quinta-feira, 8 de agosto de 2013

CONSIDERAÇÕES DE UMA MENINA



Naquela casa, ultimamente, imperava um silêncio misterioso. A menina observava o movimento, o entrar e sair de dentro do quarto do irmãozinho doente. Vinham médicos (estes, sempre carregavam uma maleta e vestiam branco); vinham outras visitas (tias, primos e primas. Os adultos cheiravam à naftalina, e os menores, algo entre chiclete de frutas e tangerina). Todos entravam e saíam após alguns minutos, silenciosamente...

A menina quase não recebia nenhuma atenção, a não ser por algum adulto que, de vez em quando, passava-lhe a mão pelos cabelos.

Apenas a avó conversava com ela. Já muito idosa, ela tentava fazer com que a menina fizesse um pouco de silêncio - afinal, o irmãozinho precisava dormir - e procurava, como podia, substituir-lhe a mãe, ocupada nos cuidados com o menor. Para distraí-la, a avó contava muitas histórias. As duas viviam sentadas na calçada lá fora, entrando e saindo de mundos encantados, onde conheciam fadas, princesas, príncipes e bruxas malvadas - e nem tão malvadas. Às vezes, uma joaninha pousava ali perto, e imediatamente, a avó inventava alguma história sobre ela.




De repente, no meio de uma dessas histórias, a menina pergunta, de supetão:

"Vó, o que é morrer?"

A velha senhora suspira, e tenta escolher bem as palavras:

"Bem, minha querida... todos nós nascemos, crescemos, daí nos casamos, temos filhos, depois netos... e a gente fica velhinho, velhinho... e depois, morre!"

Ela parece refletir por alguns instantes.

"Só gente velha morre?"

"Não, não... às vezes, gente nova também morre! Podem ficar doentes, ou sofrer algum acidente..."

"Mas... como é morrer?"

Não querendo mentir para a menina, mas também não pretendendo que ela pudesse compreender uma explicação exageradamente elaborada, a avó responde:

"Não sei, querida... alguns dizem que é como dormir para sempre."

"E nunca mais se acorda, vó?"

"É como eu já te disse, não sei. Tem gente que acha que a gente vai para um outro lugar; não com este corpo, mas com uma fumacinha que mora dentro da gente, chamada 'alma.' A alma sai do corpo quando a gente morre, e viaja para outro lugar."

A menina parece lembrar-se de alguma coisa de repente:

"Para o céu!" - Ela diz, apontando a imensidão azul. A avó concorda:

"Sim... para o céu."

"Mas... não tem gente que vira fantasma?"

A avó ri:

"Alguns dizem que sim... mas eu nunca vi nenhum, e você?"

"Eu não! E se eu visse, saía correndo!"

Ela parece ficar quieta por algum tempo, e se distrai, brincando de enfeitar as unhas com pétalas de flores. A avó espera, pois conhece a neta, e sabe que ela terá mais perguntas. A menina olha para ela:

"Vó... quem morre primeiro, gente velha ou gente nova?"

"Ah... geralmente, gente velha."

"Mas então... a vó vai morrer antes de mim?"

"Espero que sim, querida!"

"E antes do meu irmãozinho?"

A menina vê uma sombra passar pelo rosto da avó.

"Não sei, meu bem... você sabe, seu irmãozinho está muito doente!"

"Ah... mas o Totó ficou muito doente um dia, mas depois, ficou bom! Meu irmão não vai ficar bom?"

A velha senhora enxuga uma lágrima furtiva.

"Espero que sim, meu bem... espero que sim..."





Dizendo isso, a avó abraça a menina, e as duas ficam assim, quietinhas, olhando o céu e adivinhando formas nas nuvens.

Enquanto isso, a menina pensa na vida. E enquanto pensa, ela vai crescendo, e compreende que viver ou morrer é apenas uma questão de estarmos vivos, pois não importa quantos anos alguém possa ter, ou caso seja ou não saudável; isso não determinará quem vai antes ou quem vai depois. Quem está doente, pode vir a curar-se, enquanto alguém que está saudável, pode acidentar-se e ir bem antes daquele que está se curando. O dia da morte é sempre um mistério, como misteriosos são os caminhos da vida. 

Viver ou morrer são dois lados de uma mesma página, que ninguém sabe quando será virada. Por isso, tudo o que nos resta, é não pensar muito nisso, e deixar que o Vento de Deus decida quando virá-las. Se vivermos com intensidade, teremos vivido o bastante, e isso é o que importa.



5 comentários:

  1. Boa tarde, Ana. Assuntos sobre a morte e a vida sempre dão o que render, sempre filosofam sobre.
    Concordo com o conosco, principalmente na parte final, Deus é quem sabe o que acontecerá conosco, uma vez que a nossa história já está escrita por Ele, podemos mudar uma coisa ou outra com o nosso livre arbítrio, mas não a hora de morrer.
    Seria bom que a vida fosse eterna aqui, mas não é assim, terminamos uma missão aqui e começamos outra no plano espiritual.
    Parabéns.
    Beijos na alma e paz!

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    1. Sabe de uma coisa, tenho medo de morrer só porque acho nosso Planeta lindo demais e não queria sair daqui! A vida é maravilhosa demais somos a maravilhosa criação de Deus! Mas somente Ele é dono desse mistério! Grande abraço, querida Ana! Beijos

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  2. Ai que lindo: "VENTO DE DEUS"!
    Que conto bonito Ana, e essa vovó muito sábia, respondeu exatamente com os argumentos que a neta entenderia naquele momento.

    Morrer é somente uma passagem de vida, assim eu creio. Mas como tudo é mistério nesse campo, sentimos um certo receio.
    Mas Deus, sabedor de todas as coisas, nos conduzirá nesse momento.
    Estava com saudade de teus contos.
    bjs

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  3. COMO SEMPRE, MARAVILHOSO, O ENRRENDO, O DIÁLOGO, ADORO CONVERSAS DE CRIANÇAS COM AVÓS. SÃO TÃO INTENSAS.
    E VOCÊ DONA ANA, ARRASA COMO SEMPRE.
    BJS NO TEU LINDO CORAÇÃO.

    AMO TE LER.

    BJS DA PATTY.

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