domingo, 2 de setembro de 2018

O LAR DE OFÉLIA - PARTE XI







Durante o dia, Ofélia andava pelos cômodos da casa, olhando em volta e tentando fazer com que alguma resposta caísse em seu colo. Às vezes, Anselmo ia vê-la, mas eram breves momentos.  Durante a noite, que sempre era muito intensa, ela passava suas horas em companhia de Anselmo e Vivian. Eram momentos muito intensos e felizes, e ela tentava não dar muita atenção, enquanto sentava-se com eles sobre o gramado do jardim e olhava para a silhueta da casa contra o céu estrelado, a alguma coisa por trás da razão que dizia que tudo aquilo estava errado, e que ela teria que acabar com tudo um dia.

Tentava dedicar-se a conhecer novamente sua filha e seu marido. Anselmo era um homem sisudo e sombrio, mas envolvente e apaixonante. Um homem misterioso, de sorriso enigmático, palavras econômicas e cheias de intensidade, olhar penetrante que variava entre amoroso e prescrutador. Ofélia sentia nele uma certa insegurança, às vezes. Um dia, ele confessou a ela que temia que ela não resistisse e descumprisse a promessa feita a ele há tantos anos. 

-Estamos ligados por um destino que é muito mais forte do que a morte, minha querida Ofélia. 

Quando ele dizia coisas como aquela, Ofélia sentia um aperto no peito. Tudo o que ela queria, era abraçar Vivian e não largá-la nunca mais, e estar com Anselmo. Gostaria de poder levá-los para o seu mundo e ficar lá com eles, mas Anselmo já lhe dissera que aquilo não era possível. Havia existências separando-os. A única maneira de estarem juntos, seria naquela espécie de limbo, onde o tempo jamais avançava. Ela perguntou:

-Você vai esperar até que a minha vida se cumpra, Anselmo? Para que assim possamos ficar juntos para sempre?

Ele apenas suspirava e a abraçava com ternura, mas nada respondia, até que um dia ele a olhou nos olhos:

-Você realmente não se lembra, não é?

Ofélia ficou confusa. Vivian que brincava ali por perto, parecia não estar prestando atenção À conversa deles. Ofélia sentiu as próprias sobrancelhas sendo franzidas, enquanto o rosto de Anselmo ia ficando mais tenso. 

-Não temos muito tempo, Ofélia. Este momento  é apenas temporário. logo, eu e Vivian teremos que partir, se você não cumprir a promessa que nos fez.

-Você me assusta, meu amor. Sempre me fala de uma promessa que eu devo cumprir, mas eu não me lembro dela! Não sei do que você está falando!

-É porque as existências, ao se sucederem, apagam as memórias. Mas elas estão aí, dentro de você, esperando para que você as acesse e se lembre delas totalmente. Você sabe do que eu estou falando, minha querida. E logo precisará tomar uma decisão muito importante. Você vai se lembrar de quem realmente é, e de quem nós somos. Você vai se lembrar de tudo. E terá que deixar de lado convenções e ideias pré-concebidas arraigadas à sua personalidade através das suas novas existências. Há muitos conceitos que terão que ser desaprendidos para que você possa estar conosco para sempre. 

- Mas... se eu passei por outras existências, por que o mesmo não aconteceu a você e à Vivian? Por que ficaram presos aqui?

-Porque esta é a única forma de ficarmos todos juntos novamente. Nós esperamos por você há tanto tempo, minha querida... 

Naquele momento, Vivian veio correndo em direção a ela, sentando-se em seu colo. Ofélia a abraçou, aninhando-a para que pudesse adormecer. Ela podia sentir o perfume de alfazema dos cabelos da filha. Aquilo era tão familiar! Começou a acariciar de leve a cabeça da menina, deixando que suas mãos escorregassem pelo bracinho da criança, que já começava a dormir. Foi então que ela viu a pequena marca no pulso da menina: uma tatuagem. Passou os dedos sobre o desenho, que estava em alto relevo. Era um símbolo desconhecido, dentro de um círculo. 

Anselmo ergueu a manga do casaco, mostrando a ela o mesmo símbolo tatuado em seu próprio pulso. Ele disse:

-Eu e Vivian cumprimos a nossa promessa. Esta tatuagem é o símbolo daquilo que fizemos, a nossa missão mágica, que nos trará enormes poderes. Mas a trindade deve ser cumprida. Você deve agir para que receba também esta mesma marca, minha querida, e então, nós três juntos, seremos invencíveis. Poderemos fazer coisas que você sequer imagina. 

Novamente, Ofélia sentiu um arrepio na nuca e um desconforto no plexo solar. Anselmo continuou:

-Vivian está ligada a nós por outras existências. Em outras vidas, nossos papéis foram invertidos - eu era a mãe, ela o pai, e você, a filha. Depois, você foi o pai, ela a mãe, e eu, a filha. Devemos cumprir este ciclo; devemos voltar novamente ao seu mundo, minha querida, novamente como somos: eu o pai, você a mãe e ela, a filha. 

Ofélia estava confusa, e não sabia o que dizer. Amava demais aquelas criaturas, e sentia que era amada por eles. Aquilo era tudo o que importava. Passara toda a sua existência presente sentindo-se deslocada, desconfortável na vida das pessoas que conviviam com ela e muito infeliz. Tinha sempre a sensação amarga de que não pertencia a elas, e não queria pertencer. 

Ela respirou profundamente; a menina adormecera. Olhou para o rosto dela, a pele tão clara e macia, os cabelos loiros, as pálpebras levemente rosadas. Sentiu a respiração da menina contra o seu próprio corpo, e amou-a ainda mais fortemente. Mas de repente, o rosto dela transformou-se no rosto de um homem adulto, e logo em seguida, no rosto de uma mulher. Ambos os rostos nada tinham daquela inocência e leveza; havia algo de muito ruim neles. Ela sentiu uma energia densa e pesada entrando dentro de seu corpo, e tal energia causou-lhe um mal-estar. 

Ofélia quase gritou, mas logo a inocência voltou ao rosto da filha, e ela pensou ter sido vítima de uma alucinação. Abraçou-a com força. Anselmo pôs a mão em seu ombro, e a mão dele pareceu pesada. 


(continua...)






3 comentários:

  1. Boa noite. Muito interessante este capitulo!!

    Beijos- Boa noite

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  2. Querida Escritora, Ana Bailune !
    Que capítulo, Amiga ! Esse Anselmo...
    Repleto de mistérios, dúvidas, incertezas...
    Uma ótima semana, Parabéns e um fraterno
    abraço, aqui do Brasil.
    Sinval.

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  3. Mais um texto/história, muito interessante. Adorei :))

    Hoje... Quimera sem retorno.

    Bjos
    Votos de uma óptima Segunda-Feira

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