segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - parte 10


 PARTE 10

Na manhã seguinte, fui à delegacia de polícia e contei a minha história. Eu buscava por algum tipo de punição, alguma coisa que fosse me redimir do meu pecado. Minhas imãs tinham razão: acidentalmente ou não, eu tinha matado Betina. Eu também carregava a culpa de ter – mesmo que em segredo- culpado Breno pela morte dela durante todos aqueles anos. Desculpei-me com ele, mas ele apenas me olhou de uma forma estranha, um mito de pena e medo, e disse que estava tudo bem, mas que eu precisava buscar ajuda.

O delegado, um senhor de meia-idade, me recebeu em sua sala sem muitas delongas, pois notou o quanto eu estava oprimida e me deu toda a atenção que eu precisava. Quando terminei meu relato, ele finalmente disse: 

-Eu me lembro desse caso. Eu era bem jovem naquela época, acompanhei pelos jornais. 

Ele me estendeu um lenço de papel, pois eu chorava muito. Assoei meu nariz e olhei para ele, que me observou longamente antes de dizer:

-Moça, vá para casa. Esse caso foi há muitos anos, e você era só uma criança, não poderia ser responsabilizada pelo que fez. Ainda mais, tinha problemas... emocionais. Imagino o quanto foi difícil para você, martirizar-se durante todos esses anos... de qualquer forma, se fosse necessário ser punida, tenho certeza de que você já foi. 

Notei que ele quase dissera ‘problemas mentais’ ao referir-se a mim. Mas não me importei. Ele continuou:

-Vá para casa, siga com a sua vida e não pense mais nisso. Essa moça tinha uma boa dose de cocaína no sangue, e provavelmente, teria mesmo morrido de overdose se você não tivesse...  enfim, se achar necessário, procure ajuda de um psicólogo, ou talvez de um psiquiatra... se fosse a minha filha, com todos os problemas que você tem, eu teria feito o mesmo que a sua mãe fez. Bem, é isso.

É isso, pensei. 

É isso, concluí.

Liguei para minha mãe. Ela atendeu, e eu repeti:

-É isso, mãe. 


Paola ficou muito tempo sem falar comigo, não por estar zangada, mas por não conseguir me olhar nos olhos. Percebi que deixaram de me convidar, até mesmo para o aniversário de minha mãe e de meus sobrinhos. Minhas irmãs não mais me queriam na vida delas. Percebi que na verdade, eu nunca fora bem-vinda. 

Só voltamos a nos falar durante o funeral de nossa mãe, que ocorreu dois anos e meio após o evento em que eu encarei a minha verdade. Em ocasião da morte de mamãe, de um ataque cardíaco súbito, nós dissemos apenas o essencial – tratamos dos preparatórios para o funeral e de qual advogado contratar para cuidar da herança, por exemplo. Após o funeral, despedi-me delas e voltei ao meu apartamento cinzento e ainda cheio de caixas.

Eu estava cansada daquela vida. Aos trinta e três anos, tinha um emprego que odiava, morava em um lugar que odiava, não tinha nenhum relacionamento afetivo, fosse familiar, amoroso ou de amizade. Nas duas escolas onde eu trabalhava, os demais professores mal falavam comigo e os alunos me detestavam, e eu sei muito bem que era devido à minha própria atitude, sempre isolada e taciturna. E eu era assim porque talvez  a existência deles me fosse totalmente indiferente. Nas festas de aniversário e comemorações de formatura e final de ano, eu geralmente não participava, a não ser que fosse intimada pela direção das escolas. Nem sei por que me mantinham no emprego.

E após a morte de mamãe eu fiz de tudo para ser demitida – e consegui. Após receber a minha indenização das duas escolas, fiquei financeiramente bem, pois já trabalhava há muitos anos naqueles lugares. Também tinha muito dinheiro guardado, pois não gastava com quase nada, a não ser o essencial à sobrevivência, e a herança de meus pais me deixou muito bem de vida. 

Decidi vender o apartamento que eu detestava.

Com o dinheiro, segui o conselho que mamãe me dera no dia em que me revelou a verdade: viajar. Não queria levar comigo nada do que eu tinha, então doei todas as minhas coisas – as poucas roupas e sapatos fora de moda e surrados – e comprei uma passagem para a Argentina. Chegando lá, aluguei um chalé nas montanhas próximo a Bariloche. Ninguém me conhecia, eu não conhecia ninguém. Era apenas uma turista brasileira em férias. Até tentei ser simpática e fazer amigos, mas percebi que após alguns minutos de conversa, as pessoas me olhavam de uma maneira estranha e se afastavam de mim. Eu perdera totalmente o trejeito social. Não sabia me expressar direito, meu tom de voz era errado, meu jeito de olhar metia medo, meus cabelos desgrenhados e minhas roupas fora de moda espantavam, minhas opiniões eram vazias. E eu, tentando demonstrar o contrário, acabava passando a imagem de uma pessoa dissimulada. Eu sabia disso muito bem.

Retornei ao Brasil e aluguei uma casinha com quintal em uma pequena cidade do interior de Minas. Ela era antiga e ficava afastada do centro, onde eu chegava seguindo por uma estradinha de terra batida. Decidi que começaria uma vida nova, nem que fosse solitária. E realmente foi solitária. Morei naquela casinha por quase um ano, nas mesmas condições do apartamento que eu tivera antes: a casa tinha apenas uma cama em um dos dois quartos e um fogão, uma mesinha e uma cadeira na cozinha. Minhas poucas peças de roupa ficavam penduradas em uma arara de roupas enferrujada que eu tinha comprado em um bazar. Os cômodos eram vazios de qualquer tipo de mobília ou decoração. Eu queria, realmente, decorar a casa, mas não sabia o que comprar, como arrumá-la. Andava pelas lojinhas da cidade olhando móveis e roupas de cama e mesa, mas sempre voltava para casa de mãos vazias e chorava durante horas.

Sentia falta de minhas irmãs. Tinha saudades dos meus falecidos pais. Eu me indagava se durante todo aquele tempo, minhas irmãs também pensavam em mim de vez em quando, mas eu tinha certeza que não.

Um dia, comprei um espelho.

Sim, eu morei em uma casa sem um espelho por mais de um ano.

Era um espelho de corpo inteiro, e eu o escorei na parede do quarto, oposto à cama. Nem sei porque eu comprei aquele espelho. Mas eu me sentei nua em frente a ele e me olhei durante muitas horas. Só me levantei quando começou a escurecer. A pessoa que eu enxergava não tinha nada a ver com a menina linda que eu fora durante meus anos de adolescente. Eu tentava encontrar na minha imagem de então alguma coisa que me remetesse àquela menina. Passei as mãos pelos cabelos embaraçados e sem brilho, o corpo extremamente magro, olhei para as unhas compridas e quebradas. A menina não estava mais ali. Chorei por ela. 

Às vezes, quando anoitecia, eu ficava à janela da minha casinha olhando as estrelas. O silêncio era tão dominante, que eu às vezes pensava que tinha ficado surda. Daí eu notava que os grilos estiveram cantando o tempo todo, e que eu não mais os escutava devido ao hábito. Comecei a pensar: o que mais eu não estava conseguindo ver ou ouvir devido ao hábito de pensar sempre da mesma forma – que eu era uma pessoa sem valor que ninguém queria por perto, feia e desinteressante, cuja vida estava definitivamente destruída?

Eu não consegui lidar com aquilo. 

No dia seguinte, comprei um computador e descobri que havia sinal de internet naquela localidade. Acessei uma rede social e procurei por minhas irmãs. Elas estavam lindas e pareciam felizes nas fotografias. Todo mundo tinha uma vida, menos eu. As faces sorridentes, as postagens animadas, as paisagens e viagens... amigos. Família. 

Por que eu não aprendera a cultivar aquelas coisas?

Acessei o perfil do meu ex-marido e vi que ele tinha seguido em frente com sua vida: estava casado com uma linda mulher e tinha três filhos. Eu não senti nada por ele, não senti saudades ou arrependimentos, pois notei, pela primeira vez, que eu jamais sentira nada por ele, ele tinha sido apenas alguma coisa que aconteceu na minha vida e que eu fui deixando ficar só porque era mais fácil do que ter que fazer uma escolha, dizer não. Ele veio e foi quando quis. Lembrei-me do dia do nosso casamento: todos estavam felizes, ele sorria e dizia o quanto me amava. Eu chorei, e todos pensaram que era emoção, mas era um vazio enorme que eu sentia... só isso, a vida toda: um vazio enorme. Um vazio cujo em cujo fundo estava Betina, sempre me olhando e me perguntando: “Por que você me deixou sozinha, Mônica?”


(continua...)





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