domingo, 8 de junho de 2014

DESVENTURA



"Foi-se o tempo dos poetas tísicos, que morriam aos trinta anos de idade recitando poemas bêbados pelas calçadas da vida, uivando para  a lua, enquanto a amada platônica fechava-lhe a janela na cara!"

Ele não conseguia esquecer as palavras dela, que iam e vinham em sua memória,  ecoando sardonicamente. Pusera todo o seu amor em um pedaço de papel. Seu coração e sangue arrumados em linhas cuidadosamente caligrafadas. Diziam que suas letras pareciam-se com as de uma mulher, e ele caprichou nas letras que introduziam as estrofes, desenhando-as cheias de volteios, fazendo com que o texto se parecesse com alguma coisa antiga. Depois, colocou tudo em um envelope de linho cor-de-champanhe, lacrando-o com um coração de cera vermelha.

O poema falava de um amor tão forte, que transcenderia até mesmo a morte: o amor dele por ela.

Apenas não o assinara.

Deixou-o sobre a mesa dela, no escritório. Ficou de longe, olhando disfarçadamente, coração dando voltas, a fim de estudar sua reação. Ela chegou atrasada, como sempre, os saltos das botas marcando o rítimo seguro e impetuoso de seus passos. Ele ergueu os olhos da tela do computador. Viu quando ela largou a bolsa enorme sobre a mesa, e deparou com o envelope, puxando-o de sob o peso de pedra. Virou-o de um lado para o outro, e sem nenhum cuidado, abriu-o, despedaçando o coração de cera, cujos farelos ela displicentemente pisoteou, ao sentar-se.

Leu o conteúdo. De onde ele estava, só via os olhos dela, indo de um lado a outro da folha, trocando de linhas. Sem pensar duas vezes, ela rasgou o pedaço de papel em dois, jogando-o na lixeira, e disse a frase em voz alta, aquela mesma frase que vinha  martelando-lhe a  cabeça  há mais de uma semana.

Desde então, seu coração frustrado passou a odiá-la. Pensava que ela poderia ter tido mais tato. Poderia não ter rasgado o poema. Ele tornou-se ainda mais taciturno, e sempre que ela sorria, o som de seu riso causava-lhe calafrios de horror. O perfume que ficava no ar quando ela passava, dava-lhe ânsias de vômito. Os saltos de suas botas ecoando pelo escritório quase fazia com que ele tivesse convulsões. 

Às vezes ela vinha até a mesa dele, os longos cabelos presos por um lápis em um coque mal-feito deixando o pescoço fino e alvo à mostra, e perguntava sobre algum documento, mostrava algum relatório ou pedia sua ajuda para resolver algum problema. Ele tinha que fazer um enorme esforço para não pular sobre aquela veia do pescoço dela que pulsava bem perto da linha dos olhos dele, quando ela se inclinava sobre sua mesa. Sonhava com seus dentes cravando-lhe o pescoço, puxando e arrebentando aquela veia saliente que pulsava, pulsava... o sangue se esvaindo, espalhando-se pelo chão branco de cerâmica do escritório, os colegas todos correndo em direção a ela, enquanto ela se debatia, agonizando.

Um dia, ela não apareceu para trabalhar. Alguém disse que ela estava doente. Semanas se passaram, e as notícias não eram boas: ela estava, realmente, muito doente. Foi quando ele descobriu que não lhe desejava a morte: amava-a ainda mais desesperadamente, agora que estava na iminência de perdê-la para sempre. Em sua imaginação, ela estava deitada em uma cama de hospital, chamando por ele, estendendo-lhe os braços enfraquecidos, o rosto, uma máscara de dor. Só ele poderia salvá-la!

Naquela tarde, saiu mais cedo do escritório e comprou um enorme buquê de rosas brancas para dar a ela. Seu coração estava aquecido, pois sabia que, ao vê-lo, ela começaria a recuperar-se rapidamente, pois embora não soubesse, sua doença devia-se ao seu desamor por ela. Assim que ela soubesse que ele ainda a amava, ficaria curada!

Chegou ao hospital e percorreu o corredor que levava ao quarto dela, sorrindo para as enfermeiras, segurando o buquê. Ao chegar na porta, respirou fundo, e quando ia bater, notou que a porta estava entreaberta. Olhou pela greta, e viu um rapaz inclinado sobre a cama dela, segurando-lhe as mãos, sorrindo-lhe tristemente. Viu quando ele beijou-lhe a boca, e ela, apesar de fraca, correspondeu.

Ele voltou para o corredor, deixando cair as flores, e sentou-se em um sofá bem em frente a porta do quarto. Tremia de ansiedade. Esperou durante quase uma hora, até que finalmente, o rapaz saiu do quarto.

Entrou.

Ela dormia, a cabeça inclinada para o lado esquerdo, a veia do pescoço pulsando fracamente. Amor e ódio lutavam dentro dele. Paixão. Fogo ardente. Quem venceria?

Sufocou-a com o travesseiro, e depois jogou-se do décimo andar. Mas não sem antes deixar um bilhete, responsabilizando-a por tudo.

Um policial, ao ler o bilhete, apenas disse: "Não podemos responsabilizar ninguém pela nossa própria loucura."




6 comentários:

  1. Realmente - foi se o tempo...tempos modernos agora!
    Amando passar por aqui ;]
    Feliz com sua visita mais recente também,obrigadão.
    Beijos!!

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  2. Ola amiga, texto muito bem escrito e o tema muito bom, os tempos hoje, são modernos e quanta diferença! Mas muita coisa faz falta, o respeito por exemplo...A minha visita hoje é para te convidar a responder uma TAG, o linque da postagem é este, não tem regras e não é obrigada.
    http://professoralourdesduarte.blogspot.com.br/search/label/RESPONDENDO%20TAGs.
    Te espero, abraçoss

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  3. Os poetas tisicos se foram... ficaram os loucos que se acham poeta...

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  4. Bom dia Ana..eu como poeta muito me vejo no que escreveste.. realmente acho que estou no tempo errado.. quantas cartas de amor mandei na adolescencia e passando ela quanto sonetos já fiz na tentaiva de conquistar um amor de maneira antiga, com versos.. hj em dia não sei se vou conseguir isso.. acho que com carro, casa, apartamento, fazenda, ou qualquer dessas coisas se conquista né.. a beleza e não um cérebro com um ser pensante.. obrigado pela visita e comentário.. o último estrofe tava dificil de sair srsr mas ficou legal... abraços e até sempre

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  5. Olá Ana,
    dramático, forte, amei seu texto.
    bjo amigo
    Carmem

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  6. Boa tarde amiga Ana!
    A visita de hoje é para agradecer pelo carinho que você teve comigo no dia do meu aniversário e pelas suas palavras que me encheram de emoção e com certeza, o meu dia ficou mais alegre e feliz.
    Ao longo da minha vida sempre tenho conquistado grandes e verdadeiras amizades e no mundo virtual, você tem sido um lindo presente. Por diversas vezes, quando estou me sentindo só, uma palavra amiga que vem do outro lado da telinha me conforta, me alegra e me faz sentir que tudo na vida tem um significado. Apaixonar-me pelo mundo virtual, só tem me proporcionado alegrias e com certeza você tem contribuído pra isto. Obrigada! Que Jesus derrame chuvas de bênçãos sobre você e sua família.
    Bjuss Lourdes Duarte

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