terça-feira, 8 de julho de 2014

Como Fazer Amigos - Um Conto Juvenil - Parte VI -






Quando o sinal do fim do intervalo tocou, fiquei na porta da sala de aula esperando por Priscila. Não queria que ela soubesse do ocorrido através das outras meninas, pois com certeza, elas tentariam detonar a minha imagem junto a ela.  Assim que eu a vi, chamei-a para um cantinho da sala de aula e contei-lhe o que tinha acontecido. Enquanto eu falava, vi o rosto dela ficando cada vez mais sério, e os olhos marejaram-se. Eu a estava magoando, e a culpa nem era minha... após escutar a minha história com Santiago, ela respirou fundo, e passando as mãos sob os olhos para conter as lágrimas, disse:

-Fazer o que, não é? Se é de você que ele gosta, vai fundo, Nanda.
-Priscila, eu não sabia que você estava a fim dele. E não queria que você pensasse que eu te apunhalei pelas costas, como a Débora disse.

Naquele momento, o professor de matemática chegou, e ela balançou a cabeça, dirigindo-se para o seu lugar. 

Mal prestei atenção à última aula, de tão ansiosa que eu estava; tanto por causa de Santiago quanto por causa de Priscila e suas amigas, que não desgrudavam os olhos de mim. Eu notei que Débora sussurrava coisas nos ouvidos dela e passava bilhetinhos, que ela lia e amassava entre as mãos de maneira zangada. Na hora da saída, enquanto eu subia na motocicleta com Santiago, pude ver o grupo de meninas tentando consolar Priscila. Débora a abraçava. 

Santiago levou-me a uma parte mais alta da cidade, de onde podíamos avistar as cadeias de montanhas lá embaixo, e nos sentamos na relva. Tudo em volta de nós era calmo e silencioso, a não ser pelo canto dos passarinhos que voavam por lá. Um perfeito clima romântico! Ele tirou do bolso um pacotinho de balas de hortelã, e após colocar uma na boca, ofereceu-me outra, que eu aceitei. Ficamos sentados lado a lado, e eu sentia uma ansiedade gostosa e terrível ao mesmo tempo. Ele também parecia um pouco nervoso. Conversamos sobre coisas da escola, até que o assunto caiu em Priscila. Ele me perguntou por que eu estava saindo com ela, se éramos tão diferentes. Respondi que eu a estava ajudando com Trigonometria, e que ela, em troca, me ajudara com meu novo look. 

Ele mastigava uma haste de capim, olhando a paisagem lá embaixo:

-Nanda, você é uma menina incrível, mas eu acho que deve tomar cuidado com a Pri. 

-Por que?

- Bem, ela me parece alguém totalmente fútil e bastante dominadora... basta olhar para aquelas meninas que estão sempre com ela, fazendo tudo o que ela quer. Tenho medo que ela a modifique demais, que ela tire de você aquilo pelo qual eu me...

Olhei para ele, o coração saltando pela boca:

-Você o que?...

Ele me olhou nos olhos:

-Me apaixonei.

Dizendo aquilo, lascou-me um beijo na boca, com sabor de hortelã. Era meu primeiro beijo, e eu queria estar totalmente presente ali, sentindo a emoção daquele momento. Minha mãe me dissera que o primeiro beijo fica na memória para sempre. Mas apesar de adorar estar sendo beijada por Santiago, meu pensamento às vezes se desviava para o rosto magoado de Priscila, e um sabor amargo me vinha à boca. Mas quando Santiago me abraçou forte após o beijo, e eu senti o vento soprando em volta de nós, e o sol de primavera nas nossas costas e braços, eu me esqueci de tudo, e me deixei ficar desfrutando daquele sentimento que era totalmente novo para mim. Até que eu me lembrei de algo:

Eu e Priscila tínhamos combinado, no dia anterior, de estudarmos naquele dia em sua casa, e agora eu não sabia se o encontro ainda estava de pé. Disse isso em voz alta sem querer, me afastando dele e me levantando. Santiago perguntou-me:

-Por que o encontro de vocês não estaria de pé?

Tentei desconversar:

-Sei lá, eu... é que... eu bem... na verdade eu me esqueci completamente. 

-Então não vá. Fique aqui comigo.

-Eu não posso, a prova de Trigonometria é em dois dias. Ela precisa de ajuda. Tenho que ajudá-la a corrigir as equações que eu passei para ela fazer.

Ele se levantou, me abraçando. Beijou-me novamente. 

-Então eu levo você até lá. 
-Acho bom eu ligar para confirmar primeiro.

Peguei o celular e disquei o número de Priscila, mas ela não atendeu. Novamente, pensei alto:

-Acho que ela está furiosa comigo...
-E por que ela estaria furiosa com você, Nanda?

Santiago era tremendamente perspicaz. Não deixava escapar nada. Tentei disfarçar novamente:

-É que... tivemos uma pequena discussão. Só isso.

Ele me olhou de forma desconfiada, e deu-me aquele sorriso meio-de lado que me derretia os joelhos:

-OK, se não quer falar no assunto, tudo bem.

Disquei o número de Priscila novamente. E depois, e mais uma vez. Finalmente, ela atendeu, e percebi a frieza em seu tom de voz. Fingi ignorar.

-Alô, Priscila. Estou ligando para saber se a aula está de pé.
-Pensei que você estivesse ocupada, Nanda.
-Nós combinamos, e eu tenho palavra. 
-OK. Pode vir.
-Tudo bem. Estarei aí em dez minutos.
-Espero você para almoçarmos.

Pensei se ela não colocaria veneno em minha comida... 

-Tudo bem, Priscila. Obrigada. Tchau.

Ela desligou.

Santiago deixou-me na porta do prédio de Priscila, e nos despedimos com um beijo. Olhei para o alto, onde ficava a janela do quarto dela, e dei com ela nos olhando. Dirigi-me à portaria, e enquanto subia no elevador, tentei pensar em alguma coisa para dizer, uma desculpa, uma explicação, como seu eu fosse uma criminosa. Quando a porta do elevador abriu, Ela estava esperando por mim. Tinha os olhos vermelhos e inchados.

-Entre.

Almoçamos em silêncio. Tentei comer, mas minha garganta fechou. Ambas brincávamos com a comida. Eu me sentia realmente muito mal por tudo o que estava acontecendo, e pensei que gostaria de estar em qualquer lugar que não fosse aquele.

Em silêncio, terminamos a refeição que nem começamos, e fomos para o quarto dela. Notei que ela calçava chinelos acolchoados cor-de-rosa, com caras de coelhos no topo. parecia uma menina frágil e magoada. Achei melhor quebrarmos aquele clima horrível:

-Priscila, mais uma vez, eu quero que você saiba que eu não tinha a menor ideia...

Ela me interrompeu:

- Importa-se de não falarmos nesse assunto? Eu... veja, eu fiz os exercícios, você pode dar uma olhada?

A tarde correu pesada, mas vi que ela se esforçou para concentrar-se na aula, e pensei que ela tiraria uma boa nota na prova, afinal. Quando levou-me até a porta, Priscila pôs a mão em meu ombro:

-Nanda...   obrigada por me ajudar.
-Ainda temos uma aula amanhã.
-Olha, não precisa vir, eu estou legal, vou conseguir tirar uma boa nota.
-Mas...
-Tudo bem. Nós ajudamos uma à outra, mas olha, nós nunca fomos amigas de verdade, e agora, acho que jamais seremos.

Engoli em seco, mas no fundo, eu concordava com ela. Fui caminhando para casa, pensando em tudo o que acontecera naquele dia longo demais.

(continua...)




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