domingo, 21 de julho de 2019

INOCÊNCIA - Capítulo XXVIII - Parte II





VII – A Grande Cartada

Era uma noite na qual Dr. Gustavo dormiria na fazenda. Minha avó teria que ir ao fórum na manhã seguinte, e como precisaria dos serviços dele, ele passaria a noite por lá a fim de leva-la à cidade junto com ele. Eu me perguntava o porquê de minha avó estar indo ao fórum; afinal, ela nunca saíra de casa naqueles quase quatro meses desde que eu chegara!

Naquela noite, eu estava disposta a jogar todas as minhas moedas de uma só vez: e se ela fosse lavar um testamento? E se eu estivesse sendo excluída dele?

A casa estava às escuras e eu estava em meu quarto mergulhada em meus pensamentos  quando escutei passos no corredor. Eu sabia que era Gustavo, pois minha avó nunca andava pela casa durante a noite, e Jandira dormia nas acomodações dos empregados – uma casa separada da casa principal. 

Eu tinha deixado a porta do meu quarto entreaberta de propósito. Usava uma camisola branca transparente, que eu tinha ganho de vovó. Era de segunda mão, mas estava em perfeito estado. Minha pele estava perfumada com uma colônia cara que surrupiara da penteadeira de minha avó, e eu tinha lavado e escovado meus cabelos com cuidado e esmero. Estava calor, e a janela aberta deixava entrar a luz estonteante e clara da lua cheia, que eu sabia estar iluminando cada curva do meu corpo e tudo o que a transparência da camisola revelava. Eu fingia dormir, jogada na cama displicentemente, as cobertas cobrindo apenas meus pés. 

Senti quando ele entrou e se aproximou de mim. Eu tinha escolhido aquela posição cuidadosamente, de modo que meus seios ficavam quase à mostra sob o tecido transparente da camisola, e a saia erguida até a coxa deixava que ele imaginasse o que estava sob o biquini mínimo que escondia seu sonho de consumo.  

Senti a cama ceder quando ele se sentou na beirada, e logo, a mão dele era passada sobre minha perna, levemente, subindo. Entreabri os olhos, e deixei que ele a colocasse onde queria. Ele se levantou e foi até a porta, trancando-a. Quando retornou, eu estava sentada na cama. Tentei fazer uma cara assustada, abraçando meu próprio corpo, fingindo vergonha. Ele disse:

-Não faça assim, Cristina... o que houve?

Choraminguei:

-Eu... não podemos, Gustavo... Dr. Gustavo! Você está noivo, e eu...

Ele me interrompeu, segurando meus pulsos e me fazendo abrir os braços. 

-Você é linda! É a mulher mais bonita que eu já encontrei. Quero você, e quero me casar com você!

-Não!!! Você é como o meu ex-patrão! Está só tentando se aproveitar de mim! Ele... ele me forçou! Eu... eu não queria! Ele me obrigou!

Ele pareceu chocado ao ouvir aquilo. 

-Cristina, shsh... tudo bem... se não quiser, não vou obrigar você a nada. 

Eu queimava por dentro. Todos os locais que ele tocara queimavam e latejavam. Comecei a chorar baixinho. Disse:

-Eu me apaixonei pelo senhor. Estou perdida! 

-Ele me abraçou, sentando-se ao meu lado na cama, recostando-se no travesseiro. 

-Eu também estou totalmente louco por você. 

Eu pude vislumbrar, através da claridade da luz do luar, que ele falava a verdade. Aquela visão me enlouqueceu. Mas eu não podia perder aquele jogo. Precisava me controlar, fingir inocência. Ele ergueu o meu rosto, beijando-o. Depois, me deu um longo e apaixonado beijo na boca. Eu sentia o coração dele bater contra o meu. Ele parou de tentar me seduzir, e percebi, através daquele gesto, que eu o tinha fisgado. Porém, meu desejo foi muito mais forte, e dando uma reviravolta, sentei-me de frente para ele, em seu colo, passando as pernas em volta dele. 

-Eu amo o senhor! Quero ser sua! 

Dali em diante, tudo aconteceu muito rápido e intensamente. Eu precisava fingir que não tinha experiência. Deixei que ele conduzisse tudo, mas na terceira vez, eu tomei as rédeas e fiz tudo o que eu queria. Ele murmurou: “Você aprende bem rápido!” 

Depois de tudo, ficamos ainda abraçados, até que o primeiro galo cantou, e ele achou melhor retornar ao seu quarto. Mas antes, me disse:

-Vou falar com sua avó hoje mesmo. Vamos nos casar.

Pensei naquela possibilidade; se me casasse com ele, deixaria de ser escrava de minha avó para tornar-me escrava de um homem. Eu queria a minha liberdade. Queria estudar, aprender, viajar pelo mundo e depois abrir meu salão de beleza. Não tinha vocação para ser esposa e mãe. Implorei a ele:

-Não, ainda não! Não faça isso! Ela é capaz de dispensar os seus serviços e proibir a sua entrada aqui. E depois... me colocaria para fora, eu estaria arrasada, minha reputação depois disso estaria na lama!

-Mas eu vou me casar com você.

-Não quero que você tome essa decisão no calor deste momento que vivemos. Foi maravilhoso, mas quero que esfrie a cabeça primeiro. Pense bem se é isso mesmo o que quer. 

E assim foi feito. Dias depois, ele me procurou. Era domingo, e dispensada dos meus serviços, eu estava no campo, longe da casa da fazenda, dando uma caminhada; e ele chegou, me abraçando por trás:

- Já pensei em tudo. Pensei muito, Cristina. Desmanchei meu noivado.

Meu coração deu um pulo, mas lembrei-me do conselho de minha vó para agir sempre com a cabeça, não com o coração. Nós nos sentamos à sombra de um velho carvalho, e segurando a mão dele, eu disse:

-Você sabia que minha avó não tem herdeiros? Sabia que ela deserdou meu pai por ele ter se casado com minha mãe? 

Ele concordou com a cabeça. Continuei:

-Ela ontem me disse que não tem a menor intenção de deixar nada para mim. Deixará sua fortuna para uma instituição de caridade. Disse que eu não mereço um centavo... você sabia que Jandira é filha de meu falecido avô?

Ele arregalou os olhos:

-Não, eu nunca soube disso... mas... agora que você falou... realmente, ela se parece com a foto dele na parede da sala. Se parece muito!

-Bem, ela foi tratada como empregada a vida inteira. Meu avô nunca reconheceu  a paternidade. E minha avó a puniu, fazendo-a trabalhar para ela a vida toda como se fosse apenas uma empregadinha. Jandira nunca estudou, mal sabe ler. Cresceu dentro daquela cozinha. Assim como eu, na casa de onde eu vim, e agora também. 

Enxuguei uma lágrima furtiva que caíra à força.  

-Mas a partir do dia em que for a minha esposa, você será a rainha da nossa casa, Cristina. E Jandira... ela poderá ir trabalhar para nós.



(Continua...)






3 comentários:

  1. Ana, sensacional... aguardando a continuação. Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Fantástico! Amei ler!:)

    Beijos. Bom Domingo.

    ResponderExcluir
  3. Ana, que maravilha de composição... Prende a gente mesmo!
    Vamos aguardar o que vem por aí nas "cenas dos próximos capítulos..."
    Beijos!!!

    ResponderExcluir

Obrigada por visitar-me. Adoraria saber sua opinião. Por favor, deixe seu comentário.

AS ESTRELAS QUE CONTEI - CAPÍTULO 14 - FINAL

  Havia na fazenda uma casa menor para hóspedes, que geralmente ficava fechada, e nós nos mudamos para lá. Uma semana depois do incêndio, Af...