terça-feira, 21 de agosto de 2018

O Lar De Ofélia - parte X






Depois que o corpo foi removido, Bruno se ofereceu para ficar um pouco com Ofélia, mas ela disse que precisava descansar; sentia um enorme cansaço físico e estava emocionalmente esgotada. Os vizinhos das casas abaixo da sua formavam pequenos grupos na calçada junto ao portão, apontando para casa e encolhendo os ombros. Ofélia os viu pela janela, quando Bruno saiu. Viu também quando ele parou e conversou com eles, provavelmente contando-lhes o que tinha acontecido na casa. Aos poucos, todos foram indo embora para suas casas.

À noite, Ofélia cerrou as cortinas e apagou as luzes da casa toda, exceto as do quarto que escolhera para dormir - e que agora ela podia, finalmente, após a morte do pai, chamar de seu quarto. Tomou um banho demorado de banheira, com direito a sais espumantes. 

Pensou nos acontecimentos daquele dia, e duvidou seriamente da sua própria sanidade. De repente, Anselmo e Vivian não passavam de um sonho, uma alucinação causada pela sua imaginação criativa. Passara muito tempo observando aquele quadro... mas... e quanto às coisas estranhas que aconteciam na casa? E quanto aos cômodos que eram magicamente reformados, assim que ela pingava sangue no chão? Quem poderia explicar aquilo? Ofélia achou que deveria buscar ajuda de um exorcista ou de um padre. 

Apesar de não gostar nada de Sarah, a namorada com quem seu pai se encontrava mesmo antes de sua mãe morrer, Ofélia não queria que nada daquilo tivesse acontecido a ela. Vê-la estatelada no piso da sua sala de estar foi uma cena chocante e desagradável, ainda mais quando ela fez questão de, antes de morrer, dizer a Bruno que ela - Ofélia- não era culpada de nada... mas será que não era mesmo? Afinal, fora ela quem trouxera Sarah até à casa! Fora ela quem seguira as ordens de Anselmo quanto a conversar com Sarah no alto das escadas; será que, inconscientemente, ela não tinha mesmo nenhuma ideia do que estava para acontecer? E se não tinha, porque sentira-se tão nervosa? 

Ofélia não era, e jamais seria uma assassina; pelo menos, era o que ela afirmava para si mesma. Mas ela também afirmara a Anselmo que faria tudo o que fosse preciso para que eles pudessem ficar juntos. E se isso incluísse matar pessoas inocentes? Até aonde ela seria capaz de ir para rever seu marido e filha? A saudade que sentia deles chegava a doer, de tão forte. A partir do momento que estivera na presença deles, reconhecera que sua vida não tinha sido nada antes daquele momento, e que toda a sua existência de antes era apenas um tempo no qual ela aguardara por aquele reencontro. 

A água tépida, o perfume suave dos sais de banho e a luz das velas fez com que ela adormecesse. 

Ao abrir os olhos minutos mais tarde, Anselmo estava sentado na beirada da banheira, olhando para ela. Seu semblante estava tenso e fechado, mas desanuviou-se aos poucos quando ela abriu os olhos. Ofélia estendeu a mão molhada e tocou a dele. Com os olhos, perguntou-lhe a razão de tudo aquilo que acontecer na casa naquele dia, e que faria com que ela tivesse que ir a uma delegacia na manhã seguinte, acompanhada de Bruno, para prestar depoimento. Sarah não tinha família, e ela pagaria pelas despesas com o funeral. Era o mínimo que podia fazer.

O cansaço de todo aquele dia morreu diante do leve sorriso de Anselmo. Ele virou a palma de sua mão para cima, segurando a mão dela, e ela sentiu-lhe o calor. De repente, tudo pareceu certo, e ela ficou tranquila, vendo suas preocupações se dissolvendo. 

Anselmo balbuciou:

-Foi preciso, Ofélia. Se quisermos ficar juntos, terá que ser assim.

O coração dela quase parou, falhando uma batida. Ofélia ergueu-se da banheira, pegando a toalha branca felpuda e enrolando-se nela. Anselmo ficou atrás dela, e afastou seus cabelos, cujas pontas úmidas escorriam água. Beijou-lhe o pescoço. E o coração dela quase parou novamente, mas por outro motivo. 

Nos dias que se passaram, Ofélia anunciou que tiraria férias do escritório, o que todos interpretaram como uma necessidade, depois de tudo o que ela estava passando - a morte recente do pai e de Sarah. Sérgio, o sócio de Rony, pensou em questioná-la sobre a casa, pois Rony e ele haviam concordado que ela precisava ser reformada e vendida o mais rapidamente possível, mas achou melhor deixar para uma outra hora; talvez pudessem conversar dali a trinta dias, quando ela disse que voltaria de suas férias. Ofélia pediu a Magda que comprasse passagens para o Chile e fizesse reservas para ela em um hotel agradável por lá, no qual ela e os pais costumavam ir quando tudo ainda estava bem. Ofélia achava melhor que todos pensassem que ela estava viajando. 

Mas ela ficaria na casa, disposta a desvendar todo aquele mistério.

(continua...)




4 comentários:

  1. Bom dia. Mais um efusivo capitulo. Adorei :))

    Bjos
    Votos de uma Quarta-Feira

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  2. Muito bom, este episódio!

    Beijo e um excelente dia!

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  3. Querida, estou sem tempo para meus queridos blogs.
    Desejo uma boa noite
    Beijos

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  4. Olá querida Ana! Muito bom mais esse episódio, uma história fantástica, parabéns amiga!
    Querida, sua participação no poetizando foi linda! Já postei a 50 ª edição e tem bolo de comemoração e selinho. Lhe espero querida, será um prazer. Abraços, seja muito feliz.

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