Quando abriu os olhos, Ingrid percebeu que estivera desmaiada por algum tempo, já que o sol já se erguia alto no céu. Testou os músculos do corpo e dobrou as pernas vagarosamente, verificando se estaria ferida. Sentiu apenas uma fraca dor nas costas - caíra deitada - mas estava bem. Levantou-se devagar; pegou seu chapéu, colocando-o na cabeça e amarrando bem a fita sob o queixo para não perdê-lo novamente. Começou o caminho de volta, subindo o penhasco e segurando-se bem. Era bem mais fácil subir do que descer.
Ao chegar à plataforma, procurou pela mancha de sangue no vestido, mas achou-o imaculadamente branco. Também surpreendeu-se ao perceber que o feio corte da mão não estava mais lá. Talvez tivesse imaginado tudo, devido ao susto da queda.
Voltou para casa, caminhando lentamente. O dia estava maravilhoso, e a temperatura, muito agradável. Parecia-lhe que as cores estavam mais vivas do que nos últimos dias, e a sensação de melancolia que a acompanhara durante aquele triste período de sua vida, tinha estranhamente desaparecido... Ingrid sentia-se leve e cheia de vida.
A subida da colina não a deixou cansada; pelo contrário: ao chegar à casa, ela olhou o mar lá embaixo e respirou fundo, tendo a impressão de que o marulhar das ondas estava mais intenso, e havia no ar um agradável perfume de flores que ela não havia notado antes. Notou que havia pássaros azuis pousados na árvore próxima - espécies que ela não conhecia. Ficou algum tempo admirando-os.
Foi quando ela ouviu uma voz conhecida chamando-a de dentro da casa.

Seu coração deu um salto: era a voz de Tia Agnes! Perplexa, Ingrid entrou correndo na casa. Deveria ser o efeito do sol. Tinha que ser! Mas ao passar porta aberta, seguindo a voz que a chamava até a sala de almoço, viu a mesa pronta decorada com alguns vasos de flores como Agnes costumava fazer, e mal pode acreditar ao ver Tia Agnes de pé junto a ela, terminando de arrumar os copos, mais bela e jovem do que jamais vira. Usava um vestido esvoaçante e delicado de cor amarelo-pálido, tinha a pele levemente bronzeada e sem rugas. Ingrid achou que parecia muitos anos mais jovem do que quando a conhecera.
Agnes saudou-a alegremente, dizendo:
-Não fique parada aí! Entre logo, pois estávamos esperando por você!
Ingrid adentrou a casa, e com os olhos cheios de lágrimas, achou que estava sonhando. Aproximou-se de Agnes, abraçando-a forte. Agnes pareceu adivinhar-lhe os pensamentos, e disse:
-Não é um sonho, cara Ingrid. Você está mesmo aqui. É real!
-Mas como pode ser, Tia Agnes? Você já... quero dizer, eu fui ao seu... velório, e...
-Mas isso foi há muito tempo, em outro lugar. Agora, você está aqui conosco, e tudo ficará bem.
Naquele momento, Ingrid viu seus pais entrarem na sala, também muito mais jovens e sorridentes do que quando ela os vira pela última vez. Ela jogou-se nos braços deles, chorando de alegria.
Eles sentaram-se à mesa na qual Tia Agnes já se encontrava sentada, servindo o vinho.
Ingrid olhava toda aquela cena da qual ela fazia parte, tendo certeza absoluta de que não podia ser verdade; era um lindo sonho do qual ela despertaria a qualquer momento. Com certeza, ainda encontrava-se caída naquele penhasco, desmaiada, e logo a terrível realidade que vivia iria novamente ao seu encontro.
Mas quando viu Jonas entrando pela sala, os cabelos molhados , cheirando à colônia após barba que sempre usava, ela levantou-se da mesa e correu até ele, caindo em seus braços. Ela podia sentir seu perfume, tocá-lo, ouvir seu riso, sentir seus braços fortes segurando-a. A textura da camiseta muito branca que ele vestia era real sob seus dedos. Seu peito junto ao dela, movia-se ao ritmo normal da respiração. No entanto, seus sentidos pareciam bem mais aguçados: via as cores mais vivas, sentia perfumes suaves que jamais sentira antes, e fisicamente, tinha a energia de uma saudável menina de dez anos de idade.
Após um longo e apaixonado beijo, Jonas conduziu-a até a mesa onde se juntaram aos outros e desfrutaram do delicioso almoço servido por Tia Agnes.
***
Os três pescadores olharam para baixo, e avistaram um corpo de mulher caído sobre uma das plataformas do penhasco. Alarmados, desceram rapidamente a fim de socorrê-la; ao se aproximarem, viram o sangue que escorria sobre a pedra, tingindo a saia do vestido da moça. Chamaram-na; ela permaneceu imóvel.
Um deles tocou-lhe o pescoço, mas não sentiu qualquer sinal de pulsação. Ele olhou para os outros, e eles compreenderam, e tiraram seus chapéus em sinal de respeito. O pescador passou a mão pelo belo rosto da moça, fechando-lhe os olhos.
Um chapéu branco foi jogado ao mar pelo vento, e as ondas o recolheram.












