terça-feira, 25 de abril de 2017

A MÃO E O LAÇO - CAPÍTULO IV






Na manhã seguinte, durante o café, fiz um resumo da história toda para minha mãe. Contei a ela tudo o que eu sabia sobre Diana e Shirley, e ela me ouviu com muita atenção, sem me censurar e sem censurar a Shirley ou a Diana pelo que ela tinha feito comigo no primeiro dia de aula. Não falei nada sobre Adílio, entretanto. Eram duas histórias diferentes e eu não queria misturá-las. Minha mãe demonstrou muita indignação quando cheguei na parte do abuso sexual. Ela me disse que deveríamos falar com a diretora da escola, ou com uma orientadora educacional sobe o assunto. Quando eu disse a ela que Shirley e Diana não queriam que ninguém soubesse, ela fechou os olhos durante alguns instantes:

-Meu Deus... como coisas assim podem acontecer? Pais deveriam cuidar de seus filhos, ajuda-los a se tornarem pessoas de bem, dar-lhes segurança para crescerem e amadurecerem se sentindo amados! Como posso aceitar que algo assim permaneça oculto? Temos que fazer alguma coisa para ajudar aquelas duas!

Eu arregalei os olhos, e meu coração saltou para a garganta. Se Shirley soubesse que eu tinha contado sobre sua vida à minha mãe, provavelmente nunca mais falaria comigo. Ainda mais sem ter certeza de nada, fazendo apenas especulações. Pedi;

-Mãe, deixe eu falar com a Shirley antes. Por favor, me prometa que não vai fazer nada!

Ela relutou um pouco, mas depois, concordou e prometeu que não faria nada até que eu conversasse com Shirley e descobrisse mais coisas. E foi o que fiz assim que o dia de aulas acabou, na segunda-feira. 
Passei a manhã me desvencilhando de Adílio. Finalmente, tive que dizer a ele com todas as letras que o que tinha acontecido na festa jamais voltaria a acontecer. Ele ficou zangado no início, mas depois aceitou e concordou comigo, dizendo que não podia me forçar a gostar dele. Eu afirmei que pretendia que nossa amizade continuasse, pois eu gostava muito dele como amigo, e ele concordou. Acabou dando um sorrisinho, meio triste, mas sincero. Depois, ficou conversando com Laura. Fiz votos para que eles se acertassem. Laura era uma menina bonita e muito legal, ele só precisava olhá-la com outros olhos.
Na saída da escola, eu e Shirley fomos caminhando pela calçada. Faltava apenas uma semana para as aulas terminarem, e ela falava, animada, da viagem de férias que faria com a mãe e o tio. Eu queria uma brechinha para tocar naquele assunto incômodo que Diana me confidenciara na noite do aniversário de Adílio, mas Shirley não parava de tagarelar; achei que a única saída, seria interrompê-la bruscamente, e foi o que fiz, pois eu tinha  a impressão de que ela estava estranha comigo desde que me vira conversando com Diana na festa. Falava demais apenas para não ouvir o que não queria.

-Shirley, a Diana me contou uma coisa no sábado à noite.

Ela parou de falar de repente, ficando séria, mas logo riu e tentou aparentar tranquilidade:

-Ah, já sei: ela falou que eu e ela somos meio irmãs, não é? Ou quase.

-Foi isso mesmo. é verdade?

-Claro que não. Ela fala isso pra todo mundo.

-E por que ela faria isso?

-Porque ela é maluca. Ou porque ela queria ser eu, ter a minha vida, sei lá. 

Notei que ela estava mentindo, e ficando irritada. Cortei-a:

-Pare com isso, Shirley. Sei que nos conhecemos há apenas alguns meses, mas já sei que você está mentindo! Pensei que me considerasse sua amiga!
Ela parou de caminhar, e eu parei logo depois dela, mais à frente, e olhei para trás. Achei que ela ia sair correndo, virar as costas, me deixar plantada ali na calçada, mas ao invés disso, ela disse:

-Você veio do seu mundinho perfeito, onde as pessoas são sempre boazinhas, todo mundo é educadinho e papai e mamãe são criaturas que amam seus filhinhos e zelam por eles. Por que eu partilharia minha intimidade com você? O que você sabe da vida, Jordana? Não passa de uma menina mimada!

Fiquei indignada:

-Ora, isso não é verdade! Se você já se esqueceu, meu pai se suicidou! Minha avó e meu pai praticamente se odiavam, perdemos tudo o que tínhamos, minha mãe teve que arrumar um emprego aos 47 anos de idade, e pela primeira vez, e eu tive que sair da escola onde cresci porque não podíamos mais pagar por ela! E as minhas antigas amigas... ou as meninas que eu pensei terem sido minhas amigas, viraram as costas para mim assim que souberam que tínhamos perdido tudo, que meu pai era um fracassado e um suicida! Eu e mamãe ficamos sozinhas, entende? Todo mundo nos desprezou! Todo mundo nos ignora, passam pela gente na rua e viram a cara, ou então ficam falando e olhando para nós! 

Eu nunca tinha parado para pensar em tudo o que dissera até aquele momento. Vivera a vida após a morte de meu pai tentando superar, ser forte, ver o lado bom, ser otimista. Procurei ser uma mocinha elegante e lidar com as coisas de modo racional, como me ensinaram a vida toda. Nem eu mesma sabia o quanto ainda estava abalada com tudo. Até aquele momento em que botei tudo para fora na calçada. E foi literal, pois assim que acabei de falar, senti um enjoo enorme, e tive que vomitar no meio-fio.

Shirley segurou meus cabelos, e depois me deu um lenço de papel. Olhei para ela, e as lágrimas começaram a jorrar, e ela me abraçou, pedindo desculpas. Depois daquilo, nós nos sentamos em um café, numa mesa afastada bem nos fundos e pedimos dois sucos de laranja. E ela se abriu comigo. Conversamos em sussurros.

-Diana disse a verdade: somos sim, meio irmãs. E não quase meio irmãs, mas meio irmãs de verdade. Meu pai é pai dela. Pai biológico. Ele tinha um caso com a mãe dela desde sempre, acho. E quando minha mãe engravidou de mim, a mãe de Diana engravidou também. Mas meu pai ficou em casa. Ele só foi embora depois que... 

Vi o quanto era difícil para ela falar daquelas coisas. Coloquei minha mão sobre a dela, tentando encorajá-la, e senti que ela tremeu ao meu contato.

-Ele foi embora depois que minha mãe descobriu o que ele fazia comigo. Eu tinha só cinco anos.

Eu quis morrer. Eu quis matar aquele grande filho-da-mãe que era o pai delas. A náusea voltou, e tive que me conter para não vomitar de novo. A garganta doía, mas eu me contive e não chorei. Ela continuou:

-Minha mãe pôs ele para fora de casa. Ele me dizia que era tudo normal, uma brincadeira entre papais e suas garotinhas. Que todas as garotinhas eram boazinhas com seus papais. Mas que a mamãe não poderia saber nunca, pois as mamães tinham ciúmes e ficavam zangadas. E eu mantive nosso segredinho sujo. 

Ela começou a chorar em silêncio. Pegou um guardanapo de papel e secou o rosto, embolando-o e jogando-o no chão, a alguns metros de distância. O garçom nos olhou de cara feia, mas não disse nada. 

-Quando meu pai foi embora, eu me lembro que fiquei com muita raiva de minha mãe, e então ela me disse que ele tinha outra filha, outra garotinha como eu. E eu morri de raiva dele. Fiquei com ciúmes, cresci odiando Diana porque para mim, ela era a responsável por meu pai ter me deixado. Só mais tarde eu tive consciência do que ele tinha feito, do quanto ele tinha ferrado com a minha vida. E me achei com sorte, porque pelo menos, minha mãe se casou de novo com um cara muito legal, e ele me trata como filha natural. É ele quem paga a escola, minhas roupas, e tudo o mais. Ele é meu pai de verdade. Santoro é pobre, luta para sobreviver, mas somos uma família feliz.  Eu tive mais sorte do que Diana. Ela ainda tem que lidar com o monstro todos os dias, e agora que ele está desempregado, ela me disse que é ainda pior.

-Por que você nunca tentou ajuda-la?

-Você não entende... 

Eu olhei para ela, tentando ver através da máscara de indiferença e dureza que ela passou a usar a partir dali. Eu não entendia por que ela estava se afastando de novo. Insisti:

-Não, não entendo. Será que você poderia me explicar?

Shirley tomou um gole do suco, fazendo uma cara feia. Continuou:

-Se ela abrir a boca, a história toda vem à tona. Todo mundo vai saber o que nosso pai fez conosco. 

-Mas... e a mãe dela?

-Não passa de uma alcoólatra e drogada. Ela tentou desde o começo explicar à mãe o que estava acontecendo, mas ela não acredita. Nunca acreditou, ou então não quis acreditar. E depois que ele descobriu que ela tinha contado, passou a bater nela. Mas Diana cresceu, e hoje em dia, quando ele tenta bater nela, ela luta com ele. Eles brigam, rolam no chão. É claro que ela sempre leva a pior, mas ele não consegue mais agarrar ela. Ela me disse que há dois anos ele não consegue. 

-Então... ela não conta nada para poupar você?

-Acho que para poupar a ela mesma. Ela não quer ser apontada nas ruas, ela não quer ser a esquisita da cidade. Ela não quer crescer com esse estigma de garota abusada pelo pai. 

-E você?

Ela suspirou. Abriu a bolsa e pegou um cigarro amassado, que acendeu e passou a fumar, dando tragadas profundas. Eu não sabia que Shirley fumava, mas não disse nada. O garçom a viu, e logo veio até a nossa mesa:

-É proibido fumar aqui, mocinha. Incomoda os outros clientes. E é lei. 

Shirley deu uma tragada profunda, e olhando nos olhos dele, argumentou:

-Mas não tem ninguém nessa droga de lanchonete, a não ser a gente.

-Apague o cigarro, por favor. Ou então saia.

Ela deu mais uma baforada, e jogando o cigarro no chão, amassou-o com o calcanhar. Ele olhou para ela com tanta raiva, que pensei que fosse nos pegar pelos colarinhos e nos expulsar dali, mas apenas sacudiu a cabeça e se afastou.

Shirley jogou uma nota sobre a mesa, dizendo:

-Vamos sair daqui. Esse lugar é uma droga e essa laranja está podre.

Fui atrás dela, e nos sentamos em uma pracinha onde havia algumas crianças brincando ao longe. Olhei para elas e pensei se alguma delas estaria passando por algo semelhante ao que Shirley e sua irmã passaram. Pensei no absurdo das mães que não acreditam nas filhas, e daquelas que as culpam pelo que acontece. Shirley prendeu o cabelo em um coque atrás da nuca, cruzando as mãos e apoiando os cotovelos nos joelhos. Deixei que ela ficasse em silêncio durante algum tempo. Reparei no quanto ela era bonita. E no número absurdo de coisas horríveis que ela já tinha enfrentado até àquela altura de sua breve vida. Eu disse:

-Precisamos ajudar Diana. 

Ela concordou com a cabeça. Pedi:

-Shirley, vamos almoçar lá em casa hoje? Minha mãe vai tirar o dia de folga.

Ela estranhou meu convite, e me olhou, curiosa. 

-Logo hoje? Acho que não. Não estou legal. 

-Eu sei. Mas tem uma coisa que eu não te contei. Sabe, eu... eu contei à minha mãe sobre você e Diana. 

Fiquei esperando o furacão terminar de girar. O rosto dela ia mudando de expressão em apenas segundos: surpresa, perplexidade, medo, raiva, ódio, tristeza, alívio... gratidão? Ela me abraçou chorando:

-Sempre temi este momento. Sempre achei que não conseguiria enfrenta-lo, sabe? E agora que ele está acontecendo, tudo o que consigo sentir é um alívio enorme. 

Eu a consolei durante algum tempo, e depois pedi a ela:

-Agora vamos ligar para Diana. Acho que tudo isso tem a ver mais com ela do que com você nesse momento. 

E Shirley mais uma vez concordou comigo. Ela caminhou para longe enquanto falava ao telefone, e quando voltou, notei que tremia. Segurei sua mão, e ela desabou:

-Eu tenho vergonha que alguém mais saiba, Jordana! 

-Ninguém há de saber, e se souberem, não são vocês que precisam se envergonhar, mas sim o cretino do seu pai. Vocês não fizeram nada de errado, foi ele quem fez!

Ela me olhou nos olhos:

-Obrigada. Mesmo que essa história toda não dê em nada, pelo menos eu pude dividi-la com mais alguém. 

-E Diana?

-Ela vai nos encontrar perto do seu prédio. Não entendeu nada ainda, mas ela virá. 
Fomos caminhando lado a lado, em silêncio. Ela abraçava o material escolar como se ele fosse uma tábua salva-vidas. Jamais pensei que fosse ver uma Shirley tão vulnerável. Quando chegamos perto do prédio, Diana já estava lá, de pé,  nos esperando. Foi apenas um olhar na direção de Shirley e ela logo percebeu que algo estava errado. Diana dirigiu-se à Shirley, me ignorando:

-Oi, Shirley. O que houve com você? É alguma coisa com a sua mãe?

-Não, está tudo bem. Nós... vamos até a casa de Jordana.

Diana me olhou, e vi raiva em seus olhos:

-O que? Você ficou louca?

Resolvi interferir:

-Por favor, Diana. Não existem motivos para você me detestar. Eu... queria ajudar vocês. Só isso.

Diana olhou para Shirley, em pânico. Shirley tranquilizou-a:

-Está tudo bem, vamos lá. Já está na hora de nós falarmos de alguns assuntos. E com alguém que pode nos ajudar. Ela sabe de tudo, sabe que somos irmãs de verdade.

Diana me olhou, como se me analisasse a fim de decidir se confiaria em mim ou não. Depois, seguiu-nos e entramos no prédio. No elevador, ficamos em silêncio. Olhamos apenas para o chão. Chegamos, e eu abri a porta, convidando-as a entrar. Diana entrou em minha casa pela primeira vez, e olhou em volta, parecendo insegura. 

Mamãe estava na sala, e quando nos viu, aproximou-se:

-Você deve ser a Diana. Entre, por favor, e fique à vontade. O almoço já está na mesa. Espero que gostem de lasanha. Vamos comer, e depois, conversaremos.
Apesar de tudo, eu estava faminta, e Shirley também. Diana comeu pouco, e quase não falou. Apenas respondia monossilabicamente quando minha mãe se dirigia a ela. Minha mãe tentava deixa-la à vontade, mas eu notei que quanto mais ela tentava, mais Diana se fechava. Olhei para minha mãe e a encarei durante algum tempo, até que ela entendeu e parou de falar tanto. Quando terminamos o almoço, começamos a tirar a mesa, mas minha mãe nos disse para deixarmos a mesa e as louças para lá, e fomos direto para a sala de estar. Nós três nos sentamos no sofá maior, e mamãe, na poltrona, em frente a nós. Ela respirou fundo:

-Eu chamei vocês aqui porque minha filha me contou uma coisa terrível sobre vocês... e eu gostaria de ajudar de alguma forma. 

Diana desafiou-a:

-Como? O que você sabe?

-Ela olhou para Diana, mantendo o tom de voz tranquilo:

-Eu sei que seu pai abusou de Shirley, e abusa de você. eu...

Diana interrompeu-a, erguendo-se do sofá; gritou:

-E o que você tem com isso?

Era tudo o que Diana sabia fazer: gritar e esmurrar. Era tudo o que aprendera, para se defender. Shirley mandou que ela se sentasse:

-Diana, fique quieta um pouco. Isso já deveria ter acontecido.

Diana olhou para Shirley, mas não se sentou; ao invés disso, gritou novamente:

-Você e sua mamãe sempre me detestaram. Você nem queria que as pessoas soubessem que somos irmãs. Você sabia o que seu pai fazia comigo, e nunca tentou me ajudar antes. Nem sua mãe. Minha mãe é uma pessoa doente. Ela só não fez nada porque não pode. É por causa dela que eu aturo isso, não por sua causa, Shirley. 

-É verdade, Diana, eu sempre detestei você, e não será agora, de repente, que eu vou passar a amá-la. Mas pelo menos, eu estou tentando consertar um erro meu, e ajudar você a se livrar desse inferno onde vive! 

Mamãe interrompeu:

-Meninas, por favor! Vamos conversar. Eu sou adulta, e posso ajudar. (Virando-se para Diana): Você pode ficar aqui em casa, se quiser, o tempo que for necessário, Diana! Mandaremos sua mãe a uma clínica de reabilitação. Ela precisa de ajuda. Olhe, eu conversei com ela por telefone...

Eu não sabia de nada daquilo, e fiquei muito surpresa. Senti o rosto queimar, e tive medo que Shirley pensasse que eu as traíra.

-Como você conseguiu nosso número?

-Na escola. 

Eu disse, gaguejando;

-Mãe, você prometeu que não faria nada! Meninas, eu não sabia que ela...

Diana e Shirley se entreolharam, e Diana, com lágrimas nos olhos e o rosto vermelho, bradou:

-Eu sabia! Agora todo mundo sabe, a cidade toda sabe. E a culpa é sua, Shirley! Como foi contar a essas duas vacas sobre a nossa vida, sobre a minha vida?

Mamãe não se alterou:

-Escute... conversei com a orientadora. Ela fará sigilo profissional. Ninguém vai saber. Sua mãe concordou com tudo. Só falta você, Diana. E você, Shirley. Por favor, não fiquem zangadas com Jordana, pois ela não sabia. Prometi a ela. Me desculpem, mas eu tinha que fazer alguma coisa rápido, não podia simplesmente deixar que isso continuasse!

Diana dirigiu-se à porta, batendo os pés, mas Shirley ergueu-se de um salto, alcançando-a:

-Volte, Diana, e escute o que elas têm a dizer!

Diana tentou desvencilhar-se de Shirley, mas ela a segurou com força, obrigando-a a olhar para ela:

-Por que você quer fugir? A vida está te dando uma chance, não entende? Você pode ter uma boa vida, Diana. Sua mãe precisa de ajuda, e você também. E ela já concordou com tudo. Seu pai... ele... nosso pai precisa pagar pelo que fez.

Mas Diana a empurrou e saiu, batendo a porta. Desceu pelas escadas, correndo, e nem mesmo Shirley foi capaz de alcançá-la. 


(continua...)

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