quinta-feira, 11 de abril de 2019

INOCÊNCIA - PARTE I, CAPÍTULO XIV






NOIVADOS

Eu tinha quinze anos – três anos depois que Cristina se fora - quando Berta e Sebastian ficaram noivos. Lembro-me da noite em que ele fez o pedido, as duas famílias reunidas. Foi uma ocasião alegre e festiva, e eu gostaria muito que Cristina pudesse ter participado dela. Também senti falta da presença amiga de Eugênio e Florença, que apenas adentraram a sala para servir o jantar.

Mamãe tinha convidado Tia Aurora, Marcelo e Joana, e a presença deles à mesa fez com que Flora permanecesse altiva e calada. Tia Aurora às vezes a olhava de rabo de olho, e eu sabia que no fundo, ela estava arrependida por tê-la ofendido; mas as coisas eram como eram, e na nossa família, as pessoas não estavam acostumadas a pedirem desculpas. Ao contrário, quando algo acontecia, esperávamos que o tempo passasse e curasse as feridas.

Marcelo também ficara noivo de uma moça chamada Cândida. A primeira palavra que me veio à cabeça quando nos apresentaram, foi: “Branca.” Cândida era tão branca, de olhos azuis tão claros, que parecia uma boneca de louça. Franzina, longos cabelos loiros volumosos, ondulados e quase brancos, ela era a imagem da fragilidade. Minha mãe disse que ela parecia uma fada, 'etérea.'

Totalmente o oposto de Cristina, que era um furacão moreno e sensual, de olhos azuis escuros profundos e intrigantes, voz forte e gutural. A voz de Cândida parecia ter medo de sair da garganta, e era quase musical. 

Eu não sabia se gostava dela. Berta me disse para não tratá-la mal ou criar bloqueios contra a moça apenas porque ela não era Cristina, e aquilo me alertou: eu não tinha o direito de tratá-la mal ou de não gostar dela apenas porque ela não era Cristina, e nem tinha culpa alguma por não ser. Eu tentava, de verdade, ser o mais agradável possível com ela. Mas havia alguma coisa nela que eu realmente não conseguia engolir.

Ela não estava presente no noivado de Berta, o que de certo modo, me deu um certo alívio: não teria que bajulá-la. Porque a minha tentativa e esforço para gostar dela já tinha se tornado bajulação, e acho que Cândida já tinha percebido, e por isso tinha uma atitude mais reservada em relação a mim. Mamãe dizia que eu estava tentando demais, e que aquilo já estava se tornando ridículo.

O noivado de Berta me trouxe alguns receios: ela logo ia casar-se, ir embora de casa, e sem Cristina, eu ficaria totalmente sozinha. As festinhas e os amigos de Berta também iriam embora junto com ela, e a casa se tornaria um deserto silencioso e cheio de lembranças.  Eu também não podia mais contar com o carinho de Flora para me consolar, pois ela mudara totalmente em relação a mim. Mamãe passava horas fora de casa – estava fazendo cursos de culinária, costura, economia doméstica e estética. Papai passava o dia todo no escritório, chegando apenas após as sete da noite, e Joana estava quase sempre ocupada com suas amigas ricas. Além disso, depois que eu descobri que tinha sido ela a dedurar Cristina e Marcelo, eu mesma não fazia mais questão da companhia dela. Nós nos falávamos, e nos víamos nos almoços de família, mas não era mais a mesma coisa, pois eu perdera a confiança nela.

E na escola, eu não tinha muitos amigos, apenas colegas. Nunca os chamava para irem até a minha casa. Também continuava não sendo convidada para ir até a casa deles, e tratava de recusar os convites que Joana me fazia para ir às suas festinhas. Estava me tornando uma moça reclusa, silenciosa e desconfiada. Alguns achavam que eu era tímida, mas não era verdade. Eu estava passando por uma fase difícil, e ninguém me ajudava. Perdera Cristina; perdera o carinho de Eugênio e Flora; perdera a confiança em Joana, minha melhor amiga, e também a companhia de minha mãe, a comodidade de tê-la em casa o tempo todo. E dentro em breve, perderia Berta e seus amigos, que ainda traziam um pouco de luz e vida àquela casa. E quanto mais eu perdia, mais eu me fechava.

Mas ainda me restavam as visitas de final de semana de Tio Duílio. Depois do almoço, ele passava tempo comigo. Nós conversávamos, ele escutava meus discos, me contava histórias sobre as pessoas que conhecia. Quando estávamos juntos, eu via nele um grande amigo, e nem importava que ele tivesse quase a idade dos meus pais. Ele me dava aquilo que eu mais precisava naquele momento: atenção. Saíamos para fazer caminhadas, e eu mostrava a ele meus lugares prediletos. Ele me ensinou a pescar, e às vezes, papai nos acompanhava.

Ele estava presente no noivado de Berta, e piscou para mim sobre a mesa do jantar ao notar a minha tristeza. Tio Duílio parecia ser a única pessoa que compreendia ou que se importava com o que eu estava sentindo. E ele mais tarde me disse que tinha passado quase pela mesma coisa quando era adolescente: uma perda muito grande, mas muito pior que a minha: a morte de seu irmão mais velho, de tuberculose. Depois que ele me contou aquela história terrível, comecei a me sentir um pouco melhor, talvez mais 'sortuda' do que eu me considerava, pois se ele tinha superado uma perda tão grande, aquilo era sinal de que eu também ficaria bem.

Ele me pediu que tivesse paciência com meus pais, pois todas aquelas mudanças também eram difíceis para eles. Principalmente com mamãe. Ela era 'durona', mas no fundo, estava sentindo a falta de Cristina, e em breve veria sua filha mais velha ir embora também.  Talvez por isso ela estivesse se enchendo de novas atividades, e quem sabe, eu também não devesse fazer a mesma coisa?


-E quem sabe, comprar umas roupas novas e me vestir como a mocinha na qual eu me tornara, - ele disse, rindo.

Comecei a pensar seriamente no que ele estava dizendo. Havia um curso de pintura que ia começar na escola, uma atividade extraclasse, e todo mundo dizia que eu tinha talento para pintura. Por que não tentar? Quanto às roupas novas, eu andava mesmo precisando de algumas. Ao falar com mamãe sobre aquilo, ela me levou às compras feliz da vida, e passamos uma tarde na cidade grande, percorrendo as melhores lojas. Daquele dia em diante, eu mudei, ou pelo menos, tentei; mas por debaixo dos vestidos novos e sapatos elegantes, ainda guardava a mesma menina que acreditava que poderia (e deveria) mudar a cabeça das pessoas a fim de defender aqueles que eu considerava mais fracos do que eu.






7 comentários:

  1. Oi Aninha,
    Passando pra desejar um Feliz domingo de ramos.
    bjs

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  2. Boa noite!
    Estamos na semana Santa.
    Não poderia deixar de passar aqui, mesmo que seja com um comentário colado, fique na certeza de que os meus votos são verdadeiros.
    Cada Semana Santa é uma oportunidade de revivermos o amor de Deus por nós e para que continuamos no caminho da conversão.
    Na Semana Santa, celebramos a paixão, morte e ressurreição daquele que veio ao mundo para modificá-lo, JESUS, e trazer a boa nova que os homens de boa vontade esperavam para transformar o mundo em lugar mais harmonizado.
    O VERDADEIRO ESPIRITO PASCOAL é a RENOVAÇÃO. Renovação de nós como seres humanos em todos os sentidos.
    Desejo que o verdadeiro sentido da Páscoa esteja presente na sua vida com muita paz, muitas alegrias, paz, esperança muito amor e muitas energias renovadas.
    Feliz Páscoa!

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  3. Always a real pleasure to visit...such a magical retreat from everyday life!
    Thank you so much...xxx

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  4. Passando a fim de desejar uma Excelente Páscoa. Com muito amor. Paz. Harmonia. Confraternização. Compreensão, e que todos os sonhos se renovem. Que seja extensivo aos vossos familiares e amigos. Obrigada por estarem sempre comigo.
    *
    Para todos uma Santa Páscoa.
    +
    Que todos os nossos/ vossos sonhos se renovem

    Beijos e Abraços

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  5. boa noite Ana,

    Passando pra desejar um feliz e abençoado domingo de Páscoa. Paz Luz e Renovação!

    Bjss!

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  6. Mais do que a inteligência, precisamos da afeição e doçura.
    (Charles Chaplin)

    Feliz Páscoa, querida amiga Ana!
    Bjm carinhoso e pascal

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  7. Tenha um otimo dia, adorei o seu blog e ese post e especial amei.
    FELIZ PASCOA.

    http://geeky-freeky.blogspot.com

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