quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

AMOR E REVOLTA - CAPÍTULO IXX








Gabi finalmente conseguiu falar com Max através de um aplicativo. Ele não soube dizer a si mesmo o motivo pelo qual resolvera atender àquele chamado. Talvez porque seus melhores amigos não atenderam quando ligou para eles. Talvez porque, ao bater à porta de um deles, o pai do menino o mandou embora. E ao chegar em casa, encontrou-a vazia. Os empregados o receberam com fria hostilidade, sem dar importância ao fato de ele ser o dono da casa. Trataram-no com indiferença e não o obedeceram quando ele, com sua habitual arrogância, pediu que servissem alguma coisa para comer em seu quarto. 


Max não conseguiu contato com os pais, e ao ver as muitas tentativas de contato da irmã, ia ligar para ela quando Gabi o chamou para conversar. Gabi olhou para ele, e o que viu através da tela, não foi um rapaz sedutor e autoconfiante, mas um menino totalmente perdido. 

-Max, como você está? Estou tentando falar com você há horas!

-Oi, Gabi. Eu estou em casa agora. Eu... não tem ninguém aqui, sabe. 

-Onde estão seus pais?

-Eu... eu não sei!

Ao dizer aquilo, Max começou a chorar.

-Gabi, não sei o que vou fazer. Não sei para onde ir. Tá cheio de repórter lá fora. Eu estou com medo. 

Ela disse:

-Venha para minha casa. Onde está Jane?

-Não sei. Ia ligar pra ela agora. Eu vou até aí. 

E quando Gabi abriu a porta de sua casa para ele, deparou com uma das expressões mais amedrontadas que já vira: Max tinha os olhos vermelhos. Parecia estar usando a mesma roupa do dia anterior, uma camisa branca cara, mas meio-encardida e amarrotada. Ela o convidou para entrar. Os pais dela estavam no trabalho, e eles estavam à sós. Ela o chamou para a cozinha, e enquanto ele se sentou em uma cadeira junto á bancada, ela começou a fazer café e um sanduíche. Max tomou o café e devorou o sanduíche, agradecendo-a de boca cheia. Gabi ficou observando ele comer, e depois que ele terminou, ela disse:

-Fico feliz que esteja aqui, Max. Estava preocupada com você.

Ele a olhou, limpando a boca com o guardanapo de papel: 

-Parece que você é a única. Eu... tenho que te agradecer.

Ela olhou para o chão, sentindo-se desconfortável afinal, fora por causa dela que tudo aquilo tinha acontecido. Arriscou:

-Você não achou mesmo a minha pasta no carro, não é, Max?

Ele negou com a cabeça, terminando o último gole de café:

-Não. Por que?

Ela hesitou antes de responder, mas acabou achando que tinha que dizer a verdade, e então começou:

-Porque alguém deve ter achado. Tenho certeza que esqueci no seu carro, no banco de trás. 

Enquanto ela falava, ele se lembrou do exato momento em que Gabi tinha jogado a pasta no banco de trás.

-É, você está certa, eu me lembro de quando você a atirou no banco de trás... mas juro que olhei tudo e não achei. Mas quem poderia pegar uma pasta com os documentos da sua mãe?

-Tenho que contar uma coisa pra você, Max.

Ele olhou-a com atenção:

-Não eram documentos da minha mãe; era um dossiê sobre seus pais. Provavelmente, quem o 
encontrou tornou-o público.

Ele riu de nervoso, não acreditando no que estava ouvindo:

-Como assim, que dossiê? Onde você o encontrou, quem deu ele pra você, o que dizia?

Gabi olhou-o nos olhos:

-Eu o preparei. Quero dizer, eu e... algumas outras pessoas. 

-O que?! Mas o que você pretendia fazendo um dossiê sobre  aminha família?

Ela se encolheu quando ele gritou. Max ficou olhando para ela, aguardando uma resposta. Gabi criou coragem:

-Então... a Rafaela, mãe do Marvin, ela... estava muito preocupada com o Marvin porque ele andava estranho. Tomava drogas, bebia, chegava tarde... ela ficou sabendo do que rolava na sua casa, as festas, e tal. Queria apenas salvar o Marvin. E então... a vó Gertrude...

-Quem é essa tal de Gertrude?

-Mãe da Rafaela, avó do Marvin e da Melissa... ela teve essa ideia de pesquisar mais sobre vocês pra saber onde o Marvin estava se metendo. E nós  ajudamos. Eu, o Luis e a Melissa. A gente fez um contatos na deep web e tivemos acesso a alguns documentos sobre a ONG da sua mãe... e alguns negócios do seu pai. 

Max ficou pálido. Não podia acreditar no que estava ouvindo. Sempre achou que os pais tinham alguns negócios escusos, mas não àquele ponto. Nunca tinha imaginado que a ONG era uma maneira de lavar dinheiro de tráfico de entorpecentes. Ou que sua mãe e seu pai estivessem envolvidos nisso até o pescoço. Nunca tinha se preocupado seriamente de onde vinha o dinheiro que ele gastava – e gastava em profusão, sem nunca preocupar-se com a fonte. Achava que não era problema dele. Gostava da sua vida, e para ele, isso bastava. 

Max sentiu-se ainda mais perdido: o que ia acontecer? Seus pais iriam ser presos? De onde viria o dinheiro agora? Para onde ele iria? Já tinha dezoito anos, mas sua irmã ainda era menor. Iria para alguma instituição? A cabeça dele começou a doer.

Gabi cortou o silêncio:

-Eu sinto muito! Não pensei que isso ia vazar. Ninguém pensou. Queríamos apenas uma maneira de proteger Marvin, sei lá, de provar para ele que ele estava embarcando numa canoa furada. Uma segurança que fizesse com que a família de Marvin pudesse enfrentar seus pais, se necessário, de igual para igual.

Ele a olhou magoado:

-Meus pais não são bandidos! Eles têm seu modo de viver e encarar as coisas. Além disso, receberam Marvin e sua familiazinha muito bem lá em casa, pelo que fiquei sabendo! 

Ela não respondeu. Ele tinha toda razão em estar magoado.

Max passou a mão na cabeça, respirando fundo. O café e o sanduíche davam voltas em seu estômago. De repente, ele sentiu que ia passar mal, e esticando o braço na direção dela, perguntou onde era o banheiro. Gabi ajudou-o a ir até lá, e quando ele terminou de vomitar, entregou-lhe uma toalhinha molhada que ele passou na testa e no rosto. Ela perguntou se ele queria um chá, mas Max de repente sentiu-se muito cansado. 

-Não dormi a noite toda. Estava em uma festa, eu... eu estou muito chapado. Tem algum lugar que eu possa dormir?

E Gabi levou-o para o quarto dela, ajudando-o a tirar os sapatos e deitar-se. Fechou as cortinas, cobriu-o e saiu, fechando a porta atrás de si. Max adormeceu imediatamente. 

Ela resolveu ligar para Melissa, que finalmente, atendeu o telefone.

-Oi, Melissa. O Max está aqui. Está lá no meu quarto, dormindo. Eu contei tudo para ele.

Melissa ouviu em silêncio. Ainda estava brava com a amiga. Controlou sua mágoa, e perguntou:

-Ele está bem? Tem notícias dos pais?

-Sim, e não. Ele está bolado, é claro. Mas não temos notícias de Sunny e Paco. Aquele tal deputado Tavinho está na TV dando entrevistas, e me parece que a intenção dele não é apenas limpar a própria barra, mas sujar a do casal cada vez mais. 

-É, eu notei. Vai ver, foi ele quem pegou a pasta. 

-É verdade! Melissa, acho que você acertou em cheio! E o Marvin?

Melissa demorou a responder. Não queria magoar a amiga.

-Ele está aqui.

Após uma pausa:

-Trouxe a Jane com ele.

Gabi pensou que fosse desmoronar de decepção, mas surpreendeu-se ao ver que o fato de que Jane estava lá, na casa de Marvin, não fazia tanta diferença para ela. Achou aquilo estranho. Na verdade, só conseguia ter pensamentos para o rapaz que dormia lá em cima, em sua cama. Estaria se apaixonando por Max? Se sim, concluiu, ela tinha realmente tendência a se apaixonar pelas pessoas erradas!

As duas se despediram, e logo que desligou o telefone, Melissa viu Luis entrando na sala. Estavam passando muito tempo juntos e sozinhos no apartamento de Gertrude, desde que tinham começado a trabalhar no dossiê, pois mesmo quando Gabi se despedia e Gertrude ia dormir, Luis ficava na sala com ela até mais tarde. E eles conversavam sobre muitas coisas, como planos para o futuro. Depois, ele a levava em casa em sua moto. Melissa o abraçava pela cintura, deitando a cabeça no ombro dele para escapar ao frio da noite.  Antes, quase sempre que se encontravam, havia Marvin, Gabi ou outros amigos por perto, e estarem à sós pela primeira vez fez com que parecesse a ambos que estavam conhecendo facetas um do outro que eram totalmente novas.  

Ele se aproximou, beijando a amiga no rosto:

-E aí, como estão as coisas?

-Meus avós brigaram, como sempre... baixaram o nível. Mas está tudo bem agora. Eles foram para casa, e mamãe e papai estão no trabalho. O Marvin está lá em cima, no quarto com a Jane. Eles voltaram, sabe... engraçado, não é?

-Pois é mesmo. Fizemos tudo isso para tentar separar os dois. Ele já sabe da verdade?

-Não. Ninguém ainda teve coragem de contar. Mas o Max já sabe de tudo. Está na casa da Gabi. 
Dormindo!

Luis deixou escapar uma risada:

-Não brinca! Dormindo... o Max está dormindo na casa da Gabi?

-Acredite se quiser!

-Cara! Ele, o cara mais arrogante do mundo, dormindo com a Gabi?

-Perái, eu não disse que eles estavam dormindo juntos; ele apareceu lá, passou mal, pediu um lugar para dormir, e ela deu. O lugar para dormir, é claro.

Luis balançou  a cabeça:

-Cara... nada mais me choca. Mas... vocês têm que contar a verdade ao Marvin antes que ele saiba por outra pessoa. 

-Eu sei. Assim que ele descer, eu vou contar a ele. Minha mãe e minha avó não queriam que eu contasse, mas... se eu não contar, a vó Helena vai acabar fazendo isso, e da pior forma. 

-Ou o Max!

-É. Ou o Max.

Os dois ficaram em silêncio por algum tempo. Luis sugeriu:

-Vamos fazer alguma coisa? Que tal assistir a um filminho?

-Ok!

Os dois se levantaram de repente e ao mesmo tempo, o que fez com que eles se chocassem, dando um beijo inesperado que os fez rir. Mas Melissa sentiu um arrepio estranho ao sentir o contato da boca dele na sua, mesmo que por um breve momento. Pela primeira vez, em todos aqueles anos, ela percebeu o quanto o menininho de cabelos escorridos se transformara em um jovem alto, bonito e atraente. “Meu amigo cresceu,” ela pensou. 

Os dois se dirigiram à sala de cinema, e lado a lado, fingiram estar assistindo a um filme juntos, enquanto cada um pensava no outro de uma forma que nunca tinham pensado antes. Luis sentiu que estava rolando um clima entre os dois. Será que ela estaria sentindo a mesma coisa? 

A casa silenciosa, o perfume dela, o clima romântico e sensual na telinha... tudo convidava a deixar a imaginação rolar. E de repente, ele escorregou a mão para perto da mão dela, causando-lhe um arrepio. Esperou para ver se ela reagiria, mas como ela permaneceu quieta, ele pôs a mão sobre a dela. Apertou um pouco. Melissa olhou para Luis, chegando seu corpo mais para perto do dele. Os dois se viraram de frente um para o outro, e ficaram se olhando. Será que... ela baixou os olhos, mas Luis obrigou-a a olhar para ele, empurrando o queixo dela levemente para cima, na direção do olhar dele. 

É claro, os dois se beijaram. E quando se separaram, ambos concluíram que aquilo estava fadado a acontecer. Tudo pareceu tão certo, tão natural! E eles se beijaram de novo. 





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