sábado, 11 de fevereiro de 2017

O ELEFANTE BRANCO - PARTE VI








O Elefante Branco – Parte VI

-Você nunca desceu até a praia? – perguntou Mercedes, demonstrando surpresa; elas estavam sentadas no chão da casa maior, os rostos sujos de tinta branca, observando o quarto recém-pintado por elas. Tinham terminado o trabalho daquela tarde. 

-Nunca – respondeu Iris. – Morro de medo de altura. Quando olho lá para baixo, fico tonta. Enjoada.

Mercedes riu:

-Ora... é seguro descer pelo penhasco. Tem até um caminhozinho, escadinhas de cimento... algumas estão quebradas, mas dá pé. É seguro.

-E o que tem lá embaixo?

Ela ficou séria por uma questão de segundos, que não passaram despercebidos a 
Iris, que pegava no ar todas as nuances. Mas logo disse, em tom perfeitamente normal.

-Nada... só uma praia. Como todas as outras. 

Iris não comprou a história:

-Tem certeza? Só uma praia?

Mercedes se levantou, limpando as mãos nos bolsos traseiros da calça jeans surrada:

-E uma casa velha.

Iris deu uma gargalhada:

-O que??? Outra casa velha?

-Sim. – Mas Mercedes não estava rindo. Tentou mudar de assunto:

-Vocês possuem uma praia particular!

Mercedes arregalou os olhos:

-Ora... do que você está falando?

-Da praia lá embaixo. Ela praticamente pertence a vocês, já que única entrada é por aqui. Você não sabia?

-Eu não tinha ideia! Mas não tem outro lugar por onde se chegar?

-Bem... só de barco. Porque, em ambos os extremos, existem rochas muito pontiagudas e perigosas. Mas ninguém se aventura, pois aquela parte é cheia de arrecifes pontiagudos e ondas bem altas. A praia é tão particular, que você poderia tomar banho de mar sem roupas no verão, se quisesse. Ninguém ia ver.

-Ninguém... a não ser Rubens. Ele não sai de lá. Às vezes, ele some lá para baixo, e fica até o dia seguinte...

Mercedes ficou visivelmente alarmada, e engoliu em seco, mas tentou disfarçar. Porém, Iris – a quem nada passava despercebido – indagou:

-Por que a surpresa?

Naquele momento, Alana entrou no quarto, interrompendo a conversa das duas:

-Meninas, venham ver que coisa esquisita o Caio encontrou sob as camadas de tinta!

As duas seguiram Alana, enquanto Iris perguntava à mãe;

-Mãe, você sabia que a praia lá embaixo é praticamente uma praia particular desta casa? E que tem mais uma casa velha por lá?

Alana parou no meio do corredor, encarando as meninas:

-O que? Quem te disse isso?

Mercedes deu um passo à frente:

-Eu. É verdade, Alana. Todo mundo aqui na cidade sabe disso. Você não?

Alana coçou a cabeça:

-Não fazia ideia... mas a quem pertence aquela casa?

-Ela é tão antiga que se perdeu na história... e você também nunca foi lá embaixo, suponho...

Alana ergueu as sobrancelhas:

-Na verdade, não... ainda não tive tempo. Nem curiosidade, para falar a verdade. Sempre morei em locais próximos a praias até meus dezenove anos, e enjoei delas. E Iris morre de medo de altura. 

-Deveriam ir. É bonito lá. 

-Uma outra casa em ruínas? Não, obrigada...

-Ela é toda feita de pedra, tem paredes e estruturas muito fortes. Está de pé, quase intacta.

Dizendo aquilo, Mercedes passou a frente das duas, e continuou em direção à sala, descendo a escadaria de madeira – já limpa e envernizada. Encontrou Caio de pé, os braços cruzados, olhando para um desenho estranho riscado na parede. 
Tratava-se de uma estrela de cinco pontas, entremeadas por símbolos misteriosos. Havia um círculo em volta da estrela e mais símbolos misteriosos escritos em volta dele. 

Os quatro puseram-se a observar o desenho em silêncio. Iris começou a pensar nos seus filmes de terror;

-É um pentagrama. Um símbolo de magia!

Alana perguntou:

-Como você sabe?

-Bem, filmes de terror também são cultura!

Foi só então que Iris percebeu o silêncio e a perplexidade dos dois irmãos. Ambos olhavam o desenho na parede, e alguma coisa no olhar deles, deixava transparecer que eles sabiam exatamente do que se tratava. Finalmente, Caio disse:

-Nós também temos um assim, na parede da nossa sala de estar. Mas não está coberto de tinta, como este estava... talvez, os donos antigos desta casa estivessem tentando não despertar a curiosidade das pessoas.

Alana perguntou:

-O que quer dizer?

Caio e Mercedes se entreolharam:

-Este é um símbolo mágico. De magia negra. 

Íris sentiu um arrepio percorrê-la toda, mas Alana disse:

-Ora, não acredito nessas coisas. Vamos tirar isso daí, raspá-lo até desaparecer e...

 Iris a interrompeu, dizendo: 

-Vocês sabiam que isso estava aí, não sabiam? O tempo todo. Aquela história de “desenhos antigos de florzinhas na parede” era mentira. 

Mercedes aproximou-se dela, dando um passo à frente:

-Saber, a gente não sabia realmente mas... já tínhamos ouvido falar, mas queríamos – precisávamos ter certeza. 

Alana encolheu os ombros:

-Por que? Por acaso, vocês são praticantes de magia, ou algo assim?

Mercedes negou com a cabeça, e Caio respondeu:

-Não. Não somos. Mas temos um símbolo igual a esse na parede da nossa casa porque este lugar inteiro... bem, ele é um portal. E aqui fica a saída. A nossa casa é a entrada. 

Alana perdeu a paciência:

-Mas de que diabos vocês estão falando? Que portal é esse?

-Um portal entre dois mundos – Caio disse. – O dos vivos, e o dos mortos.

Mercedes continuou:

-Lembra quando dissemos que nossos pais estavam viajando? Aquilo sim, era mentira. Inventamos a história toda para não termos que dar satisfações às autoridades locais, e também porque não queríamos ter curiosos em volta da nossa casa. Mesmo porque se a história toda viesse à tona, nós dois poderíamos ser suspeitos de um crime que não cometemos.

Alana franziu as sobrancelhas, zangando-se:

-Esperem aí! Quem são vocês? Onde estão seus pais? De que crime estão falando?

Baixando os olhos, Caio respondeu:

-Eles morreram tentando sair daqui da colina. 

Iris, atônita, olhava de um para o outro, tentando encontrar um sentido naquela história toda:

-Gente, que palhaçada é essa? Como assim? 

Caio respirou fundo:

-Nossa casa foi herdada de nossos avós, que a herdaram de nossos bisavós, que as herdaram de nossos tataravós, e assim vai, numa descendência antiga. A de vocês não é diferente. 

Alana murmurou:

-É verdade... Tia Barbara herdou esta casa. E eu era sua única parenta viva. 

-Então... este lugar é um local antigo onde rituais de magia eram realizados. Daí a fama ruim da casa. E daí, também, o fato de que você não consegue vendê-la, Alana. Jamais conseguirá.

Mercedes completou:

-Eles não a deixarão. 

-Como?! Eles... quem? – gritou Alana.

-Os espíritos. Você é uma guardiã agora. Nunca mais vai poder sair deste lugar. Quero dizer, pode até viajar, mas nunca poderá vendê-lo, e terá que fazer desta casa a sua residência permanente. Não pode ficar muito tempo longe dela, ou adoece e morre, ou sofrerá um acidente.

Alana, de lábios entreabertos e mãos na cintura, tentava entender o que os dois irmãos estavam tentando explicar a ela. E então ela se lembrou: ela tinha visto Mario na cozinha da edícula há apenas alguns dias, e agora, ela sabia o porquê: ele estava morto.

Iris berrou, sua decepção tomando conta de suas expectativas frustradas. Swentia que mais uma vez, a vida a enganara, dando-lhe a ilusão de ter feito amigos que poderiam estar com ela. Os sentimentos que tivera por Mercedes pareciam desmanchar-se e espatifar-se contra as paredes da casa, tal a amargura que sentia:

-Eu nunca confiei muito em vocês dois! Sabia que queriam alguma coisa de nós! 
Não passam de dois idiotas tentando nos assustar!

Rubens, que estivera ouvindo a conversa toda sem ser visto, ergueu a voz:

-Eles não estão mentindo! Estão certos!

Alana virou-se na direção de Rubens:

-Até você? O que é isto, um complô para nos colocar para correr daqui? 
Mercedes cobriu os olhos por alguns momentos, suspirando, e parecendo muito cansada de repente:

-Nós é que adoraríamos sair daqui, Alana. Ouça, você não está entendendo: se tentar sair daqui para nunca mais voltar, ou se ficar fora daqui por mais de sete dias, você morre! E sempre que se ausentar, terá que deixar Iris em seu lugar. E depois de você, ela será a herdeira. A responsável por este lugar. Sei do que estou falando, pois minha mãe enlouqueceu e tentou fugir, e meu pai foi atrás dela para trazê-la de volta. Sete dias se passaram, e então nós soubemos... nós soubemos que eles não voltarão. E então, inventamos a história sobre a viagem deles. Isso foi há apenas alguns meses.

De repente, um pensamento horrível tomou conta de Iris: e se os dois tivessem, na verdade, assassinado os pais? Ela berrou:

-Saiam daqui! Não quero ouvir mas nenhum segundo dessa história horrorosa. Saiam, ou eu chamo a polícia! 

Mas Alana adiantou-se, calando-a:

-Filha... eles podem estar dizendo a verdade. 

Antes que Iris pudesse protestar, Alana emendou: 

-Eu sei, porque eu vi seu pai há alguns dias. Ele parecia diferente... mas era ele, tenho certeza... depois, ele desceu pela colina, eu o vi lá embaixo na praia... chamei por ele, mas ele desapareceu. 

Rubens juntou-se ao grupo:

-Tudo isso é verdade. Eu sei. Eu vi o quanto era difícil para Barbara permanecer nesta casa, ao lado daquele crápula que era seu marido. Ela queria ir embora, mas simplesmente, não podia. E ele simplesmente não ia embora. Foi ele quem a cegou. Ela rolou as escadas e perdeu a visão, após ele a esbofetear. Eu estava aqui e vi tudo. Ela ainda era jovem... bonita...

A voz dele foi sumindo aos poucos, e os olhos encheram-se de lágrimas, que ele tentou disfarçar. 

-O brutamontes estava envolvido com vários criminosos e atividades escusas de tráfico de drogas e de outras substâncias proibidas. Além disso, gostava de perder muito dinheiro em jogo. Ele a arruinou. Um dia, cismou que ela tinha que vender a casa. Ela tentou explicar, disse que não era possível. E então, ele bateu nela, e ela ficou cega. 

Na noite em que ela morreu, eu estava dormindo na edícula, quando escutei os tiros, e corri para cá. Pensei que o desgraçado tinha dado cabo dela. Mas quando cheguei aqui, deparei com o corpo dele no sopé desta escada, coberto de tiros. Ninguém jamais encontrou os criminosos. Mas eu sei que ele foi morto pelos espíritos, pois tentava colocar fogo na casa. Estava bêbado. 

Alana comentou:

-Mas espíritos não atiram em ninguém. Rubens. Acho que... se são espíritos, não podem segurar nada sólido.

Rubens, Mercedes e Caio se entreolharam, e caio explicou:

-Mas não os daqui. Eles podem ser tão sólidos quanto eu ou você, Alana. Existe uma atmosfera especial nesta colina, que começa na sua casa, e termina na nossa. Enquanto permanecerem aqui, os mortos podem ser vistos e contatados. 

Naquele instante, eles ouviram um ruído no sopé da escada, e todos olharam para lá, e depararam com a imagem de Bárbara de pé, sólida e real, olhando para eles.




Um comentário:

  1. Olá querida Ana!

    Tenho gostado particularmente desta história. Aquelas situações que criam ansiedade fruto do desconhecido,me agradam muito. Mas espero que a realidade venha ao de cima, embora só lá para o fim. Terminar em absoluto sobrenatural já não é a minha preferência. Mas à criadora (a Ana) é que compete a escolha e desfecho a seu gosto. Perdôe a franqueza, sim?
    Até à minha volta. Adeus e bem estar.
    Dilita

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