terça-feira, 1 de julho de 2014

Como Fazer Amigos - Um Conto Juvenil Parte III








A neblina dissipou-se, e me vi diante da sombra indistinta de um homem. Havia uma luz por trás dele, e por isso, não conseguia distinguir suas feições. Ele foi se aproximando devagar, e quando parou bem na minha frente, reconheci o rosto lindo de meu anjo inspirador: Santiago! Ele foi aproximando o rosto do meu devagarinho, enquanto seus olhos me queimavam. Meu coração parecia que ia sair pela boca. Uma leve brisa começou a soprar, e começamos a levitar em direção ao céu vermelho de uma linda tarde ensolarada. Quando nossos lábios finalmente se tocaram, a magia foi quebrada por minha mãe:

-Nanda, acorda! São quase onze horas, e você ainda nem arrumou seu armário como prometeu.

De volta à realidade, e ela podia ser bastante brusca. Entreabri os olhos no momento em que a almofada que minha mãe me jogou atingiu meu rosto em cheio. Joguei a almofada para o lado, e ela, de braços cruzados, repetiu:

-Acorda, menina! Hora de tomar café e arrumar seu armário antes do almoço. Hoje é sábado, lembra? Você prometeu.

-Hum... tá bom, mãe. Mas você bem que poderia ter sido mais sutil.
-Estou te chamando há um tempão, Nanda. Anda logo!

Dizendo aquilo, ela saiu. Levantei-me e abri a porta do armário, enquanto gritava  em resposta à minha mãe que não, obrigada, não estava com fome e não ia tomar café da manhã. As minhas roupas, emboladas e jogadas, me aguardavam. Seria uma tarefa hercúlea. Por que as pessoas inventaram os armários?

Comecei a selecionar as roupas em diferentes pilhas: "lavar", "doar" "guardar novamente" e "Jogar fora." A última pilha foi a maior de todas - camisetas e meias tão rasgadas que nem dava mais para usar. Um par de botas de cano médio muito gastas e  furadas na sola. Algumas roupas íntimas que eu teria vergonha se alguém as visse. Duas calças jeans que não me serviam mais. Um vestido de festa que usei no casamento de uma amiga de minha mãe quando eu tinha treze anos.

Na pilha de roupas que ficariam: duas calças jeans ainda apresentáveis, embora bastante desbotadas. Um short tacheado nos bolsos. Algumas camisetas um pouco surradas, mas que ainda davam para o gasto. Dois casacos jeans e um suéter de lã preto com algumas bolinhas. Um casaco azul-marinho acolchoado e pouco usado, quase novo. Dois pares de tênis (percebi que eram os únicos calçados que eu tinha). Três calcinhas e um sutiã ainda apresentáveis (embora eu tivesse certeza de quem ninguém veria minhas roupas íntimas num período de, quem sabe, dez anos). Um vestido de malha e renda, preto e bem bonito, que eu nem me lembrava mais que existia (separei-o para usar no meu encontro com Priscila no shopping). Ele não ficaria muito bonito com meu par de All Star preto, mas era o melhor que eu poderia fazer. Um par de meias arrastão pretas, que separei também para usar com o vestido e o tênis preto. 

Na pilha de roupas para lavar, alguns pijamas e camisolas, roupas íntimas e meias. Joguei a roupa usada na máquina e chamei minha mãe para ver o resultado do meu trabalho. Ela olhou o armário com atenção, passando a mão nos cabides onde estavam penduradas minhas poucas peças de roupa. 

-Você só tem roupas pretas, Nanda...

Me defendi:

-É minha cor favorita. 

-Mas você ainda é jovem, e precisa de um pouco mais de cor. Além disso, está precisando fazer umas compras. Quase não tem o que vestir para sair. 

-Olha, eu não ligo. Para mim está bom assim.

-Mas eu ligo, filha. Há quanto tempo não faz umas compras? Acho que... mais de um ano! As jovens da sua idade vivem comprando coisas novas.

Bufei:

-Mãe, eu a chamei para ver se a arrumação está boa, não para criticar meu figurino.

Ela me olhou, fechando a porta do armário:

-Venha comigo.

Segui-a, revirando os olhos de tanta impaciência, as barras da calça do pijama arrastando no chão do corredor.
Ela me levou até o seu quarto, e abrindo a gaveta da mesa de cabeceira, retirou uma velha carteira de couro onde havia um bolo de notas. Arregalei os olhos, e brinquei:

-Nooossa! De onde vem essa grana toda, mãe?!

Ela riu, e separou uma boa quantia que me estendeu, dizendo:

-Minhas economias, Eu ia pintar a sala, mas acho que você está mais necessitada de cor do que as paredes. Pegue esse dinheiro e faça umas compras. Mas com uma condição: não quero nenhuma peça de roupa preta, ouviu?

-Mas mãe... eu só fico bem de preto! Olha, se for para querer mandar no meu figurino, pode ficar com o dinheiro. Eu não quero.

Saí do quarto pisando fundo, e ela me seguiu:

-Não senhora. Ou compra roupas novas, decentes e de acordo com a sua idade, ou então eu mesma o farei, e você terá que usar o que eu escolher. E ainda vou jogar toda aquela roupa de velório no lixo.

Dizendo aquilo, ela pegou minha mão e colocou o dinheiro na palma, apertando meus dedos em volta dele. Bufei novamente, sentando na cama. Do corredor, ela ainda gritou:

-Aproveite que vai ao shopping hoje, e vê se chega em casa com algumas roupas novas.

Após o almoço, tomei um banho e comecei a me vestir para sair. Achei que seria legal usar o cabelo solto daquela vez, mas ele estava comprido demais; assim, sequei-o e fiz um coque desfiado, que prendi com uma presilha preta. Coloquei o vestido, que minha mãe tinha feito o favor de passar até ficar esticadíssimo, e por cima, uma corrente prateada. Coloquei também meu jogo de pulseiras prateadas, e não usei meu habitual piercing. Calcei as meias e os tênis pretos e me olhei no espelho: até que não estava mal... passei o lápis preto em volta dos olhos, caprichei no rímel e no batom roxo, e agarrando minha tiracolo preta, saí sem que minha mãe me visse, bradando um "Tchau, mãe!" do corredor. 

Cheguei ao café e coloquei o livro de trigonometria sobre a mesa, selecionando um ponto que cairia na prova  para ensiná-lo à Priscila. Pedi um Capuccino e aguardei. Na mesa ao lado, havia um grupo de garotos que conversavam animadamente, tomando Cocas e comendo sanduíches. Nem notaram minha presença, mas eu já estava acostumada. Fiquei estudando a matéria mais um pouco, distraída. De repente, eles fizeram silêncio, o que me fez erguer a cabeça, e logo descobri a razão: Parada na porta do café, estava Priscila. Ela me viu, e acenou para derramando seu sorriso branco-brilhante. 

É claro, estava deslumbrante em um vestido azul-caneta debruado de preto, cujas saias esvoaçantes bailavam em volta de suas pernas bem feitas, torneadas pelas sandálias altas. Os cabelos estavam soltos e parecia que ela tinha acabado de sair do salão. A maquiagem, leve e perfeita, realçava seus traços bonitos e delicados, e notei que tinha pintado as unhas (dos pés e das mãos) de vermelho-vivo. Assim que ela entrou e sentou-se perto de mim, todos os olhares viraram-se para a nossa mesa, ou seja, para ela.

Ela chegou e foi logo sinalizando para a garçonete, pedindo um chocolate gelado com menta, enquanto atirava o livro de trigonometria sobre a mesa (quase derramando meu capuccino e se desculpando ligeiramente pelo evento), e seu perfume caro entrou pelas minhas narinas, causando um pouco de enjoo. Priscila era um verdadeiro furacão. Ela simplesmente me irritava. Deu uma risadinha, e abriu o livro, mostrando-me um ponto no qual tinha muitas dúvidas. Olhei para os garotos da outra mesa; eles conversavam baixinho agora, e notei que falavam sobre ela, que nem se dava conta. 

A garçonete trouxe seu chocolate e foi solenemente ignorada (eu sempre agradecia aos garçons e garçonetes, e achei sua atitude um tanto petulante). Comecei a explicar-lhe a matéria, e ela prestava atenção com boa vontade. Era inteligente, e ao final da explicação, disse que eu seria uma ótima professora. 

Pedimos uma garrafa de água, e eu comecei a explicar a próxima equação, quando ela fechou o livro na minha cara, respirando fundo e dizendo:

-Por hoje chega de trigonometria. Meia hora é muito para um sábado. Vamos fazer alguma coisa, ir ao cinema, passear por aí...

Não gostei daquela ideia. Eu ficaria ainda mais insignificante passeando ao lado daquela musa! Os garotos a olhavam fixamente, e ela finalmente notou a presença deles, mas lançou-lhes um olhar rápido e desinteressado. Levantou-se e pagou nossa conta, apesar da minha insistência em rachar o valor, e nós saímos do café, seguidas pelos olhares desapontados dos meninos. 

Lá fora, ela me olhou de cima abaixo, exclamando: 

-Nossa, nunca te vi de vestido. Ficou... legal!

Eu sabia que ela estava apenas tentando ser gentil. Eu parecia uma bruxa gótica, mas era o que eu era. Dei um meio-sorriso e mudei de assunto:

-O que vamos fazer? Não tenho muito tempo, sabe, eu...

-Ah, deixa disso. Podemos... fazer umas compras!
-Fazer umas compras?
-É!

Lembrei-me do dinheiro que minha mãe tinha me dado e da tarefa à qual ela me submetera: comprar roupas novas. Bem, talvez ela pudesse me ajudar, isto é, se não tentasse me levar às butiques caras nas quais ela com certeza comprava. Quando passamos em frente a um grande magazine popular, meu queixo quase caiu: na vitrine, o mesmo vestido que Priscila estava usando! Ela percebeu minha surpresa:

-Você achou que meu vestido tivesse custado uma fortuna, não foi? Pois é... quando a gente sabe comprar bem e tem personalidade para usar uma roupa, ela sempre parecerá mais cara do que realmente custou.

Tomei aquele conceito como minha lição número um. Não respondi, mas o eco das palavras dela ficaram em minha cabeça. Abri o jogo:

-Minha mãe mandou eu fazer umas compras... não sei o que vou comprar, pois ela me proibiu de comprar qualquer coisa que seja na cor preta. 

Os olhos dela brilharam:

-Legal! Se quiser, eu posso te ajudar. Isso é, não quero parecer intrusa...

-Por mim, tudo bem!

-...Mas se me permite... acho que você precisa de um banho de salão de beleza. Um corte no cabelo, um trato na pele e nas unhas. Sabe, você é uma garota bonita e fica se escondendo atrás desses olhos maquiados de preto!

Olhei para ela, e ela percebeu que tinha ido longe demais:

-Desculpe... mas é verdade, Nanda... olha, se você quiser, o salão é por minha conta. Um pagamento pelas aulas particulares. 

O que eu disse em seguida saiu aos borbotões:

-De jeito nenhum. Quem você pensa que é, para querer me humilhar desta forma?

Ela corou:

-Não, de jeito nenhum eu quis humilhar você, Nanda. Por que você está sempre na defensiva? Só quero ajudar! Você dedicou uma grande parte do seu tempo ajudando a mim, e só quero retribuir!

Não respondi, e fiquei pensando no que ela dissera. parte de mim dizia-me para ir embora e deixá-la plantada lá, falando sozinha; a outra parte pensava nas palavras de minha mãe e em sua promessa de fazer compras para mim e me obrigar a usar o que ela escolhesse. Mas uma outra parte, mais íntima, sabia que Priscila dizia verdade, e que eu era mesmo uma garota que estava sempre na defensiva.

Descruzei os braços, tentando sorrir:

-Olha, me desculpe... tá bom, então. Vamos ao salão. Eu aceito sua proposta, mas teremos mais aulas particulares, OK?

Ela bateu palmas de alegria e excitação.






2 comentários:

  1. Nossa Ana, ficou espetacular, ou seja ainda não findou o Conto, estou curiosa para saber o resto da história.
    Como sempre adoro tudo que escreves.
    Beijos e meu carinho.

    Vera Neves

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  2. Boa tarde
    Viver sempre na defensiva , muitas x é muito ruim,
    tem que dosar bem gostei da história.
    bjs
    http://eueminhasplantinhas.blogspot.com.br/

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