terça-feira, 2 de maio de 2017

A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO V






No dia seguinte, fomos à casa de Diana. Shirley achou melhor não ir, pois não queria encontrar o pai, a quem não via há anos. Doralice, a mãe, mandou-nos entrar. Parecia constrangida, mas ao mesmo tempo, notei nos olhos dela o mesmo olhar desafiador que eu via nos olhos da filha. Ela aparentava ter quase cinquenta anos; era muito magra. Os cabelos eram de um castanho esbranquiçado e sem vida, muito escorridos, caído sobre ombros ossudos. Doralice também tinha olheiras profundas e os dentes amarelados devido ao fumo. Mesmo assim, dava para identificar traços da mesma beleza que eu via em Diana, se Doralice tivesse se cuidado melhor.

Ela fez sinal para que entrássemos; a casa era humilde, mas não foi isso que me chamou a atenção, e sim o descaso, o descuido, a negligência que imperavam ao redor. O assoalho sujo parecia ter sido varrido há muito tempo. Ao lado do sofá havia uma pilha de jornais, sendo que eram amarelecidos no fundo da pilha e mais novos por cima dela. O lugar cheirava a fumaça de cigarro e gordura. Engoli em seco quando ela nos perguntou se queríamos um café, e quase em uníssono, mamãe e eu agradecemos e recusamos.

Nós nos sentamos no sofá. Havia o som de um rádio fora da estação vindo da cozinha. Doralice explicou que Diana não estava. Não passara a noite em casa, e quando mamãe demonstrou preocupação, ela riu:

-Ela sempre faz isso. Raramente dorme em casa. 

-E... para onde ela vai?

Ela encolheu os ombros, dando uma longa tragada, enquanto sentava-se na cadeira à nossa frente, esticando-se para pegar um cinzeiro cheio que estava sobre a mesinha de centro empoeirada. 

-Fica na casa das amigas da escola... pelo menos, é o que ela diz.

Mamãe foi categórica:

-E você nunca se preocupou em verificar? 

Dei-lhe uma cotovelada, mas foi tarde demais. A mulher nos olhou com raiva:

-O que as madames pensam da vida? Acham que tenho tempo para ficar correndo atrás dela? Tenho a casa para cuidar. E ainda preciso terminar as encomendas...

Mamãe desculpou-se, perguntando:

-Você trabalha? Em que?

Ela demorou um pouquinho antes de responder:

-Eu sou costureira. Faço consertos para uma loja de consertos de roupas que fica na cidade. Eles me enviam serviço de vez em quando. Não dá para ganhar muito, mas paga as contas.

Pensei: “Paga as bebidas, o cigarro e sabe-se lá o que mais...” tive a impressão que minha mãe pensou o mesmo, mas nada dissemos. Mamãe disse:

-Bem... nós estamos aqui porque queremos ajudar Diana. A senhora sabe... sobre aquele assunto que falamos ao telefone...

Ela concordou com a cabeça. Apagou o cigarro, esmagando-o no cinzeiro, que colocou no chão ao lado da poltrona, mas não respondeu. Parecia muito desconfortável. Achei que pela primeira vez, ela estava enfrentando a verdade do que vinha acontecendo com sua filha, e não estava sendo fácil. Ela coçou a cabeça, e notei que seus olhos estavam marejados, mas Doralice cerrou os lábios e não chorou. Mamãe continuou:

-Eu quero ajudar você também, Doralice. Sei que é dependente de drogas, e ontem você concordou em ir para uma clínica de reabilitação. Mas você precisa se livrar do seu marido. Não pode permitir que ele continue fazendo o que vem fazendo com a sua filha! Isso é um absurdo!

Ela secou uma lágrima, e olhando mamãe nos olhos, perguntou:

-Você me surpreende... nunca ninguém ligou muito para mim, a não ser... a não ser o Pedro, meu marido. Ele me tirou da vida, das ruas. Me deu esta casa. Ele compra  a comida. Mal ou bem, ele cuida de Diana. Paga a escola, as roupas... ou seja, pagava. Desde que ficou sem emprego, a escola está vencida. Disseram que ela não vai poder renovar a matrícula no próximo ano. Ele não é tão ruim quanto dizem... mas o que me surpreende, é: por que você está fazendo isso?

Minha mãe se levantou do sofá, caminhando até a janela e ficando de costas para nós durante um tempo. Achei que ela estava chorando, mas quando ela se virou e começou a falar, sua voz era firme:

-Porque eu acho que as pessoas merecem uma segunda chance. Porque eu acho que toda vida deve ser valorizada, toda pessoa merece ter ajuda. Meu marido matou-se porque tinha vergonha de ter falhado. Matou-se por causa da falência da empresa. O que é uma empresa, diante de uma vida? Talvez se minha mãe não tivesse sido tão dura com ele... talvez se as outra pessoas não tivessem sido tão duras com vocês... quem sabe, a vida de Diana pode ser uma boa vida? E a sua também? Você me perguntou por que, e eu respondo:  Por que não?

Doralice respondeu:

-Não se preocupe com Pedro. Ele sumiu. Foi embora levando suas coisas. Acho que não volta mais. Eu... nós estamos sós. Eu fui abandonada.

-Não, não estão. Você não foi abandonada, Doralice. Foi um livramento.

Depois daquela visita e daquela conversa estranhas, Doralice foi com mamãe até a clínica e se internou. Eu fui para casa.

Telefonei para Shirley, já que não tinha ido à escola naquele dia, a fim de contar a ela o que tinha acontecido. Aproveitei para perguntar se ela sabia de Diana. Ela disse que não. 

No dia seguinte, na escola, Diana não apareceu para a aula. Procuramos por ela entre as amigas, mas ninguém sabia dizer onde ela estava ou onde ela poderia ter ido. Um medo começou a surgir: e se ela tivesse sido levada pelo pai? E se ela estivesse sendo mantida em algum lugar, à força? Shirley confirmou minhas suspeitas, dizendo que Pedro era bem capaz daquilo. 

No final da tarde, mamãe comunicou o desaparecimento de Pedro e Diana à polícia, e as buscas começaram. Enquanto isso, em casa, ela fez o cheque das mensalidades atrasadas de Diana na escola, dizendo que pagaria por elas no dia seguinte. Também conversou muito com Shirley. Ela chorou algumas vezes, ao lembrar-se de algumas coisas; mas havia algo estranho, e eu não conseguia decidir o que era. Ela parecia que não estava realmente sentindo o que tentava demonstrar, e às vezes deixava transparecer que na verdade, não se importava com o que quer que tivesse acontecido à irmã. Tive a impressão de que a preocupação dela era dissimulada, mas me neguei a acreditar que aquilo fosse verdade. 

Quando ela foi embora, minha mãe ficou em silêncio, sentada no sofá, pensativa. Sentei-me ao lado dela. Tinha sido um dia muito longo e difícil. Ela me olhou, dizendo:

-Ainda não gosto muito da sua amiga. Ela parece... estranha.

Tentei defender Shirley:

-Não... é que ela está passando por poucas e boas agora. Aliás, a vida toda. Ela é boa gente, mãe.

Ela continuou me olhando, e depois sorriu, mudando de assunto:

-Vou tomar um banho de banheira bem longo. Depois, vou para o quarto assistir a um filme para relaxar. Quer vir também?

-Mais tarde, mãe. Vou tomar uma ducha. 

Meu telefone tocou assim que liguei o chuveiro, e era Laura. Atendi, embora estivesse tão cansada, que preferiria não falar com mais ninguém. Não queria que ela pensasse que eu estava chateada com ela por causa de Adílio. Ela ligou para me contar que os dois estavam juntos, e eu fiquei sinceramente feliz. Finalmente, eles acertaram os ponteiros, e as coisas entre eles ficaram como deveriam ser. Senti alívio ao saber que poderia ficar amiga dele sem a preocupação de tê-lo no meu calcanhar, querendo ficar comigo. E sem ter medo de machucar Laura. 
Depois da ducha, juntei-me à mamãe no quarto dela, e ambas assistimos a um filme. Acabei caindo no sono por lá mesmo. 

Acordamos na manhã seguinte com o telefone tocando. Era da polícia. Tinham encontrado Diana. 



(continua...)






Um comentário:

  1. Histórias Enfadonhas - não concordo. Não existe margem para enfado.
    Já estou à espera do próximo capitulo.
    Beijinho.
    Dilita

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