domingo, 6 de agosto de 2017

JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO II







Era quase o Natal de 2005. Nando e Maria viajariam juntos para o Brasil para visitar as suas famílias, e ficariam lá por uma semana. Giulia não quis ir, pois precisava economizar, e eu decidi ficar com ela. Meus pais ficaram decepcionados, mas no fim acabaram concordando que seria uma grande economia se eu não viajasse. Seria meu primeiro natal em Paris, e longe de minha família. Quando Nando soube que eu passaria o natal por ali, ele disse:

-Não entendo você... vive reclamando que tem saudades de casa, dos pais, do Bob...

-Não é Bob, é Fido.

-Que seja... e resolve não viajar? Você poderia ir com a gente.

-Não, obrigada.

A possibilidade de ficar horas com eles dois em um avião, vendo eles namorarem, me dava arrepios. E a possibilidade de ficar longe dele durante uma semana inteirinha também, mas era dos males o menor. Giulia veio em meu auxílio. Estávamos todos na cozinha, e era de manhã bem cedo. Lá fora estava muito frio, e eu usava um suéter velho, as mangas compridas demais, e minhas calças de pijama. Ela veio por trás de mim, que estava sentada em uma cadeira, e pôs as mãos nos meus ombros:

-Cristina vai ficar comigo. Pedi a ela que me fizesse companhia. Além disso, vamos economizar um bom dinheiro ficando por aqui.

Ele concordou com a cabeça:

-Se a questão é essa...

Mas Nando parecia um tanto aborrecido, melancólico. Horas mais tarde, encontrei-o à janela da sala, o nariz colado na vidraça, olhando lá para baixo. Cheguei em silêncio por trás dele, cutucando  suas costelas de brincadeira. Ele levou um pequeno susto, e riu um pouco quando me viu. Fiz graça:

-Está no seu inferno astral?

No fundo, eu torcia que ele me fizesse alguma confissão, do tipo que diz: “Eu e Maria não estamos muito bem,” mas aquilo não aconteceu. Ao invés disso, ele deu de ombros:

-Acho que natal é uma época melancólica. Sabe, perdi meu pai uma semana antes do natal.

Fiz uma leve carícia no ombro dele:

-Desculpe, eu não sabia!

-Está tudo bem. Já faz mais de cinco anos. Já me conformei. Se é que um dia a gente se conforma.

Abracei-o, afundando minha cabeça em seu peito, aspirando o cheiro do seu suéter de lá velho. Ele me abraçou de volta, passando uma das mãos de leve nas minhas costas. Ficamos assim durante um tempo curto que eu quis que durasse horas. A eletricidade que percorreu meu corpo e foi parar justamente naquela pequena parte onde não deveria, me fez estremecer. Notei que ele respirou mais fundo, e em seguida, me soltou. 

Alguma coisa aconteceu, pois depois daquilo, ele franziu as sobrancelhas e ficou me olhando um pouco mais de tempo. Parecia confuso. Eu já estava me deixando levar pela minha imaginação excessivamente criativa quando a campainha tocou. Giulia passou por nós, quebrando a magia do momento – aliás, do meu momento – e foi abrir a porta. Era Maria. 

Horas depois, eu estava embrulhada em meu sobretudo, que encobria minhas três camadas de blusas de lã. Usava dois cachecóis e uma boina de lã. Andava pelo meu jardim, que de tanto frio, estava vazio. Eles partiriam na manhã seguinte. As árvores nuas estavam tão melancólicas quanto eu, e alguns flocos de neve começaram a cair. Eu me sentei em um dos bancos de madeira, e fiquei ali, o nariz congelando de tanto frio. Pelo menos, eu estava sentindo alguma coisa intensa. Nem que fosse o frio. Precisava me castigar pela minha imprudência, pela minha tola e repentina autoconfiança fora de lugar. 

Depois que Maria chegou, os olhos de Nando passaram a brilhar, e ele ficou alegre como sempre.  Na cozinha, enquanto Giulia preparava um chá para todos nós, eu fui ajuda-la. Ela me olhava de lado, tentando estudar as minhas feições. 

Ela disse baixinho:

-Eu vi.

Ergui os olhos das colheres que estava colocando sobre a mesa, e respondi no mesmo tom:

-Viu o que?

-Vocês abraçados. Cris... eu...

A coisa que eu menos queria, era que ela sentisse pena de mim. Sussurrei:

-Está tudo bem, sei o meu lugar. Foi um abraço de amigos.

Ela negou com a cabeça, respirando profundamente.

-Já estive aonde você está, Cristina. E pode crer: é o pior lugar do mundo.

De repente, meus olhos se encheram d’água, e eu simplesmente não consegui detê-las antes que caíssem. Ela atravessou para o lado da mesa onde eu estava e me abraçou sem dizer nada. Me detestei por ser a coitada daquela história. Enxuguei as lágrimas com as costas da mão, quase com raiva. Depois, sequei o restante em um pedaço de toalha de papel, respirei fundo, funguei um pouco. Ela me olhou com carinho:
-Está tudo bem?

Fiz que sim com a cabeça, e fomos levar o chá até a sala, onde os dois pombinhos namoravam no sofá. Era óbvio que os dois estavam muito apaixonados, pelo jeito como se olhavam. Bebi um gole do chá quente, e queimei a garganta de propósito. Eu merecia aquilo. Depois do chá, eles foram para o quarto dele. Antes de entrar, Nando virou o pescoço e olhou para mim de um jeito que nunca tinha olhado, e eu me detestei, porque achei que ele tinha percebido tudo, e que estava com pena de mim. Então peguei meu casaco e coloquei sobre camadas de suéteres de lã e cachecóis e fui andar sozinha pelo parque. Giulia ainda tentou me convencer a não ir:

-Logo vai escurecer, e está frio demais!

-Mas eu quero ir. Preciso sair daqui, Giulia. 

-Quer que eu vá com você?

-Não. Quero ficar um pouco sozinha. Volto logo, antes de escurecer.

E eu estava sentada ali naquela friagem, envolta em meus pensamentos, quando um senhor de idade se aproximou. Eu estava tão absorta que só percebi a presença dele quando ele chegou bem perto. Pensei que ele fosse passar direto, mas ele parou junto ao meu banco e perguntou:

- Je peux m'asseoir un petit moment ?

Devagar, o sentido da frase chegou aios píncaros do meu pequeno entendimento do francês. Ele queria se sentar por um momento. Acenei positivamente com a cabeça:

-Oui. 

Cheguei um pouco para o canto para dar-lhe lugar. Ele se sentou, erguendo a gola do casaco. Eu me senti um pouco perturbada; afinal, queria estar sozinha. Mas tinha o receio de que não seria nada educado me levantar e ir embora naquele momento. Para minha surpresa, ele me perguntou em português – com um leve sotaque:

-Onde está seu namorado?

Olhei para ele sem entender. Ele repetiu a pergunta mais devagar:

-Onde está seu namorado?

-Ah, o senhor fala a minha língua! Como sabia que eu sou do Brasil?

-Vejo que você sempre vem aqui. Fui casado com uma brasileira durante muitos anos. Eu... já a tinha visto aqui antes. Com seu namorado.

Entendi que ele só poderia estar falando de Nando, e ri, sem graça:

-Ah, ele? Bem, ele... não é meu namorado. É só um amigo.

Ele me olhou longamente. Depois, assentiu com a cabeça:

-Eu quase nunca me engano...

Eu ri de novo. Ele permaneceu sério.

-Eu venho aqui há muitos anos. Me faz bem. Foi aqui que... passei os melhores momentos de minha vida. 

Percebi que ele falava da esposa, e tentei ser solidária:

-Ah, a sua esposa... ela morreu há muito tempo?

Ele me olhou espantado:

-Quem disse que ela morreu? Sofia está muito bem. Melhor do que eu.

Senti meu rosto passar do arroxeado do frio ao vermelho da vergonha:

-O senhor me desculpe... eu pensei... bem, sinto muito pelo que eu disse.

Ele fez um gesto com a mão, como se me pedisse para esquecer as desculpas:

-Mas ela não está mais comigo. Ela se foi há muitos anos. Com um outro homem que a olhou da mesma forma que aquele rapaz olha para você. Aquele, que vem sempre quando você está aqui. 

Meu coração deu uma batida muito forte, e eu quase engasguei:

-Não... o senhor está enganado. Eu e Nando somos amigos. E ele já está comprometido. Se o senhor visse a namorada dele... ela é simplesmente... perfeita. Linda. Sabe? Enquanto que eu...

Ele me interrompeu, dizendo devagar:

-Você tem uma beleza mais sutil e muito mais intensa. A beleza que é gritante e óbvia sempre morre um dia... mas a beleza que é sutil e delicada... esta pode durar uma vida toda.

Sorri para ele, me sentindo agradecida pelo elogio, mesmo sabendo que ele estava apenas tentando me animar. Ele pareceu ter adivinhado meu pensamento:

-Não estou sendo gentil. Você é uma bela mulher. Mas precisa descobrir isto. 

Fiquei pensando no que ele acabara de me dizer, quando ele se ergueu devagar, esfregando as mãos enluvadas:

-Bem... preciso ir. Bonsoir!





Um comentário:

  1. Olá amiga, como sempre, mais uma postagem interessante,conto, jardim das desilusões. Lindo e curioso, voltarei para acompanhar.

    Abraços, tenha uma noite abençoada e que seu amanhecer seja com muitas energias boas para que reinicie uma semana com saúde e força para seguir sua caminhada feliz. Abraços, fica na paz de Deus.
    Lourdes Duarte.

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