O ELEFANTE BRANCO - PARTE VII








O rosto de Rubens transformou-se em uma máscara de dor, e ele correu escadas acima, gritando:

-Não! O que você está fazendo aqui? Você não deveria!...

Alana e Iris se abraçaram, gritando de pavor, enquanto Mercedes e Caio, os rostos lívidos e fascinados, olhavam a cena que se desenvolvia no topo das escadas, onde Rubens, de joelhos diante do fantasma – seria um fantasma? – de 
Bárbara, chorava copiosamente. 

Iris e Alana, de mãos dadas, deixaram a sala, indo para o lado de fora. Mãe e filha tentavam decidir o que fazer, ou para onde ir para que pudessem estar ambas a salvo daquele circo de horrores onde tudo parecia tão absurdamente estranho e perigoso. Iris sentia medo dos novos amigos, e Alana tentava se acalmar, enquanto levava a filha para a edícula. 

Chegando lá, Alana trancou a porta, e Iris sentou-se à mesa da cozinha:

-Mãe, que diabos é isso? É bem pior do que nos filmes de horror que eu gosto de assistir!

-Não sei, filha, preciso pensar... mas... eu vi seu pai, eu realmente o vi, e ele ficou bem ali (ela apontou para um ponto próximo à porta de entrada da cozinha), me olhando! E depois saiu pela porta, eu o vi descer a colina e desaparecer na praia lá em baixo! Não imaginei essas coisas... eu sei o que vi.

Alana sentou-se na frente da filha, segurando-lhe as mãos:

-Nós temos que descobrir o que está acontecendo aqui, Iris.

-Já eu acho que temos que dar o fora desse lugar o quanto antes!

-E vamos para onde, me diga? Esta casa é minha! É a única coisa que temos para recomeçar as nossas vidas! E se... e se Caio e Mercedes estiverem certos? E seu eu morrer ao sairmos daqui?

-Mãe, você não vai me dizer que acreditou naquela história!

Alana calou-se, e caminhou até a pia. Olhou pela janela da cozinha, sem responder. Iris entendeu:

-Mãe! Você acredita neles?

-Não sei... preciso pensar.

Naquele instante, bateram à porta da cozinha, e Iris gritou:

-Deem o fora daqui!

A voz de Caio respondeu, aflita:

-Por favor, deixe a gente entrar... eu sei que tudo isso é muito estranho, mas nós estamos tão assustados quanto vocês!

Iris respirou fundo, e levantou-se, abrindo a porta. Caio e Mercedes entraram apressadamente. Iris perguntou:

-Onde está Rubens?

Mercedes respondeu:

-Ficou lá na outra casa. Com Barbara. 

Iris sacudiu a cabeça, não acreditando naquilo tudo:

-Olha, desde o início, eu achei que havia alguma coisa errada com vocês dois. Por que estão fazendo isso com a gente? É pela casa, estão interessados nela para seus rituais de magia? Vocês são ricos, e podem comprá-la de nós, e nós estaríamos muito felizes em poder vendê-la para vocês e dar o fora daqui. 
Caio caminhou até Alana, que continuava de pé junto à pia, olhado pela janela, e fez com que ela se virasse para ele:

-Alana, você precisa acreditar em mim! Eu... nós jamais faríamos qualquer coisa para machucar vocês. Estamos presos aqui também. 

Alana perguntou, a voz fria:

-Onde.estão.seus.pais. E eu quero  a verdade. 

Caio respirou fundo, os braços esticados junto ao corpo, numa atitude de desânimo:

-Eu já disse, mamãe enlouqueceu e fugiu; papai foi atrás dela, e desde então, não tivemos mais notícias. 

-Você sabia que existem telefones? Que existe a polícia? Por que não deram parte do desaparecimento deles até hoje?

-Porque...

Mercedes interrompeu-o:

-Porque nós não podemos.

Iris berrou, erguendo-se da cadeira:

-Por que não???

Caio e Mercedes se entreolharam, e ele foi para perto da irmã. Um silêncio gelado dominou-os por alguns segundos, enquanto o grito de Iris ainda rebatia-se entre seus ouvidos. Mercedes abriu a boca, mas ficou em silêncio, talvez decidindo se deveria ou não dizer o que estava em sua mente. A voz de Caio, que apertou a mão da irmã, saiu quase inaudível:

-Porque nós achamos... nós achamos que também estamos mortos. 

Alana correu para longe deles, agarrando a filha:

-Vocês estão é loucos! Como pude acreditar, por um instante que...

Mercedes interrompeu-a:

-Por favor, nós... escutem a gente...

Iris, mais calma, pediu a Alana que os escutasse:

-Mãe, vamos ouvir o que eles têm para dizer. Afinal, acho que não temos outra saída.

Alana concordou com a cabeça, após hesitar por um instante, e Mercedes continuou:

-Nós não conseguimos nos lembrar o que aconteceu depois que papai foi atrás de nossa mãe. Por mais que tentemos, não conseguimos.

Ela chorava, e parecia estar sendo sincera. 

-Tudo o que sabemos, é que fomos à cidade um dia, e apesar de falarmos com as pessoas, elas passavam por nós e não nos respondiam, como se não estivessem nos enxergando. Nós gritávamos, mas elas nem notavam que estávamos ali. Tudo era muito estranho. E nós então... voltamos para casa... e toda vez que vamos à cidade, a mesma coisa acontece!

Alana tentou soar racional:

-Olha, Mercedes... eu e Iris podemos ver vocês muito bem, e tocá-los! É claro que vocês estão vivos, e bem... vocês estão respirando! Vocês estão aqui, de pé, falando conosco... só precisam de ajuda!

Caio interferiu:

-Mas nós tentamos conseguir ajuda, e ninguém nos escutou! Vocês são as únicas pessoas, em meses, que falam conosco... além de Rubens.

Iris disse, a voz tremida;

-Rubens! Se ele os enxerga também então... será que ele...

Mercedes tocou os dedos nos lábios, pedindo silêncio. Seu olhar era quase desesperado, e ela murmurou:

-Por favor, ele não pode nos ouvir. Nós achamos que ele tem algo a ver com ... com o desaparecimento dos nossos pais, e com... a nossa possível morte. 

Achamos que ele os impediu de voltarem para cá.

Alana coçou o queixo, sussurrando:

-Quanto a isso, não sei de nada, mas sempre achei que ele talvez pudesse ter matado o marido de tia Barbara. 

Mercedes concordou com ela:

-Também pensamos assim!

Iris perguntou:

-Por que vocês acham isso?

-Porque ele queria ser o dono dos segredos deste lugar! – Mercedes respondeu. –

Ele queria trazer Barbara de volta, talvez.

-Mas... quem trouxe vocês de volta, e por que a mesma pessoa não traz os seus pais de volta, então?

Mercedes sentou-se à mesa, desanimada:

-Nós não sabemos...

Caio exclamou:

-E ontem, quando cheguei aqui, e vi Alana ferida e apavorada, eu temi pela vida dela...

Alana tentou rir:

-Bem, mas pelo menos eu não estou morta; mortos não sangram, e eu me cortei com um caco da xícara quebrada e sangrei.

Ninguém riu. 

De repente, Caio caminhou até a gaveta do armário da cozinha. A cena parecia estar em câmera lenta. Alana viu quando ele abriu a gaveta e pegou uma faca grande. Todos os olhos se arregalaram. Tudo aconteceu rápido demais depois daquilo, enquanto Mercedes erguia-se da cadeira, derrubando-a, as mãos direcionadas para o irmão, o grito de pânico que saiu da garganta dela ao constatar o que ele estava para fazer; Iris tampou os olhos, ficando abaixada em um canto da cozinha, e Alana só conseguiu ficar olhando a cena toda, fascinada, e de repente olhou para o ponto onde tinha ferido a perna e viu que não havia mais nenhuma cicatriz ou curativo. 

Caio pegou a faca, e fechando os olhos, enterrou-a com força no próprio braço, e todos gritaram. 

Ao mesmo tempo, ele ergueu a faca em direção à própria irmã, que encolheu-se apavorada, mas a mesma coisa aconteceu: ou seja; nada aconteceu.

Iris abriu os olhos, erguendo-se devagar. Mercedes e Alana estavam de olhos arregalados, enquanto caio esfaqueava-se, e nenhum sangue jorrava, nem havia qualquer expressão de dor em seu rosto.

Levada por uma ideia repentina, Alana subiu correndo as escadas que davam para os quartos onde dormiam ela e a filha. 

Havia duas pessoas ocupando-os, os rostos cobertos pelos cobertores. Num instante, Iris, Caio e Mercedes estavam ali, junto dela, parados no corredor, olhando para as portas abertas e para as formas cobertas nas camas. Ele caminhou até uma das camas, e ergueu o cobertor de uma vez só. 
Mercedes fez a mesma coisa no outro quarto, em frente ao primeiro, onde Iris 
dormia. 

Alana e Iris olhavam para elas mesmas, muito pálidas, e tentavam se acostumar com a imagem delas mesmas e de seus corpos mortos. Nas mesinhas de cabeceira, as xícaras de chá que Alana preparara na noite anterior. Elas entenderam que haviam sido envenenadas, e que tinham morrido enquanto dormiam, embora não conseguissem se lembrar de nada. 

Todos desceram as escadas, e acabaram-se os gritos. Em silêncio, eles tentavam digerir tudo o que estava acontecendo. 

Saber-se morta, pensava Alana, não era muito diferente de estar viva. De repente, ela compreendeu que todas as suas preocupações a respeito do futuro terminavam ali. Iris quebrou o silêncio:

-Então é isso. Estamos todos mortos. Eu estou morta. E ninguém vai nos encontrar, porque ninguém se atreve a vir a esta casa. 

Mercedes ergueu os ombros:

-E que diferença faria? Continuaríamos mortos. Só não entendo por que nós estamos aqui, e meus pais não estão. Por que não podemos vê-los, ou falar com eles. E por que não encontramos os nossos corpos, como vocês encontraram os de vocês? Por que não conseguimos nos lembrar de nada?

Socos fortes na porta fizeram com que todos erguessem as cabeças. Era Rubens. Alana abriu a porta, destemida, pois sabia que não havia nenhum mal que ele pudesse causar-lhes. Ele entrou, o rosto carrancudo de sempre. Os olhos estavam injetados, e todos compreenderam que ele andara chorando. Ele caminhou até o outro lado da cozinha, pondo-se de costas para todos. E os ombros de Rubens começaram a sacudir-se cada vez mais fortemente, enquanto seu choro desesperado saía, em soluços entrecortados. 

Todos ficaram observando-o, e aguardando. Ninguém conseguia sentir piedade pelo sofrimento dele, o que parecia ser instintivo. Finalmente, ele falou:

-De nada adiantou... ela quer ir embora. De nada adiantou... ela me pediu para deixa-la ir. Ela prefere ficar com o menino... o filho!

(continua)




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