quinta-feira, 3 de julho de 2014

Como Fazer Amigos - Um Conto Juvenil - parte IV



Entramos no salão mais fashion do shopping. Logo que coloquei os pés lá dentro, senti-me um peixe fora d'água. Os olhares dos cabeleireiros viraram-se na minha direção, enquanto eles seguravam tesouras e secadores. O cheiro de xampu, esmalte de unhas  e laquê era meio-enjoativo, mas aguentei firme. Enquanto eu permanecia encolhida na porta de entrada, Priscila penetrou o recinto com o maior desembaraço, cumprimentando a todos (beijando alguns no rosto e parando para fofocar por alguns segundos). Ela era bem conhecida por ali, pensei. Logo ela parou junto a um rapaz, visivelmente gay, mas bonito demais (o que eu chamo de desperdício: moreno, alto, bonito e sensual, como na música). Ela falou com ele por alguns instantes, apontando discretamente para mim. Senti meu rosto pegar fogo, e fiquei bastante irritada, enquanto ele me olhava da cabeça aos pés de uma maneira constrangedora. Finalmente, ele suspirou fundo, balançando a cabeça, e Priscila deu um gritinho de satisfação, batendo palmas; vindo em minha direção e puxando-me pela mão, ela segredou-me:

-O Serginho concordou em te atender. Dê graças a Deus, ele jamais atende sem hora marcada. Mas a condição dele, é que você confie totalmente em seu julgamento.

Pensei que eu estava me danando para o tal Serginho. Mesmo assim, balancei a cabeça, concordando com ela. Priscila apresentou-me a uma manicure, que logo colocou minhas mãos e pés de molho. Enquanto isso, uma das esteticistas massageava meu rosto e meu pescoço com um creme que parecia cheio de areia, e que Priscila disse ser um tal de creme esfoliante. Depois, ela lavou meu rosto com um líquido cheiroso e um algodão. Passou-me um creme perfumado e cobriu-me com uma toalha úmida. Senti a manicure começando a cortar minhas cutículas, e fiquei apreensiva, mas tentei relaxar. No rádio, uma música de salão de beleza tocava (uma mistura de tecno com trance que eu detestava). 

Após uns quinze minutos, a esteticista retirou a toalha e o creme cheiroso, e  passou-me um outro creme que disse ser um hidratante e comentou que eu tinha sorte, pois minha pele era maravilhosa, e aconselhou-me a jamais me expor ao sol. Priscila ergueu as sobrancelhas, pois tinha a pele bronzeada e dourada pelo sol. As duas comentaram que por isso, Priscila precisava de cuidados redobrados! Comecei a gostar daquele tratamento VIP. Sentia-me meio-princesa. Fechei os olhos e pensei na reação que Santiago teria ao me ver segunda-feira na escola.

Escolhi um esmalte marrom-escuro - o mais perto do preto que consegui. Achei minhas mãos lindas com ele. Priscila franziu o nariz em desaprovação e tentou me convencer a colocar um cintilante dourado por cima, mas eu não concordei: era demais para mim. 

Finalmente, de unhas prontas e pele limpa e hidratada, sentei-me na cadeira de Serginho. Ele soltou meu coque e mexeu nas minhas madeixas com as mãos, de modo a arranjá-las em volta do meu rosto. Analisou-me calado durante alguns instantes, e depois anunciou:

-Essa tinta preta que você usa no cabelo te deixa com um ar pesado.

Protestei:

-Eu não uso tinta. Meu cabelo é preto assim mesmo.
-Então vamos fazer umas mechas mais claras...

Protestei novamente:

-Olha, pode cortar como quiser, mas eu não vou fazer mechas. Não gosto.

Ele e Priscila se entreolharam, e ela arregalou os olhos. Ele suspirou de impaciência, e entendi logo o que ele estaria pensando: "Olha aqui, sua megerazinha cafona, eu concordei em atendê-la sem hora marcada porque foi trazida por uma das minhas melhores e mais assíduas clientes, e você concordou em submeter-se às minhas vontades e julgamentos. Levante esse traseiro magro e dê o fora do meu salão!" Mas ao invés disso, ele piscou os olhos repetidamente, respirou fundo de novo e disse:

-OK então. Mas não vai ficar tão bom.

Vi uma máscara de puro alívio no rosto de Priscila.

E ele começou: lavou meu cabelo várias vezes com vários produtos diferentes, massageou, esfregou, e finalmente, pegou a tesoura: Fechei os olhos enquanto escutava o barulhinho do corte e sentia minhas longas madeixas sendo literalmente mutiladas por ele. Tive vontade de sair dali correndo, mas fiquei firme. Senti que ele cortava a minha franja, antes que eu conseguisse protestar: tarde demais! 

Ele lavou minha cabeça novamente, e ligou o secador. Eu estava muda, e Priscila também. Serginho desligou o secador, deu a última ajeitada com as mãos e anunciou:

-Abra os olhos!

Hesitei. Não estava preparada.

Ele insistiu, ajudado por Priscila, e abri os olhos devagarinho. Deparei com um perfeito corte channel com pontas desfiadas e franja,  na altura dos ombros. Eu mal pude acreditar no que via: metade do meu cabelo jazia em volta da minha cadeira, e eu estava radiante de alegria!

Tive vontade de pular da cadeira e ajoelhar-me aos pés de Serginho. E foi exatamente o que eu fiz. Ele pareceu surpreso por um minuto, mas logo começou a rir e correspondeu ao meu abraço. Priscila dava gargalhadas. Eu estava linda! Mal me reconhecia!

Após meu efusivo agradecimento, Serginho segurou minhas duas mãos e disse, olhando nos meus olhos: 

-Espero que nos vejamos de novo. E por favor, se me permite uma sugestão, nunca mais passe aquele horroroso delineador preto em volta dos olhos, e batom roxo, pelo amor de Deus, jamais!

Saímos do salão após Priscila pagar a conta (que ela jamais me disse quanto custou) e fomos às compras. Eu me sentia leve e fluida. As pessoas começaram a olhar para mim, o que era algo totalmente novo na minha curta história de vida. Entramos em várias lojas, e sem fugir muito ao meu estilo, mas evitando a cor preta, Priscila ajudou-me a escolher vestidos (ela sabia o quanto eu gostava de cores escuras, e me ajudou a escolher roupas que variavam entre cinzas, verdes-musgos, fúcsias, marinhos e roxos. Algumas das roupas tinham detalhes em preto, mas "nada muito 'over'", como ela definira. Pela primeira vez, comprei um par de sandálias de saltinho e umas sapatilhas; nada de All Star pretos! Priscila também me ajudou a comprar maquiagem, e escolheu para mim cores leves de sombras que variavam do cinza ao azul e verde. Me fez abrir a bolsa e entregar-lhe o batom roxo, que atirou em uma lata de lixo.

No final do dia, quase noite, nós duas estávamos exaustas, jogadas em uma mesa de lanchonete agarrando dois enormes sanduíches. Em volta, várias sacolas e bolsas. Eu nunca tinha feito compras daquele jeito, e achei muito divertido! Mas havia uma pergunta que não queria calar, e atrevi-me a fazê-la:

-O que você viu em mim, Priscila?
-Hum? - ela murmurou, enquanto mastigava o sanduíche com a boca cheia.
-O que você viu em mim, sei lá, por que se aproximou de mim? Somos tão diferentes!

Ela riu:

-É verdade. Talvez tenha sido isso mesmo: somos bem diferentes. Já estava cansada das minhas amigas, sabe. Elas vivem me rodeando, reparando em minhas roupas, cabelo e maquiagem para depois copiarem tudo. Eu já estava cheia de conviver com meninas que não passavam de cópias minhas. Elas imitam até o meu jeito de rir, de andar.

Pensei, e percebi que ela tinha razão. 

-Sabe, Priscila, eu nunca gostei muito de você... aliás, não gostava nada.

Ela arregalou os olhos:

-Por que?

-Sempre te achei uma patricinha metida e fútil.

Fiquei esperando minhas palavras surtirem efeito. Ela terminou de engolir o sanduíche, e explodiu numa sonora gargalhada. Eu também. 

(continua...)

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