terça-feira, 15 de julho de 2014

Como Fazer Amigos - Um Conto Juvenil - Parte VIII




Suspensão. Três dias. Para mim e para Débora, felizmente. Sermões infindáveis do diretor da escola sobre não ser adequado para a imagem da instituição ter duas alunas brigando na porta, e sobre o quanto ficava mal para a nossa imagem. Alguém postou um vídeo da nossa briga no Youtube, o que foi devastador. Agradeci pelos três dias de suspensão, pois significaria que não teria que ir à escola e enfrentar os olhares alheios, as perguntas e os risos. E mais ainda: não teria que olhar para as caras de Priscila e Santiago.

Ele nem sequer telefonou para saber como eu estava. Não me procurou, e aquilo deixou-me profundamente magoada! Além de acreditar no festival de mentiras que inventaram sobre mim, ainda resolveu me ignorar completamente!

Minha mãe, após uma grande bronca na qual ouvi várias vezes as mesmas perguntas ( O que eu fiz para merecer isto, mas como você pôde fazer uma coisa dessas, o que vou dizer às minhas migas, etc...), finalmente pareceu ter compreendido o quanto eu estava ferida. Na manhã seguinte, já mais calma, enquanto eu estava sentada na cama pensando no que faria com o resto daquele dia horroroso que tinha pela frente, ela bateu à porta do meu quarto e entrou, sentando-se na beirada da cama:

-Filha, não quer me contar o que realmente aconteceu?

Balancei a cabeça, negando. Ela insistiu:

-Se você não confiar em mim, em quem vai confiar, Nanda? Olha, eu prometo que não vai ter sermão ou qualquer tipo de julgamento. Prometo ouvir você em silêncio e tentar ajudar no que for possível.

Aquela frase arrancou lágrimas de meus olhos, lágrimas que estiveram represadas dentro de mim naqueles últimos dias. Lágrimas de frustração, sentimento de culpa, inconveniência, arrependimento, rejeição, inadequação. Ela me abraçou forte, e deitando minha cabeça em seu colo, esperou pacientemente que eu parasse de chorar, enquanto acariciava meus cabelos. Eu fui me acalmando aos poucos, e quando olhei no relógio da cabeceira, notei que ela estava ficando atrasada para o trabalho.

-Não se preocupe, Nanda. Eu pedi dois dias de folga. Quero ficar um pouco mais com você, porque sei que está precisando de mim.

Olhei para ela, e minha gratidão foi tão forte, que chorei de novo. Contei-lhe tudo o que vinha acontecendo: falei de Priscila, contei-lhe sobre o fato de ela ter se oferecido para pagar o salão de beleza em troca das aulas, e no fato de ter ficado com Santiago, e de todas as fofocas que tinham inventado ao meu respeito; falei da minha dor porque Santiago acreditara nelas. Também falei de minha frustração em ter concordado em viver um personagem que não era eu, vestindo aquelas roupas que não tinham muito a ver comigo e usando aquelas bijuterias que não me descreviam. Para mim, a minha vida estava acabada - adolescentes sempre dramatizam tudo, minha  mãe sempre dizia. Mas daquela vez, ela apenas ouviu, e quando eu finalmente disse tudo o que queria, ela me ergueu e me fez olhar para ela, dizendo:

-Em primeiro lugar, vamos resgatar a sua dignidade: você vai procurar Priscila e devolver a ela o dinheiro que ela gastou. Depois, escreverá um e-mail ou mandará uma mensagem à Santiago contando toda a verdade, e se mesmo assim ele resolver acreditar em mentiras, nunca mais olhará para ele. Mais tarde, quero que você peça ao diretor da escola - eu vou te ajudar - um espaço entre as aulas para explicar à turma o que aconteceu, e como você está se sentindo. Precisamos dar uma lição naquelas meninas. Ninguém merce passar por isto que você está passando. Isto chama-se bullying! Ao mesmo tempo, você vai se desculpar com Débora pela agressão física - foi muito errado o que você fez. Não precisa ser amiga dela, apenas desculpe-se. Finalmente, vamos encontrar um meio-termo entre as mudanças que Priscila operou em você e a sua verdadeira personalidade, e nisto, eu é quem tenho que desculpar-me, filha. Você vai escolher entre as roupas que comprou com quais delas você quer ficar e quais vai devolver à loja ou trocar. Sei que não arrancou as etiquetas de todas elas. E eu vou com você ao shopping para ajudá-la.

Fiquei tão feliz que imediatamente, abracei minha mãe e parei de chorar. Achei que tinha sido muito bom confiar nela, e que ela era muito legal.

(continua...)


2 comentários:

  1. Boa tarde Ana.. eu era tri rebelde.. tb levei minhas suspensoes e boletim com 8 vermelhas rsrs
    hj escrevo poesias mas não assistia aula alguma.. vivia na padaria comendo empadinha..
    a parte das mentiras realmente ganha proporções muito grandes.. deviamos olhar mais para o nosso nariz.. fofocas são um problema nos dias de hj.. e este tal bullyng.. criam problemas.. a sociedade gosta de se afundar com coisas que nem deveriam existir..
    bjs e um lindo dia

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  2. Boa tarde,
    Da historia para a realidade, é sempre necessário confiar naqueles que nos querem bem e nos protegeram.
    Fique bem
    AG

    http://momentosagomes-ag.blogspot.pt/

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