terça-feira, 14 de agosto de 2018

O LAR DE OFÉLIA - PARTE VIII






Aquele reencontro, que estivera preso no tempo há mais de um século, foi celebrado com muito amor. Ofélia não fez perguntas, porque ela sentia que não tinha muito tempo. Preferiu viver aqueles momentos da melhor forma possível, com muita intensidade. Ela abraçou Vivian e brincou com ela, sempre sendo assistidas por Anselmo, que as olhava com muito amor. Depois que Vivian adormeceu, Ofélia finalmente teve algum tempo sozinha com Anselmo. Notou que ambos estavam ficando também sonolentos. 
Anselmo acariciava seu rosto, enquanto Ofélia tinha deitado a cabeça em seu colo. Era final de tarde, e o sol entrava pela janela. Vivian dormia ao lado deles, no tapete da sala, cansada e feliz. 

-Você não sabe por quanto tempo eu esperei por este momento, minha querida...

-Anselmo... estou tão confusa! Sei quem você é, sei com certeza que Vivian é minha filha, nossa filha... mas ao mesmo tempo, eu tenho uma outra vida! Uma vida que é tão solitária e cinzenta comparada a esta, que eu não sinto vontade de voltar para ela. Como posso fazer para ficar aqui para sempre?

Anselmo deu um sorriso triste:

-Não pode, minha amada... tudo o que temos, são estes momentos, estes reencontros. Há muito tempo fizemos esta promessa, e trabalhamos para que isso que estamos vivendo acontecesse um dia. 

-Mas... como? Eu não consigo me lembrar de nada!

-Porque você reencarnou duas vezes. Há o esquecimento. Eu e Vivian ficamos aqui, esperando pelo dia em que você voltaria para nós. Isso fazia parte da magia.

-Magia?... Então... vocês estão... mortos?

-Sim. Com o tempo, você vai entender.

-Não! Sinto que estou ficando cada vez mais cansada e sonolenta, e preciso saber agora, antes que...

Anselmo tapou-lhe a boca suavemente, com uma das mãos. 

-Shshsh... não diga nada. Você vai entender com o tempo. Talvez seja necessário que você pratique coisas que considera estranhas à sua nova vida, mas à medida que praticá-las, verá que elas vão tornar-se cada vez mais fáceis, mais naturais. Mas você vai ter que ser forte, minha amada. Somente através de tais práticas você conseguirá voltar para nós. 

Sophia enlaçou-o pelo pescoço, dizendo:

-Eu farei qualquer coisa para estar aqui com vocês, meu amor. esta é a minha verdadeira vida. E se eu... se eu cometesse suicídio? 

-Não, não faça isso! Se o fizer, nunca mais nos veremos, e tudo terá sido em vão. Preste atenção, Ofélia: jamais faça uma coisa destas! prometa-me!

-Eu prometo, Anselmo... farei apenas aquilo que me trará de volta.

Ele concordou com a cabeça. Rapidamente, Ofélia sentiu que o rosto dele ia ficando cada vez mais envolvido pela escuridão, e que ela se afastava cada vez mais. Até que despertou novamente, desta vez, sozinha e com muito frio. Sentia-se um pouco tonta e enjoada, e teve que sentar-se devagar para então conseguir levantar-se sem cair. Foi até a cozinha e tomou um gole d'água. minutos depois, sentia-se melhor.

Ao voltar para a sala, deparou com o quadro na parede, e sorriu. Ao mesmo tempo, sentiu uma enorme tristeza, e muito medo: e se ela não conseguisse mais voltar? Nunca mais veria sua família! 

Pensou também em Bruno; o que sentia por ele era reduzido a quase nada quando comparado ao amor que sentia por Anselmo e Vivian. Ela não poderia nunca mais deitar-se com ele; não suportaria mais beijá-lo ou tocá-lo! 

Sofia lembrou-se também do pai, hospitalizado. De repente, ela procurou o amor que sentia pelo pai dentro dela, e não conseguia encontrá-lo; apenas um sentimento de estranheza total, como se ela tivesse sido criada por um estranho que nada significava para ela. 

Na manhã seguinte, Ofélia acordou com o toque do telefone. Era do hospital. Seu pai tinha falecido. 

Ao escutar a notícia pelo telefone, ela nada conseguia sentir. Ouviu a funcionária do hospital dizer que ela deveria comparecer ao hospital levando documentos do pai e uma muda de roupas o mais rapidamente possível. Ela fez uma anotação mental daquilo tudo, e vestindo-se foi até a casa do pai a fim de cumprir o que fora pedido. Também lembrou-se de avisar às pessoas no escritório. 

No hospital, ela pediu para ver o pai, e obteve permissão.

Quando Ofélia entrou no quarto e descobriu o rosto do homem que durante anos chamou de pai, deparou com uma face muito branca e um tanto inchada. Sentiu um pouco de pena, e também repulsa. Não conseguiu encontrar dentro de si o amor que sentia por ele. Deu um longo suspiro, e foi tratar do velório. 

Na sala de velório, Magda aproximou-se dela, chorosa. Os colegas de escritório estavam presentes, e também Sérgio, o sócio. Magda abraçou-a, e ela deixou-se ser abraçada. Notou que Magda era a única que estava chorando. Seu pai tinha sido um homem rico e poderoso, mas na verdade, não tinha muitos amigos verdadeiros. 

Já quase na hora do sepultamento, uma mulher usando um vestido preto lustroso e apertado aproximou-se dela; Ofélia logo reconheceu Sarah, a namorada do pai. Um sentimento de asco tomou conta dela ao apertar a mão que a mulher estendeu-lhe. Ela aproximou-se do caixão, e olhando para Rony, simulou um choro convulsivo. O constrangimento foi geral, pois todos sabiam que tipo de mulher ela era. Se estava ali, com certeza era a procura de alguma vantagem financeira; afinal, Rony mantinha um caso com ela há mais de dois anos, o que ela considerava como sendo uma união estável. 

As suspeitas de todos se confirmaram quando, na manhã seguinte ao velório, ela apareceu no escritório da firma usando enormes óculos escuros e algumas  das muitas joias que Rony lhe presenteara, pedindo para ver Ofélia, que estava em reunião. Sarah disse que esperaria por ela, o que fez durante mais de uma hora, acomodada na confortável poltrona do escritório de Ofélia, onde Magda acomodou-a - afinal, seria melhor que ela não ficasse na recepção, pensou; não era nada bom para a imagem da empresa. 

Magda observou, com olhares prescrutadores, os móveis, pesos de papel e o computador de última geração sobre a escrivaninha de mogno lustroso. Reparou no papel de parede caro, de padrões discretos, e até mesmo no vasinho de violetas que Ofélia mantinha em um dos cantos da mesa. Seus olhos se encheram de inveja. Com certeza, alguma coisa teria que ser destinada a ela, que passara dois anos de sua vida dedicando-se de corpo e ealma (mais o primeiro do que o segundo) a Rony. 

Quando a reunião terminou, Magda aproximou-se discretamente de Ofélia:

-Minha querida, sinto muito, mas há alguém bem desagradável aguardando você em sua sala. Coloquei-a lá temendo algum escândalo, e além do mais, ela não é nada boa para a imagem da empresa. 

Imediatamente, Ofélia compreendeu de quem se tratava. E também o que ela estava fazendo ali. Respirou fundo, e entrou. 

Ao vê-la, Sarah olhou-a dos pés à cabeça, e não fez menção de levantar-se. Sem cumprimentá-la, Ofélia sentou-se em sua cadeira, e cruzando as mãos sobre o abdômen enquanto fazia a cadeira girar para um lado e para o outro, encarando Sarah, aguardou. Sarah sorriu levemente, sem esconder um traço de ironia:

-Sinto muito por atrapalhar logo no dia seguinte ao velório de seu pai, meu bem, mas eu precisava vir até aqui. A vida continua, e há algumas questões práticas que infelizmente devem ser resolvidas. 

Ofélia aguardou, em silêncio. Sarah continuou:

-Então... você sabe que seu pai e eu praticamente morávamos juntos, e que ele pôs alguns bens em meu nome, como um carro e um apartamento na praia. Algumas joias não muito valiosas... mas a minha dedicação e o meu tempo merecem uma compensação melhor. Tínhamos uma união estável. 

Ofélia riu. Sarah torceu os lábios. Ofélia disse:

-Pois é, minha querida... finalmente, poderei mandar você para o lugar de onde nunca deveria ter saído: os quintos do inferno! Você não vai levar nem mais um centavo! E fique feliz porque eu sei que o carro em questão não está em seu nome, mas não pretendo tirá-lo; porém, o apartamento na praia, que está em nome da firma, será vendido hoje mesmo. Tire sua lixarada de lá o quanto antes, ou jogaremos tudo fora. 

Sarah ergue-se da cadeira, erguendo também a voz:

-Se você pensa que vai me jogar para fora do jogo assim, do nada, está muito enganada! Conheço jornalistas que transformarão a imagem desta firma em lixo puro ao simples toque de um telefone! Não brinque comigo, sua fedelha, ou saberá quem é Sarah Bastos de Amoedo! Não tenho ninguém nesse mundo, não tenho família, mas respondo por mim mesma e sei defender meus interesses e meus direitos! Além disso, tenho um bom advogado que me garantirá que eu obtenha tudo o que é meu! 

Ofélia levantou-se, e fechou a porta do escritório. Naquele momento, escutou uma voz muito nítida e amada dentro de sua cabeça; era a voz de Anselmo: "Traga-a até a casa!"  Ao ouvir a voz dele, Ofélia sentiu uma imensa calma, e sabia que o problema seria resolvido, e de forma definitiva. Apenas ouvir a voz dele dava-lhe aquela sensação de paz. Recompôs-e, dizendo:

-Vamos negociar.

Sarah voltou a sentar-se, assumindo um ar de poder.

-Agora sim, eu acho que você me entendeu. 

Sarah olhou-a com cuidado, e após alguns segundos, disse:

-Temos esta casa... na verdade, uma mansão. Está avaliada em alguns milhões. Gostaria de vê-la? Poderá ficar com ela, se gostar. 

-Agora estamos falando a mesma língua, mocinha. Quando podemos ir até lá?



(Continua...)





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