segunda-feira, 30 de junho de 2014

Como Fazer Amigos - Um Conto Juvenil Parte II




Sustentei o olhar dele o máximo que eu pude, daquela vez. Ele sorriu de um jeito mais atrevido, e senti meu rosto queimar. Odiava aquela minha mania de ficar vermelha feito um pimentão toda vez que um garoto me olhava! No fundo, eu 'sabia' que, quando eles me olhavam, era por mera curiosidade, por causa do meu jeito esquisito. Furiosa, sentei-me ereta na cadeira e virei para frente, tentando prestar atenção na aula de Geografia, cujo professor acabara de chegar.

Na hora da saída, Priscila passou o braço pelo meu como se fôssemos velhas amigas, e senti o olhar das outras meninas queimando-me as costas... no caminho até o prédio onde ela morava, ela ficou falando uma porção de bobagens sobre roupas e maquiagem, e eu apenas escutei. "Nossa, como é vaidosa e vazia," pensei. Mas no fundo, nem percebia o quanto eu desejava ser como ela, popular e linda.

O apartamento de Priscila era grande, arejado, claro e muito bem decorado. Fiquei impressionada com os sofás macios e brancos, em volta de um tapete vermelho felpudo. Admirei os quadros nas paredes que retratavam coisas incompreensíveis, mas que deveriam custar uma fortuna, e os objetos de arte espalhados em todos os cantos. Pensei em minha casa simples e quase nua de ornamentos, e senti que jamais a convidaria para ir até lá. Jurema, a empregada, sorriu-me gentilmente, enquanto pegava a bolsa e a mochila de Priscila para guardar. Pensei no quanto ela deveria ser uma dondoca inútil que nem sequer guardava suas próprias coisas. Depois, Jurema voltou, avisando que o almoço logo estaria pronto. 

Cheguei à janela e desfrutei da bela vista para o parque. A cidade estendia-se aos nossos pés, ou seja, aos pés de Priscila. Lembrei-me da vista do meu quarto: os fundos do quintal. cada vez mais, me invadia um sentimento de inadequação (o que eu estava fazendo ali, afinal?) e um amargor que crescia e tomava conta de mim. Jurema chamou-nos para o almoço, e segui Priscila té uma sala linda e silenciosa, sem janelas, com uma mesa para doze pessoas sobre a qual descia um lustre de cristal que cintilava de tanto brilhar, e sentei-me em uma das cadeiras macias estofadas de veludo azul-caneta. Perguntei pela mãe de Priscila, e notei uma sombra passar-lhe pelo rosto quando ela respondeu:

-Ela está no trabalho, é arquiteta. Minha mãe quase não fica em casa. Chega bem tarde.

-E seu pai?

-Hum... meu pai... mora em outra cidade, sabe. Eles são divorciados. Ele não vem muito aqui, tem outra filha, outra mulher, outra vida.

Não falei nada, mas pensei em meu próprio pai, que eu nunca conhecera, e em minha mãe, que naquele momento estaria trabalhando em seu feio escritório na repartição pública. E começamos a desfrutar da deliciosa lasanha servida por Jurema. Após o almoço, ela me chamou para irmos até seu quarto, um enorme espaço, onde vi sua mochila em uma cadeira ornamentada, e a bolsa que usara na escola, pendurada em um cabide cheio de outras bolsas que pareciam caríssimas. Olhei em volta: sobre a cama com cabeceira de ferro dourada, um colchão estufado de tão macio, coberto por uma colcha rosa-choque e travesseiros e almofadas rosas, azuis, brancos e amarelos. Nas laterias, um par de tapetes brancos muito felpudos onde Priscila com certeza colocava seus pés pela manhã, ao acordar naquele quarto maravilhoso.

As paredes eram rosa-claro, e havia uma cômoda por trás da qual um enorme espelho dominava uma das paredes. Pensei no quanto ela devia passar horas diante dele... Na parede oposta, uma barra dourada para bailarinas, daquelas que só existem nas academias de dança, e Priscila imediatamente tomou posição e começou a alongar-se (apenas para exibir-se para mim). Fiquei olhando para ela, apreciando seus gestos delicados e precisos. Gestos de quem já dançava há muito tempo.

-Eu não sabia que você dançava.

-Faço balé desde os três anos de idade. Bem, com licença um minuto. Vou me trocar.

Dizendo aquilo, ela desapareceu por uma porta estreita, pela qual pude entrever os azulejos brilhantes e muito brancos de seu banheiro privativo. Pensei nos azulejos rachados do único banheiro de minha casa. Minutos depois, ela voltou, usando um vestido de malha largo e confortável - e cor de rosa, é claro. Tinha prendido os cabelos em um coque, e calçava chinelos de salto com pom-pons. Parecia uma diva de cinema. Enquanto eu ia tentando explicar a ela os fundamentos da trigonometria, reparava em suas unhas esmaltadas de branco e bem-cuidadas, e no anelzinho de ouro com pedra vermelha que ela usava na mão esquerda. Envergonhei-me de minhas unhas quadradas e sem brilho, e do meu anel preto de fibra de coco.

Após duas horas, olhei meu reloginho de pulso e disse: 

-Tenho que ir, está ficando tarde. Mas acho que precisaremos de outras aulas.

Ela concordou, desanimada:

-É, eu acho que sim... sou uma negação com números. Mas... antes de ir, me fale um pouco de você, Nanda. Sabe, você é um mistério!

Aquela observação me pegou de surpresa; nunca antes alguém se interessara em saber qualquer coisa a meu respeito, a não ser minha mãe - se eu estava indo bem na escola, se eu estava com saúde, se precisava de alguma coisa - e Ágatha - se eu tinha beijado alguém no final de semana, se eu tinha assistido ao show na MTV. Mas jamais alguém perguntara sobre minha pessoa. Ela percebeu que eu estava embaraçada, e riu:

-Tudo bem, Nanda, só estamos nós aqui. Não precisa falar, se não quiser. Olha, vamos fazer assim: eu falo um pouco de mim, e depois, se você quiser, você fala de você. Tá bom? Bem, eu tenho quinze anos, moro nesta cidade há apenas seis meses, gosto muito de sair, adoro o Justin Bieber e a Avril Lavigne, minha cor favorita é o rosa, já namorei muito, e hoje em dia, estou de olho em um garoto, mas... tá difícil (ela deu uma risadinha), amo dançar, estudo balé, viajo muito, amo natação, e tenho um cavalo... no aras, é claro, e eu o monto nos finais de semana. O nome dele é Charlie. 

Ela ficou me olhando. Pensei nas coisas que ela dissera, e que para mim, nada diziam sobre uma pessoa. Também intrigou-me o fato de ela dizer que estava de olho em um garoto e não estava sendo correspondida. Decidi entrar no joguinho dela, e dar respostas completamente diferentes das suas, apenas para chocá-la e deixar claro que não tínhamos nada a ver uma com a outra:

-Meu nome é Fernanda mas todo mundo ( e não é muita gente) me chama de Nanda, moro aqui desde que nasci, nunca viajei, eu detesto balé, odeio natação ou qualquer atividade na água, minha cor favorita é preto, odeio Avril Lavigne, abomino Justin Bieber e amo Avenged Sevenfold (já ouviu falar? Um grupo de rock pesado), nunca namorei, não estou interessada em ninguém e ninguém está interessado em mim, não tenho um cavalo, mas um cachorrinho vira-latas desde que eu tinha nove anos, e ele não tem nome, eu o chamo de Cachorro. Ah, temos algo em comum: também tenho quinze anos!

Ela ficou me olhando, tentando digerir minhas informações, e de repente, caiu na gargalhada. Aquilo me deixou furiosa, mas finalmente ela parou de rir, e me olhando fundo nos olhos, declarou:

-Gosto de você. Você tem algo que eu gostaria de ter, Nanda: autenticidade. Você é você mesma, e não se importa.

Fiquei pasma, boquiaberta! A princesinha gostava de mim? me achava original? Dizia que não era autêntica? Era a minha vez de rir alto! E eu o fiz. Ela ficou me olhando com seus enormes olhos azuis, deitada de bruços no tapete, o rosto apoiado nas mãos. Olhei para ela de onde eu estava, sentada na beirada de sua cama dourada, e sua posição física inferior a minha deu-me coragem:

-Sabe, Priscila... você é um mistério. Como assim, você não se acha autêntica?

Ela baixou os olhos, passando a mão no tapete:

-Na verdade, eu luto muito para manter minha imagem de garota perfeita, sabe... você não sabe quantas horas eu passo por semana no salão de beleza fazendo unhas e cabelos, depilação, massagens... ou escolhendo as roupas certas. Minha mãe não admite que eu me descuide. Quer que eu pareça sempre perfeita, talvez para mostrar às suas amigas que, apesar de ter sido abandonada pelo marido por ser uma megera workaholic, ela tem tudo sob controle. Vê essa casa perfeita? Ah, eu estou sempre de dieta! 

-Mas nós almoçamos lasanha, se não me engano.

-Porque eu liguei e pedi para Jurema preparar, escondido da minha mãe. Disse que ia trazer uma colega cujo prato preferido era lasanha.

Dizendo aquilo, ela começou a olhar as próprias unhas, muito séria:

-Meu esmalte lascou... droga, preciso ir ao salão. Minha mãe odeia unhas lascadas e esmalte descascado. Ela diz que é o cúmulo do desleixo!

Sentando-se ao meu lado na cama, ela encostou em mim,  e senti seu hálito de chiclete de morango:

-Bem, como é a sua mãe, a sua vida?

Respirei fundo, e percebi que não pensava muito naquilo também. De repente, um sentimento de ternura tomou conta de mim, e comecei a falar de minha mãe:

-Minha mãe se chama Débora. Não conheci meu pai, ele morreu antes de eu nascer. Mas minha mãe tomou conta de tudo o melhor que pode. Não temos uma vida perfeita, mas ela sempre se preocupa comigo, e a gente sai, vamos ao cinema juntas, fazemos compras, vamos ao mercado, ao shopping, à lanchonetes. Ultimamente, agora que você me perguntou, percebo que não tenho conversado muito com ela...

-Talvez porque você está crescendo, e todos os adolescentes odeiam seus pais, é normal.

Percebi que aquilo não era verdade.

-Não, eu amo minha mãe. É que eu ando meio-confusa ultimamente...

Notei que aquela conversa estava ficando perigosa; afinal, eu estava me abrindo para o inimigo! Olhei novamente o relógio, e levantei-me, dizendo que precisava realmente ir, afinal já eram quase cinco horas da tarde e minha mãe logo estaria em casa. 

-OK, então. Quando vamos nos encontrar de novo? Poderia ser na sua casa!

Tive uma reação intempestiva e quase gritei:

-Não! 

Ela ficou me olhando. Me corrigi com uma mentira:

-Não, a casa está em obras, sabe. Muita poeira.

-Tudo bem, então. Podemos repetir amanhã, após a aula?

Pensei no rumo que as coisas estavam tomando; eu, frequentando a casa daquela patricinha metida após as aulas, todos os dias? Ela devia pensar que eu não tinha nada melhor para fazer. Resolvi decepcioná-la:

-Amanhã eu não posso, tenho um compromisso. 

-Depois de amanhã, então?

-Mas é sábado!

-A gente se encontra no shopping. Podemos estudar lá.

-Você acha? Não é muito... barulhento e movimentado?

-Hãhã. Mas tem um café que é bem tranquilo. Nos encontramos no Herald's Café Às duas e meia, então? 

-OK.

Fui para casa me sentindo muito estranha. Eu caminhava e sentia meus passos mais pesados, como se eu fosse uma pata desajeitada, apesar de ser tão magra. Ao passar na vitrine de uma loja, parei e me vi refletida, e meus jeans desbotados e rasgados no joelho de repente me pareceram feios demais. Meu rosto branco, os olhos delineados de preto, o rabo-de-cavalo longo caindo sobe as costas, o piercing perto do olho, tudo me fez sentir como uma esquisita ridícula. Mas aquela era eu! Priscila era a esquisita ridícula, cheia de si, metida e patricinha. Ela mesma me elogiara pela minha originalidade. 

Pensei em Santiago, e no que ele faria se tivesse que escolher entre uma de nós duas. Bem, na verdade, aquela escolha jamais existiria, pois ele nem sequer pensaria duas vezes: ficaria com Priscila, é lógico! Até eu no lugar dele faria a mesma coisa. Era tudo tão óbvio.

De repente, lembrei-me do filme "Carrie, a Estranha." Na história do filme, Carrie, a esquisita da escola, a que nunca se adaptava, foi abordada por um garoto e um grupo de meninas populares que só quiseram humilhá-la em público. lembrei-me dos olhares de Santiago para mim, e em suas tentativas de aproximação, e também no súbito interesse da garota mais popular da escola pela minha pessoa, e pensei que aquilo tudo poderia não passar de um plano sujo. 

(continua...)




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