e fechadas. Eram mansões que já tinham visto dias melhores, e que, segundo o advogado, estavam legalmente envolvidas em brigas judiciais e inventários que se arrastavam há anos. A rua era bonita, arborizada e ajardinada. Alguém a mantinha assim, e eu me perguntava por que. 

Rua dos Ipês. A maioria das árvores por ali eram ipês amarelos, e quando floriam, o lugar parecia mágico.

Nosso prédio também tinha poucos moradores. Eram apenas seis apartamentos, um por andar, e ocupávamos a cobertura. O primeiro andar pertencia a um casal idoso, que de vez em quando era visitado pelos filhos. Gostavam de promover alguns jogos de bingo de vez em quando, e quando o faziam, havia pessoas idosas entrando e saindo o tempo todo. O segundo e o terceiro andares estavam vazios, e o quarto andar pertencia a uma mulher que não morava na cidade, e só aparecia de vez em quando, abria as janelas, passava a noite, contratava uma faxineira para limpar o lugar e depois ia embora. Isso acontecia a cada dois ou três meses. O quinto andar também estava vazio. 

Nosso apartamento era o melhor, pois tínhamos  direito a desfrutar da cobertura, onde minha mãe, com muito bom gosto, fez um lindo jardim de inverno onde eu passava grande parte do meu tempo. Havia uma pequena parte ao ar livre, onde ela colocou espreguiçadeiras para que pudéssemos nos sentar ao sol de vez em quando. Decoramos o apartamento com alguns dos móveis de nossa antiga casa, e ele ficou muito bonito. Mamãe vendeu o restante dos móveis, que eram valiosos e de estilo,  e aplicou o dinheiro em um fundo para garantir a minha faculdade. 

Mas foi na minha primeira semana de aula – segundo dia, para ser mais precisa – que eu conheci aquela que se tornaria a minha melhor amiga. 

Era hora do recreio; eu estava descendo as escadas em direção ao pátio. Havia algumas meninas sentadas nos degraus, e sem querer, acabei pisando na mão de uma delas, uma morena de cabelos muito negros que a colocou sob meus pés distraidamente justamente na hora em que eu pisei. Pedi desculpas, mas ela se levantou, zangada, me encostando na parede, apertando-me contra ela. Mais tarde, eu descobriria que tinha pisado na mão de Diana, uma das meninas mais temidas da escola, uma bully. Fiquei sem saber como agir. Quanto mais eu me desculpava, mais Diana gritava comigo, e suas amigas riam e batiam palmas, chamando-me de ‘novata desastrada.’ Logo, um grupo de alunos começou a se formar no sopé e no topo da escada. Alguns me olhavam com pena, mas ninguém ousou interferir a meu favor. Animada pela pequena plateia, Diana socava a parede atrás de mim, e eu fechava os olhos a cada vez, pensando quando ela atingiria meu rosto. 

As lágrimas rolavam pelo meu rosto sem que eu conseguisse detê-las. A dor da humilhação era maior do que o medo de levar um soco. De repente, fez-se silêncio, e eu abri os olhos devagar. Diana me olhava, os olhos semicerrados. Ela disse;

-Hey, eu estou conhecendo você, novata! Vi a foto da sua família na internet. (E olhando para os outros) Gente, essa aí é Jordana Alexander, filha de Jander e Letícia Alexander! Lembram, há mais ou menos um ano, aquele cara que deu o golpe na empresa e depois se suicidou?

Não suportei mais, e me vi gritando;

-Meu pai não deu golpe em ninguém!

Ela me olhou, e seus olhos verdes e frios penetraram minha alma:

-Por causa do que seu pai fez, o meu pai perdeu o emprego, e tem que ficar em casa o dia todo! E os pais de mais um monte de gente aqui! Ele aplicou dinheiro em mercado de risco, perdeu e faliu a companhia. Ferrou com todo mundo! 

-Não é verdade!

Diana riu:

-Você sabe que é!

E ela estava certa. Eu sabia de tudo. Diana tinha os olhos rasos d’água, e pensei que o que quer que meu pai tivesse feito, tinha afetado também a vida dela, e que seu ódio por mim poderia ser justificável. Pedi:

- Me deixe ir em paz. Não quero confusão com ninguém. Se seu pai perdeu o emprego, eu sinto muito. Em e minha mãe também perdemos tudo o que tínhamos. Já disse, me deixe ir, eu não quero confusão.

-Não?! Pois saiba que eu vou fazer de tudo para tornar a sua estadia por aqui um verdadeiro inferno, assim como é a minha por causa do que seu pai fez! E quem vai defender você? Você está sozinha aqui! Não conhece ninguém!

Naquele momento, uma menina alta e magra, com cabelos longos e castanhos, cheio de mechas loiras provavelmente feitas em casa, se aproximou. Ela era imponente, e extremamente bonita. Os cabelos, um pouco ressecados, às vezes caiam sobre o olho esquerdo, o que fazia com que ela erguesse a cabeça para afastá-los. Ela cruzou os braços e disse baixinho, bem junto ao ouvido de Diana;

-Ela está comigo. 

Imediatamente, Diana me soltou, dirigindo a ela um olhar zangado, mas submisso. Virou as costas, e chamando suas amigas, afastou-se. Espetáculo terminado, as outras pessoas também foram se afastando aos poucos.  Eu a reconheci finalmente. Éramos da mesma classe. Agradeci:

-Obrigada por salvar a minha vida.

Ela me olhou. E naquele olhar, parecia julgar-me e decidir que lugar eu poderia ocupar em sua vida dali em diante. Ela me olhou durante um tempo desconfortavelmente longo, e então, balançando a cabeça em sinal de aprovação, disse:

-Sou Shirley. 

Respondi, tentando manter um tom de voz normal:

-Sou Jordana.

E após alguns segundos de silêncio, eu disse:

-Como você conseguiu fazer ela ir embora?

-Digamos que ela me deve. Sei de algumas coisas que ela não gostaria que outras pessoas soubessem. 

-E que coisas são essas?

-Nada. Esquece. Venha, vamos ficar com a minha turma.

E ela me apresentou aos outros. Fiquei amiga de todos, especialmente de Laura e Adílio. Laura era uma menina morena de cabelos cortados à altura dos ombros, e olhos muito negros. Tinha uma beleza suave e discreta, bem diferente da beleza selvagem de Shirley. Adílio era um pouco mais baixo que eu, tinha cabelos loiros e escorridos, e usava uma franja lisa sobre as sobrancelhas. Logo percebi seu interesse por mim, mas eu não me sentia atraída por ele. Mas nos tornamos bons amigos, e andávamos sempre juntos pela escola. 

Algum tempo depois, fiquei sabendo do segredo de Diana: um dia, ela apareceu na escola com um olho roxo, e alguns arranhões no braço. Quando Shirley a viu, foi falar com ela, e as duas ficaram conversando durante um bom tempo. Quando Shirley voltou, perguntei a ela o que tinha acontecido com Diana, e ela, me dando o braço e se afastando comigo do grupo, murmurou:

-É segredo, e você não deve contar a ninguém: o padrasto  bateu nela. Não é a primeira vez. E ele... bem... ele abusa dela. Sexualmente, quero dizer.

-Meu Deus! Que coisa terrível! Como você sabe?

-Ela me contou um dia. 

Imediatamente, senti um arrepio na coluna; então, aquele era o segredo de Diana! E no dia em que me salvou, Shirley o usara para tirar-me das garras dela, em uma espécie de chantagem! Fiquei calada, pensando em quantas outras situações Shirley já a chantageara antes. Mas pensei, também, que ela tinha me salvado, e que Diana era uma bully. 

Olhei na direção de Diana, que estava sentada sobre uma pedra no pátio, lendo ou  fingindo ler alguma coisa, o capuz de malha azul-marinho jogado sobre o rosto. Tive pena dela, e compreendi o que significava, para ela, ter o padrasto desempregado e em casa o tempo todo. Disse a Shirley:

-Você precisa ajudá-la! Ela precisa contar à polícia!

-Isso seria admitir uma fraqueza. Diana não quer saber disso. Além do mais, a mãe dela está muito doente, e Diana não quer aborrecê-la. 

-Shirley... há quanto tempo sabe disso?

Ela olhou para cima, parecendo pensar:

-Acho que... há uns dois anos. É, dois anos. Desde que ele foi morar com elas.
Fiquei pasma: como ela poderia saber de um segredo daqueles durante tanto tempo, sem tentar ajudar Diana?

-E você nunca contou a um adulto, a um professor, ou ao psicólogo da escola?

Shirley parou de andar, e virando-me para ela, disse:

-Escute aqui: eu guardo segredos quando me pedem. É assunto dela, não seu. Não se meta nisso, mesmo porque se ela pudesse, te mataria de tanto te socar! Diana só está esperando a mãe melhorar. Daí ela vai contar tudo. 

Tentei argumentar, mas ela foi categórica. Acabou gritando comigo e me pedindo para esquecer o assunto, mais uma vez. Alegou que estava arrependida de ter me confiado um segredo tão grave, que pensou que eu fosse alguém de confiança, e depois de tudo o que ela fez por mim, era o mínimo que eu poderia fazer, etc, etc.; acabou me convencendo a ficar calada.

(continua...)


4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Instigante e muito real esse capítulo... Seguirei os próximos que na certa trarão vários questionamentos.
    Abraço

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  3. Oi, Ana, bom dia !
    Estou atento e ansioso...
    Parabéns e um carinhoso abraço.
    Sinval

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