terça-feira, 30 de maio de 2017

A MÃO & O LAÇO - Capítulo VIII



Ela se acalmou. Estranhamente, o céu de chumbo começou a desfazer-se, e o vento levou embora as nuvens mais pesadas, deixando a paisagem menos opressiva. A chuva esperada não caiu. Ela pegou minha mão, e nós nos sentamos nos balanços de novo. 

“-Eu era muito pequena. Não entendia direito as coisas que meu pai fazia. Só sei que apesar de eu não gostar, principalmente porque ele me pedia para não contar nada à mamãe, eu sentia que aquele momento era nosso, que ele nos aproximava, e que eu fazia por ele uma coisa que o deixava feliz. E que ele ficava grato. E era o nosso segredo, algo que era só nosso. Ele me chamava de sua princesinha, dizia que me amava, e eu acreditava. Era melhor ficar com ele do que com minha mãe, pois ela era sempre muito séria e mau humorada. Os dois não se davam bem. Meu pai passava muito tempo fora de casa, e quando chegava, eles brigavam. Minha mãe era muito rígida quanto a disciplina. Ele não; era sempre bom para mim, me levava presentes, doces... tudo o que eu precisava fazer, era dar a ele os carinhos que ele me pedia. E ele jamais me feria. Era sempre tão carinhoso e doce... mesmo quando me tocava... se eu pedisse, ele parava. E me abraçava, e me colocava para dormir. As coisas aconteciam sempre que minha mãe saía de casa para fazer compras, ou quando ela tinha que trabalhar até mais tarde e ele chegava em casa mais cedo e dispensava a babá. 

Você pode achar estranho, mas eu o amava. Ele era o meu pai. Mas as coisas entre ele e minha mãe foram ficando cada vez piores. Eles brigavam muito. Eu tinha medo de que um dia ele fosse embora e nunca mais voltasse. E ele começou  a beber demais. Um dia, eles brigaram feio. Houve barulhos de coisas se quebrando na cozinha, gritos... eu ... estava no meu quarto, sentada dentro do armário, a cabeça escondida entre as mãos, esperando tudo acabar para que eu pudesse sair do meu esconderijo. A porta da frente bateu, e eu corri até a janela e vi minha mãe saindo para a rua, carregando a bolsa, ela ia trabalhar. Parecia estar chorando...

Eu desci, e fui até o quarto dos meus pais. Ele estava sentado na cama. Parecia triste. Eu me aproximei. Eu tinha só seis anos, como poderia saber que quilo era errado? 

E aquela foi a primeira vez que ele me machucou. Ele estava muito bêbado... eu nunca me esquecerei do cheiro do álcool... eu senti nojo, e muito medo. Eu gritei, mas ele tapou a minha boca e me deu um tapa. Ele me tocou de uma maneira muito dolorida. 

Quando tudo acabou, eu sangrava. E ele me levou para o meu quarto, me jogou na banheira, me deu um banho com tanta brutalidade... eu via desprezo nos olhos dele. Depois me colocou para dormir, e disse que se eu abrisse a boca, ele me daria uma surra. Aquilo não me deixou tão preocupada, mas quando ele me disse que se eu contasse, ele iria embora para sempre e que eu ficaria sozinha com minha mãe, eu entrei em pânico. 

E ele ainda fez aquilo comigo algumas vezes. Eu não contava nada para ninguém, e não deixava mais minha mãe me dar banho ou me vestir, com medo de que ela visse as marcas. Eu aprendi a me cuidar sozinha. E aprendi também a usar as roupas adequadas para esconder as marcas roxas nos braços ou pernas. Ele nunca me feria no rosto. Apenas nas partes que ficavam cobertas. 

Um dia ele chegou em casa mais tarde ainda. Já era quase de manhã, e eu estava acordada na minha cama, pois eu não conseguia dormir bem enquanto ele não chegasse. E assim que ele entrou em casa, eu corri para a porta do quarto e escutei. Pensei que ele viria até mim, mas ele foi direto para o quarto deles, e a briga começou. Enquanto mamãe gritava com ele, ele dizia que a desprezava. E que ele iria embora de casa. Ela disse algo sobre ele ter outra mulher, e ele confirmou, disse que tinha mesmo, e que iria morar com ela, pois já tinham uma garotinha da minha idade, e ele não precisava mais de nós.

Ao ouvir aquilo, corri até o quarto. Gritei que ele não podia ir embora e nos deixar sozinhas. Eu o odiei quando ele me disse que não me queria mais, pois a outra menina era bem mais bonita do que eu. Então berrei, enfurecida: “Vou contar tudo à mamãe se você for embora!”  Minha mãe me olhou de olhos arregalados, dizendo: “Tudo o que?” E eu, sem saber explicar direito, apontei para as marcas arroxeadas no meu corpo, e também para o lugar onde ele mais me machucava, enquanto eu dizia a ele, chorando, que eu nunca mais guardaria segredos com ele. Meu pai pegou as malas e saiu, e minha mãe me levou ao médico, que constatou o estupro. Meu pai ficou alguns anos preso depois daquilo, e fiz tratamento psicológico, mas a única coisa que me preocupava, era que ele tinha outra filha. Eu estava com ciúmes. Porque na minha cabeça, ele era bom para  a outra menina, ele a tratava com o carinho que não tinha mais por mim, e que por causa dela, ele deixara de me amar e me machucara.  

Quando eu fiz 13 anos, ele saiu da prisão e foi morar com Doralice e Diana. Eu o segui e descobri onde morava. Quando vi Diana, reconheci-a como sendo uma das meninas da escola. A minha irmã. O tempo todo ela estudava na mesma escola que eu, e eu nem sabia quem ela era. E então eu me apresentei a ela um dia, depois da aula, e desde aquele momento, eu a odiei. Eu a proibi de dizer a qualquer um que éramos irmãs. Diana era bem mais sugestionável do que eu, e ela morria de medo de mim... e morria de medo que alguém mais soubesse de sua vergonha. Partilhei a minha com ela. Eu passei a sentir dó e desprezo por ela, conforme o tempo ia passando. Mas por mais absurdo que isso possa parecer, eu não queria que meu pai fosse para a cadeia. Droga, ele é meu pai!”

Eu escutava tudo o que ela dizia, e aquele quadro tenebroso ia se desenhando na minha cabeça. O rosto de Shirley era uma máscara de louça, branca e rígida. Perguntei:

-E você nunca se preocupou com o que acontecia a ela?

Shirley fungou, enxugando o rosto com a  manga da roupa:

-Na verdade, não... só mais tarde eu entendi melhor que nós duas éramos vítimas, e você me mostrou, me ajudou a compreender. Sua mãe também. 

-E durante o tempo que seu pai esteve fora da cadeia, vocês mantiveram contato?

-Tentei... eu queria entender por que ele fazia aquelas coisas... mas ele me repelia. Até que descobri que eu poderia me vingar dele. Eu poderia usar Diana para me vingar dele. Ela tinha me contado tudo o que ele fazia com ela, e eu gravara a conversa com meu celular. Filmei tudo o que ela disse. Fui até ele, e exigi que ele me pagasse. Ele ficou furioso, tentou me bater e roubar meu celular, mas eu expliquei que eu tinha armazenado tudo em nuvem, e em outros dispositivos, e que se ele tentasse me agredir, ou não me desse o dinheiro que eu queria, eu iria à polícia e entregaria o vídeo. E assim, desde meus quinze anos, eu venho recebendo dinheiro de meu pai, até que ele perdeu o emprego e disse que não poderia mais me pagar. 

Minha cabeça girava, e eu começava a compreender que Diana chantageava o pai, usando a irmã como escudo. Aquilo era terrível! Senti raiva dela, e medo. A história que ela estava me contando  parecia ser a de alguém totalmente diferente da pessoa que eu via diante de mim, tão frágil e pálida. 

Era como se ela estivesse me contando algo que acontecera a outra pessoa, não a ela. Perguntei:

-Então foi por isso que você o encontrou na noite da morte de sua irmã? E o que ele entregou a você era um pacote com dinheiro, não era?

Ela empalideceu mais ainda:

-Quem te contou isso?

-A própria Diana viu vocês dois no bar conversando, e contou tudo a Drica por telefone. Drica me disse ontem à noite, quando ela e Susi foram lá em casa. Logo depois, enquanto ela ainda falava ao telefone, Drica ouviu ruídos de luta e ela desapareceu. Então descobrimos que ela estava morta. 

O rosto dela permanecia branco feito giz. Os olhos estavam injetados e úmidos. Ela enxugou o suor que brotou em sua testa, apesar do vento gelado. 

-Por que você não disse à polícia, quando Diana desapareceu, que você estivera com Pedro? E mesmo depois que o corpo dela foi encontrado, por que você não disse nada, Shirley?

Eu estava chorando, e ela também. De repente, ela me olhou e disse, quase aos berros:

-E por que você não foi contar tudo `a polícia ao invés de vir falar comigo? Porque você sabe, tanto quanto esse céu que está sobre nós, que eu seria incapaz de fazer mal a ela! Eu sei que você pode ter chegado a pensar que eu possa ter matado a Diana, não é? Mas eu não matei!

-Mas você sabia o tempo todo onde Pedro está, e não disse nada. Por que?

-Porque eu não queria que ele fosse preso! Você não entende?

-E onde ele está agora?

Ela não respondeu. Eu estava ofegante, respirando com dificuldades. O céu escureceu novamente, e as primeiras gotas de chuva começaram a cair. 

-Não sei... Ele estava escondido em um casebre na floresta, a alguns quilômetros da cidade. É uma velha cabana de caça, e ele costumava me levar lá com mamãe quando eu era pequena.  Mas a casa ficou muito tempo abandonada, e está quase em ruínas. Ele tirou do banco todo o dinheiro da indenização que recebeu quando foi demitido e escondeu lá para fugir, quando soube que Letícia, sua mãe,  sabia de tudo e ajudaria Doralice e Diana. Mas eu – só eu – sabia daquela possibilidade, da cabana... minha mãe pensava que a cabana não existia mais. Que tinha sido vendida, ou algo assim. Mas eu desconfiei, e fui até lá, e o encontrei. Depois, sem que ele me visse, deixei um bilhete na porta da casa, marcando um encontro com ele naquele bar imundo, obrigando-o a me entregar parte do dinheiro. Ou eu chamaria a polícia. E foi isso que Diana viu. Logo depois que ele saiu do bar, eu saí também, e fui para casa. 

-Shirley... você tem ideia do que fez? Você pode estar escondendo o assassino de sua irmã! Você precisa ir à polícia e contar o que sabe! 

-Não adiantaria! A essa hora, ele está bem longe daqui. Disse que nunca mais o veria. 

Mesmo assim, você terá que fazer isso. Ou então farei eu!

Ela me olhou com tamanho ódio, que eu pensei que fosse me matar. 

-O dinheiro é meu! É com ele que eu vou pagar minha faculdade e me manter antes de arranjar um bom trabalho! Se eu for a polícia, terei que devolver o dinheiro, e jogar meus sonhos pela janela por causa de um caso perdido! Ela já está morta, Jordana! Nada vai trazê-la de volta, mas eu estou aqui e preciso desse dinheiro! Para você, que nasceu e cresceu em um berço de ouro, e que vai herdar uma fortuna quando sua avó morrer, dinheiro nada significa, mas para mim, filha de uma professora que mal ganha para comermos, a coisa é bem diferente!




(continua...)










Um comentário:

  1. Grande texto, real para muitas meninas, crianças abusadas.
    Realidade, dura, mas realidade muito mais real que se pensa.

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