segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Inocência - Parte I, capítulo II






SOBRE CRISTINA

Porque eu tinha crescido acreditando que eu tinha uma família perfeita, eu me orgulhava muito daquela ideia. Enquanto as casas dos meus amigos da escola começavam a ruir – eram os anos setenta, e os divórcios começavam a modificar as estruturas familiares, eu me orgulhava do casamento sólido dos meus pais, da estrutura segura da qual eu e minha irmã dispúnhamos. Adorava acordar no meio da noite e escutar, no corredor vindo do quarto dos meus pais, a respiração deles enquanto dormiam.

Lamentava ver os lares desfeitos dos meus colegas de escola, que ficavam divididos entre seus pais e suas mães, que brigavam na justiça para obter pensões ou a guarda deles. Algumas situações eram ainda piores, pois os pais simplesmente saíam de casa portando suas jovens namoradas e nunca mais queriam saber dos filhos. E as mulheres divorciadas eram vistas com receio pela sociedade, caso os maridos as tivessem deixado, e com desprezo, caso elas tivessem deixado seus maridos. De qualquer forma, a culpa era sempre da mulher, não importando se seus maridos tinham ido embora, trocando-as por exemplares mais jovens.

Mas eu me considerava livre daquelas classificações, pois tínhamos “um lar sólido”, como Flora gostava de dizer.

E é claro, eu tinha Flora, a minha segunda mãe. A minha Mãe Preta. Ela estava conosco desde que eu nascera, ou melhor, antes disso. Ela sempre existira em nossas vidas, e era parte da nossa família, e quando casou-se com Eugênio, segundo mamãe contava, eles tiveram muito medo de perdê-la. Assim, meus pais ofereceram a ele um emprego de jardineiro e caseiro, e Eugênio passou a ser um novo membro da família. Mais tarde descobri que a história não era bem aquela, mas durante anos, ela bastou para mim.

Eugênio e Flora viviam em um pequeno apartamento de dois quartos que ficava sobre a garagem. Tomavam conta de tudo enquanto estávamos na cidade estudando ou trabalhando. Quando a família chegava, nas épocas de férias, natal ou finais de semana prolongados, eles estavam lá para nós. No começo, chamavam a atenção de todos por serem um casal inter-racial – Eugênio era branco e tinha olhos azuis, e Flora era negra. Esse tipo de coisa costumava chamar a atenção, principalmente numa cidade pequena como Rio da Prata. Mas o casal logo deixou de ser a curiosidade local, sendo aceito pela maioria dos moradores – a não ser algumas velhas famílias mais “tradicionais” que faziam questão de torcer o nariz quando um deles passava por Eugênio ou Flora no mercado.

Rio da Prata, que fica no interior de Minas Gerais, é uma cidade pequena, que naqueles tempos sobrevivia principalmente da atividade do comércio local e de uma ou duas fábricas que existiam por lá, sendo que uma delas, de laticínios, pertencia ao meu tio Antônio, casado com a irmã de minha mãe. Tínhamos apenas dois cinemas, um hospital, alguns restaurantes (o maior e mais tradicional também pertencente ao meu tio Antônio), o coreto da praça, um clube de elite, uma piscina pública e mais ou menos trinta mil habitantes.

Em Rio da Prata passou-se a história que eu vou contar. Apesar de só ter passado a morar em Rio da Prata na minha segunda infância, minha família estava sempre ali, nas férias e em alguns finais de semana e feriados prolongados. Foi na nossa casa de campo que eu fiz as minhas primeiras descobertas sobre mim mesma e sobre os rostos ocultos disfarçados sob as máscaras que as pessoas usavam. Nossa história começou bem antes de eu ter nascido, e o que eu escutei dela através de meus pais, Flora ou Eugênio, não era totalmente verdadeiro. Mas tudo começou assim:

Quando minha mãe engravidou de Berta, Flora também engravidou de sua única filha, Cristina. As duas meninas nasceram com apenas uma semana de diferença, e tornaram-se amigas, comemorando aniversários juntas, e sempre que minha família chegava em Rio da Prata para uma temporada, as duas não se largavam. Eu só cheguei seis anos depois. Cresci tendo Cristina, Eugênio e Flora sempre por perto, e jamais considerei-os como empregados da casa, principalmente porque eu era inocente demais para saber a diferença. Eram eles que tomavam conta de mim quando meus pais saíam à noite com minha irmã mais velha para irem aos bailes dançantes onde as crianças não entravam. Quando eu me machucava, quase sempre era Flora quem cuidava dos meus joelhos ralados, aplicando um medicamento que ardia, e soprando quando eu chorava. Às vezes, Cristina fazia isso.

Cristina era uma menina excepcionalmente bonita; tinha a pele morena, quase mulata, os olhos azuis do pai e cabelos negros e ondulados. Logo começou a chamar a atenção pela sua extrema beleza, e por onde passava, as pessoas olhavam para ela. Eu a considerava uma irmã mais velha – ela era uma irmã mais velha, nunca me ensinaram a vê-la de outra forma. Pelo menos, não até os meus cinco, seis anos de idade. Eu era uma criança pequena, e não me perguntava o motivo pelo qual ela dormia no quarto comigo e Berta quando estávamos lá, enquanto Eugênio e Flora dormiam no apartamento sobre a garagem. Tinha sido sempre daquela forma. Também nunca tinha me perguntado por que Cristina voltava para o apartamento e meus pais trancavam as portas da casa quando íamos embora, deixando as chaves com Eugênio e Flora, recomendando que “a menina” (Cristina) não ficasse brincando lá dentro sozinha. Era assim que as coisas se davam, e pronto.

Algumas vezes eu via minha mãe dando ordens na cozinha, e notava que Flora a chamava de Dona Mirtes, mesmo que as duas tivessem a mesma idade, e eu não entendia muito bem aquilo; mas acabava concluindo que era coisa de gente grande e que não era da minha conta. Da mesma forma, Eugênio se dirigia aos meus pais chamando-os por Dona Mirtes e 'Seu' Nelson. Mas meus pais os chamavam pelos seus nomes, simplesmente.

Cristina era meu 'role model.' Eu não era lá muito bem-vinda junto à Berta quando ela estava com os amigos, pois eram todos bem mais velhos que eu. Ela simplesmente aturava a minha presença, livrando-se de mim sempre que podia, dizendo que os lugares que eles frequentavam não aceitavam crianças. Cristina muitas vezes era convidada para sair com minha irmã e os amigos, e às vezes, Berta emprestava-lhe algumas roupas mais bonitas – embora Cristina sempre ganhasse as roupas usadas de Berta, mas eu também “herdava” as roupas da minha prima Joana, um ano mais velha, quando elas não serviam mais. Eu me sentava na cama e ficava olhando as duas se arrumando para sair, passando lápis preto nas pálpebras inferiores, usando o mesmo brilho labial rosa discreto e perguntando uma à outra se a calcinha estava 'marcando' sob a calça comprida justa estilo pantalona.

Eu adorava Cristina, não somente porque ela era linda, mas porque ela sempre me tratava bem. Quando Berta perdia a paciência comigo, era nos braços dela que eu chorava. Ela me pedia que tivesse um pouco de paciência, pois logo estaria maior e teria meus próprios amigos. E para me fazer parar de chorar, ela pegava o estojo de maquiagem usado que ganhara de Berta e começava a me pintar. “Beeem clarinho,” ela dizia, enquanto espalhava a sombra azul sobre minhas pálpebras fechadas e eu sentia seu hálito com cheiro de chicletes de hortelã. Minha mãe não gostava de me ver maquiada, e sempre ralhava com Cristina quando isso acontecia, e quando mamãe ralhava com Cristina, Flora também ralhava com ela. Dizia que ela estava ali para se comportar e fazer o que tinha que fazer. E logo dava a ela uma tarefa – buscar os ovos no galinheiro, ou um pé de alface na horta. Ela obedecia sem contestar, rindo e piscando um olho para mim, e eu ia com ela.

Eu também amava Flora, e guardo memórias dos tempos em que eu era muito pequena e ela me punha para dormir. Ainda posso sentir seu cheiro, uma mistura de sabonete e desodorantes baratos com os cheiros de laranja, maçãs e temperos das muitas comidas que ela cozinhava para nós. Flora era um pouco gordinha, e tinha seios grandes. Era naqueles seios que eu muitas vezes deitava a minha cabeça de criança antes de adormecer. Meus pais me contavam que mamãe não tivera muito leite quando Berta nascera, e que Flora tinha sido sua ama de leite.

Eu era uma menina magrinha, cabelos castanhos muito lisos e escorridos cortados em estilo channel na altura dos ombros. Usava uma franja lisa que vivia precisando ser aparada, pois eu detestava cortar a franja, e então mamãe muitas vezes me obrigava a usar grampinhos que mantinham a franja 'no lugar' e não prejudicavam a 'vista,'. Eu detestava aquilo! E quando Cristina descobriu o quanto eu detestava, ela mesma passou a aparar a minha franja a cada duas semanas, mantendo-a sempre do mesmo tamanho – escondido de mamãe, é claro. E eu não me importava quando era ela que cortava meu cabelo. Ela tinha mãos precisas e firmes, e o fazia muito bem. Dizia que um dia teria seu próprio salão de cabeleireira – o que mais tarde realizou-se. Me ensinava a fazer tranças e coques, e para isso, eu penteava os cabelos dela, que eram longos. Eu adorava quando nos sentávamos nas escadas da frente da casa, ela na minha frente, cotovelos apoiados nos meus joelhos, enquanto eu trançava seu cabelo.

Gostava de andar com ela pela rua, quando Flora pedia que ela fosse ao mercado comprar qualquer coisa, pois todo mundo olhava para ela, e consequentemente, eu também me sentia observada. Eu andava de mãos dadas com ela pelas calçadas, sorrisinho maroto no rosto e cabeça erguida. Um dia, ao passarmos por um grupo de rapazes, um deles sorriu para nós e perguntou-me, em tom de graça, qual era o nome da beldade.  Enquanto passávamos por eles, olhei para trás e respondi. “É Cristina. Ela é minha irmã!”

Somente anos mais tarde eu entenderia o porquê das gargalhadas deles e das pessoas que estavam próximas, e das lágrimas que arderam no rosto de Cristina enquanto ela começou a andar mais rapidamente, puxando-me pela mão. No mercado, ela me chamou em um canto, secando as lágrimas com as costas das mãos, e me disse: 

-Nós não somos irmãs, Yara, e você não pode ficar repetindo isso por aí, entendeu?

 Eu não entendi nada, e tentei argumentar com ela, que me explicou: 

-Irmãos são filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Irmãos têm a mesma cor de pele.  

Eu disse: 

-Mas eu gosto mais de você do que da Berta!

 Ela sorriu um pouco, mas logo ficou séria de novo: 

-Nunca mais diga isso, Yara. Berta é a sua irmã. Eu sou negra, e não posso nunca ser chamada de sua irmã.

Naquele dia, eu cheguei em casa muito magoada, e não quis almoçar. Ignorei o convite de uma amiguinha para brincar. Acho que eu tinha uns cinco anos naqueles tempos, e não compreendia o porquê de Cristina não querer ser a minha irmã. Mas não tive coragem de perguntar a ninguém sobre aquilo, talvez temendo, instintivamente, que alguma coisa se quebraria. Então, eu simplesmente esqueci. Continuei fingindo que Cristina era minha irmã, e ignorei todo o resto, embora nunca mais tivesse dito aquilo em público.

(continua)





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