quinta-feira, 17 de agosto de 2017

JARDIM DAS DESILUSÕES – CAPÍTULO VI – FINAL






O funeral aconteceu em um dia especialmente frio no qual uma chuva fina e cortante era derramada em rajadas pelo vento. Os pais de Maria acharam melhor sepultá-la em Paris. Seria doloroso demais levar o corpo de volta ao Brasil. 

Abracei Nando, e ele correspondeu-me, me apertando com força. Abracei as amigas-girafa, que choravam copiosamente, e também abracei os pais de Maria. Todos me abraçaram de volta calorosamente, como seu eu fosse alguma espécie de porto seguro. Senti-me hipócrita: ah, se eles soubessem! Ninguém desconfiava do que estava acontecendo entre mim e o namorado de Maria enquanto ela morria. 

Na volta, fui caminhando com Giulia, os braços em volta dela, querendo proteger minha amiga da dor que sentia. Finalmente, a minha ficha caiu, e todo o drama da situação veio à tona, me fazendo recuperar a minha capacidade de sentir, a minha empatia. Chorei também. Por Maria, por todos nós, que andamos por aí tentando aprender a viver. 

No dia seguinte ao funeral, a primeira coisa que eu vi ao abrir a porta do quarto, foram as malas de Nando. Ele foi embora naquele dia. Não disse a ninguém para onde ia, apenas que ia viajar pelo mundo, e nem sabia como ou por onde começar, mas que não aguentava mais ficar em Paris. Nós nos abraçamos à porta, quando nos despedimos. Ele chorou muito no meu ombro, e me deu um beijo demorado na boca. 

Perguntei se ele voltava. Ele encolheu os ombros, enxugando as lágrimas. Disse que talvez voltasse quando - e se - estivesse curado. Eu disse a ele que estaria ali, esperando.

E eu esperei por ele durante meses, que se transformaram em anos. Errou feio quem disse aquela célebre frase, “Longe dos olhos, longe do coração.” Tentei contato pelo seu telefone, mas com certeza, estava desligado, ou ele trocara o chip. No Brasil, a família dele dizia que ele estava viajando pela África. Não quiseram dar seu telefone, a pedido dele. 

Giulia se formou, voltou ao Brasil. Fiquei no mesmo apartamento, que aluguei. Consegui um emprego em uma cafeteria, que permitia – com a ajuda financeira de meus pais – que eu pagasse as contas. Foram dois anos e meio naquela espera. Foram verões, outonos, invernos e primaveras, em que eu me sentei naquele jardim mágico – o Jardin de l'Hôpital Vaugirard - e esperei por ele. 
Meus pais diziam que alguém tão graduado não poderia passar a vida trabalhando em uma lanchonete, e eu sabia que eles tinham razão. Estava chegando a hora de ir embora. As amigas de Maria acabaram virando minhas amigas, e descobri que elas eram apenas garotas, como eu, com suas inseguranças e medos. Aprendi que eu era uma pessoa que tinha valor, e que tinha muito a aprender e a ensinar.

 Comecei a visitar asilos nas minhas horas vagas. Levava livros, e lia para os idosos, e conversava com eles. Já falava francês fluentemente – precisei me empenhar, agora que estava sozinha e precisava resolver tudo . E conversar com os idosos me ajudou muito a melhorar meu desempenho na língua. Também abriu uma parte sensível dentro de mim que eu não conhecia bem; eu tinha a impressão que eles me ensinaram sentir de novo, a fazer parte. 

Mas a hora de voltar ao Brasil estava chegando, e eu me dizia, toda vez que tal pensamento me acometia, ou que eu recebia um telefonema falando sobre isso: “Só mais uma semana...”

Certa tarde, eu estava no hospital, pronta para começar minha tarde de leituras, quando a enfermeira me chamou, dizendo que havia um novo paciente que precisava muito de companhia, pois estava bastante entristecido. Segui-a até o quarto, pronta para me apresentar e começar a ler para ele. A enfermeira me explicou que seu nome era Augustin. Ela abriu a porta, e eu entrei, me aproximando do leito:

- Bon après-midi, monsieur Augustin...

Minhas sobrancelhas se ergueram de surpresa quando o vi: era o velhinho do parque! Ele sorriu, me cumprimentando em português:

-Ora, se não é a minha velha jovem amiga! Como vai?

-Olá! Estou feliz em vê-lo... quero dizer... preferiria que o senhor não estivesse de cama...

Ele riu, divertido com o meu constrangimento:

-Não precisa se desculpar. Parece que você sempre se desculpa quando nos encontramos.

-Só nos encontramos uma vez antes desta, suponho...

-É verdade... mas eu a vi muitas vezes antes. 

Sorri de volta para ele, começando a mostrar-lhe os livros que trouxera para que ele escolhesse um, mas ele disse:

-Esqueça os livros. Vamos conversar. Estou no final da minha vida e não me interessa ler mais nada. 

Concordei com ele, colocando os livros na mesinha.

-Sobre o que quer conversar?

-Sobre você. Já se casou com aquele jovem?

Fiquei triste de repente, e por mais que eu desfarçasse, ele percebeu. 

-Vejo que não...

Balancei a cabeça, negando e respirando fundo. E de repente, eu estava contando a ele toda a minha história com Nando. Falei sobre como me senti ao saber sobre o acidente de Maria, e ele me ouviu sem me julgar. Quando terminei meu relato, ele disse:

-Eu também quis que o desgraçado que me roubou a esposa morresse... mas ele está bem vivo, e eu estou morrendo. 

Assenti com a cabeça, ajeitando os travesseiros dele, querendo fazer alguma coisa que o deixasse melhor. 

-O que o senhor tem?

-Tenho o que quase todo mundo que está morrendo têm hoje em dia: câncer em estado terminal. Se bem que eu estaria em estado terminal mesmo sem ele... afinal, tenho 92 anos!

Ele riu, e eu ri junto. Era importante ter bom humor em uma hora como aquela. Ele me perguntou:

-Mas você acha que ele vai voltar?

Balancei a cabeça, negando, e baixei os olhos para as minhas próprias mãos, que eu torcia em meu colo. Senti que lágrimas começaram a se formar devagarinho, e engoli a fim de sufocá-las. 

-Meus pais me dizem que já está na hora de voltar ao Brasil, e eu concordo com eles. Preciso deixar tudo isso para trás, esquecer Nando e essa história. Mas como?

Ele não respondeu minha pergunta; mas disse:

- Algumas histórias não terminam bem. A vida é assim. Mas eu vi nos olhos daquele rapaz que ele a amava. Penso que ele se sente culpado pelo que aconteceu à namorada quando olha para você. É difícil para ele admitir que estava se apaixonando por outra mulher. E ele perdeu duas pessoas: a mulher e o filho que ela estava esperando. 

Concordei com a cabeça. Estava ficando tarde e eu precisava ir. Olhei para Augustin, afagando a mão dele sobre o lençol: 

-Infelizmente, preciso ir. Mas eu volto amanhã. Prometo!

Ele segurou a minha mão antes que eu pudesse retirá-la, e me disse:

-Não volte mais aqui. Este lugar não é para você. Aqui só há morte. Você é jovem demais, e precisa recomeçar a viver e a ser feliz. Procure pela vida! E ela não está aqui, pode ter certeza. Aqui somos todos velhos e estamos morrendo. E há por aqui muitos velhos egoístas que não souberam viver suas vidas e que vampirizam os jovens através de seus lamentos e exigências.

Ele esperou um pouco antes de continuar:

-Muitas pessoas vêm aqui mais por elas mesmas do que por nós, a fim de se esconderem de seus próprios fantasmas. Como você. Acha que assim vai redimir-se de seus pecados. Mas escute: você não tem pecado algum! Seu único pecado será, no futuro, arrepender-se por ter desperdiçado uma parte importante da sua juventude em uma história que acabou. E com pessoas que você vai perder. Porque você é do tipo que se apega, e vai sofrer quando as pessoas que você vem visitar partirem. Não faça de sua vida um martírio! Você merece coisa melhor.

Eu não sabia o que dizer enquanto as coisas que ele estava falando para mim me caíam como luvas. Afaguei a mão dele, e nós nos despedimos. Quando eu estava à porta, ele me chamou:

-Prometa que vai ter uma boa vida.

-Eu prometo.

Nunca mais voltei ao hospital. 

Arrumar as malas e deixar Paris não foi nada fácil. Eu o fiz em uma manhã de outono, escura e fria. Sobre o mundo, estendia-se um céu quase negro. Propício ao que eu sentia por dentro. No táxi, eu olhava as ruas que se tornaram tão minhas conhecidas pela última vez. Pensava que não conseguiria voltar a Paris nunca mais, nem mesmo em viagem de férias, pois deixava lá muitas lembranças e muitas saudades. 

Entrei no avião que me levaria de volta ao Brasil. Ele decolou, e esticando o pescoço, dei minha última olhada na cidade-luz. Depois, fechei os olhos. 
Não tive mais tive notícias de Nando. Soube que Giulia se casara com um espanhol. Ela me visitou uma vez, quando passava férias no Brasil – estava morando na Espanha com o marido. Vê-la despertou tantos sentimentos adormecidos, que quando ela se foi, após dois dias, custei a voltar a ser eu mesma. 

Eu estava trabalhando, e tinha namorado alguns homens. Mas não amei nenhum deles. 

Seis meses após voltar ao Brasil, cheguei em casa após um dia de trabalho e quando passava por meu pai, que fazia o jardim, ele me disse que havia alguém na sala de estar esperando por mim. Pensei que fosse um de meus amigos, e entrei. Ouvi minha mãe conversando com alguém, e quando ela me ouviu entrar, disse:

-Filha! Que bom que chegou. Seu amigo já está esperando há mais de uma hora!

Cheguei na sala e deparei com Nando à minha espera. Minha mãe logo percebeu o clima, e retirou-se em silêncio, passando por mim e piscando um olho. 
Só consegui abrir os braços e me jogar nos braços abertos que ele me estendeu.
Afinal, nem todas as histórias de amor terminam mal. Ele me disse que estava pronto para esquecer o passado, e que queria um futuro comigo. E eu o dei a ele.

FIM







Um comentário:

  1. Bom estar aqui...

    Aconteceu um probleminha com a lista de blogs que eu sigo, por isso estou seguindo de novo.

    Beijos
    Ani

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