segunda-feira, 25 de abril de 2016

A RESENHA DO MAL - CAPÍTULO I




Uma chuva fina e insistente mantinha o asfalto negro brilhando lá fora. O vento gelado entrecortava o barulho que vinha do bar, que ficava no andar térreo do prédio. Décio tomou mais um gole de sua cerveja, e virando-se de costas para a janela, encarou a sala quase escura – a não ser pela luz fraca que vinha de uma luminária e da tela do computador. 

Trabalhava para a Revista Vórtice, cuja sede ficava no Rio de Janeiro, e escrevia resenhas sobre livros. Sua coluna era uma das mais lidas, e podia dar-se ao luxo de trabalhar em casa, comparecendo ao escritório uma ou duas vezes durante a semana – ou mais, caso houvesse algum trabalho extra. Também escrevia crônicas para um jornal local uma vez por semana, e mantinha um blog sobre cinema e literatura. Tinha também um projeto engavetado, o seu maior sonho – um livro. Já fazia tempo que não se dedicava a ele, e já o estava escrevendo há mais de três anos. Quando Lana, sua mãe, telefonava para ele perguntando como ia o projeto, ele mentia: “Em andamento. Hoje terminei mais um capítulo.” Ela o incentivava e confiava muito no trabalho do filho, a quem formara jornalista com certa dificuldade, trabalhando como secretária em um escritório de advocacia, já que a pensão que o marido pagava mal cobria as despesas da casa. Décio mentia, pois sabia que, se ela soubesse que o projeto estava abandonado, ficaria decepcionada, e a última coisa que ele desejava fazer, era entristecer sua mãe. 

Mauro, seu pai, deixara Lana quando Décio tinha apenas oito anos de idade, casando-se com outra mulher quase vinte anos mais jovem que ele. Apesar de Lana jamais falar mal do pai ou de Patrícia, sua jovem esposa, Décio desenvolveu por ela uma antipatia que logo percebeu ser mútua. Patrícia mal falava com ele nos dias em que ele visitava o pai. Um ano após o divórcio, quando ela engravidou, Décio ressentiu-se ainda mais, mesmo que Lana tentasse fazer o filho entender que um irmãozinho, mesmo que um meio-irmãozinho, poderia ser algo divertido. 

Quando o bebê nasceu, Décio achou que Mauro passou a dedicar mais tempo ao novo filho do que a ele. Durante as visitas nos finais de semana, Décio ressentia-se ao notar a atenção e o carinho que o pai dedicava ao seu meio-irmão, ao invés de jogar vídeo game com ele ou leva-lo para dar uma volta de bicicleta no Parque de Itaipava, como sempre faziam. Patrícia não tentava facilitar as coisas, pedindo ao marido que olhasse o bebê sempre que este tentava dedicar ao filho mais velho um pouco mais de atenção. Ela era uma jovem de vinte e cinco anos ciumenta, possessiva e, segundo as observações de Décio, muito falsa. Tratava-o bem na presença do pai, mas o ignorava totalmente, chegando ao ponto de não responder se ele falasse com ela, quando o pai se ausentava por alguns instantes. O que ela mais desejava, é que a primeira família de Mauro não existisse. 

Apaixonara-se por ele desde a primeira vez que o vira, tomando uns drinks em um bar após o expediente, e fez de tudo para aproximar-se dele, mesmo quando suas amigas chamaram sua atenção para  a grossa aliança dourada que ele usava na mão esquerda. Patrícia não teve escrúpulos: para ela, a felicidade não era coisa que dava uma segunda chance. Gostara da aparência física de Mauro; adorava homens mais velhos, especialmente quando tinham uma mecha de cabelos começando a embranquecer nas têmporas. Além disso, ele era alto e bem constituído, tinha olhos verdes profundos e queixo largo, com lábios finos que se abriam para ela em um sorriso sedutor. Naquela mesma noite, ficaram juntos. Ela fez de tudo para deixa-lo completamente apaixonado, e passaram a se encontrar várias noites durante a semana. Mauro dizia para Lana que estavam trabalhando em um novo projeto, e que precisaria ficar no escritório até mais tarde algumas noites. Ele pensava que Patrícia seria apenas um caso passageiro, mas quando percebeu, estava completamente envolvido por ela. 
Sua boa forma, os longos cabelos ruivos, a conversa animada, o riso fácil que fazia com que ela virasse a cabeça para trás, expondo ainda mais o pescoço fino e delicado e os dentes muito brancos, as roupas modernas e a voz quase rouca... tudo o fascinava. Além disso, Patrícia era o retrato da mulher moderna e independente. Tinha seu próprio escritório de corretagem, apesar da pouca idade – presente do falecido pai – e o administrava com muita competência. 

Quando Mauro finalmente criou coragem e pediu o divórcio a Lana, surpreendeu-se com a atitude dela: Lana concordou imediatamente. Não fez escândalos ou perguntas. Não chorou, e não se  lamentou. Apenas concordou com a cabeça, respirando fundo, e disse que precisaria de um advogado. Até mesmo perguntou-lhe se ele não conhecia um que pudesse ajuda-la. Não quis saber se havia outra mulher: apenas deixou-o ir. 

Mauro ficou desconcertado com a reação da esposa. Então ela não o amava mais! Achou que deveria estar feliz por ter sido tudo tão fácil, mas por dentro, estava despedaçado. Descobriu que ainda a amava. Começou a lembrar-se de momentos que tiveram juntos, e naquela noite, enquanto ela ressonava ao seu lado na cama, começou a pensar no que poderia ter dado errado, ou no porquê de terem deixado que as coisas chegassem àquele ponto. Após o nascimento de Décio, eles tinham simplesmente dedicado todo o tempo livre ao filho. Deixaram de viajar ou sair à noite, como faziam sempre. Lana não gostava de deixar o filho nas mãos de estranhos, e parou de trabalhar para dedicar-se a ele. Em pouco tempo, o sexo tornou-se cada vez mais esporádico. 

Ele mesmo, passou a trabalhar durante mais horas no escritório de engenharia a fim de poder dar ao filho o que houvesse de melhor: queria-o nas melhores escolas, usando as melhores roupas e envolvido em várias atividades após as aulas, como judô, natação, futebol e cursos de inglês e espanhol. Tudo aquilo custava dinheiro, e Mauro estava disposto a pagar. 

Na manhã seguinte àquela noite quase sem sono, Mauro abriu os olhos e olhou para o lado: Lana já não estava junto dele. Ele se levantou, e ao ir até o closet para pegar uma roupa para ir trabalhar, encontrou sua parte no armário vazia e três grandes malas prontas no chão. Lana não estava em casa, e nem Décio. Ele ainda a esperou por algumas horas, sentado na poltrona da sala, olhando o vazio. Mas ela não voltou. Ele pegou as malas, colocou no carro e saiu. Passou a noite no apartamento de Patrícia. Logo depois, mais por desespero do que por amor, casou-se com ela, e eles compraram um apartamento maior. A paixão ainda estava acesa, mas Mauro compreendeu que nunca poderia amá-la. Mesmo assim, fazia tudo o que ela queria, e deixava-a sempre feliz. Era difícil para ele admitir um erro, e passou a desfilar com orgulhosamente sua nova esposa jovem, bela e extremamente vaidosa e orgulhosa pelos corredores por onde ele antes desfilava com sua esposa mais velha e não tão bonita. 

Logo ele percebeu as falhas no caráter da nova esposa. Notou que ela era competitiva, gostava de manipular as pessoas e era extremamente ciumenta. Durante ao processo de divórcio, quando Mauro comunicou-lhe que deixaria a casa e o carro para a ex-esposa, Patrícia fez um escândalo, e tiveram sua primeira briga. Ela só se acalmou quando ele prometeu que faria de tudo para que o valor da pensão fosse o menor possível. E ele sentiu-se péssimo quando soube, através de seu advogado, que Lana não contestara a decisão dele; pelo contrário, mandou dizer-lhe que já tinha um emprego, e que por isso, conseguiriam sobreviver com a pensão oferecida por ele.

Mauro dava presentes para o filho às escondidas, para que Patrícia não ficasse sabendo. Continuava a pagar-lhe as aulas e as mensalidades da escola sem que Patrícia soubesse, mas quando ele tornou-se um adolescente e começou a planejar fazer faculdade, Patrícia, enfurecida, sugeriu que Décio estudasse em uma faculdade pública ou arranjasse um emprego para custear os próprios estudos, o que fez com que Décio tivesse uma briga com ela e rompesse com o pai, que concordara com a esposa. 

Depois que Décio saiu e a tensão baixou, Patrícia, mais doce, disse a Mauro que precisavam pensar no futuro do filho deles – naquela época, o menino tinha apenas oito anos. Mauro, tentando segurar as pontas arrebentadas daquela relação, mais uma vez concordou com ela. Olhou para o rosto de Brian – seu pequeno filho – e achou que seria melhor concentrar-se de verdade em sua nova família, embora ainda pensasse em Lana e Décio com frequência. Porém, para os amigos, mostrava-se feliz e satisfeito com Patrícia. Eram o retrato do casal feliz e ajustado aos olhos dos outros. 

Mauro mandava ao filho cartões nas datas importantes, como Natal, Páscoa e aniversários, acompanhados de um gordo cheque, que Décio fazia questão de picar em pedacinhos e mandar de volta para ele. Mauro queria que, um dia, o filho aceitasse o dinheiro e o perdoasse, mas ao mesmo tempo, sabia que se aquilo acontecesse, sua vida com Patrícia voltaria a ser um inferno. Vivia, então, uma ilusão de felicidade e contentamento, que enganava a todos.

Quanto a Lana, quando o marido pediu-lhe o divórcio, há muito estava desconfiada de que Mauro a traía. Não sabia como agir, e ao pedir conselhos à mãe, já idosa, esta lhe disse que continuasse a viver sua vida, e não o questionasse, pois provavelmente, era apenas um caso passageiro, e ela não deveria destruir seu casamento por causa daquela bobagem. “Homens são assim mesmo,” ela ouvira a voz metálica da mãe ao telefone. E quando ele lhe pediu o divórcio, tudo o que Lana pensou em fazer, foi preservar a sua dignidade. Foi firme e forte, não deixando que ele percebesse o quanto estava destruída por dentro. Descobriu-se não querendo saber dos detalhes, pois eles a fariam chorar e a deixariam se sentindo ainda pior. Apenas abriu as portas para ele sair, e tratou de tentar esquecê-lo, cuidando do filho e trabalhando muito. Aos trinta e sete anos, ainda era uma bela mulher, e teve alguns namorados, mas Lana não conseguiu amar nenhum deles. 

Quando via o filho chegar em casa irritado após as visitas ao pai, ela tentava conversar com ele, acalmá-lo e pedir que tivesse mais paciência com o pai, e com sua mulher, que ainda era muito jovem. Décio ficava ainda mais furioso com a reação compassiva de Lana em relação a Patrícia, e entrava no quarto, batendo a porta atrás de si. Toda vez que ele mencionara o nome da mãe perto do pai e de Patrícia, esta se referira à Lana com ar de desprezo e zombaria, e nunca com a generosidade com a qual a mãe referia-se a Patrícia. 

De volta ao terceiro andar do apartamento de Décio, situado à Rua Dr. Nelson de Sá Earp sobre um barulhento bar, o encontramos agora um jornalista formado há cinco anos, e com vinte e oito anos de idade. Trabalha duro, mas também sabe se divertir: está sempre acompanhado de lindas meninas – herdou a beleza e charme do pai, e sua altura – mas não namora a sério. Tem muitos amigos, mas nenhum deles é íntimo: apenas rapazes e moças com quem ele bebe, viaja e dança, sem partilhar sonhos ou segredos. Colegas de trabalho com quem sai uma ou duas vezes por semana. Tem uma relação excelente com a mãe, Lana, a quem visita com frequência (ela continua morando na mesma casa, e hoje a encontramos com cinquenta e seis anos de idade, ainda triste pelo recente falecimento de sua mãe, aos quase noventa anos). Porém, Décio ainda não voltou a falar com o pai, que continua casado com Patrícia. Seu irmão Brian, a quem também nunca vê, está agora com dezenove anos. A bela Patrícia continua ainda mais bela, apesar de seus quarenta e quatro anos, e Mauro, aos sessenta e três anos, é uma figura patética e infeliz, mesmo com todos os tratamentos de pele, operações plásticas e implantes de cabelo. Sabe que a esposa o trai com homens mais jovens, mas prefere fingir não saber. 

Décio, ainda olhando para a sala escura onde a luz da tela do computador no qual estava trabalhando ainda está acesa, espreguiça-se, bocejando. Duas da manhã: precisa estar na redação da revista antes das onze no dia seguinte, e coçando a cabeça, larga a cerveja sobre a mesa, fecha o computador e vai para a cama. Durante algum tempo, ele vira-se de um lado a outro, tentando ignorar as risadas e músicas barulhentas que vem da calçada, e então cai no sono. 

(CONTINUA...)


3 comentários:

  1. Aii que delicia de ler. Essa Patricia e do mal.
    Anciosa para mais.
    Obrigada por isso.
    Bjs

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  2. Aii que delicia de ler. Essa Patricia e do mal.
    Anciosa para mais.
    Obrigada por isso.
    Bjs

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  3. Ana, esta história promete!
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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