quinta-feira, 10 de julho de 2014

Como Fazer Amigos - Um Conto Juvenil - Parte VII






Quando minha mãe chegou em casa à noite, logo notou que eu estava diferente. Impossível tentar esconder algo das mães... contei a ela tudo o que estava acontecendo comigo, e tivemos uma longa conversa na qual ela me aconselhou sobre várias coisas a respeito de namorados, me fazendo prometer consultar um ginecologista que ela marcaria no dia seguinte. Achei um tanto constrangedor e um exagero, afinal, eu estava apenas começando a namorar. Minha mãe também aconselhou-me a respeito de Priscila, dizendo que era melhor deixar as coisas como ela as tinha colocado e não insistir em uma amizade fadada ao fracasso - éramos muito diferentes, e agora que eu estava namorando o menino de quem ela gostava, seria quase impossível continuar.

Concordei com ela, e fui dormir.

Na manhã seguinte, acordei de um sonho estranho, no qual eu chegava na escola e encontrava todas as meninas rindo de mim enquanto me atiravam pedras. Angustiada, me vesti e saí. Ao olhar-me no espelho, deparei com meu velho anel prateado de caveira sobre a pia, e senti vontade usá-lo, mas achei que ele não combinava com o meu novo visual. Ainda me achava um tanto estranha ao olhar-me no espelho todas as manhãs, como se a pessoa que me olhasse de volta na imagem refletida não fosse eu. Não queria incomodar minha mãe com o assunto, mesmo porque ela ficara totalmente feliz com minha nova imagem mais leve e colorida, mas eu mesma não estava totalmente confortável.

Ao chegar à escola, não vi nenhuma menina me esperando com pedras na mão. Mas nem mesmo Ágatha mostrou-se receptiva quando fui conversar com ela, respondendo-me com palavras monossilábicas e se afastando de mim na primeira oportunidade. apenas Santiago pareceu apreciar a minha presença, me recebendo com um caloroso beijo. Notei que os outros alunos às vezes cochichavam entre si, e olhavam para mim. Priscila cumprimentou-me friamente, e não me olhou mais, e nem as suas amigas. Eu fiquei a aula toda de História olhando para elas de rabo de olho, tentando entender o que estava acontecendo. achei que provavelmente tinham inventado alguma fofoca sobre mim.

Na hora do recreio, tentei falar com Ágatha, pois desde sempre, ela era a menina com quem eu mais conversava na escola, e perguntei-lhe se ela sabia de alguma coisa. Ela relutou um pouco antes de responder, mostrando-se mais aberta e receptiva:

-Tá rolando um lance aí sobre você.
-Eu sabia! Mas o que é? Aposto que foram a Débora e aquele séquito de patricinhas.

Ela concordou com a cabeça.

-Bem, ela espalhou por aí que você é traíra, e que ficou com o carinha que a Priscila disse para você que ela gostava, e isso, depois de ela ajudá-la a mudar seu visual e ainda por cima, pagar o salão de beleza e o cabeleireiro pra você. 

Fiquei atônita! Não pensara jamais que Priscila fosse capaz de contar que ela havia pago a conta, mas não mencionar o fato de que fora ela quem insistira. E nem mesmo falar das aulas particulares que dei para ela! 

-Mas... foi a Priscila quem insistiu em pagar, dizendo que focaria como um presente pelas aulas particulares! E ela não me falou nunca que estava a fim do Santiago. Eu nem imaginava!

-Pois é, eu acredito em você... mas pegou mal o que ela disse, e a Débora adora uma fofoca. Acho também que ela teve medo de perder o posto de melhor amiga da Priscila para você, e tratou de sujar sua imagem. Mas olha, nem eu entendi essa amizade repentina de vocês duas! Vocês nunca se deram, quero dizer, são totalmente diferentes!

naquele instante, vi Santiago aproximar-se de mim. Ele estava muito sério, parecia zangado, e pediu licença à Ágatha, levando-me para um canto do pátio:

-É verdade o que todos mundo está falando?

-Depende do que estão falando.

Ele mostrou-se impaciente:

-Quero saber de você: é verdade que você é traíra? Que usou a Priscila, fingindo ser amiga dela, para que ela te ajudasse a mudar o seu look, e  convenceu-a a emprestar dinheiro para você pagar o salão, e depois deu um calote nela? E o pior de tudo: ficou comigo mesmo sabendo que ela era a fim de mim?

Fiquei tentando digerir toda aquela maldosa fofoca a meu respeito, e perguntei a ele:

-Você sabia que ela era a fim de você?

Ele coçou o queixo, parecendo meio-sem jeito, e disse que sabia, mas que nunca tinha pensado em ficar com ela, e que o lance dele tinha sido sempre eu desde o começo.

-Você realmente acredita em toda essa fofocada que estão espalhando sobre mim? Acredita mesmo que eu sou uma traíra trambiqueira? Acredita mesmo que eu me aproximei dela para me aproveitar?

-Eu quero saber de você. Me diga: é verdade?

Naquele momento, senti o mundo girar rapidamente em volta de mim. Fiquei tonta, e precisei me apoiar em um tronco de árvore para não cair. Não sabia o que responder, mas sabia que se Santiago acreditava naquelas mentiras, não merecia estar comigo. E disse isso a ele. Ele ficou me olhando boquiaberto, insistindo pela minha resposta, e eu, como resposta, vire-lhe as costas e me afastei. Ele não foi atrás de mim.

Achei que eu deveria acertar as coisas com as patricinhas, mas antes, precisava saber se fora Priscila ou Débora quem espalhara aquelas mentiras sobre mim. Será que Priscila seria capaz de inventar aquelas mentiras, ou de, pelo menos, calar-se diante delas depois de eu tê-la ajudado?

O sinal tocou, e o professor logo entrou na sala, e tive que deixar minhas perguntas para mais tarde. Evitei olhar para Santiago e também para as meninas, tentando concentrar-me nas aulas. Eu estava magoada demais, envergonhada pelas mentiras que inventaram, e também, me sentindo traída por Santiago. Ele me decepcionara demais, e eu não sabia se voltaria a ficar com ele, mesmo se ele me pedisse perdão.

A aula terminou, e mandei uma mensagem de texto para Priscila, dizendo que precisava falar com ela. Ela recebeu (eu a vi lendo) mas não m respondeu. Ela me olhou, e havia uma frieza muito grande no seu olhar. Na hora da saída, ainda tentei alcançá-la, mas ela entrou no carro da mãe e não pude falar com ela. Restava-me Débora.

Eu a vi conversando com suas amiguinhas no portão da escola, e esperei até que a maioria delas fosse embora para me aproximar. Quando cheguei perto, caminhando por trás delas, Débora assustou-se com minha presença. Fui logo dizendo:

-O que você ganha com isso, Débora? Inventando todas  essas mentiras sobre mim? 

Santiago passou em sua motocicleta, ignorando a nossa presença. Senti vontade de chorar de humilhação, mas aguentei firme. Ela me olhou como se eu fosse uma barata, respondendo:

-Não sei do que você está falando, e nem quero saber.

-Você sabe, sim, e vai me explicar o que está acontecendo. Você sabe muito bem que eu não sabia que a Pri era a fim do Santiago, e que quem insistiu para pagar o salão foi ela!

Ela ergueu a cabeça (era mais alta que eu), e vociferou:

-Não se atreva a chamá-la de Pri! Somente os amigos podem chamá-la assim, e você não é amiga dela, nem de ninguém. Você não tem nenhum amigo. E se hoje está com uma aparência melhor do que uma gótica fedida, você deveria agradecer a ela, mas ao invés disso, você decide passar um calote na garota que te ajudou e roubar o carinha que ela gosta. Você é desprezível, ridícula, e traíra! Traíra!

As duas meninas que estavam com ela começaram a rir, e repetiam a palavra "traíra" em voz alta.

O sangue ferveu nas minhas veias. Parecia que a escola toda (os que ainda não tinham voltado para casa) estavam ali, em volta de nós, assistindo de camarote enquanto eu estava sendo humilhada, e aprovando. Algumas mães, que esperavam nos carros, também estavam prestando atenção. Comecei a respirar bem rápido, enquanto as lágrimas desciam uma a uma, turvando a minha visão. Quando dei por mim, estava agarrada aos cabelos loiros de Débora, e a derrubando no chão. Escutei as duas meninas gritando, e minha mão direita desferiu um tapa bem dado no rosto de Débora, enquanto eu estava montada em cima dela, a mão esquerda segurando firme o seu cabelo. Ela gritava e chorava, pedindo socorro. Senti que um par de braços fortes me erguiam à força, mas eu mal enxergava por causa das lágrimas.

Fui levada à secretaria da escola, e alguém me estendeu um copo de água com açúcar, tentando me acalmar, dizendo que já tinha telefonado à minha mãe (oh, não!) e que ela estava a caminho.

(continua...)


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