terça-feira, 30 de janeiro de 2018

AMOR E REVOLTA – CAPÍTULO XIV







Três dias depois, Paco e Tavinho tomavam um uísque no escritório. Após discutirem alguns negócios e planos para a  ONG de Sunny, que participou da reunião mas depois saiu para fazer compras, Jane surgiu na conversa deles. Paco falou sobre os planos da filha de estudar no exterior. Tavinho sentiu-se muito incomodado, pois gostava de vê-la e de estar com ela de vez em quando, mesmo que fosse para entregar-lhe a mercadoria – pacotes de drogas ilícitas que ela carregava até a ONG sem fazer perguntas. Lá, as drogas eram escondidas em local seguro e mais tarde, vendidas. No fundo, ele desconfiava que a menina sabia do que se tratava, mas preferia não se envolver e julgar as atividades dos pais. 

-O que? E você vai deixar que ela faça essa bobagem?

-Bobagem por que? Não estou entendendo...

Tavinho pigarreou, tentando disfarçar sua raiva:

-Ora... uma menina sozinha em um país estrangeiro...

Paco olhou-o com suspeita:

- Desde quando você se preocupa com a minha filha, Tavinho? E ela não vai sozinha; aquele amigo viadinho dela vai junto.

-O Juninho?  E o pai dele vai pagar por isso?

-Não; eu vou. 

-E por que você faria isso? Generosidade não é lá seu lema.

-Ora, amigo... você sabe que sim. Posso ser bem generoso. Inclusive, divido a minha cama com você de vez em quando.

Tavinho riu, mas quando seus olhos encontraram os de Paco, viu que ele não ria. Pelo contrário: parecia desconfiado e estava sendo irônico. Tavinho subira na vida com muito esforço, tendo que envolver-se em várias atividades ilegais para chegar aonde estava. E Paco o ajudara muito. Ele sabia muito sobre o amigo, mas não sabia de nada no qual ele mesmo não estivesse envolvido, e por isso, a sua inveja ainda não fizera com que ele acabasse de vez com a prosperidade da qual o amigo desfrutava. Mas o seu maior sonho, era justamente descobrir algo pelo qual Paco pudesse ser denunciado sem envolver a si mesmo. O olhar desconfiado do amigo parecia saber exatamente o que Tavinho estava pensando. Tavinho achou melhor mudar de assunto, deixando seu interesse por Jane de lado por enquanto:

-Vejo que você anda preocupado, Paco.

Paco ainda o fuzilou com os olhos por alguns segundos, antes de acender um cigarro e comentar:

-Verdade. Andam me investigando. E a você também.

-Como assim?

Tavinho moveu-se na cadeira, sentindo-se desconfortável de repente. 

- Alguns amigos hackers descobriram que andam pesquisando sobre nós por aí... na virtualidade. 

-Mas... quem poderia estar fazendo isso?

-Ainda não sabemos, mas vamos descobrir... 

Tavinho vociferou:

-Não será aquele moleque que anda com sua filha?

-O Marvin? Não. Ele não seria tão esperto. Gosta tanto da Jane, que mataria por ela, pode estar seguro. Apesar de que agora que você falou... ele não aparece há alguns dias. Vou perguntar a Sunny se ela sabe de alguma coisa, alguma discussão entre os dois.

-A Sunny? Duvido. 

Com um tom de voz desconfiado, paco perguntou:

-E por que?

-Porque Jane não é do tipo de menina que conta tudo para a mamãe. Resolve seus próprios problemas sozinha. Sabe o que quer.

-É... parece que você sabe muito sobre a minha filha. Mais do que eu mesmo.

-Entendi a ironia. Mas você tem que se lembrar de que eu conheço a Jane e o Max desde que nasceram. Bem, se ela for mesmo embora, talvez o Max possa fazer o papel dela.

Paco coçou o queixo:

-Não sei... meu filho é apenas um playboy alienado e viciado em dinheiro. Não acredito que esteja interessado em ajudar. Não gosta muito da ideia de trabalhar.

-Mas é um trabalho diferente. Quem sabe, o menino se interesse?

-Vou pensar no caso. 

Longe dali, Luis releu o dossiê que havia imprimido há alguns dias. Sabia que aquele documento poderia comprometer seriamente a família de Jane. Colocou-o em uma pasta a fim de entrega-lo a Gertrude, que o encomendara, naquela mesma tarde. Não o fizera antes – e arrumara algumas desculpas esfarrapadas para não fazê-lo – porque estava com medo de trair o amigo. Mas talvez, agora que Jane e Marvin não se falavam há cinco dias, Gertrude considerasse desnecessário tomar qualquer atitude. E foi o que ele disse a ela ao entregar-lhe os papéis impressos. 

Depois que ele saiu, Gertrude sentou-se com uma xícara de chá e começou a ler o material que tinha às mãos, o que consumiu-lhe algumas horas. Havia até mesmo imagens de Paco inspecionando as plantações de maconha. Onde aqueles meninos tinham conseguido tais imagens? Essas crianças de hoje podiam ser terríveis, ela pensou. Havia fotos de Jane entrando no carro de Tavinho; a placa podia ser lida muito bem. Gertrude teve pena da menina; afinal, era apenas uma adolescente. Mas definitivamente, ela não queria aquela menina envolvida com seu neto!

Acabou contando tudo à Helena, que concordou com ela e com o que ela estava fazendo. Aquela era uma das poucas vezes em que as duas concordavam a respeito dos netos e de problemas de família. Rafaela achou melhor não contar nada ao marido, pois achava que quanto menos pessoas soubessem daqueles documentos, melhor. 

Gertrude colocou os papéis na pasta novamente, deixando-a sobre a mesinha de centro, e foi dormir. 
Gabi, Luis e Melissa trataram de apagar os rastros da pesquisa de seus computadores, formatando-os e excluindo dados de navegação com a ajuda do amigo virtual de Luis, que prestou-lhes assistência remota e garantiu-lhes que ninguém jamais poderia rastrear as informações que tinham recolhido até os computadores deles. Gabi estava assustada demais, e achava que seria melhor se eles destruíssem os computadores, mas Luis disse-lhe que não era necessário. 

Marvin continuava triste por causa de Jane. Mas seu orgulho ferido não deixava que ele a procurasse. Principalmente porque ela não fizera nenhum movimento em sua direção, e ele ficara sabendo da viagem que ela planejava – sobre a qual não dissera nada a ele. Max tivera o mórbido prazer de passar uma mensagem para informa-lo. 

Marvin emagrecia a olhos vistos. Passava tempo com Luis, Melissa e Gabi, mas como se fosse um zumbi; não conseguia se divertir de verdade. 
E foi ao ver seu grande amor definhar diante de seus olhos, que Gabi decidiu tomar uma atitude a respeito: foi procurar Jane. Por mais que detestasse fazer aquilo, se Marvin ficasse feliz, estaria tudo bem para ela. 

O mordomo mandou que ela se sentasse e aguardasse um pouco. E enquanto o fazia, Gabi mexia em seu celular, sem saber que estava sendo observada por Max. Ele ia entrar na sala, quando deparou com a figura da menina sentada em seu sofá. Examinou-a: era do tipo que ele gostava de “pegar:” Fortinha, musculosa, cabelos ondulados. Bonita, mas não bonita demais. Em resumo: gostosa. Ele gostava de sair com meninas que considerava menos que ele, porque tais garotas faziam de tudo para agradá-lo, pois geralmente tinham baixa autoestima. Eram as melhores na cama: sempre diziam “sim” a tudo o que ele pedia para fazerem. E Max gostava muito de dominar. Ele se aproximou, sorrindo para ela. Gabi desviou os olhos do celular ao vê-lo de pé, diante dela:

-Oi. Acho que já nos conhecemos.

-Oi. Sou Gabi, amiga de Marvin. 

Ele era realmente bonito, ela pensou. Sua figura intimidava. Mas aquele sorriso e simpatia eram novos para ela. 

-Ele se inclinou, beijando-a nas maçãs do rosto:

-Oi, Gabi. Já nos vimos por aí. Mas eu ainda não tinha reparado no quanto você é bonita. 

Ela corou, respondendo:

-Você acha mesmo? Bem, obrigada.

Ele sentiu a baixa autoestima nas palavras dela, e gostou. Sentou-se:

-Vou fazer-lhe companhia até minha irmã chegar. Acredito que esteja aqui para falar com ela.

-Sim. 

-E posso saber do que se trata?

Ela olhou para ele, duvidando de suas verdadeiras intenções. Mas os olhos azuis maravilhos dele, e sua expressão desarmada, deram-lhe segurança para falar:

- Bem... eu queria saber como ela está. Porque o Marvin está malzão. Eles se separaram, sabe.

-É, estou sabendo. – ele forçou uma expressão sentida, mas por dentro, estava frio. – Todos aqui gostamos muito dele, e lamentamos. 

Na verdade, ninguém sequer tinha prestado atenção ao fato, ele pensou. Sunny estava envolvida em seus próprios fricotes, e o pai, mais preocupado em saber quem seria a próxima periguete que ele levaria para a cama. 

-Mas... por que você está preocupada com minha irmã? Não deveria estar preocupada com o Marvin?

Ela pensou ter sentido uma ironia na pergunta, mas ao examinar os olhos dele, a expressão falsamente doce  do rapaz a desarmou de novo:

- Eu estou por isso vim. Quero saber se não existe nenhuma possibilidade de eles voltarem. Quero saber para poder ajudar meu amigo. 

Naquele momento, Jane chegou. Ao ver Gabi, ergueu as sobrancelhas, surpresa, e disse com ironia:

-Me disseram que tinha uma menina querendo me ver. Jamais imaginei que fosse você, Gabi. 

Gabi ignorou a grosseria, respondendo:

-Boa tarde pra você também, Jane. 

Max trocou olhares com a irmã, e compreendeu que era hora de sair de cena. Mas antes, pegou o celular dela e anotou nele o seu número, enquanto dizia: 

-Me liga qualquer dia. Mas liga mesmo, hein? Quero te conhecer melhor.

Entregou o celular a ela e beijou-a mais tempo do que seria necessário bem perto da boca, movendo os lábios de forma sensual e fazendo com que Gabi se arrepiasse toda. 


(continua...)








4 comentários:

  1. Belo conto. Parabens. Adorei ler

    Por motivos profissionais, O Gil, poderá não conseguir chegar a todos. Motivo por qual estou aqui.
    Deixo-vos com:- *As máscaras da ilicitude.*
    -
    Bjos
    Votos de uma feliz Terça- Feira

    ResponderExcluir
  2. Sobrevivo em meio a dor da perda do filho amado.
    Estou me dando o direito de viver o luto como preciso.
    Sabiamente, dizia minha mãe, que o luto leva um ano, o
    ano das "primeiras vezes", primeiro aniversário sem ele,
    primeiro Natal sem ele, primeira virada de ano, primeira
    praia... A dor é intensa. Intensa é a saudade...
    Perdão pela ausência. Volto aos poucos. Ainda não sei fazer
    poesia que não fale na saudade. Mas elas virão. Eu tenho certeza.
    E aqui estarei compartilhando contigo.
    Muito obrigada pelo teu carinho.

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    Respostas
    1. Sinto muitíssimo pela sua perda, Lourani. Como você deve saber, também enfrentei perdas terríveis nos últimos anos, como a do meu sobrinho e afilhado, e da minha mãe. É realmente terrível ter que viver esses momentos, e às vezes eu pensava que não ia conseguir resistir. Minha irmã, mãe do rapaz, às vezes me ligava desesperada, dizia que não estava bem... já se vão 7 anos desde que ele morreu. Continuamos. Não há outra saída. Já podemos sorrir de novo. Mas as datas especiais são sempre cruéis. Espero que você consiga prosseguir, recuperar-se o máximo possível para poder sorrir de novo.

      Abraços.

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  3. Boa tarde. Acompanhando com toda a atenção e interesse o desenrolar da "estória".
    .
    * Campos ondulando em flor, afectos infinitos *
    .
    Votos de um dia feliz.

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