quinta-feira, 18 de maio de 2017

A MÃO E O LAÇO – CAPÍTULO VII






Fiquei esperando, os olhos presos em Drica, especialmente nos lábios dela, que pareciam pronunciar palavras absurdas enquanto ela falava:

-Diana me telefonou na noite em que ela desapareceu. O que eu vou contar pra você, ninguém sabe. É que nós não sabemos o eu fazer com esta informação.

As duas se entreolharam, e Drica continuou:

-Ela me disse que tinha acabado de ver o pai na cidade, e ela o tinha seguido. Ele foi até um bar esquisito, onde ele sempre costumava ir. Ela ficou na calçada, mas havia uma vitrine de vidro, e Diana ficou vigiando o pai... ele pediu uma cerveja... e logo Shirley apareceu, vindo de dentro do bar – provavelmente, do banheiro – e sentou-se ao lado dele. 

Engoli em seco; por que Shirley não me contara que tinha estado com o pai na noite do desaparecimento de Diana? Por que ela não tinha contado aquilo a ninguém? Drica fechou os olhos durante algum tempo, apoiando-se no braço do sofá. Notei que ela tentava conter o choro. Continuou, após respirar fundo algumas vezes:

-Diana me disse que os dois conversaram durante algum tempo; ele parecia estar furioso, e em um certo momento, entregou a ela um pacote que ela guardou na mochila. Shirley parecia estar se divertindo com a situação, enquanto Pedro, o pai, estava muito zangado. 

Tentei imaginar a cena. Algumas coisas passaram pela minha cabeça; uma delas, é que talvez Shirley estivesse contando a ele que agora elas não estavam mais sozinhas, e que havia gente ajudando-as, e que ele não poderia mais aproveitar-se de Diana. Talvez ela só quisesse ver a cara dele enquanto ela falava aquilo, e por isso, marcara o encontro. Ou então o pacote que ele lhe entregara era dinheiro, e ela o estivesse chantageando. Pensei naquilo, e uma luz se acendeu. Porque eu me lembrei de que quando mamãe e eu fôramos à casa de Diana para falar com Doralice, ela dissera que Pedro havia desaparecido e que ela não sabia do paradeiro dele. Mas se ninguém sabia, como Shirley ficara sabendo? E uma outra coisa que passou-me pela cabeça, era que eu poderia estar errada, e que provavelmente Shirley tinha uma boa razão para não ter contado aquilo a ninguém. Será que estaria protegendo o pai? Se ela sabia do paradeiro dele, por que não o denunciava à polícia, se ele era suspeito pela morte da irmã?

Perguntei a Drica:

-E o que mais ela disse?

Ela continuou:

-Disse que ficou olhando os dois durante algum tempo. Shirley falava com o pai e às vezes ria. Naquelas horas, ele ficava ainda mais enfurecido. Depois, ele se levantou e atravessou o bar feito um furacão, saindo para a calçada e se perdendo na multidão. 

-E quanto a Shirley?

-Pois é... esta é a parte estranha. Estávamos conversando sobre isso ao telefone, quando de repente, ela deixou de me responder, e disse: “Você? O que você quer de mim?” E então, o telefone ficou mudo. Tive a impressão de que ela gritou. 

Gelei; senti calafrios subindo pela minha espinha. Provavelmente, Pedro a encontrara, e acabara com ela, por medo de que ela contasse à polícia tudo o que vinha acontecendo. Pelo menos, era nessa história que eu queria acreditar. Mas ao mesmo tempo, a ideia de que o pacote que Pedro entregara à Shirley continha dinheiro, não me saía da cabeça. 


Eu disse às meninas que elas deveriam ter contado aquela história à polícia. As duas disseram que não sabiam se seria adequado, pois poderiam estar comprometendo Shirley; então preferiram contar a mim, que naquele momento, era sua melhor amiga. Notei que elas tinham medo de Shirley, e minhas suspeitas se confirmaram logo em seguida, quando Susi disse de repente, já à porta de casa, de saída:

-Você tem sorte por ela gostar de você. Já vi o que ela faz às pessoas de quem ela não gosta. 

-O que você quer dizer?

Ela hesitou. Drica segurou-a pelo antebraço, dizendo:

-Vamos embora. Precisamos ir. Já ficamos tempo demais aqui. 

Mas Susi se desvencilhou dela, e explicou:

-Shirley pode parecer ser alguém que ela realmente não é. Às vezes parece doce, outras vezes parece amarga feito fel. Se ela gosta de você, fará de tudo para ajudar em tudo o que for preciso, mas se ela não gosta, ou se sente contrariada por alguma coisa que você disse, ela é capaz de derrubá-la no chão. Ela pode colocar as pessoas contra você. 

Eu fiquei ali, parada e confusa, olhando para elas sem saber o que dizer. Drica tinha chamado o elevador, e quando ele chegou, praticamente arrastou a amiga para dentro dele. Fechei a porta, ainda sentindo no ar o peso das palavras de Susi ecoando em meus ouvidos.
Mamãe estava parada à porta da sala, os braços cruzados, recostada à parede; pensei no quanto daquela conversa ela tinha ouvido, e ela perguntou:

-O que elas queriam?

-Você não escutou a conversa?

-Não, eu estava no banho.

Eu poderia ter contado a ela. Eu poderia ter aberto minha boca e colocado Shirley em uma situação muito difícil, mas sem saber porque, inventei uma mentira. Era a primeira vez que eu mentia para minha mãe:

-Vieram apenas agradecer pelo que fizemos pela Diana. Sabe, elas eram muito amigas.

Minha mãe não pareceu muito convencida:

-Hum... então por que essa cara espantada?

Eu tentei rir:

-Mãe, essas meninas quase acabaram comigo no primeiro dia de aula... sinceramente, quando as vi, gelei por dentro. Elas são bem... esquisitas. Metem medo na gente. Vou dormir um pouco.

Dei-lhe um beijo no rosto, e enterrei em meu quarto, desabando de joelhos no tapete. Meu coração começou a bater mais rápido do que o normal. Eu me sentia dona de um segredo muito grande, que eu não sabia se deveria carregar. Estava ansiosa, e não sabia o que fazer. Shirley mentira para mim duas vezes: sobre a noite do desaparecimento de Diana, e também sobre o que fizera após o velório. 
Resolvi tomar um dos comprimidos para dormir de minha mãe – sem que ela soubesse, é claro- e apagar. E foi o que fiz.

No dia seguinte, bem cedo, acordei e custei a me centralizar dentro daquela realidade que eu teria que lidar em apenas algumas horas. Porque decidi que precisava confrontar Shirley e perguntar a ela seus motivos antes de contar tudo à minha mãe e à polícia. Cheguei à janela, e vi um caminhão de mudanças parado junto à portaria do prédio. Havia mobília sendo carregada para dentro. 

Tomei uma ducha, e fui tomar o café da manhã. Mamãe já tinha posto a mesa quando cheguei na cozinha. 

-Bom dia, filha linda. conseguiu dormir bem?

-Bom dia, mãe querida. Sim, dormi. E você?

-Mais ou menos. Mas hoje é domingo, e posso recuperar meu sono à tarde.

Nós nos sentamos e notei que, enquanto comíamos, minha mãe me olhava com o canto dos olhos. Ela era mestra em descobrir os segredos que a gente não queria contar, e parecia ler dentro das pessoas. Geralmente, suas impressões eram acertadas. Eu não queria falar sobre a visita da noite passada, e então saí pela tangente, antes que ela começasse a fazer perguntas:

-Parece que tem alguém se mudando para o prédio.

-É verdade. O casal de idosos do primeiro andar me contou, no elevador, que há um rapaz se mudando para o apartamento vazio do quinto andar. Bem debaixo do nosso. Dizem que é um estudante de Direito.

-Pôxa, eles prestam atenção, hein? 

-Disseram que têm medo que ele transforme o apartamento em um bordel, já que é solteiro.

-Quanto preconceito!

Rimos. Terminamos de comer em silêncio, e perguntei:

-O que vai fazer hoje? 

Ela encolheu os ombros, dizendo que ia ficar em casa, enrolada em cobertores, assistindo a uma pilha de filmes antigos. Perguntou se eu queria ficar com ela, e eu concordei, mas disse que antes precisava sair para falar com Shirley e ver como ela estava. Ela ficou séria, respirou fundo, mas não disse nada. Beijei-a, e enquanto deixava o apartamento, liguei para Shirley. Marcamos um encontro na pracinha. 

Ao chegar na portaria do prédio, deparei com o novo morador. Ele era simplesmente lindo! Um gato! Ele me olhou, sinalizando um olá com a cabeça, e sorrindo discretamente. Passei por ele, e senti os olhos dele fixos às minhas costas enquanto eu passava. Já estava na calçada, quando escutei-o me chamar:

-Hey! Por favor...

Virei-me na direção dele. Ele se aproximou, apresentando-se:

-Sou Noel.

Segurei a mão estendida:

-Sou Jordana. Prazer em conhecer você.

-Prazer, Jordana. Você mora aqui no prédio?

-Sim. Sexto andar. Bem acima do seu apartamento. 

De repente, achei meu comentário desnecessariamente sugestivo, e senti meu rosto corar. Ele pareceu não perceber, e continuou:

-Eu estou aqui para estudar. Na verdade, vou começar a estudar Direito no ano que vem, mas meus pais acharam melhor que eu me mudasse de uma vez e me adaptasse ao apartamento, e à vida sozinho. 

Ele sorriu, talvez constrangido por dizer tanto de si mesmo a uma perfeita estranha. Tentei deixa-lo à vontade:

-Estou terminando o segundo grau também. Semana que vem será minha última semana. Mas ainda vou fazer um ano de vestibular antes de tentar a faculdade.

-E o que você quer estudar?

-Arquitetura. Adoro casas. 

Ficamos ali na calçada, um tanto embaraçados, sem saber o que mais dizer um ao outro, mas sem vontade de nos afastarmos. Olhei nos olhos dele, e meu coração fez um movimento estranho dentro do meu peito. Eu nunca tinha me sentido daquele jeito perto de nenhum garoto, mas os olhos azuis  de Noel me arrebataram. Seu cabelo cheio de cachinhos loiros também. E logo a mim, que nunca gostara de meninos loiros. Mas nele, tudo parecia perfeitamente harmonioso. Tudo nele estava exatamente no lugar certo, como tinha que ser, e seria impossível imaginar que seus cabelos pudessem ser de outra cor – pretos, como eu gostava – ou que seus olhos não tivessem aquele tom de azul cobalto, escuro e absurdamente raro. Uma brisa fria soprou em meu rosto, e pensei que alguma coisa muito boa estava acontecendo a mim, a primeira coisa realmente boa depois de tudo pelo que vinha passando desde a morte de meu pai. 

Mas eu precisava ir. Shirley já deveria estar a minha espera, e ela não gostava de esperar. Eu disse:

-A gente se vê, Noel. 

Ele respondeu, sem tirar os olhos dos meus:

-Com certeza. A gente se vê, sim.

-Se precisar de alguma coisa... eu e minha mãe moramos no sexto andar. Digo, às vezes... você acaba de se mudar, e pode precisar de ... sei lá...

-Uma xícara de açúcar?

Eu ri:

-Quem sabe? Pode ser. Tchau!

Saí quase flutuando pela rua, sentindo meu andar desengonçado e finalmente tropeçando numa parte mais alta da calçada. Não olhei para trás para ver se ele tinha notado. Apertei o passo, e quando cheguei na pracinha, estava quase correndo. Vi Shirley sentada em um dos balanços. Estava muito frio, e ameaçava chover, e por isso, a pracinha estava vazia. 

Shirley se levantou quando me viu. Notei as olheiras profundas sob seus olhos, e o cabelo mal arrumado, preso em um rabo de cavalo. Também notei os jeans velhos, rasgados nos joelhos, e a camiseta preta de mangas compridas sob a jaqueta jeans surrada. Ela sempre procurava andar muito bem arrumada, e aquele visual não combinava com ela. Mas mesmo assim, estava estonteantemente linda. 

Nos abraçamos, e depois nos sentamos nos balanços, lado a lado.  Perguntei:

-Como você está?

-Mais ou menos. Não dormi muito bem, mas acho que vou ficar bem. Eu sempre fico. E você?

-Estou indo...

Fez-se silêncio, e após alguns minutos, ela perguntou:

-Por que me chamou para vir aqui com esse frio? Poderíamos ir até a sua casa...

Me perguntei por que ela jamais me convidara para ir até a casa dela. Mas deixaria aquele assunto para depois. 

-É que eu não queria que minha mãe escutasse a nossa conversa. 

-Vamos a uma lanchonete então. Acho que vai chover.

-Não... Shirley, ninguém pode escutar o que eu vou te contar, e nem o que eu vou te perguntar. 

Ela me olhou de uma maneira preocupada e curiosa:

-Bem, desembucha!

-Por que mentiu para mim?

Ela ficou visivelmente perturbada. Vi quando uma pequena veia em sua têmpora se agitou, e seu rosto corou um pouco. Ela pigarreou:

-Tá bom. Você está falando de ontem à noite, não é? Logo após o velório. Eu disse que ia para casa. Que queria ficar sozinha. Mas não fui. 

-Isso mesmo.

-Como você descobriu?

-As amigas de Diana estiveram lá em casa. Me contaram que você as procurou.

Vi os olhos dela se tornarem frios e raivosos, mas ela se controlou.

-Você contou a elas sobre Diana ser abusada pelo pai. Por que? Por que você as procuraria para contar uma coisa dessas, agora que ela se foi? Por que não tentou ajuda-la antes?

-Sei lá, eu só achei que se elas são... eram... as melhores amigas de Diana, mereciam saber da verdade. E se eu nunca contei nada a ninguém antes, foi porque a própria Diana me pediu. 

Tentei me acalmar. Ela estava mentindo de novo.

-Não foi isso que a Diana me disse na festa de aniversário do Adílio! Ela me contou que foi você que não queria que ninguém soubesse o que acontecia com ela, porque se alguém ficasse sabendo, saberiam logo de que a mesma coisa também acontecia com você. Ela também me disse que você não queria que ninguém soubesse na escola que vocês eram irmãs. Por que fez isso, Shirley?

Ela se levantou do balanço, e passou a medir o chão de um lado ao outro na minha frente, dando passos largos. Seu rosto era uma incógnita, algo entre medo, ódio, vergonha, raiva, decepção, ressentimento. Por um momento, tive medo de que acontecesse uma explosão, que ela iria começar a gritar ou me agredir em plena praça. Por detrás dela, no céu cinzento e pesado, um raio cortou as nuvens ao meio. 

De repente, ela começou a chorar. Parecia tão indefesa e frágil, que eu me levantei e a abracei, tentando acalmá-la. Ela se deixo ser reconfortada, deitando a cabeça em meu ombro. Shirley era mais alta que eu, e tive dificuldades de suportar seu peso. Quando se acalmou, ela me olhou:

-Você não entende...

-É claro que não, Shirley. Mas gostaria de entender. Somos amigas, não?

-Somos sim. Vou te contar tudo. Tudo mesmo. 



(continua...)




Um comentário:

  1. Vim à procura de mais um capitulo. Eu venho amiúde.
    Entretanto aproveito para deixar o meu agradecimento pela visita no meu Birras e, pelas palavras que me deixou. Gostou daquela rua na minha terra... As grandes cidades escondem um pouco o céu não deixam ver o azul, compreendo.
    Abraço e beijinho.
    Dilita

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