segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

AMOR E REVOLTA – CAPÍTULO XII








-Gente, não sei o que é essa tal de Deep Web. Não é perigoso?

Gertrude tentava achar lugar para colocar a bandeja de sanduíches e sucos enquanto Luis, Gabi e Melissa estavam espalhados no tapete, os computadores na mesinha de centro. Havia uma semana que eles estavam envolvidos nas pesquisas, e já tinham feito várias descobertas comprometedoras a respeito da família de Jane. Luis sentia-se péssimo por achar estar traindo a confiança do amigo, mas ao mesmo tempo, sabia que ele estava também, quem sabe, salvando a integridade dele. Gabi respondeu:

- Pode ser, não sei. Mas esse amigo virtual do Luis nos passou um verdadeiro dossiê sobre a tal ONG que a Sunny administra. Nada confiável. Aliás, confiável é uma palavra que não cabe ali.

Melissa respirou fundo, a cabeça apoiada em uma das mãos:

-Pobre do meu irmão. Pensa que a família da namorada são anjos. Gente “alternativa” (ela fez o sinal de aspas) e livre. Imaginem que ele está começando um discurso de liberdade sexual que antes nunca tinha passado na cabeça dele, mas enquanto isso, ele mesmo só tem olhos para Jane. Mas eu sinto, nas poucas vezes em que ela vai lá em casa, que a recíproca não é verdadeira... 

-O que a faz pensar assim? – perguntou Luis.

-A maneira como ele fica em volta dela: “Quer um suco? Quer assistir a um filme? Quer isso, quer aquilo?” E ela parece nem se importar! Se comporta como se fosse uma princesa, e ele, um súdito. 

-Como ele não enxerga isso? – perguntou Gabi.

-Não sei como ele não enxerga uma menina tão bacana e inteligente como você, Gabi – respondeu Gertrude.

Gabi corou; seria assim tão óbvio para todos que ela estava completamente apaixonada por Marvin? naquele momento, Luis declarou, fechando o computador e começando a comer um sanduíche:

-Gente, acho que o que temos já basta. Vou imprimir hoje a noite mesmo. E depois, Dona Gertrude, o que a senhora vai fazer com tudo isso?

Gertrude deu de ombros:

-Ainda não sei... mas vou pensar.

Melissa tomou um gole de suco, e disse:

-Cuidado, vó. Pessoas assim costumam ser perigosas!

Enquanto isso, longe dali, Marvin e Jane estavam abraçados na cama dela, após transarem. Tinha sido o aniversário dela na noite anterior, e houve uma grande festa na casa. 

Ele a olhava apaixonadamente, enquanto ela mantinha os olhos presos no teto do quarto. Marvin sabia – mas não admitia – que ele estava bem mais apaixonado por Jane do que ela por ele, mas precisava acreditar que ela o correspondia da mesma forma; imaginar a vida sem a presença dela, sem tê-la entre os braços, era dolorido demais, e muito monótono. Estava acostumando-se às festas loucas dos pais de Jane, e até já começava a simpatizar um pouco com o Deputado Tavinho – não sem muito esforço, a pedido de Sunny e Paco. Ele faria qualquer coisa para não ficar longe de Jane. Mas aquele olhar distante, depois de tudo o que tinha acabado de acontecer entre eles, colocou-o em estado de alerta.

Marvin começou a acariciar uma mecha de cabelos dela, enrolando-a no próprio dedo:

-Jane... você gosta de mim? Mais do que antes, quero dizer...

Ela puxou o cabelo, levantando-se da cama e começando a vestir-se:

-Claro que sim. Acha que dividiria a minha cama com você se não gostasse?

Ele se ergueu, segurando-a e obrigando-a a olhá-lo de frente:

-Não estou falando de sexo. Falo de amor.

Ela deixou um riso sarcástico instalar-se no canto dos lábios sem querer, mas escondeu-o em seguida:

-Bem, o sexo é muito bom.

Tentou desvencilhar-se dele novamente, mas ele a segurou com força, erguendo um pouco o tom de voz:
-Jane! Não é isso!
Ela o olhou, deixando o olhar descer sobre o braço que a mantinha presa, e ele a soltou, levando as mãos à cabeça e começando a andar de um lado para o outro do quarto. Ela sentou-se à penteadeira, começando a escovar o cabelo:

-Não sei o que te encuca tanto, Marvin! Você tem sido o único cara com quem transo há... não sei... quase três meses! Deveria estar feliz. Isso nunca aconteceu antes.

-Pare! Você fala como se fosse uma... uma...

Ela se levantou, calçando as sandálias e olhando para ele furiosamente:

-Não se atreva a me julgar! Nunca escondi de você o modo como vivo, nunca fingi ser o que não sou! E se acha que vou dizer que vou te amar para sempre e jurar fidelidade, está muito enganado a meu respeito!

-Jane... mas você só tem 16 anos!

-Por isso mesmo! Quero ter o direito de escolher e viver a minha vida como eu bem quiser. Se você não está pronto, não posso fazer nada. Seja um escravo das convenções! Continue vivendo a vidinha que seus pais e avós caretas planejaram para você! Mas eu não estou nessa! 

Ouvir a maneira como ela se referia à sua família feriu-o profundamente:

-Deixe meus pais e avós de fora! Eles são minha família, e eu os amo!

-Então vá ficar com eles. Mas não tente suicídio outra vez!

Ele ficou em silêncio, tentando digerir o que acabara de escutar. Depois, começou a se vestir lentamente, sem nada dizer. Ela balançou a cabeça, arrependida do que dissera:

-Escute, Marvin, eu não quis...

Mas ele já batia a porta do quarto atrás dele. 

Jane ficou ali, sentada, tentando pensar em como alguém como ela podia ser tratado daquela forma. Afinal, havia dezenas de meninos que adorariam estar no lugar que Marvin ocupava em sua vida. Ela sabia muito bem que, na escola, bastaria estalar os dedos e teria quem quisesse em sua cama. E em sua vida. Mas desde que conhecera Marvin, aquilo parecia não fazer sentido. Era só com ele que ela gostava de estar, e não conseguia sentir desejo por mais ninguém, nem mesmo... 

Ela não deixou que o seu pensamento se completasse. Mas ele voltou à tona, obrigando-a a enfrenta-lo. Ela sentia uma mistura de desejo e repulsa por Tavinho. Há poucos dias, ela tinha se lembrado, devido a um sonho que tivera, da maneira que ele a tocava quando ela era criança, e de como ela gostava. Lembrou-se de um dia em que ele a tocara de tal forma, que após a onda de prazer que sentira, ela o abraçou – estava sentada no colo dele – e disse que queria se casar com ele quando crescesse. Quantos anos ela tinha? Cinco? Seis? Só sabia que era bem pequena. E que ele era um homem muito, muito bonito, e que ela adorava o perfume que ele usava naquela época e que ainda usava nos dias atuais. Ele não era deputado ainda, mas já ocupava um cargo como vereador. Era um dos melhores amigos de seu pai, e frequentava a casa, e ela o tinha visto sair do quarto de seus pais várias vezes de manhã cedo. 

Uma noite, ela acordou  e olhou pela greta da porta do quarto dos pais, e o que viu fez com que ela arregalasse os olhos de surpresa. Assistiu a tudo fascinada. Ao perguntar à mãe, na manhã seguinte, o que eles estavam fazendo juntos, recebera a seguinte explicação:

-Papai, mamãe e Tavinho são muito amigos, há muito tempo, e nós nos gostamos muito. Por isso, às vezes dormimos juntos e fazemos coisas divertidas que nos deixam felizes. 

Ela perguntou, após uma pausa para pensar:

-Um dia eu posso brincar com vocês também?

A mãe riu alto, e acariciando a cabeça dela, respondeu:

-Pode brincar sim, mas não com o tio Tavinho,  papai ou mamãe. E só pode quando for mais velha.

Por algum motivo, ela sentiu que não deveria mencionar à mãe o fato de que ela e Tavinho já brincavam daquela forma há algum tempo, ou correria o risco de que a brincadeira acabasse. Ela gostava dele e da forma como ele brincava com seus órgãos sexuais – ambos – dizendo que, se fosse ela, nunca se livraria deles, pois eles a tornavam especial. Depois que ela operou, optando pelo sexo feminino, ele demorou muito tempo para voltar a tocá-la, e não durou muito. 

Até recentemente, quando ele a segurou no carro, dizendo que um dia se casaria com ela. Ela sentiu nojo. Mas depois, em seu quarto, ela caiu no sono e se lembrou de tudo, e acordou sentindo coisas por Tavinho que não gostaria de sentir. Naquela tarde, convidou Marvin para o seu quarto e os dois ficaram lá o dia todo, até a manhã seguinte.

O que ela sentia por Marvin era diferente, e deixava-a com medo. Sabia como controlar o desejo sexual, ou como resolvê-lo. Mas não sabia lidar com as emoções que tomavam conta dela ao pensar em Marvin ou estar com ele. Aquilo a deixava muito insegura. 

Marvin chegou em casa arrasado. Ao passar pela sala de estar, deparou com Melissa, Luis e Gabi sentados no sofá, rindo alto. Seus pais estavam trabalhando. Ele parou um momento na soleira da porta, e ficou pensando sobre há quanto tempo não ficava com seus velhos amigos. A resposta óbvia que surgiu e o espantou, foi: “Desde que conheci Jane.”

Os três pararam de rir quando o viram, e ficaram olhando para ele. Gabi bateu no lugar ao seu lado, dizendo:

-Oi, Marvin. Venha sentar aqui um pouco com a gente!

Quando ela o viu caminhar na direção dela e se jogar no sofá ao seu lado, ela quase desmaiou de alegria; mas ao sentir o perfume que vinha dele, seu coração murchou: era o perfume que Jane usava. Gabi pensou no que os dois estiveram fazendo juntos, e engoliu em seco, desanimada. Olhou para as suas pernas musculosas e grossas que apareciam sob o vestido, e comparou-as às pernas esguias e longas de Jane, que há poucos minutos, deveriam estar enlaçadas em volta de Marvin: aquele pensamento doeu. Doeu também sentir que, pela primeira vez na vida, ela invejava alguém com todas as suas forças. 

Marvin disse;

-E aí, gente? O que está rolando?

Luis disse:

-Nada... estávamos falando de um filme que vimos. Pena que você não estava lá.

Marvin balançou  cabeça, concordando. Tinha os olhos tristes. Luis perguntou:

-E você? Tudo bem?

Marvin pigarreou; deveria contar a eles? Afinal, eram ou não seus melhores amigos? Eram, sim! Por que não se abrir? Pensando assim, ele começou:

-Sim... e não... acho que eu e Jane tivemos nossa primeira grande briga.

(continua...)





2 comentários:

  1. Muito bom. :)) Estou adorar.

    Hoje temos para si:-Mermurios em desnorte.
    -
    Bjos
    Votos de uma óptima segunda feira.

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  2. Lendo com muito gosto e acompanhando a história com todo o interesse

    Deixando cumprimentos

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