terça-feira, 8 de setembro de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - PARTE 8




O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - Parte 8 


Breno completou seu álibi:

- Mônica, certa vez, enquanto os pais de Betina estavam planejando subir o muro dos fundos, eu e ela brincávamos no jardim. Eu me lembro muito bem de ter ouvido o construtor e o pai dela combinarem a altura do muro: seis metros! É impossível que alguém pule um muro daquela altura! Ainda mais um adolescente nada atlético como eu, e de estatura mediana.

Eu estava muda. Lágrimas de desespero turvavam meus olhos. Balbuciei:

-Mas... eu vi... eu estava lá... eu vi!

Minha mãe disse:

-Você precisa se lembrar do que viu, Mônica. Com certeza, essa história que você construiu em sua cabeça não é verdadeira. Talvez seja uma válvula de escape. Você precisa se lembrar! Não pode viver o resto da sua vida com esse segredo dentro de você... como eu fiz.

E eu me vi subindo e subindo, deixando para trás a casa de Paola, as pessoas no jardim, a mesa... a cena ia se afastando cada vez mais, enquanto eu voava sobre o telhado da casa, cruzava a cidade e ia aterrissar justamente na casa de Betina, naquele mesmo dia, aos meus treze anos de idade.

Olhei para o meu corpo magro e esguio, pude sentir meus cabelos lisos e longos. Senti o calor do sol na minha pele e o desejo de mergulhar o mais rápido possível na piscina. Escutei a música de Boy George – Mistake Number Three – e senti minha garganta fechar-se de tanta sede. Entrei na casa, fui à cozinha e me servi do suco de laranja, tomando-o com um canudinho de plástico. Bebi-o encostada aos azulejos frios da cozinha, sentindo o frescor na minha pele e o suco descendo pela minha garganta, matando a sede. 

Chamei por Betina, e ela respondeu do quarto:

-Aqui em cima!

Pus o copo na pia, e enrolando o canudo usado no dedo indicador, subi as escadas. 

Encontrei-a sentada na cama, as pernas cruzadas em posição de ioga, lendo uma revista de adolescentes. Vestia apenas uma camiseta lilás rendada, de alcinhas, e uma calcinha preta. A janela de vidro da sacada perto da cama estava com uma banda aberta e a outra fechada, a banda aberta segura pelo cachorro de ferro. Fiquei de pé à porta do quarto, observando-a durante algum tempo. Quando ela me viu, ela disse:

-E Paola e Sandrinha? Não vieram?

- Oi pra você também, Betina! Minhas irmãs foram ao shopping.

Ela largou a revista, continuando sentada na cama, de pernas cruzadas.

-Não me lembro de ter convidado você...

Senti meu rosto ficar vermelho. Ofendida, respondi:

-Se quiser, eu vou embora.

Ela ergueu os braços, e naquele momento, a pedra do anel brilhou enquanto ela fazia um coque e o prendia com o próprio cabelo. 

-Não, tá limpo. Pode ficar. Sei que você não vive sem a minha piscina... hahaha!

Comecei a sair do quarto a fim de ir embora, me virando de costas, os lábios cerrados de indignação. Ela pulou da cama e me pegou pelo braço já no corredor:

-Não, não vá embora, entra! Só estou te zoando, Mônica. Você não tem senso de humor, hein? Vem comigo.

E eu me deixei puxar para dentro do quarto novamente. Apertei o canudinho entre os dedos. Notei o quanto Betina estava estranha, rindo à toa, parecia bêbada. Ela voltou a sentar-se de pernas cruzadas sobre a cama. Eu entrei e olhei as fotos dela e dos seus amigos. Perguntei:

-Você nunca vai colocar a minha foto aqui, não é?

Ela riu, respondendo:

-Não, querida, esse painel é para os meus amigos. Mas talvez eu pendure a sua foto aqui... (apontou para a porta do banheiro) à noite entram muitos mosquitos, e se eles virem sua foto, vão fugir apavorados. Hahaha!

Por que ela gostava tanto de me humilhar, morder e assoprar, ofender e pedir desculpas, alegando que eu não tinha senso de humor? Eu estava me sentindo péssima. Ela curvou o corpo, abrindo a gaveta da mesinha de cabeceira e tirando de lá a minha foto. Olhou para ela, e olhou para mim, dizendo:

-A foto não te faz juz. Você é bem mais bonita, Mônica... eu disse que não ia pendurar sua foto, mas...mentira! Vou pendurar ela sim.

Minha raiva arrefeceu um pouco enquanto ela se erguia na cama e pegava um pin sobre a borda do painel a fim de pendurar minha foto. Fiquei de pé por trás dela enquanto ela escolhia um lugar perto das fotos de minhas irmãs. Ela ergueu os braços, e por instantes minha visão do que ela estava fazendo ficou bloqueada pela cabeça dela, já que Betina era mais alta do que eu.

-Pronto! Lá está você.

Quando olhei para a foto, ela tinha colocado o pin bem no meio do meu rosto! Levei a minha mão à boca, de tanta indignação. Meus olhos se encheram de lágrimas. Meus joelhos estavam bambos e eu senti que ia chorar de verdade, mas engoli o choro, tentando subir na cama e erguendo a mão para pegar a foto, mas Betina foi mais rápida, pegando a foto da minha mão e começando a pular com ela sobre a cama.

Pulei no chão, contornando a cama:

-Me devolve a minha foto! Nunca mais quero vir aqui!

Ela ria e pulava sobre o colchão macio. Naquele momento, ela tirou a camiseta que estava usando, girando-a sobre a cabeça e jogando-a longe. Parei de tentar segurar a foto, de tão chocada que eu fiquei com a beleza dela. O que eu senti ao olhar Betina era um misto de raiva e adoração. Ela percebeu minha reação desconcertada, e ajoelhando-se na cama, olhou para mim, ficando quieta. Betina estava ainda ofegante devido aos pulos. Uma brisa entrou pela janela aberta atrás de Betina, balançando um pouco as pontas dos seus cabelos e trazendo até mim o perfume da sua colônia importada. Ela aproximou o rosto do meu, e eu me senti incapaz de me mover, paralisada diante dela. Ela tocou meus lábios de leve com os seus. 

A sensação era muito estranha. Percebi que eu poderia facilmente me apaixonar por ela, embora gostasse de garotos, e eu seria mais uma entre seu séquito de adoradores. Aquela menina era infernal! 

Ela colocou mais pressão sobre os meus lábios, entreabrindo-os com a língua. Não resisti e fechei os olhos, tentando entender, diante da minha total inexperiência de vida, o que estava acontecendo. Ela pegou minhas duas mãos e colocou-as sobre cada um dos seus seios. Eu estava me sentindo estranha, ao mesmo tempo, indignada, cheia de repulsa e excitada. Ainda de olhos fechados, movi meus dedos vagarosamente sobre os seios dela, quando ela soltou uma risadinha. Abri os olhos e Betina me olhava, divertida:

-Eu sabia que você era estranha! Além do mais, você é loucaloucalouca!!!

Aquelas palavras ácidas bateram em meu rosto como um chicote. Eu estava de pé em frente à cama, e ela, ajoelhada, de costas para a janela da sacada. Eu a empurrei com toda a força que eu tinha – e com a raiva e a humilhação que eu estava sentindo, acho que ela se duplicou. 

Vi o rosto dela tomado pela surpresa do meu gesto, o olhar desesperado procurando algo onde se segurar, o corpo se inclinando para trás de repente e indo cair do outro lado da cama. Ouvi o pulso dela estalar quando a mão bateu na beirada da cama, e o ruído da cabeça dela batendo contra o cachorro de ferro, que tombou, quebrando o vidro da janela. 

Dei a volta na cama, pensando no que eu tinha acabado de fazer. O sangue já começava a se espalhar sobre o tapete, mas ela ainda estava viva. Betina tossia, seu rosto estava vermelho. Eu estava de pé por trás da cabeça de Betina, ela e ergueu a mão na minha direção:

-Me ajuda a levantar... ai... minha cabeça está doendo muito!

Dei um passo para trás, apavorada com todo aquele sangue, mas nem me passou pela cabeça que ela estava morrendo. Ela começou a respirar com mais dificuldade, e eu voltei, me ajoelhando perto dela. Ela murmurou:

-Não me deixe sozinha agora... não me deixe sozinha... acho que eu vou morrer...

Achei que, mais uma vez, ela estava zoando comigo. Não acreditei nela. 

Agora, a cena se modificava, e eu me ergui até o teto do quarto, observando a cena abaixo de mim como se ela fizesse parte de um filme. 

A menina de cabelos pretos se inclinou sobre a menina loira que estava deitada, tirando o anel de pedra azul do seu dedo e colocando-o no dela. Depois, tirou a fotografia amassada das mãos da menina loira que ainda agonizava. Colocou-a na bolsa de tecido que estava carregando. 

A menina de cabelos pretos nem percebeu que a bainha do vestido tinha sido manchada de vermelho, e que mais tarde, a cor se transformaria em um marrom sujo. 

Ao sair do quarto, apenas trinta minutos tinham se passado desde a sua chegada. Tomou outro copo de suco na cozinha. Engraçado como tudo o que ela fazia parecia ser feito em estado de transe. Ela foi até a vitrola, colocando novamente “Mistake Number Three.”  Depois, mergulhou na piscina, onde permaneceu pelas duas horas seguintes.

Parecia dormir ou sonhar de olhos abertos. Seu rosto era tranquilo. Ela fechou os olhos de repente, e quando acordou, sentia frio, e o sol já quase se escondera por trás do telhado. Metade da piscina estava à sombra. Agora, ela estava de pé, se enxugando com a toalha. Depois, colocou o vestido branco, guardando a toalha na bolsa. A menina de cabelos pretos girou a cabeça; parece que ela ouviu alguma coisa. Eu a vejo caminhando rente à parede da casa em direção aos fundos, meio-agachada. Ela olha para alguma coisa que acontece por trás do muro que divide o terreno dos fundos e o da frente. Ela parece estar muito amedrontada. Olho para onde o olhar apavorado e curioso dela está concentrado, mas não há nada ali.

Ela corre para dentro da casa e sobe as escadas. Encontra a menina loira nua, deitada em uma poça de sangue. Seus seios são lindos, redondos e pequenos. Seu coração apavorado não se lembra do que aconteceu ali há apenas algumas horas. Ela toca os olhos da menina morta, e toca sua pele. Sente ânsias de vômito e corre até o banheiro. Lá, ela encontra o motivo de tudo que ela não consegue se lembrar em uma fileira de pó branca sobre a pia. A menina loira se drogava, afinal. Talvez por isso ficasse tão estranha às vezes. 

A menina de cabelos pretos deixa a casa, esgueirando-se pelo portão, ganhando a rua vazia e a tarde infernalmente quente. Ela chega em casa e retira o vestido, pendurando-o no varal dos fundos sem lavá-lo – mas na sua cabeça, ela o lava e esfrega. Toma um banho ainda usando o biquini, e mais tarde, pendura-o lá também. Ela ainda não percebeu o anel em seu dedo. Ela não se lembra de nada. Só sabe que um menino entrou na casa e talvez tenha assassinado sua amiga. Um menino, não ela. Nunca ela. Ela jamais faria aquilo.

No meio da noite, ela acorda e retira o anel, jogando-o no chão. Depois se arrepende e o resgata de uma abertura onde ele caiu, entre o rodapé e a madeira do soalho. Enrola-o em um lenço e o guarda em sua gaveta, esquecendo-se dele durante muito tempo. 

Porém, a menina de cabelos loiros nunca a deixaria em paz.

(CONTINUA...)






Um comentário:

  1. Boa noite minha querida amiga Ana. Cada capítulo maravilhoso e a pintura espetacular. Que casa dia você tenha mais inspiração. Uma ótima quarta-feira. Obrigado pela sua amizade.

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