terça-feira, 6 de março de 2018

AMOR E REVOLTA - CAPÍTULO XX







Jane percebia que o clima na família de Marvin era totalmente diferente do que ela conhecera em toda a sua vida. Todos se abraçavam e se beijavam carinhosamente. Rafaela era carinhosa, preocupada sempre com o bem-estar de todos. Os avós, mesmo que um pouco brigões uns com os outros, na verdade eram amigos. Passavam muitas tardes jogando cartas juntos, ocasiões nas quais consumiam grandes quantidades de café e licor. Helena fazia deliciosos bolos de chocolate, maçã com canela, baunilha, banana e laranja. Os lanches eram ocasiões alegres, onde todos sentavam-se à mesa rindo e conversando. Nas noites de sábado, os pais iam sair juntos. Gabi, Max e Luis apareciam, e eles ou iam sair para fazer algum programa – dançar, ir ao cinema, ir a uma lanchonete ou passear por aí – ou então assistiam a um filme juntos, ou jogavam algum jogo divertido. 

 Os pais de Marvin se beijavam, se abraçavam e falavam carinhosamente um com o outro. Marvin e Melissa também pareciam muito entrosados. Totalmente diferente do que acontecia entre ela e Max! Em uma ocasião, ela viu a maneira carinhosa com que Rafaela dava conselhos aos filhos, escutando-os sobre suas dúvidas e tentando acalmá-los. 

E eles a tinham recebido como a um membro da família. Ninguém fazia perguntas indiscretas ou cobranças. Os avós a beijavam quando chegavam à casa, e Jane descobriu que conversar com eles não era chato, como ela pensava, mas divertido e muito esclarecedor. A experiência de vida que eles tinham era muito útil e bonita, e eles estavam sempre prontos a partilhá-la. 

Jane pensou que nunca tivera tanta intimidade assim com sua própria família. Os pais se tratavam com frieza e cinismo, embora raramente brigassem. Ela achava que os dois não se amavam. Ela crescera em um clima de permissividade que, ao invés de trazer a ela maturidade, dera-lhe muita insegurança e uma visão equivocada sobre as pessoas e sobre o conceito de família. 

Ela viu que Gabi, Luis e Melissa não eram chatos, como ela pensava: eram muito legais! E ela sentiu que para ser quem ela era, não precisava chocar as outras pessoas ou impor a sua vontade sobre a dos outros. 

Seus pais deram notícias; disseram que estavam bem, mas que não podiam dizer onde estavam. Depositaram dinheiro para eles e disseram que assim que as coisas melhorassem, entrariam em contato e mandariam busca-los. Max resolveu voltar para casa. Ela preferiu ficar onde estava: morando na casa de Marvin, onde se sentia muito bem. Seguia as regras da casa – proibido andar nu pela casa. Proibido ficar acordado após uma da manhã. Proibido sair às quintas à noite, pois era a noite da família. Proibido consumir drogas ou álcool. E ela se surpreendeu ao aprender a respeitar e gostar de limites pela primeira vez na vida. Aquilo deixava-a mais segura, pois sabia exatamente até aonde poderia ir. E ela percebeu que quem impunha limites, era quem realmente se importava. 

Max teria se perdido totalmente se não tivesse descoberto Gabi. A garota ficou ao lado dele, dando-lhe apoio e lutando para que ele não bebesse tanto e deixasse de consumir tantas drogas. Sair com a irmã, o namorado e os novos amigos também ajudou para que ele começasse a pensar seriamente em dar um novo rumo à sua vida. O raro contato com os pais deixou de exercer nele a velha pressão para mostrar-se sempre tão forte, tão arrogante, tão independente. Max decidiu que não estava pronto para dispensar os cuidados de pessoas mais experientes que ele, e ele descobriu isso ao conhecer os pais de Gabi, e também Rafaela e Cadu. Ele passou a prestar mais atenção. Passou a considerar as outras pessoas como pessoas que poderiam ser mais experientes e sábias do que ele, com muito a ensinar. Max simplesmente admitiu que não sabia tudo, nem era o dono da verdade. aquilo fez com que novos horizontes se abrissem para ele. 

A ONG foi descontinuada, e as crianças, transferidas para outros espaços. Jane fez de tudo para que isso não acontecesse, mas ela sozinha não tinha condições de administrá-la. Ainda tentou falar com Sunny sobre o assunto, mas esta alegou que não havia nada que ela pudesse fazer a respeito. O fechamento da ONG foi um grande choque para Jane. Mas Marvin estava lá para ajuda-la a superar. 

Um dia, Jane saiu cedo para dar uma caminhada sozinha. A manhã estava linda, e como não se exercitava há algum tempo, achou que seria uma boa ideia sair para caminhar. As ruas ainda estavam desertas, e fazia um pouco de frio. Eram seis horas de uma manhã de sábado. Um mês e meio havia se passado desde o que acontecera, e ela já se sentia mais à vontade para sair às ruas. Resolvera tirar um ano sabático, afinal de contas. Seu amigo Juninho nunca tentou fazer contato com ela, ou perguntar como ela estava. Jane percebeu que nunca tivera amigos verdadeiros, a não ser os novos amigos que fizera – Gabi, Luis e a família de Marvin. ela estava pensando naquilo tudo, e sentindo-se um tanto melancólica, quando percebeu que um carro a seguia. Olhou para trás e logo reconheceu o carro do Deputado Tavinho. Ele parou ao lado dela, abrindo uma janela. Jane sentiu-se gelar por dentro. Ele ainda exercia muito poder sobre ela. 

Tavinho olhou-a longamente antes de dizer:

-Entre, vãos dar uma volta. Finalmente eu encontrei você, Jane! Senti sua falta.

Ela continuou andando, e sendo seguida por ele. Ele saiu do carro, e alcançou-a, segurando-a pelo braço:

-Só quero falar com você. Sei onde seus pais estão. Não quer ir vê-los? Posso levar você até eles.

-Me largue! Não quero ir a lugar nenhum com você, Tavinho. 

-Eu sabia que você só podia estar na casa do namoradinho! Confesse, diga que não sentiu saudades...

Jane parou de andar. Ele teria razão? Ela sentira saudades dele? Não, não era bem isso... mas estava claro que Tavinho tinha poder sobre ela. O toque da mão dele deixava-a arrepiada. Ainda sentia atração por ele. As coisas que já tinham feito juntos voltavam à sua memória, e ela sentia um misto de vergonha, repulsa e desejo ardente. 

-Me deixe em paz, Tavinho.

-Não posso. Eu amo você. Estou apaixonado por você, sempre estive. Desde que vi você pela primeira vez, uma menininha de vestido curto... quando eu pus meus olhos em você, sabia que eu estava totalmente preso, irremediavelmente preso a você, ao seu poder... diga que nunca sentiu nada por mim! Você costumava gostar, lembra? Você sentia muito prazer... e me dava muito prazer. Nunca precisei obriga-la a nada, você gostava!

Apavorada, Jane sabia que ele tinha toda razão. Inesperadamente, ele a puxou para si, beijando-a com sofreguidão. Ela não conseguiu separar-se dele. Ela correspondeu ao beijo dele, sentindo-se derreter nos braços de Tavinho. Marvin era só um menino perto dele. Um menino que ela não amava, embora gostasse muito dele. Um bom amigo, alguém muito querido, mas que não despertava nela aquelas sensações arrebatadoras às quais ela não conseguia resistir. 

De repente, a repulsa. Tavinho abusara dela na infância. E ela achava que seus pais sabiam de tudo. Seus pais sabiam, ela acabara de se lembrar de uma ocasião em que os dois estavam juntos em seu quarto e ela viu quando Paco chegou à porta, olhou para dentro e saiu. O olhar do pai pairou sobre ela, e encontrou o dela, e ele não fez nada, apenas afastou-se em silêncio. Ela tinha doze anos na ocasião. Ela estava sentada no colo de Tavinho, de frente para ele, as pernas em volta da cintura dele. 

Tavinho estava de costas para a porta do quarto e não viu quando Paco os surpreendeu. E ela não disse nada, só continuou a fazer o que estava fazendo. E ela não sabia se fora a presença do pai que fizera com que o prazer explodisse dentro dela de uma forma que nunca tinha acontecido antes. 

Jane pensou em sua vida depois do que acontecera. Uma vida regrada, tranquila, feliz. Marvin era carinhoso, e ele a amava, mas não sabia ser intenso. Ela sabia que acabaria magoando Marvin. Ela acabaria magoando a todos. Era o que sabia fazer. Não poderia mudar aquilo no qual se tornara. Ela era assim. 

Ela foi de mãos dadas com ele até o carro. Ele abriu a porta e ela entrou. Beijaram-se mais uma vez. 

Ele começou a acaricia-la livremente, e ela abriu-se para ele. Alguém se aproximava na calçada, e os dois disfarçaram, se afastando um do outro. Ele deu partida no carro, e ela foi embora com ele. 



(CONTINUA...)





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