quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

AMOR E REVOLTA - CAPÍTULO VII






As férias chegaram, e Marvin sentia-se aliviado por não estar sob a pressão das provas finais. Escrevera algumas dissertações, fizera trabalhos e exercícios de gramática e matemática em grupo, passara por algumas entrevistas. O suficiente para que decidissem que ele estava aprovado para cursar o último ano. Às vezes, as coisas que a irmã lhe dissera ficavam martelando em sua cabeça. Mas Marvin era apenas um adolescente apaixonado, e a testosterona era sua maior conselheira. Seu relacionamento com Jane continuava como sempre – quente, apaixonado, instável. Marvin ia do paraíso ao verdadeiro inferno em questão de minutos. Não gostava quando ela cumprimentava seus amigos com beijos na boca. Não aprovava quando ela abusava das drogas ou do álcool, ficando totalmente fora de sí, dançando a noite toda em uma das festas que sempre aconteciam em sua casa, movendo-se entre os amigos de seu pai, que a olhavam com olhos gulosos e faziam questão de dançar com ela de maneira íntima, apertando-a contra seus corpos. 

Acima de tudo, ele não se sentia à vontade quando chegava na casa dela e encontrava o Deputado Tavinho circulando por lá. Havia algo de muito negativo naquele homem. 
Certa vez, ele estava passeando no jardim, quando viu Paco e o deputado conversando em voz baixa. Marvin agiu por curiosidade apenas; parou, e ficou escutando a conversa deles. De onde estava, os dois não poderiam perceber sua presença, pois havia um denso arbusto entre eles. Marvin prendeu a respiração, concentrando-se para escutar melhor. Fragmentos de frases chegavam até ele:

-...Paco... eu vou mandar o dinheiro pela Jane... mande o material...

-...ninguém desconfia de nada, ... tenho certeza que... 

-olhe lá, hein!  Esse garoto que anda com ela... muito observador...

-...Ciúme de adolescente... nada sério.

-Se eu fosse você mandava ele vazar...

-A menina precisa sair... se divertir...

-Mas ela tem que estar disponível... se precisar...

-Não se preocupe... amanhã ela leva...

-A encomenda é grande, tem certeza?

-Sem problemas... deixo ela na porta... ela entrega e sai. Quem ia desconfiar dela?

-Então mando  a grana da “ONG.”

Tavinho dissera a última frase em tom de ironia. Os dois começaram a rir. 
O coração de Marvin batia descompassado. Havia algo de muito errado acontecendo ali! Ele estava tão distraído, que não percebeu a aproximação de Sunny, que logo percebeu o que ele andara fazendo. Mesmo assim, para não assustá-lo, ela usou um tom de voz casual, e estranhamente sussurrante, como se não desejasse que Paco e Tavinho os escutasse:

-Olá, Marvin. Perdido por aqui? Venha comigo, vamos almoçar. Você é nosso convidado de honra hoje!

Marvin levou um baita susto, mas notou que ela parecia mais assustada do que ele, enquanto o segurava pelo braço e se afastava dali rapidamente. No caminho, ela chegou a tropeçar, e Marvin notou que Sunny estava ofegante. Ele a amparou, e ela agradeceu. Ficaram se olhando por um tempo, até que ela percebeu que ele exigia uma explicação. Ela ajeitou o cabelo, e disse:

-Sei que pode ser que você pensou ter ouvido alguma coisa... mas deixe-me explicar, Marvin: você nos conhece há apenas alguns meses. Já notou que não somos uma família convencional. O Deputado Tavinho não é o que parece, ele é um bom homem. Ele faz gordas contribuições à nossa ONG, e através dela, nós ajudamos muitas pessoas necessitadas. Venha, vou lhe mostrar!

Dizendo aquilo, ela conduziu-o a um escritório, e convidou-o a sentar-se em frente ao computador. Abriu um site, mostrando a ele:

-Olhe... este é o site da ONG Coração Aberto. A ONG que eu administro. Veja só quantos projetos realizamos!

Marvin passou o cursor pela tela, e leu sobre projetos que levavam água a locais de sêca, alimentos a crianças carentes e até mesmo construção de casas populares para moradores de rua. Nas fotografias, mostravam o “antes” das pessoas e o “depois”, em imagens onde elas apareciam magras, sujas e carentes, e depois felizes e sorridentes, limpas e arrumadas em frente a casas com canteiros floridos na frente. 

-Este é o nosso trabalho. Acredito nas causas sociais!

Marvin não sabia o que dizer. Finalmente, olhou para Sunny e exclamou:

-Nossa, isso é... massa! Muito legal o trabalho de vocês. Mas...

Sunny, que sorria, satisfeita, deixou o sorriso morrer após indagação final de Marvin:

-Eu... esse senhor, o Deputado Tavinho... ele é sinistro. Não gosto dele... e você?

Ela riu:

-Sim, eu concordo! Acho que essa é uma característica dos políticos. De todos eles. Mas pode acreditar em mim, ele é dos bons! Uma referência para nós e nossos projetos, e também para os projetos de várias ONGS. Sabe, Marvin... você não sabe o que é a política. Às vezes, é necessário fazer algumas concessões, agir de maneira menos ética, a fim de se alcançar objetivos... ou eles o colocam para fora, arruínam com a sua vida. Existe todo um sistema lá dentro... mas deputados como o Tavinho tentam derrubar esse sistema, criando e incentivando projetos sociais. Você precisa conhece-lo melhor.

Marvin apavorou-se, sentindo um arrepio na espinha:

-Talvez algum dia. Ele... vai almoçar com a gente?

-Não. Hoje não. Passou apenas para acertar alguns detalhes com meu marido sobre um novo projeto. 
Marvin suspirou de alívio. Como Sunny estivesse sendo aberta com ele, atreveu-se a perguntar o que Jane tinha a ver com tais projetos.

Ela ergueu as sobrancelhas, mostrando-se confusa:

-Jane? Nada... por que? É claro que ela às vezes gosta de visitar as crianças, mas... não está pessoalmente envolvida.

-Porque eu escutei o nome dela sendo falado várias vezes. Sabe, lá fora. 

Jane abriu a boca para responder, mas não tinha a menor ideia do que dizer. Foi salva pela chegada de Jane e Max, que entraram na sala conversando e rindo alto. Ela saiu de fininho, dizendo que ia deixar os jovens à sós. 

O almoço foi um pouco tenso entre Marvin e Sunny. Jane também não parecia muito feliz, mas sorria e tentava disfarçar. Max, porém, parecia até quase simpático naquela tarde, pois seu pai lhe prometera um carro de luxo para o seu aniversário. Max discursava sobre o modelo e as facilidades que o carro oferecia, enquanto Paco o incentivava. Os dois dominavam a conversa. Até que Max, virando-se repentinamente para Marvin, perguntou:

-E você, Marvin? Não tem um carro ainda?

Marvin, surpreso, até tentou responder, mas Max cortou-o:

-Ah, é... você é de menor. – E riu, de maneira irônica. Jane mostrou-se furiosa, e os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ela nada disse; apenas pousou os talheres, tomando um gole de água. 

Marvin corou, engolindo a humilhação, enquanto Sunny, parecendo muito desconfortável, servia-se de mais vinho. Marvin percebeu quando ela e Paco trocaram olhares nervosos. 

Após o almoço, Marvin escutou os dois discutindo no escritório, e suas vozes abafadas às vezes se erguiam, mas logo voltavam a sussurrar. Jane pegou-o pela mão, e ambos foram até o jardim. Max tinha saído, para alívio de Marvin, que já não gostava do cunhado antes, e agora, menos ainda.
À sós com Jane, Marvin decidiu passar as coisas a limpo:

-Eu pensei que seus pais fossem o casal perfeito. Parece que estão discutindo. Desculpe, não pude deixar de ouvir.

Ela retesou-se:

-Isso é problema deles. 

Depois, retratou-se:

-Olhe, Marvin, eu gosto de você de verdade, mas queria que você não julgasse a minha família. Já disse que somos diferentes.

-Mas me explique mais sobre essa diferença. Eu só queria entender!

Ela olhou para ele:

- Um exemplo: Eles não acreditam em monogamia. Sunny sai com quem ela quiser, e Paco também. 

-Por que você não os chama de “pai” e “mãe?”

Ela sacudiu a cabeça, enrolando os longos cabelos em um coque sob a nuca:

-Que importância isso tem? Gente, são só nomes! Aqui fomos acostumados assim, só isso. Além do mais, não achamos que alguém deva ser limitado a ser definido como ‘pai’ ou ‘mãe’ de alguém pelo resto da vida. Aqui, nós temos nomes, personalidades. 

Paco concordou com a cabeça, achando que ela estava certa:

-Fale mais sobre a sua família.

-Bem... o que quer saber?

-A Sunny e o Paco não ligam se você dorme comigo aqui dentro?

Ela riu:

-Claro que não! Eles acreditam no amor livre, eu já disse. E em todas as formas de amor. 
De repente, um travo de ciúme e estranheza cortou a paz de Marvin. Ele ficou pensando em quantos meninos ela já tivera naquela cama de casal confortável que ficava em seu quarto. Mas resolveu não perguntar. Ao invés disso, perguntou:

-Quantos anos você tinha quando transou pela primeira vez?

Ela não pareceu constrangida, e respondeu, olhando-o nos olhos:

-Doze anos. Mas por que isso é tão importante?

-Não é, e que... eu só queria entender vocês melhor. E... quem foi?...

-Você quer saber com quem eu perdi a “virgindade?” – ela tinha um tom de zombaria na voz que não o agradou – mas que caretice, Marvin! Mas tá bom, se é tão importante assim... eu perdi a virgindade com um primo. Ele era oito anos mais velho que eu. 

Marvin engoliu em seco, tentando digerir aquela informação.

-Mas isso não é ...

Ela completou:

-Pedofilia? Sim, no seu mundinho, é sim. Mas como você é careta, Marvin!

De alguma forma, e pela maneira com que ela disse aquela frase, Marvin sentiu que ela não pensava realmente daquela forma, mas que repetia frases que se acostumara a ouvir. Pois os olhos dela fugiam dos dele, pela primeira vez, desde que se conheceram. Jane tentava desesperadamente soar natural, rir, e abusar da ironia, mas não olhava mais para ele. Não parecia estar convencida do que dizia. Ela convidou-o:

-Vamos lá para cima. Acho que você precisa “dar um tapa”, e de também transar um pouco. 

Mas ele a segurou, obrigando-a a ficar aonde estavam:

-Não, antes... quero que você me responda uma coisa. 

Ela revirou os olhos, em sinal de impaciência. 

-Você também é assim tão liberal? Você acha que é certo ficar com outros meninos, transar com eles, estando comigo?

Ela demorou a responder, mas finalmente, ergueu os olhos e disse:

- Acho que devemos viver o momento. A vida é curta. Temos que ser resilientes, temos que aproveitar a vida, Marvin. Gosto de você e no momento, estamos juntos. Isto deveria ser o suficiente. 

-Mas você não me respondeu.

-Sim, eu sou liberal. Mas se quer saber se fiquei com alguém enquanto estou com você, a resposta é não. 

-Mas isso quer dizer que pode vir a ficar.

-Sim. Posso. Se eu sentir que devo. Esta sou eu, Marvin, este é o meu mundo, e ou você se encaixa dentro dele, ou não. 

Ele respondeu com irritação na voz:

-E quanto ao meu mundo?

-O seu mundo não deu certo. Todos os dias, vocês matam por ciúmes, vocês matam por preconceito, vivem uma vida hipócrita onde a fidelidade é exaltada a qualquer custo, enquanto todo mundo trai. Falam de valores, de família, mas todos vivem brigando e vivendo de forma vil. 

-Minha família não é assim!

-Ótimo!

-Você deveria conhecê-los melhor. Sempre vamos lá em casa, mas você nunca conversa com eles!

-Eu não vou lá para ver seus pais, mas para ver você!

-E se de repente eu aparecesse de mãos dadas com outra garota na sua frente, como você ficaria?

Ela levou ambas as mãos à cabeça, fazendo uma cara irritada:

-Mas você não entendeu? Você é uma pessoa livre! Você pode ficar com quem quiser, quando quiser, e não me deve satisfações da sua vida! Estamos juntos porque queremos, não existe hipocrisia, não existem laços ou nós que nos prendam! 

Eles se deram conta de que estavam gritando um com o outro. Um dos jardineiros, que trabalhava ali perto, fingia não escutá-los. Ambos se afastaram um do outro, caminhando alguns passos, e depois voltaram a se olhar. Suas mentes estavam confusas. Jane sabia que nunca sentira por ninguém o que sentia por Marvin, e no fundo, vê-lo com oura garota não seria nada agradável. Mas ela aprendera a ver seus pais saindo com outras pessoas, e até mesmo convidando-as para seus quartos. É claro que muitas vezes, ela notava que Sunny estava infeliz. Ela sabia que a mãe, no fundo, sofria. Pensou se gostaria de ter uma vida como a dela. 

Marvin olhava para ela, tentando administrar a dor que suas palavras causaram dentro dele. Crescera entre pessoas que valorizavam a família, a fidelidade e o respeito. Não estava acostumado àquelas ideias. 

Nem notaram quando Pacco e Sunny se aproximaram deles. Os dois levaram-nos para dentro da casa, segurando-os pelas mãos. 

(continua...)






2 comentários:

  1. Boa noite. Maravilho e interessante conto. Adorei

    Hoje temos:- {Meu olhar emudecido...}

    Bjos
    Boa Quinta-Feira

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  2. Boa noite. Sempre uma delicia ler as suas histórias.
    .
    Deixando um abraço

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