quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

INOCÊNCIA - Parte I, capítulo I








PARTE I - YARA




A CHEGADA


Quando abri a porta da frente e coloquei as malas no chão, fiquei lá parada algum tempo, olhando para a casa escurecida, como se estivesse esperando que alguma coisa acontecesse. Tive a esperança – ou talvez, o medo – de que as memórias  que estiveram trancadas dentro daquela casa pudessem se transformar em criaturas sólidas e virem me abraçar (ou me sufocar). Quem sabe, minha mãe viria da cozinha enxugando as mãos no avental e me perguntando como tinha sido a escola; talvez meu pai estivesse sentado na sala de estar fumando aquele cachimbo que minha mãe costumava chamar de irritante, mas cujo cheiro eu adorava e que passou a fazer parte da personalidade da casa, entranhado nas paredes e cortinas; talvez Berta, minha irmã seis anos mais velha, estivesse falando ao telefone no corredor da casa com Sebastian, que então ainda seria seu namorado, o fio do telefone bem esticado até o armário que ficava sob a escada onde ela estaria a fim de ter alguma privacidade. Se eu olhasse para trás, quem sabe veria Eugênio trabalhando no jardim, enquanto Flora, que eu considerava a  minha segunda mãe, - a minha mãe preta - estaria lendo para ele a lista de compras para o jantar.

Logo após o almoço, eu poderia escutar as vozes alegres de meus primos – Joana e Marcelo – entrando pela casa. Durante a tarde, Berta se trancaria no quarto com suas revistas, e Marcelo se juntaria ao meu pai ou então estaria no jardim a procura de Cristina, por quem ele nutria uma paixão mais que apenas adolescente; e eu, criança, estaria correndo pelos campos ao redor, na companhia de minha priminha Joana.

Aquela era a nossa casa de campo, que mais tarde, após a doença de papai, tornou-se o nosso lar permanente.

As vozes e cenas chegaram com muita força. Senti-me um pouco tonta, e tive vontade de fechar a porta e nunca mais voltar, mas eu sabia que já tinha passado da hora de enfrentar os meus fantasmas. Na última vez em que pusera meus pés na nossa casa de campo, há exatos onze anos, eu prometi que nunca mais voltaria. E cumprira a minha promessa até então. Para mim, foi uma grande surpresa saber que minha mãe deixara a casa para mim, e não para Berta, que tinha ficado e cuidado dela depois da morte de papai. Já eu, afundada em meus ressentimentos, que cresceram ao longo dos anos devido à minha imaginação fértil – que, segundo meu pai sempre dizia, era fadada a criar ideias equivocadas sobre as pessoas – me mantive longe. Porque eu não sabia como lidar com as coisas. Não sabia perdoar, e nem queria admitir que pudesse estar entendendo tudo erradamente.

Dei o primeiro passo e entrei na casa. Automaticamente, levei a mão ao interruptor junto à porta, e ela se iluminou de repente, revelando cenas muito conhecidas da minha vida; da porta, eu via o tapete – já um pouco gasto, mas o mesmo imenso tapete de fundo vermelho rubi com desenhos florais que mamãe escolhera ela própria. Eu estava junto com ela naquele dia, e apesar de ter apenas quatro anos, ela pediu minha opinião: “Yara, você gosta?” E eu balancei a cabeça contente, concordando com ela, sentando-me sobre o tapete e passando as mãos sobre a trama macia.

O mesmo velho grupo de sofás  – agora estofados de bege escuro – e o mesmo conjunto de mesinhas de centro e laterais de madeira clara, com pés palito e formato de aquarela. As muitas almofadas que ficavam sobre o sofá tinham desaparecido, deixando-o nu. Nas janelas, as persianas tinham sido trocadas (eram novas) mas por outras exatamente iguais às antigas. Em volta delas, as sanefas de gorgorão pesado, há muito fora de moda, tinham sido lavadas e recolocadas. Minha mãe nunca tinha se preocupado muito com a moda doméstica, e mantinha a casa sempre igual.

A cozinha tinha o mesmo aspecto de antes, parecendo agora muito antiquada. Sobre a pia de mármore branco, a janelinha que dava para a parte lateral do jardim tinha sido aumentada, mas ainda tinha cortinas estilo romântica de xadrez azul e branco.

Subi os degraus, agora acarpetados de marrom-claro, e fui olhar os quartos. Parei no corredor e acendi as luzes. Respirei fundo. Eles não tinham modificado a estrutura da casa, e ainda havia o velho banheiro de azulejos azuis até o teto e piso de pastilhas brancas já amarelecidas. A banheira de louça com pés imitando garras de urso também era a mesma.

Os primeiros quartos eram os nossos – meu e de Berta. As duas camas de solteiro continuavam por lá, e para minha surpresa, também as mesmas cortinas cor-de-rosa bebê, já muito desbotadas. Sobre a escrivaninha do meu quarto, reconheci meu velho estojo de lápis de cor, e também alguns livros didáticos que eu usara na escola e que levava para estudar nas nossas viagens durante as férias (ordens de mamãe), embora mal tivesse tocado neles. O quarto ao lado era de hóspedes. Nele havia apenas uma cama coberta com um lençol branco e um armário, onde guardávamos algumas coisas que não usávamos muito, a não ser quando Duílio, o sócio de papai, passava a noite lá em casa. Porém, mais tarde, ele passou a ocupar o quarto junto ao escritório, no primeiro andar. Acho que minha mãe não queria um garanhão junto às suas mocinhas, que estavam crescendo.

Eu abri a porta do armário devagar e deparei com os patins de Berta. Quando ela cresceu, eles ficaram para mim, mas eu nunca consegui patinar. Desisti após o primeiro grande tombo. Também vi um casaco que eu ganhei quando eu tinha mais ou menos dez anos; era de pelos falsos na gola, e xadrez vermelho com cor-de-rosa berrante. Imediatamente vieram-me à mente algumas das ocasiões em que eu o usei, e eu o adorava tanto, que só deixei de usá-lo quando as mangas ficaram curtas demais. Como ele pareceu-me feio então!  No armário também havia roupas antigas de Berta e algumas camisas que reconheci como sendo de papai. Meus olhos se encheram de lágrimas, e eu tirei uma delas do cabide, levando-as de encontro ao rosto, tentando sentir um restinho de perfume da colônia que ele usava, mas tudo o que consegui foi cheiro de mofo e espirros. Algumas coisas jamais voltam.

Havia um vestido de mamãe – o mesmo que ela usava no último dia. No nosso último dia. Me perguntei por que aquelas coisas ainda estavam ali. Deveriam tê-las jogado fora. Seria bem mais fácil não vê-las.

Fechei o armário, e atravessando o corredor, cheguei ao quarto dos meus pais. O maior quarto da casa. Fiquei surpresa ao ver que mamãe demolira parte da parede leste, dando espaço a uma enorme janela e vista para as montanhas onde o sol nascia. Pensei que ela talvez tivesse passado seus últimos dias ali, olhando para aquela paisagem, e quem sabe, recordando os momentos felizes e também se arrependendo de muitas coisas. Um bom lugar para morrer: acho que todos nós precisamos de um. Da cama alta de hospital que tinha sido colocada no quarto, ela podia ter uma linda vista, todos os dias e noites.

Todos precisamos de um lugar para morrer, onde nossas memórias possam voltar aos poucos, um lugar onde não seremos perturbados por apitos de aparelhos hospitalares que nos mantenham vivos à força, um lugar sem paredes cinzentas e, especialmente, um lugar que tenha janelas.

Berta havia me contado que mamãe morrera em casa, pacificamente, em uma manhã de sábado. Berta passara a noite praticamente em claro, controlando sua respiração difícil e erguendo-a quando ela tossia. Quando Berta abriu os olhos após cair no sono  de exaustão, mamãe a olhava fixamente, o rosto tranquilo. Berta me contou que ela sorriu, após muito tempo sem fazê-lo, e disse: “Bom dia.” E se foi com o ar da letra “a”. E isso foi tudo. Não houve últimas palavras significativas, e nem recados que ela desejasse deixar para mim. Não houve pedidos de desculpas ou explicações, e ela nem sequer mencionou o fato de que eu me recusara a visitá-la durante todos aqueles anos, mesmo após saber de sua doença. Naqueles meses que passara ali, despedindo-se da vida, segundo Berta, mamãe nunca mencionou meu nome. Mas deixara-o no testamento, onde legou-me a casa de campo, que mais tarde, tornara-se a casa onde a família viveria oficialmente. Por que? Acho que jamais descobrirei.


(Continua...)

Um comentário:

Obrigada por visitar-me. Adoraria saber sua opinião. Por favor, deixe seu comentário.

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI Capítulo 13

 CAPÍTULO 13 Achei estranho que o sol parecia nunca se por naquele lugar, e perguntei sobre isso. Imediatamente, começou a escurecer, e lind...