quinta-feira, 7 de maio de 2020

MADRE - Final







MADRE – Capítulo 13 - FINAL

Minha mãe era filha de pais muito rígidos e religiosos, que, ao saberem que ela tinha engravidado do namorado, a expulsaram de casa e viraram as costas para ela. Sozinha, ela foi ter suas bebês no mesmo hospital onde a minha mãe adotiva tinha ido para ter a sua filha. As duas se conheceram e conversaram longamente, e minha mãe adotiva ficou sabendo das dificuldades que minha mãe natural – com apenas quinze anos de idade – teria para criar sozinha duas meninas. Meu pai tinha fugido das responsabilidades da paternidade por ser muito jovem, e minha mãe natural não queria força-lo a nada, pois nem estava apaixonada por ele. 

Ao ter sua bebê, minha mãe adotiva, ao visita-la no berçário, percebeu que ela estava morta. Desesperada, trocou a sua bebê morta por uma das bebês vivas de minha mãe – eu. A cor dos cabelos era a mesma e as bebês eram até parecidas. Minha mãe natural percebeu a troca, mas decidiu ficar quieta a respeito pois achou que seria mais fácil criar apenas uma menina; além disso, sabia que minha mãe adotiva seria uma boa mãe. 
Realmente, fui muito amada e bem criada por meus pais adotivos (sem saber da minha verdadeira história); a única coisa que me incomodava, eram as mudanças repentinas para lugares distantes, que não me deixavam criar raízes ou fazer amizades duradouras. Isso tudo me causou síndrome do pânico e ansiedade, e desde cedo, precisei de medicação para lidar com isso. Meus pais diziam que as mudanças eram devido às mudanças exigidas pelo trabalho do meu pai. Também me incomodava o fato de eu jamais poder ter redes sociais usando a minha verdadeira identidade ou fotografias. 

Minha mãe natural continuou levando sua vida longe de mim, criando minha irmã gêmea a quem chamou de Georgina. Mas ela conheceu um homem muito rico e bem mais velho que ela, que lhe deu suporte e escutou sua história sem julgá-la. 
Minha mãe casou-se com ele e ficou muito rica. Herdeira do ex-marido, um empresário do ramo imobiliário que morrera de uma doença no coração. Bem mais velho do que ela, apaixonaram-se quando ele foi até uma loja aonde ela trabalhava para comprar um presente para sua então namorada. Ele não apenas aceitou sua filha (minha irmã) de dois anos de idade, como criou-a como se fosse sua e amou-a como a uma filha natural.

Anos após o casamento, ao saber que minha mãe tivera outra filha, decidiu ajudá-la a encontrar a menina (eu), respeitando o pedido de minha mãe de não querer a polícia envolvida na história.  Para ele, também seria melhor se nenhuma propaganda negativa interferisse em seus negócios e expusesse o nome da sua empresa.  Ele contratou um detetive particular que conseguiu encontrar meus pais adotivos. Mas ao saberem da intenção que minha mãe tinha de retomar sua filha, meus pais adotivos simplesmente fugiram, e continuaram a fugir durante anos. 

Enquanto isso, o marido de minha verdadeira mãe deu a ela o suporte que ela precisava para criar minha irmã e a continuar a procurar por mim. Fez por minha mãe tudo o que uma mulher poderia desejar, e ao morrer, deixou-a muito rica, pois não tinha herdeiros. 
Quando meus pais adotivos morreram em um acidente, fiquei sabendo da história toda e decidi ir a procura de minha verdadeira história. 

Encontrei minha mãe verdadeira com a ajuda de minha avó adotiva, conheci uma pessoa que foi muito importante para me ajudar a tomar a decisão certa (meu amigo Mateus) e agora estou aqui, morando na casa de Mayara. A história que ela me contou bateu com a que minha mãe adotiva deixou escrita para mim em uma carta. Mas Mayara me disse que não tinha parentes vivos, e agora aparece minha tia Mércia, irmã gêmea de minha mãe verdadeira, e vira tudo de cabeça para baixo. Logo agora, que minha vida estava começando a tomar um ritmo normal. Logo agora que pela primeira vez, eu estava começando a me sentir em paz. 

Este foi um dos motivos pelo qual eu não fui ao encontro que marquei com minha tia Mércia. Haveria a festa no dia seguinte, onde eu conheceria o mundo de minha mãe – seus amigos – e tentaria fazer parte daquele mundo. Eu queria estar feliz. O vestido que eu e Mayara escolhêramos era simplesmente lindo, e a expectativa da festa estava me deixando muito excitada e feliz. 
O outro motivo, foi que minha mãe e eu tivemos uma conversa na manhã seguinte àquela do shopping center, onde eu conhecera minha tia Mércia. Foi à mesa do café, logo após a noite na qual a síndrome do pânico tinha me atacado de novo. A manhã estava um tanto pesada, o céu coberto por nuvens cinzentas. 

Ela me disse:

-Aisha, você não imagina o quanto estou feliz porque você quis me conhecer! Sou grata porque você me perdoou por não tê-la procurado com mais afinco, e por ter entendido meus motivos. O que eu quero dizer é que... bem, nós... todos temos um passado e fazemos algumas coisas das quais não nos orgulhamos muito. Gostaria que você não se tornasse uma menina amarga, que não culpasse seus pais adotivos pelo que aconteceu, e nem a mim. 

-Eu já perdoei meus pais. E a você também. 

Ela respirou fundo, tomando um gole de café e erguendo as sobrancelhas. 

-Não é isso. O que eu queria que você entendesse, é que não existe nada a ser perdoado. Um dia, quando for adulta, você cometerá erros também. Faz parte de sermos humanos. Ninguém precisa perdoar ninguém, Aisha! Basta que aceitemos uns aos outros como somos, sem julgamentos. Algumas pessoas se julgam nobres ao dizerem que perdoam alguém, mas na verdade, ao dizerem isso, só estão demonstrando o quanto são (ela desenhou aspas no ar com as mãos) “nobres e bondosas, superiores e espiritualizadas.” Na verdade, são apenas hipócritas, pois elas também não são perfeitas! 

Eu fiquei calada, mas meu rosto revelou a minha confusão a respeito do que ela dizia, e Mayara acrescentou:

-Eu só queria pedir a você que seguíssemos em frente e deixássemos para trás tudo o que aconteceu, todo o passado. É a única maneira de sermos felizes. 

Concordei com a cabeça, meu cérebro dando voltas. Retruquei:

-Mas isso significa que eu não posso mais ver a minha vó? E Tina?

Ela riu:

-Não, não! Você pode visita-las se quiser, pode trazê-las aqui, não importa! Elas fazem parte da sua vida. Também pode visitar seus pais no cemitério, mandar rezar missas por eles, enfim... é a sua vida e eu não vou interferir. Só queria que ficasse morando aqui comigo, porque já ficamos tempo demais separadas. Quero conhecer você, e quero que você me conheça. E temos a vida toda para isso.

Eu senti uma paz enorme tomando conta de mim. Olhei para o céu à janela, atrás dela, e vi que uma enorme nuvem cinza se afastava, dando lugar a um céu tão azul, que chegava a deixar a gente sem ar. Havia uma cerejeira cheia de flores no jardim, e Ronaldo, o jardineiro, ajeitava uma pequena cerca sob ela. Eu decidi que queria ter aquela vida para mim. Olhei para minha mãe, e ela tentava conter a emoção. 

-Ok, eu vou ficar morando aqui com você... mãe!

Naquele mesmo dia, bloqueei o número do telefone de minha tia Mércia. Nunca mais a vi ou soube dela, nem perguntei à minha mãe sobre ela. Também apaguei minhas redes sociais, pois deixar o passado para trás também significava começar tudo de novo. TUDO. Não queria mais me lembrar daquela festa de quinze anos que nunca aconteceu, nem ter que virar a esquisita da turma, a menina que chega e é olhada por todos, que começam a murmurar sobre ela e a fofocar sobre sua vida. Já estava cansada das perguntas indiscretas dos meus velhos amigos, que, descobri, nem valiam tanto a pena assim. 

A festa de Dalva, amiga de minha mãe, foi maravilhosa! Fiquei conhecendo seus amigos e eles me trataram muito bem. Ninguém me fez perguntas desagradáveis ou indiscretas. Todos se preocuparam em me mimar e me deixar à vontade para ser eu mesma. Na mesma noite, eu e Ian, filho de Dalva, nos conhecemos e começamos a namorar. 

A vida foi se encaixando; minha avó Beatriz e Tina nos visitavam às vezes, e costumavam passar as festas de fim de ano na nossa casa. Eu também viajava para visita-las sempre que podia, até que minha avó faleceu quando eu fiz vinte e dois anos. Logo depois, Tina também se foi. 

Eu e Ian nos casamos e tivemos três lindos filhos, aos quais demos os nomes de Beatriz, Fernanda e Jairo (os nomes de minha avó e de meus pais adotivos). Nunca escondi dele a minha verdadeira história. Tive uma vida muito feliz e muito plena. Eu, Dalva, Ian e mamãe viajamos o mundo todo, ficamos em hotéis maravilhosos e mais tarde, meus filhos juntaram-se a nós nas nossas viagens. 

Minha mãe – Mayara – morreu quando eu tinha cinquenta anos de idade, e ela, sessenta e cinco. Nunca tivemos uma discussão sequer, nenhuma briga ou desentendimento, por menor que fosse. Éramos verdadeiras almas gêmeas. Me senti grata por poder cuidar dela até o final de sua doença, e por estar perto dela segurando a sua mão quando ela deu seu último suspiro, entre sorrisos, deixando como sua última palavra, um “obrigada.”

Após o sepultamento, todos foram embora, mas eu quis ficar um pouco mais junto ao túmulo de minha mãe. Precisava me despedir dela de verdade, agora sem o medo de perde-la, que me acordou durante os cinco anos após ela descobrir sua doença, sem o cansaço das noites em claro que eu tinha passado com ela nos seus últimos dois meses de vida, e sem as visitas que entravam e saiam de nossa casa o dia todo, pois todos adoravam Mayara. Eu queria ficar um pouco sozinha com ela, sabendo que ela não estava sorrindo para que eu não notasse que estava sentindo dor; que ela não tentava parecer que estava bem, só para que nós não nos preocupássemos tanto com ela. 

Eu queria dizer adeus à minha mãe sabendo que ela agora estaria tranquila para me ouvir. E através do meu pensamento, eu disse a ela tudo o que eu queria, e chorei todas as lágrimas que me restavam, e ri muito também, me lembrando dos nossos muitos momentos de felicidade juntas. Respirei fundo e estava pronta para ir embora, quando ergui os olhos e vi uma mulher se aproximando. Uma mulher muito parecida com minha mãe, mas não macilenta devido à doença; uma mulher que já fora bonita, e que agora estava envelhecida e amargurada demais para sua idade. Quando ela chegou mais perto, percebi as rugas profundas em volta da boca – rugas de anos de tristeza.  Ela caminhou na minha direção, e seu andar claudicante e lento  parecia carregar o peso de anos de ressentimentos. Eu percebi que ela estava ali por um motivo: destruir as memórias felizes que eu tinha de minha mãe; arruinar sua memória, matá-la uma segunda vez dentro do coração da pessoa que ela mais tinha amado e que mais a amara.

Levantei-me do banco de madeira, ajeitando a saia, agarrando com as duas mãos a bolsa preta, como se sentisse medo do que ela ia tentar roubar de mim. Ela me olhou nos olhos, e vi que sua raiva e inveja eram gritantes. Eu queria me mover, mas alguma coisa me mantinha presa ao chão, como se minha tia Mércia possuísse poderes mágicos e malignos. Ela chegou bem perto de mim e parou a menos de um metro do meu rosto, me olhando da cabeça aos pés. Notei que suas roupas eram antigas e estavam muito usadas, a saia preta plissada e desbotada, a camisa branca desgastada na gola. Eram roupas de uma mulher que não se importava consigo. Que não se importava com nada nem ninguém. 

Ela abriu a boca, e percebi que dali não sairia nada de bom ou de útil. Eu tinha certeza de que Mércia ia despejar sobre mim segredos do passado de minha mãe cuja intenção seria a de macular sua memória. Percebi também que eu não estava interessada em sabe-los agora, assim como não tinha desejado sabe-los no passado. Também notei que aquela mulher tinha sofrido muito devido a tais segredos, e se transformado em uma bruxa amarga, solitária, precocemente envelhecida e incapaz de amar. Ela não tinha seguido adiante; sua vida tinha estacionado no exato momento em que aquela antiga mágoa tinha sido perpetrada. E agora ela queria despejar tudo aquilo em cima de mim, apenas por vingança. 

Minha tia Mércia abriu a boca, e seus olhos emitiram um brilho de maldade. Mas antes que ela pudesse dizer uma única sílaba sequer, eu ergui a mão, a palma virada para o seu rosto, calando-a. Mércia hesitou, balbuciou, e eu, dando a volta por trás dela, me afastei dali a passos rápidos, de modo que ela não conseguisse me alcançar. Depois, passei a correr, e entrando no carro, bati a porta e liguei o motor, dirigindo para bem longe dela. Ainda pude ver sua imagem congelada no retrovisor do carro, me olhando, a boca entreaberta. 


FIM






segunda-feira, 27 de abril de 2020

MADRE - Capítulo 12





MADRE - Capítulo 12

Saímos da loja carregadas de pacotes. Ela disse que iria ao estacionamento colocar tudo no carro e me pediu que a esperasse na praça de alimentação, em um café chique. Fiquei por lá, olhando minha mãe se afastar e se perder na multidão de pessoas alegres. Minutos depois, pedi uma Coca, e quando comecei a tomar, vi minha mãe voltando. Ela parecia preocupada, mas o que mais me chamou a atenção, é que ela estava usando roupas diferentes da que tinha. Usava um par de calças jeans, um suéter bege com um lenço de seda rosa amarrado ao pescoço e um par de botas de camurça marrom até os joelhos. Estranhei, pois quando me deixou, ela estava usando um vestido verde musgo!

Pensei no quanto Mayara era imprevisível, e ri, mas meu sorriso se fechou quando notei que a mulher que vinha em minha direção não era minha mãe; seus cabelos eram ligeiramente mais curtos e mais escuros, embora ela fosse quase igual a Mayara e tão bonita quanto. Parecia muito nervosa e seu rosto estava avermelhado, suando na testa. Quase derramei meu refrigerante quando ela se sentou diante de mim e me olhou nos olhos profundamente. Disse:

-Não tenho muito tempo. Se ela descobrir que eu a encontrei, vai fugir de novo. Meu nome é Mércia, sou irmã de Mayara. Gêmea. 
Minha cabeça deu um nó:

-Quem??? Então... você é minha tia??? Mas minha mãe me disse que não tinha parentes!

Ela escorregou um cartão de visitas sobre a mesa até mim, e colocou-o na palma da minha mão, dizendo: 

-Venha me ver assim que puder! E por favor, é muito importante que minha irmã não saiba de nada. Não diga a ela que me conheceu, por favor, ou você nunca mais saberá da verdade...

Ela baixou os olhos, e levantando-se apressadamente da mesa, desapareceu na multidão, descendo as escadas rolantes. Ainda olhou para trás antes que eu a perdesse de vista. Enfiei o cartão na bolsa sem olhar para ele, pois avistei minha mãe se aproximando, com um baita sorriso no rosto, caminhando em minha direção. Fiz de tudo para disfarçar o que tinha acontecido, mas ela notou que havia algo estranho. Disfarcei, dizendo que não estava me sentindo muito bem e que deveria ter sido o camarão do almoço que comêramos mais cedo. Ela franziu a testa, e disse que assim que chegássemos em casa, daria uma bronca na cozinheira. Lamentei silenciosamente pela pobre cozinheira, que pagaria o pato por nada! Ainda tentei persuadir Mayara a esquecer o assunto, mas ela disse:

- Aisha, Meus empregados domésticos recebem quase seis vezes mais do que os empregados domésticos geralmente recebem! Cada um têm um carro à disposição, acomodações na casa, caso desejem morar lá ou passar a noite, e todos os seus direitos legais assegurados. O mínimo que eu exijo, é competência e um trabalho impecável. Não admito que tenha sido preparado qualquer coisa na minha cozinha que não seja absolutamente fresco.

-Eu sei, Mayara! Mas você comeu e não está passando mal, não é? Eu é que sou muito sensível a camarões. Olha, tomei esse refrigerante e já estou começando a me sentir melhor. Só vou ao banheiro um instantinho para lavar o rosto.

Ela insistiu para ir comigo, mas eu disse que estava bem, só ia lavar o rosto e voltar logo.

Chegando no banheiro, procurei o privativo e, batendo a porta, deixei que as emoções aflorassem. Me vi trêmula, ofegante e confusa. Fiquei ali pelo menos cinco minutos, tentando entender os últimos acontecimentos: Mayara mentira para mim! Disse que não tinha família, mas tinha uma irmã gêmea. O que mais ela tinha me escondido? Eu teria que procurar por minha tia para saber. Coloquei a mão dentro da bolsa e li o cartão três vezes antes de colocá-lo de volta na bolsa. Mas depois, não sei o porquê, anotei o número do telefone em meu celular com um nome fictício e joguei o cartão fora. Fiquei com medo que Mayara vasculhasse minhas coisas e o encontrasse. Eu precisava tomar cuidado, afinal, não sabia quem ela realmente era. 

Lavei o rosto com água gelada, respirei fundo e ensaiei um sorriso tranquilo antes de juntar-se novamente à minha nova mãe. 

Ao chegar em casa, mandei uma mensagem de texto para minha tia Mércia e marcamos de nos encontrar dali a dois dias. Seria um dia antes da festa de Dalva, amiga de minha mãe.  Eu só precisava de uma desculpa para justificar minha saída para Mayara. Me vi pensando no porquê estar pensando em uma desculpa para poder sair, e aquilo me preocupou. Eu tinha acabado de sair da prisão que era viver fugindo e me escondendo com meus pais, e agora, que eles não estavam mais vivos, eu temia encarar Mayara e continuava me achando presa, tendo que arranjar desculpas para sair. Eu não precisava daquilo! Pelo menos, não deveria precisar. 

Naquela noite, eu não dormi. Tive uma crise de ansiedade terrível e quase fui acordar minha mãe quando a crise chegou ao ápice. Abri a porta da sacada e fui lá para fora, onde uma enorme lua branca parecia me espiar. Olhei fixamente para ela e fui tentando colocar a respiração em um nível suportável novamente, bebericando água e tentando me controlar. Engoli um comprimido para ansiedade, me sentindo péssima, já que eu queria muito deixar de toma-los e estava quase conseguindo. Porém, meus braços dormentes, o coração disparado, a pele coberta de suor, o pânico... tudo aquilo me obrigava a engolir mais um comprimido, sempre me prometendo que seria o último. Logo eles iriam acabar e eu precisaria de uma nova receita. Meu médico estava há quilômetros de distância e eu não tinha nenhum dinheiro. Teria que acabar contando a Mayara sobre o meu problema. 

Lembrei-me muito de meus pais. Senti muita saudade deles, apesar de tudo. Pensei em minha avó e em meus amigos da escola. Eu conversava com eles pela internet agora, mas as conversas online não eram suficientes para manter uma amizade! Eu gostaria de estar com eles... ou esquecê-los de vez e tentar me adaptar à minha nova vida, fazendo alguns amigos. Mas... que nova vida? Eu ia continuar morando com Mayara depois que ouvisse o que Mércia tinha a me dizer? Ou voltaria a viver com minha avó e com Tina?


(continua...)







sexta-feira, 17 de abril de 2020

MADRE- Capítulo 11








MADRE - Capítulo 11

Cada vez mais eu notava a distância entre nós e as três pessoas que trabalhavam na casa – Rosa, Elvira e Ronaldo, o jardineiro de Mayara e ocasionalmente, motorista também. Por mais que eu tentasse conversar com eles, estabelecendo um pouco mais de proximidade, eles se mantinham distantes e polidamente frios, e insistiam em me chamar de senhorita Aisha, mesmo que eu pedisse que me chamassem apenas de Aisha. Se eu fizesse alguma pergunta em relação à casa ou à minha mãe, eles apenas baixavam a cabeça e me diziam que não estavam autorizados a comentar nada ou que não sabiam nada sobre o assunto. Quando perguntei sobre a porta trancada no meu quarto, as duas mulheres se entreolharam e disseram que não passavam a noite na casa, e portanto, nada podiam me dizer sobre aquilo.

Minha mãe também mantinha um certo ar de mistério. Uma tarde, ela me convidou para o seu quarto, e enquanto eu examinava algumas fotos de meu falecido pai e de Georgina, minha falecida irmã gêmea, eu perguntei a ela como meu pai era. Mayara aproximou-se de mim, e pegando a fotografia do senhor distinto e bonito das minhas mãos, olhou para ele longamente antes de responder. 

-Eu era muito jovem e estava totalmente perdida quando o conheci. Tinha minha filha para cuidar e trabalhava em uma loja de roupas finas, que foi onde nos conhecemos. Lúcio se apaixonou por mim imediatamente. Estava lá para comprar um presente para sua namorada.

-Ele era comprometido quando a conheceu?

-Sim. Mas logo terminou. Logo após a primeira noite que me convidou para sair com ele. Seu outro relacionamento não era sério. Segundo ele mesmo, era só sexo. Eu me senti feito uma princesa decaída que encontra seu príncipe encantado de repente. Lúcio me levava a lugares incríveis, que eu jamais imaginava que poderia frequentar! Em alguns deles, eu tinha trabalhado como garçonete durante alguns eventos... agora eu entrava pela porta da frente, em grande estilo. Ele era gentil, e doce... a diferença de idade – ele era quase trinta anos mais velho – não foi importante. Lúcio não tinha família, a não ser um tio distante que já faleceu... era muito sozinho antes de me conhecer, e talvez tenha se identificado comigo por causa disso.

Enquanto ela falava, eu notava que ela revivia sua história. Dava pequenas pausas em seu relato, saboreando momentos que só ela enxergava. Perguntei sobre Georgina, e o rosto dela ficou encoberto por uma sombra, que modificava a suavidade de suas feições como uma nuvem negra que corta um céu de brigadeiro.

-Georgina era apenas uma criança quando nós a perdemos. Ela era linda e feliz, como toda criança... eu estava casada com Lúcio há dois anos. Ela era a luz e a alegria da vida dele! 

Notei um certo ressentimento quando ela disse aquilo. Não consegui deixar de perguntar:

-E você tinha ciúmes?

Ela se virou para me olhar, o rosto branco feito a parede atrás dela. Seu tom de voz foi cortante:

-Por que diz isso?

Eu engoli em seco, guardando as fotos de volta na caixa e me sentando ereta na cama:

-Nada, é que... não sei, só tive a impressão. Não sei por que perguntei, desculpe. Mas... tem uma coisa que eu gostaria de perguntar. Sobre a minha primeira noite aqui.

Ela suavizou sua expressão:

-Ora, e por que não perguntou antes, querida? Já está aqui há cinco dias!

Eu ri, tentando descontrair a atmosfera pesada do ambiente.

-Bem, vou perguntar agora! 

Ela estava sentada em uma poltrona em frente à cama, e inclinou-se em minha direção para me dar atenção. Por trás dela, a janela aberta despejava relances de verde quando a cortina de seda se levantava com a brisa. Notei o quanto ela era bonita.

-É que eu escutei alguns barulhos que me acordaram naquela noite. Depois vi uma luz debaixo da porta... e quando tentei abri-la, estava trancada.

Ela riu:

-É uma casa antiga, e as fechaduras são todas originais. Com certeza, emperrou. Bem, isso significa que você agora vive em uma casa muito velha. Mas é só tentar mais algumas vezes, e elas acabam se abrindo. 

Me senti uma tola após a explicação dela. Era lógico que ninguém havia trancado a minha porta! Eu e a minha imaginação fértil... também pensei no que ela acabara de afirmar: “Você agora vive em uma casa velha. ” Eu não me sentia assim, como alguém que morava ali, mas apenas como alguém que estava passando um tempo, visitando.

De repente, ela se levantou com um pequeno salto, e batendo as palmas das mãos, sugeriu:

-Hey! Que tal sairmos para fazer umas compras? Preciso de um vestido novo para ir a uma festa, e você também. Vai comigo, certo? Quero apresentar você a todos os meus amigos. A festa é daqui a três dias, na casa de minha amiga Dalva. Você vai adorar ela! Ela é divorciada e tem um filho da sua idade. Você vai adorar o Ian!

A mudança de humor dela foi tão repentina que eu me assustei. Mayara era uma caixinha de surpresas! Ela me segurou pelo braço, e começamos a sair do quarto, enquanto ela dizia:

-Vamos às compras! Vá se trocar. Te encontro na sala em quinze minutos!

E eu a obedeci, incapaz (e sem a menor vontade) de confrontá-la e, ao mesmo tempo, curiosa para sair um pouco e andar pela cidade. Conhecer gente nova também me faria bem. Nós fomos ao shopping center, onde Mayara me levou nas melhores lojas. Os homens viravam a cabeça quando nós passávamos por eles, esfuziantes e sorridentes. Eu estava começando a gostar muito de minha mãe, mas ao mesmo tempo, tinha alguma coisa que estava me deixando insegura e eu não sabia o que era. 

Ela experimentou vários vestidos, até que se decidiu por um longo preto todo esvoaçante que a deixava simplesmente estonteante. Eu escolhi – ou melhor, ela escolheu para mim – um vestido longo mais simples e mais condizente com a minha idade, segundo ela, de cor prata com detalhes em preto. Enquanto eu me olhava no espelho, fascinada pela beleza do que eu via, Mayara chegou perto de mim e pegando meus cabelos soltos, ergueu-os em um coque no alto da minha cabeça. Notei pela primeira vez o quanto éramos fisicamente parecidas: o mesmo nariz afilado, a mesma curva do queijo sob o lábio inferior, os olhos cinzento-azulados que costumavam trocar de cor conforme a claridade. Me senti tão bonita quanto ela! E pela primeira vez, também me senti parte dela – sua filha. Senti vontade de abraça-la, e eu o fiz. 

Quando nos separamos, notei que ela chorava. Enxugou as lágrimas furtivamente com as costas da mão, e me olhando nos olhos, sugeriu:

-Que tal me chamar de mãe daqui pra frente? Eu ficaria muito feliz.

Eu abri a boca para responder, mas minha voz não saiu. Ela tomou aquilo como uma atitude precipitada de sua parte, e logo se desculpou:

-Desculpe, eu não quero pressionar você... eu só pensei que...

Mas eu a interrompi:

-Mãe! Está tudo bem! 

Eu disse aquilo sem o menor esforço. Ela sorriu para mim, e pela primeira vez em muitos anos, eu me senti segura. Nunca mais eu precisaria sair correndo no meio da noite. Nunca mais teria que abandonar meus amigos e minha escola para fugir correndo de alguém que era parte de quem eu realmente era. Nunca mais teria que sentir medo de gostar das pessoas por  ter que perde-las mais tarde. Eu agora teria raízes. Teria um lar, uma mãe, uma vida de verdade!

(Continua...)








quarta-feira, 8 de abril de 2020

MADRE - Capítulo 10





MADRE - Capítulo 10

O jantar foi muito tranquilo. Mayara escolhera uma música suave como pano de fundo, e fomos servidas por uma das empregadas da casa, que permaneceu junto à mesa o tempo todo, em silêncio absoluto, as mãos entrelaçadas na frente do corpo. Eu realmente não estava acostumada a tanto luxo e reverência, e estava achando aquilo tudo fantástico, mas também assustador. Mayara falava com a mulher suavemente, mas notei algo de cortante em sua voz. Era como se ela quisesse que suas ordens fossem bem compreendidas e jamais questionadas. A mulher parecia acostumada a servir, mas prestava muita atenção às ordens e tinha movimentos seguros, precisos, como alguém muito bem treinado. Fiquei pensando no que poderia acontecer se ela derramasse algo ao servir. Durante o jantar, fiquei sabendo que seu nome era Elvira. Mayara me disse que sempre que eu precisasse de alguma coisa poderia pedir a Elvira, caso ela não estivesse por perto.
A comida era algo tão delicioso e leve que nem sei descrever. Algo macio e espumoso de entrada, que derretia na boca, seguido por carne assada e legumes. As porções eram pequenas, mas após a sobremesa, descobri que eu estava satisfeita. Ela me convidou para tomarmos um chá digestivo na varanda. Chá digestivo?, pensei; aquela comida não precisava de nada digestivo, pois era perfeita! Mesmo assim, eu concordei com a cabeça. 

A outra mulher, chamada Rosa, serviu-nos um chá aromático com biscoitinhos bem pequenos de damasco. As xícaras eram tão finas que dava medo de segurá-las. Notei que Mayara colocava sua xícara de volta no pires sem fazer nenhum ruído, e mesmo que eu tentasse, não conseguia imitá-la. Eu era como um elefante em uma loja de louças. Mas ela não parecia reparar ou se importar. 

Conversamos sobre coisas mais corriqueiras, como a minha escola e meus amigos, minhas músicas e filmes prediletos, animais de estimação. Rimos muito das nossas histórias sobre eles. Mayara adorava animais de estimação, e disse que me mostraria seus dois cavalos e seus três cães de caça na manhã seguinte. Ela também tinha um casal de faisões que ficavam soltos pelo jardim, e uma águia que pertencera ao seu marido e que ela libertara após a morte dele, mas que continuava voltando para casa todas as tardes. Seu nome era Fênix. Também havia um pequeno lago com patos. Ela disse que me mostraria tudo no dia seguinte.
Sem querer, mal consegui disfarçar um bocejo. Já passavam das dez da noite, e eu estava exausta. Imediatamente, ela me disse que eu podia ir dormir, e que ela ainda tinha que dar algumas ordens na casa. 

Entrei naquele cômodo maravilhoso que agora era o meu quarto, vesti a camisola cor-de-rosa esvoaçante que Elvira separou para mim e me deitei entre o edredon macio e os lençóis perfumados. Pretendia telefonar para minha avó e Nina, mas nem deu tempo: Mal pus minha cabeça no travesseiro, adormeci.

Horas mais tarde, ainda tonta de sono, eu escutava as batidas insistentes. Me sentia como se estivesse em um limbo, entre o sono e a realidade. Estava tão cansada, tanto física quanto emocionalmente, que mal podia abrir os olhos. As batidas continuavam no fundo da minha cabeça. Eu achava que tudo não passava de um sonho. Também escutei vozes no corredor da casa, e abrindo os olhos, vi a luz acesa por debaixo da fresta da porta do quarto. Ouvi passos apressados cruzando o corredor, e uma porta ranger. Depois, pés que subiam uma escadaria. Contei: dez degraus. Naquele momento eu já estava totalmente desperta. Vozes abafadas. Alguém parecia estar chorando.

Eu me levantei, e me adaptando à escuridão, vislumbrei o caminho até a porta do quarto. Esfreguei os olhos, encostei a cabeça na porta e escutei. Tentei a maçaneta: eu estava trancada! Alguém tinha trancado a porta do meu quarto! Ainda tentei girá-la várias vezes; afinal, casas antigas podiam ter seus problemas. Nada: eu estava presa. 

Comecei a sentir uma angústia tomando conta de mim, salpicada de medo. Eu estava na casa de uma mulher que era a minha mãe verdadeira, mas quem era ela, realmente? Crescera longe dela, e na verdade, não a conhecia. Por que eu estava trancada no quarto? Minha mão direita se ergueu para começar a bater naquela porta que me impedia de sair, mas antes que ela pudesse baixar sobre a madeira com toda a força do meu desespero, ouvi um ‘click’ na fechadura. Passos apressados se afastaram da porta e morreram ao final do corredor. Uma outra porta bateu, se fechando. Testei a maçaneta: a minha porta tinha sido aberta.
Alguém saiu no meio da noite e trancou a porta do meu quarto por precaução, talvez porque não quisesse que eu visse alguma coisa. 

Abri a porta bem devagar, uma fresta suficiente para que eu pudesse enxergar o corredor escuro e silencioso. Senti calafrios na espinha. 

Na manhã seguinte, às vinte para nove da manhã, antes que eu saísse do quarto, liguei para minha avó. Nós conversamos por alguns minutos. Eu estava na sacada do meu quarto olhando o jardim lá embaixo e o movimento do jardineiro – o mesmo homem que nos recebera quando chegamos. Ele me viu, e me cumprimentou com um aceno de cabeça. Eu acenei de volta para ele. Minha avó me perguntava se eu estava bem, e como era Mayara. Eu disse que ela era linda, e que sua casa era linda. Achei melhor não mencionar a noite anterior. Nina gritava que estava com saudades. Ela às vezes pegava o fone e, chorosa, me pedia que voltasse. Impaciente, minha avó finalmente ralhou com ela, dizendo que se acalmasse e me deixasse em paz, pois toda aquela choradeira estava deixando todo mundo nervoso. 

Depois de lidar com elas, jurando que eu estava bem e que entraria em contato assim que pudesse, liguei também para Mateus, que atendeu o telefone com voz sonolenta. Me lembrei de que ele provavelmente trabalhara a noite toda, e me senti péssima por tê-lo acordado! Mas conversamos durante algum tempo, e como sempre, ele me deu toda a atenção do mundo. Também não mencionei nada sobre a noite anterior. 
Ao desligar o telefone, eu me perguntei o porquê de ter escondido deles aqueles acontecimentos estranhos, e não achei uma resposta. 

Me vesti – uma das roupas maravilhosas que Mayara comprara para mim – e desci as escadas. Ela estava tomando o café da manhã na varanda, entre bules de porcelana e xícaras com formatos e desenhos intrincados que pareciam tão caros, que davam medo de tocar. Ao me ver, seu rosto se iluminou em um sorriso e ela fez sinal para que eu me sentasse ao lado dela, e eu obedeci, me servindo de um brioche recheado com queijo quentinho e maravilhoso. Seria muito fácil me acostumar àquela vida! 

-E então, dormiu bem, - ela perguntou, mas já sabendo a resposta. Olhei para ela, acabei de mastigar meu brioche e tomando um gole de café, respondi:

-Muito bem. E você?

O tom da minha pergunta era bastante inquisidor e soou um tanto irônico, e logo me arrependi, mas ela apenas concordou com a cabeça, mudando de assunto:

-Então,  Aisha... (Ela fez sinal para que Elvira deixasse a sala, e continuou) estive pensando sobre a escola...
Eu a interrompi:

-O ano letivo está perdido, e vou continuar apenas no ano que vem. Fiquei muito tempo fora, por causa do acidente e da morte dos meus... pais. Agora eu prefiro não pensar nisso.

Ela pareceu surpresa, e corou levemente:

-Claro, mas... é que existe uma escola excelente por aqui. Estive conversando com a diretora por telefone. 
Ela acha que com aulas de reforço, você pode recuperar os meses perdidos. O que acha?

Ela parecia ter certeza de que eu ia ficar morando com ela. E também percebi que ela tinha assumido o papel de mãe completamente, não só escolhendo minhas roupas e arrumando meu quarto, mas também tentando decidir sobre minha vida escolar. Eu me lembrei da porta trancada. Me coloquei na defensiva:

-Já disse, agradeço sua preocupação, mas não voltarei para a escola esse ano. Não estou com cabeça para estudar. E nem sei se vou ficar morando aqui muito tempo, sabe. Prometi para minha avó que eu ia voltar para morar com ela. 

Uma sombra passou pelo rosto dela e apagou seu sorriso. Ela esmagou a ponta do guardanapo, e um músculo tremeu em sua testa. Mayara não gostava de ser contrariada, e aquilo estava ficando cada vez mais óbvio, na maneira como ela Às vezes perdia a paciência com os empregados e o quanto ela tentava ‘arrumar’ as coisas para mim e fazer planos para a minha vida, sem nem me conhecer direito. Quando eu vivia com meus pais adotivos, estava sempre cumprindo ordens: Não tenha redes sociais usando seu nome verdadeiro, não publique fotos suas, não ande sozinha sem avisar onde está, não fale com estranhos, arrume suas coisas AGORA e entre no carro! Eu não queria mais aquele tipo de coisa na minha vida. 

(continua...)




sexta-feira, 3 de abril de 2020

MADRE- CApítulo 9






MADRE- Capítulo 9

A última recomendação de Mateus, antes do ônibus sair, foi para eu não deixar de ligar para a minha avó e Nina. E foi o que fiz, assim que o ônibus partiu:

-Vó, eu estou bem. Estou indo conhecer minha mãe. 

-Ah, minha querida! Eu estava aqui, morrendo de preocupação. Nina está comigo. Vai ser minha acompanhante de hoje em diante. Ela está mandando um beijo pra você.

-Mande outro para ela, e diga que eu amo. Estaremos juntas de novo em breve. Nós três. 

-Eu espero que você me perdoe, Aisha...

-Não tem nada para ser perdoado. A senhora fez o que papai e mamãe mandaram. Agora compreendo o porquê das discussões e da distância entre mamãe e você. E Nina... ela... sempre foi tão boa comigo! Se não fossem por vocês duas, acho que eu teria pirado de vez com tantas mudanças repentinas!

-Mas por favor, querida, não odeie seus pais! Eles podem ter errado, mas sempre amaram você demais, e tinham medo de perder você. Um medo que eu partilhava, e que nesse momento, eu confesso, é grande demais. 

-Não! Você não vai me perder, vó! Eu vou entrar em contato, estaremos sempre juntas! Mas eu preciso conhecer a Mayara! Nós devemos isso a ela, e ela é minha mãe, entende?
-Claro, Aisha. Vá conhece-la. 

Desliguei o telefone, e me deixei envolver pela paisagem lá fora, aproveitando para pensar em minha vida e no que estava para acontecer. O ônibus estava quase vazio, e eu estava sentada sozinha, o que era bom, pois pude chorar e rir à vontade, conforme as lembranças chegavam. Pensei no acidente; pensei nos meus amigos da escola, na festa de aniversário que jamais aconteceu. Tive uma ideia: Entrei em uma rede social e abri uma conta. Desta vez, com meu nome e foto verdadeiros! Adicionei todos os meus amigos, e passei a viagem conversando com eles e explicando tudo, pois queria muito resgatar minhas amizades. Elas eram importantes para mim, e não queria perde-las. 

Era tão bom não ter mais nada a esconder! Era tão bom poder postar minhas fotos e dar meu verdadeiro nome! Era tão bom não ter mais medo.

Também passei uma mensagem para meu antigo ‘crush’, que ficou muito entusiasmado ao conversar comigo. Acho que ainda não disse o nome dele: Caio. 

Fiquei sabendo, através dos meus amigos, que a festa foi devidamente aproveitada até o final. Eles me mandaram fotos de tudo, e também de uma homenagem que fizeram para mim. Me disseram que ficaram muito aflitos ao saber que minha família tinha deixado a cidade de repente. Eu pretendia revê-los em breve, na época das férias escolares – mas antes, eu tinha que resolver aonde estudaria. Minha vida escolar tinha sido interrompida no último ano. Ainda faltavam o vestibular, a faculdade. Meu futuro era uma verdadeira incógnita. 

Lá fora, começou a chover, embaçando a paisagem. Adormeci, e acordei quando o ônibus parou. Todos os poucos passageiros já tinham saído, e fui a última a deixar o ônibus. Já era quase noite. 
Torcendo as mãos, minha bela mãe esperava por mim, e ela parecia tão jovem e desamparada, que eu só pude largar a mochila no chão e abraça-la forte. Senti o cheiro dos cabelos dela de encontro ao meu rosto, e meus braços em volta da cintura dela. E tudo me pareceu tão certo, tão familiar! Era como se nós duas nunca tivéssemos sido separadas. 

Ela me levou até sua casa de carro. Após dirigir por mais ou menos cinco minutos, chegamos a um imponente portão de ferro pintado de preto. Minha mãe vivia em uma enorme casa amarela de janelas brancas, nos fundos de um longo passeio cercado por um gramado verde e iluminado por luzes laterais que ladeavam a estradinha. Havia muitas árvores, e sob uma delas, um balanço. Ela me disse que gostava de sentar-se ali, pois balançar a deixava calma.

Minha mãe morava em uma verdadeira mansão! 

Assim que ela parou o carro, um homem veio para leva-lo até a garagem. Ele aparentava ter uns cinquenta anos de idade. Mayara me apresentou:
-Geraldo, essa é minha filha Aisha. Irmã gêmea de minha falecida filha Georgina. Estive a procura dela por muitos anos, e finalmente, ela está aqui!

O pobre homem pareceu muito confuso, mas assim que recuperou a fala, disse:

-Seja bem-vinda, senhorita Aisha. Fico feliz que vocês tenham se encontrado!
Dizendo aquilo, ele entrou no carro e dirigiu para a lateral da casa. Achei estranha a atitude surpresa dele, mas nada disse. Entramos por uma varanda envidraçada e cheia de plantas, como uma estufa, e fomos dar em um salão ricamente decorado. Eu nunca tinha visto tantas coisas bonitas na minha vida.  Havia duas mulheres que trabalhavam na casa e foram nos receber e Mayara me apresentou novamente. As mulheres se entreolharam, parecendo muito confusas e espantadas, e baixando a cabeça, fizeram-me um leve cumprimento e saíram da sala. Mayara disse:

- Deixe eu levar você até o seu quarto.

Achei aquela frase surreal: será que eu ficaria morando naquela casa com ela? Tinha prometido à minha avó e Nina que voltaria! Mas aquela era uma decisão para eu tomar mais tarde. 
Ela me conduziu por uma escadaria curva e larga de madeira encerada, forrada por um belo tapete verde-escuro. Chegamos a um corredor também acarpetado de verde, e abrindo a segunda porta à direita, ela fez sinal para que eu entrasse:

Prendi a respiração: o quarto era enorme! Tinha até uma lareira. A cama era de ferro trabalhado, uma linda cabeceira cheia de rosas de padrões intrincados, pintadas em cores reais; tão reais, que davam a impressão de serem de verdade. Eu nunca tinha visto nada tão lindo! O tapete era cheio de desenhos maravilhosos de flores e ervas, uma verdadeira obra de arte onde eu planejei ficar durante muito tempo até que eu tivesse percorrido todas aquelas tramas. E as paredes... era uma casa antiga, e elas tinham uma pintura maravilhosa, uma paisagem campestre com montanhas, lagos, árvores, céu. Parecia original, embora restaurada.
Mayara abriu o armário: ele estava cheio de roupas! Diante da minha surpresa, ela disse:

-Eu as comprei para você. É claro que mais tarde poderemos sair e você escolherá tudo o que quiser, mas achei que seria bom que você tivesse algo para vestir. Espero que goste. Agora tome um banho, troque de roupa e descanse um pouco. Daqui a duas horas eu a chamarei para jantarmos juntas. 

Ela me beijou suavemente na testa e eu fiquei sentada na cama, olhando embasbacada para tudo aquilo.
Mas depois fiz o que ela tinha sugerido, e escolhi umas calças jeans e uma túnica branca bordada de linha branca na pala. Ela era linda, de mangas longas, e o tecido era macio e esvoaçante. Calcei também umas sapatilhas brancas sem salto. Fiquei espantada porque as roupas serviam perfeitamente, parecendo terem sido feitas sob medida. 

Aquilo era um conto de fadas e eu era a princesa, pensei. 

Saí do quarto e parei no sopé das escadas, a mão no corrimão. Pude vislumbrar o magnífico lustre de cristal, a beleza da escadaria curva, o bom gosto da decoração da sala silenciosa. Depois, respirando profundamente, comecei a descer os degraus bem devagar, tomando posse daquilo tudo com o olhar. Eu era a filha de Mayara, e aquilo tudo também me pertencia, afinal.

(continua...)




segunda-feira, 23 de março de 2020

Madre- Capítulo 8






MADRE -Capítulo 8

Enquanto esperava pela volta de Tomás, não tendo nada para fazer decidi pagar minha estadia: arrumei todo o apartamento e preparei uma macarronada com as coisas que achei no armário. Quando ele voltou, por volta das onze da noite, encontrou  tudo limpo e a mesa posta para dois. Tinha me dito que voltaria mais cedo para conversarmos.

Nós comemos, e surpreendentemente, descobri que eu sabia fazer uma ótima macarronada, afinal de contas. Contei a ele  o que tinha conversado com minha verdadeira mãe ao telefone. Ele me escutou com atenção, serviu-se de um pouco de vinho. Tomás era um excelente ouvinte e um sábio conselheiro. Finalmente, quando ele sentiu que eu já tinha dito tudo o que eu precisava, ele balançou a cabeça e declarou:

- Sua vida está para sofrer a segunda grande mudança, Aisha. Espero que não seja demais para sua cabecinha. Mas... você não acha que seria uma boa ideia pensar um pouco mais sobre o que sente em relação aos seus pais adotivos? Afinal, eles acabaram de falecer e você mal teve tempo para um período de luto. E saiba, o luto é importante para que a gente supere as perdas.

Eu me encolhi no sofá:

-Eu não sei se eles merecem que eu fique de luto. Me esconderam da minha mãe durante quinze anos. Me roubaram do hospital quando eu nasci. Eu tinha uma irmã gêmea que eu nunca conheci por causa deles. 

-Mas com certeza não foi tudo ruim! Pense nos momentos felizes que vocês tiveram juntos. Quantas vezes você chorou depois que eles morreram, querida?

-Só uma vez, no hospital, depois que eu li a carta que minha mãe deixou. Mas foi um choro de... sei lá... acho que de raiva. Ressentimento. Indignação. Pelo que eles me fizeram.

Ele se sentou ao meu lado, segurando minha mão:

-Olha, eu não gosto muito de me meter na vida dos outros, mas... você caiu aqui de paraquedas, e eu me sinto meio responsável por você. Acredito que tudo na vida tem um motivo, e se tudo isso te aconteceu, foi para o seu bem. Sabe-se lá que vida você ia ter, se não fossem seus pais de mentirinha? Sua própria mãe disse que não poderia cuidar de duas crianças pequenas ao mesmo tempo. Cuidar de uma só já foi difícil para ela. Seus pais fizeram um bom trabalho, não?

Comecei a sentir uma inquietação tomando conta de mim, em forma de ansiedade. Num impulso, fui até a mesa e derramei uma quantidade grande de vinho no copo, bebendo tudo de uma vez só. Não estava acostumada a beber. Mateus ainda tentou me impedir, mas eu corri para o outro lado da mesa e bebi tudo depressa. O efeito foi eficaz: senti meu corpo relaxando aos poucos, em um leve torpor. E as lágrimas de dor pela perda dos meus pais adotivos puderam finalmente romper a barreira da minha dureza e jorrar aos borbotões. Chorei durante muito tempo, e partilhei com ele boas lembranças dos muitos momentos de felicidade que eu vivera junto a eles. Nem sei por quanto tempo eu fiquei contando minha vida para ele, e hoje, quando me lembro, fico agradecida pela paciência que ele teve comigo, em me escutar. Ele riu e chorou comigo. Surpreendeu-se, indignou-se, comoveu-se, gargalhou, caminhou pelas passagens da minha vida como um espectador ativo e interessado. Era tudo o que eu precisava, e ele foi tudo o que eu precisava. Não me julgou, não julgou meus pais, não fez observações idiotas que as pessoas fazem, que começam sempre com “Eu, no seu lugar, teria feito isso e aquilo.”

Horas depois, Mateus me abraçou. Colocou-me na cama e me deu um sonífero leve, sentando-se na poltrona ao lado da minha cama. De vez em quando eu abria os olhos na minha sonolência, e ver ele sentado ali, dormindo ao meu lado, me fez sentir tranquilidade. Na manhã seguinte, quando acordei, ele tinha preparado o café da manhã. Fez eu me sentar e comer. Depois, penteou meus cabelos ainda molhados em um lindo coque (disse ter sido cabelereiro há muitos tempo).  Adorei o resultado do penteado, que fez com que eu me sentisse mais madura. 

Mateus pegou o papel onde eu tinha anotado o endereço da minha mãe, e me entregando, disse:

-Agora vá ver sua mãe. 

E foi o que eu fiz. Peguei minha mochila, despedi-me dele e parti para a rodoviária, onde tomei um ônibus e enfrentei quatro horas e meia de viagem até a cidadezinha onde minha mãe Mayara vivia. 








terça-feira, 10 de março de 2020

MADRE - Capítulo 7






Capítulo 7

No dia seguinte, acordei Às onze e trinta e cinco da manhã sentindo cheirinho de ovos, bacon e café. Meu estômago vazio logo deu sinal de vida, e vestindo minhas roupas, escovei os dentes, lavei o rosto e fui até a cozinha, onde Mateus estava preparando um lauto café da manhã para nós. Ele me explicou que chegara em casa às cinco da manhã e dormira até dez e trinta, o que fazia todos os dias. O bar costumava abrir às sete e trinta da noite, então ele tinha o dia livre para fazer o que quisesse.

Nós tomamos nosso desjejum e depois passei muito tempo contando a ele em detalhes a estranha história da minha vida. Mateus escutou tudo quase sem me interromper, e depois, quando terminei, ele deu um longo suspiro:

-Uau! Parece coisa de novela. Você me superou, Aisha! Eu achei que tinha uma história de vida difícil, isso é, sendo gay e rejeitado pela família... mas você me superou, confesso.

E deu uma grande risada. Ele não me deu conselhos, apenas me perguntou o que eu pretendia fazer em seguida. Respondi que iria procurar minha mãe de verdade, e ele concordou com a cabeça. Depois, em tom de humor, me disse:

-Mas não sem antes tomar um bom banho e lavar essa coisa grudenta que você tem na cabeça. Pode usar a banheira à vontade! Lá tem sais de banho, espuma, e todas as coisas para que você passe alguns minutos relaxando. Já eu... acho que vou dormir mais um pouco. 

Eu o obedeci.

No final da tarde, ele se despediu e foi abrir o bar. Disse que eu poderia ficar com ele o tempo que eu quisesse, que não precisava me preocupar com nada, e eu me senti tão grata, que tive vontade de abraça-lo e beijá-lo, mas não o fiz, achando que ele era só um desconhecido, afinal de contas. Senti naquele meu pensamento traços das lições sobre segurança que minha mãe sempre me passava:

“Nunca ande sozinha, principalmente por ruas escuras. Não fale com estranhos jamais, não poste fotos ou revele sua identidade na internet, ou tomaremos seu telefone e computador. Jamais pegue carona com estranhos ou deixe que estranhos toquem em você. Sempre olhe para trás para ver se não está sendo seguida. Não confie em ninguém!”

Respirei fundo e peguei a carta da minha mãe onde ela tinha escrito o número do telefone da minha mãe verdadeira. Peguei o aparelho de telefone fixo de Mateus.  Mas de repente, toda a certeza que eu tinha foi por água abaixo: quem seria ela, realmente? E se ela me rejeitasse? E se fosse louca ou algo assim, e na verdade, tivesse assassinado minha irmã gêmea? 

A ansiedade tomou conta de mim em rápidas golfadas de ar que pareciam não ajudar em nada na entrada de oxigênio nos meus pulmões. Aquele não era meu primeiro ataque de ansiedade; eu tivera tais ataques a minha vida toda, principalmente durante a noite, quando acordava banhada de suor sem conseguir respirar direito e achando que ia morrer. Geralmente, minha mãe ou Tina me faziam um suco de laranja e me davam um calmante leve, ficando comigo até que eu dormisse de novo. Mas agora eu não tinha ninguém por perto, e precisaria fazer tudo sozinha.

Peguei um copo de água com açúcar e bebi aos pouquinhos, tentando respirar devagar. Vasculhei o armário do banheiro e acabei encontrando uns comprimidos de Diazepam. Parti um deles ao meio e engoli sem água. Aos poucos, fui me acalmando. 

Peguei o telefone e disquei o número. Ele tocou nove vezes e eu já ia desligar, a ansiedade crescendo, quando uma voz cristalina respondeu: “Alô!”

Prendi a respiração, e tentei ficar calma:

-Alô.

Silêncio do outro lado. Eu conseguia sentir a tensão dela. Ela sabia que era eu. Eu sabia que ela sabia. E ela sabia que eu sabia que ela sabia. Enfim...

-Meu nome é Aisha.

-Eu sei. Eu... eu sei! Meu nome é...

- Mayara. Eu sei, é Mayara. Meus pais... eles...

-Eu sei. Sinto muito. Mas você não está sozinha, Aisha. Eu procurei por você a vida toda. A vida toda eu sonhei com o momento em que eu poderia falar com você, olhar para você...

De repente, a raiva me dominou, e eu gritei:

-É mesmo? Então por que deixou ela me levar? Por que não procurou a polícia?

-Porque durante muito tempo eu sabia que não poderia dar uma boa vida a você. Eu era extremamente pobre, e houve dias em que cheguei a passar fome. Eu não tinha ninguém! Nem sei como Georgina... sua irmã... sobreviveu!

As lágrimas desciam sem o menor esforço, formando uma cachoeira no meu rosto. Ela continuou:

- Eu conheci um homem que foi um pai para ela. Ele era muito rico, e tratou-a como a uma filha. Foi então que eu contei a ele a verdade sobre a sua existência, logo depois que ele se casou comigo. Ele me aconselhou a procurar você, mas eu não queria escândalos, não queria que a polícia se envolvesse, pois não desejava prejudica-la. 

-Minha irmã sabia de mim? Ela sabia que eu existia?

-Sim. Eu sempre disse a ela a verdade. Ela queria conhecer você, mas... você sabe, ela ficou muito doente e morreu aos seis anos. Mas ela tinha uma boneca, sabe... o nome da boneca era Aisha. (O tom de voz dela tornou-se quase animado) Ela costumava brincar muito com essa boneca.

-Mas... e meu pai? Onde ele está?

-Seu pai? Ele sumiu, há muitos anos, e ele nunca assumiu a paternidade. Na verdade, era jovem demais. Não sei se ele fez por mal, ficou assustado e ele e a família se mudaram para longe, me deixando sozinha. Meus pais, ao saberem da gravidez, queriam me obrigar a fazer um aborto. Mas eu me neguei, e fugi também. Eu não tinha nada! Consegui ajuda em uma casa para meninas como eu, grávidas e jovens demais. Hoje, seus avós já são mortos. Minha mãe morreu de câncer, e meu pai teve um ataque cardíaco. Eu... nunca pude perdoá-los. 

Deixei que ela falasse sem interrompê-la, o tempo todo dizendo a mim mesma: “Essa é a história de vida da sua mãe verdadeira.” 

-Aisha, eu não queria nada disso. Às vezes as coisas fogem do controle.

-E o seu marido? Ainda vivem juntos?

-Não, ele faleceu há cinco anos. Jorge era bem mais velho do que eu. Praticamente tinha idade para ser meu pai. 

Pensei que ela havia ficado totalmente só. Eu ainda tinha Tina e minha avó emprestada, mas ela não tinha ninguém. Eu me ouvi dizer:

-Quero te ver. Quero te conhecer melhor.

Escutei o choro dela do outro lado da linha.

(continua...)




segunda-feira, 2 de março de 2020

MADRE - Capítulo 6







MADRE - Capítulo 6

Após ler a carta, primeiro me senti completamente anestesiada, como se lesse sobre a vida de outra pessoa. A minha vida parecia uma novela mexicana, um dramalhão de romances de segunda categoria,  uma série brega de TV. Minha mãe não era minha mãe, e meu pai não era o meu pai. Nem mesmo a minha avó era de verdade! Cresci entre estranhos, roubada da minha verdadeira origem. Após mais ou menos uma  hora pensando sobre isso e tentando digerir tudo, tive uma crise de choro. Quem era eu? Qual seria o meu nome verdadeiro – aquele que minha mãe verdadeira sonhara para mim? 

Até mesmo Tina sabia de tudo sobre a minha vida. Menos eu! Todos me enganaram. Eis então o porquê de eu jamais poder colocar minhas fotos e meu nome verdadeiro em redes sociais: não tinha nada a ver com a minha segurança, mas com a segurança dos meus falsos pais! Passei a minha infância e a minha adolescência fugindo de fantasmas que não eram meus. Perdi amigos, o convívio com pessoas que eu gostava e que gostavam de mim, cidades que adorei viver, enfim, tudo para que eu jamais descobrisse quem eu realmente era e também para que minha verdadeira mãe nunca me achasse. 

Eu tinha sido roubada. Poderia perdoar alguma coisa assim? Será que alguém poderia?

Mayara: este era o nome verdadeiro da minha mãe, da minha mãe de verdade. Pensei no quão jovem ela era: apenas quinze anos a mais que eu. Uma menina quando me teve. E eu tivera uma irmã gêmea. Com certeza, um pai, avós, tios e tias, primos e primas. Coisas que nunca tive direito na minha família falsa. É claro que eu tive minha avó Beatriz, mas até mesmo ela não era de verdade, e ajudara meus pais a esconderem tudo de mim e de todos. Não podia confiar nela. Talvez tentasse me impedir de conhecer a minha mãe.  Pensei em ir à polícia e contar tudo, mas o que seria de mim? Talvez me mandassem para um orfanato. Quem sabe achassem que minha mãe verdadeira não poderia tomar conta de mim... ou que minha avó era louca ou algo assim.

Eu estava livre agora: meus pais estavam mortos. Eu precisava pensar, e foi o que eu fiz durante horas, durante a noite toda no hospital. Na manhã seguinte, minha avó estaria ali para me levar de volta para casa e para a minha antiga vida. Mas eu não queria mais ela. Eu queria tomar a s minhas próprias decisões. 
Eram quase três da manhã quando eu me levantei da cama e abri a porta do armário, pegando uma calça e jaqueta jeans, camiseta branca e botas de couro que estavam lá. Também encontrei meu celular e o carregador, e havia uma nota de cem no bolso da jaqueta que Tina tinha me dado de presente de aniversário. Felizmente, ninguém a tinha encontrado. Rabisquei em um bilhete: “Vó, eu estou bem. Não me procure. Assim que eu sentir que eu devo, mando notícias.”  Deixei o bilhete sobre o meu travesseiro.
Sorrateiramente, entreabri a porta do quarto e olhei o corredor vazio, silencioso e semi-escurecido do hospital. De vez em quando uma enfermeira passava e entrava em um dos quartos. Entre uma enfermeira e outra, eu fugi. Ainda sentia algumas dores ao caminhar, mas nada que me impedisse de ir em frente. Quanto às sessões de fisioterapia, elas poderiam continuar depois, ou não. 

Na rua, a noite estava fria. As ruas desertas eram entrecortadas por alguns raros faróis de carros que passavam por mime por pessoas que cruzavam comigo na calçada. Algumas delas paravam e me olhavam, me seguindo com os olhos quando eu passava. Eram ameaçadoras, mas eu apertava o passo e ignorava o que elas diziam. Com as mãos nos bolsos da jaqueta, eu tentava não tremer  - de frio ou de medo? Entrei em um bar cuja porta estava aberta para tentar me recuperar, retomando meu fôlego. Ao olhar para dentro, percebi que era um bar gay, e apesar do adiantado da hora, havia quatro casais sentados às mesas. Eles me fitavam, e pensei no quão estranha era a minha presença por ali. 

O barman, um homem bonito que usava barba e batom vermelho e aparentava alguma coisa entre trinta e quarenta anos (nunca fui boa em calcular a idade das pessoas) se aproximou, dizendo: 

-Perdida por aqui, meu bem?

Tentei aparentar segurança, dizendo:

-Só quero um café quente. 

Ele virou-se de costas e começou a preparar o café, indo aqui e ali. Fez também um sanduíche de queijo, alface, tomate e presunto e me entregou tudo:

-É por conta da casa.
Hesitei, olhando para o sanduíche e depois para ele várias vezes. Ele me encorajou:

-Vamos lá, pode comer, é por conta da casa. Significa que você não precisa pagar.

Franzi a testa:

-EU SEI! Não nasci ontem. (E depois, mais calma, acrescentei): Obrigada. 

Abocanhei o sanduíche e tomei o café. Os casais gays voltaram a cuidar das próprias vidas. Minhas mãos tremiam, e eu senti que ia chorar. As coisas em volta foram ficando cada vez mais embaçadas, e quando percebi, meu rosto queimava enquanto as lágrimas desciam sem parar, mesmo que eu tentasse impedi-las.  Continuei mastigando o sanduíche. O barman se aproximou:

-Como é seu nome? Posso ajudar em alguma coisa?

Eu pensei que eu não tinha nada a perder, e respondi com sinceridade:

-Meu nome é Aisha. 

-Nome bonito! Então, Aisha... está sozinha aqui a essa hora, o que aconteceu? Bem, se não quiser me contar, não tem problema, eu só quero ajudar, mas não me meto na vida de ninguém. 

-Minha história é longa e complicada... seria preciso mais do que alguns minutos para contar ela para você. Mas... posso fazer uma pergunta?

Ele me olhava com atenção e preocupação:

-Vá em frente!

-Se você descobrisse que... se alguém lhe dissesse que sua vida toda era uma mentira, que você na verdade era outra pessoa... o que você faria? Continuaria vivendo como se nada tivesse acontecido ou então... iria atrás de quem você realmente é?

Ele pareceu triste por um instante, e então sorriu levemente, dizendo:

-Bem-vinda ao clube, querida. Na verdade, isso já me aconteceu. E eu decidi correr atrás da minha vida de verdade e descobrir quem eu realmente sou, vivendo isso na maior plenitude possível. E aqui estou eu, dono desse  bar, ganhando minha vida com dificuldades, mas feliz... longe de algumas pessoas que eu pensava que me amavam, mas por outro lado, perto de pessoas que eu nem imaginava que me amassem tanto. Se eu me arrependo? Não.

Pensei por instantes naquilo que ele acabara de me dizer. Comi o último pedaço de sanduíche e bebi o resto do café. Perguntei:

-Foi... muito difícil?

-Sim... às vezes, ainda é. Mas se eu não tivesse feito isso, não poderia me olhar no espelho sentindo respeito pelo que eu visse. Vale um conselhinho: procure a sua verdade, e enfrente o mundo, se for preciso, para que você possa vive-la! E lembre-se: não é preciso matar um leão por dia. Basta domá-los! E se não for possível, dê um chute no traseiro deles e siga em frente!

Eu ri. Pela primeira vez, alguém adulto me dizia algo com toda sinceridade do mundo, e eu me sentia grata. 

-Aliás – disse ele – meu nome é Mateus. 

Senti vergonha por não ter perguntado, e me desculpei, mas ele fez um sinal com a mão, dizendo:

-Deixa pra lá! Nomes nem importam tanto. Sabe, eu já estive em um lugar muito parecido com o seu e alguém me estendeu a mão no momento que eu mais precisava. Isso me ensinou a ser solidário e a ajudar as pessoas que precisam. Se precisar de um lugar para ficar, não hesite em contar comigo! Você não está sozinha! E não precisa me contar nada que não quiser. 

Me lembrei imediatamente de uma história sobre anjos da guarda que Nina tinha me contado, que dizia que eles |às vezes se disfarçam de pessoas para nos ajudar. Mateus estava sendo meu anjo da guarda naquele momento, e eu agradeci a ele mais uma vez, decidindo aceitar a sua oferta. Ele me levou para trás do bar por uma porta vermelha, onde encontrei um apartamento pequeno, mas aconchegante. Havia um quartinho de hóspedes, e ele me entregou lençóis limpos e um cobertor felpudo. Me mostrou onde era o banheiro, embora não tivesse sido nada difícil de encontrar em um apartamento tão pequeno, e a cozinha também. Depois, me desejou uma boa noite e voltou para o bar. 

(continua...)




domingo, 16 de fevereiro de 2020

MADRE - CAPÍTULO 5






MADRE - Capítulo 5

“Querida Aisha,

"A história que eu tenho para contar é longa demais. Não consigo falar por muito tempo, mas tenho medo de deixar este mundo sem que você fique sabendo da verdade sobre a sua própria vida. Se eu a escondi de você, obrigando seu pai e sua avó a fazerem o mesmo, foi porque eu tive medo de coisas que eu mesma fiz, coisas muito erradas, mas que na época em que as fiz, me pareceram certas. Eu estava desesperada, e o desespero cega as pessoas. Espero que eu consiga contar pelo menos parte dessa história antes de morrer. Porque eu sei que vou morrer. Só espero que você me perdoe. Toda a dor que eu sinto nesse momento talvez sejam menos do que eu mereço como castigo.

Passamos a vida fugindo do passado, de um ato condenável e mesquinho que eu perpetrei e que por medo, escondi. Você já tem 15 anos de idade e entenderá o quanto eu fui egoísta. Talvez me odeie por um tempo, espero que não seja para sempre. Saiba que eu a amo demais, minha filha querida, mesmo que esse amor não justifique meu egoísmo.

Quando eu fiquei grávida, o médico me disse que seria uma gravidez de alto risco e que eu não poderia, de jeito nenhum, ter outro filho, então eu fiz repouso e segui todas as recomendações médicas à risca. Passei os nove meses de gravidez na cama, praticamente, e não lamento por isso. Fiz o que precisava ser feito, mas mesmo assim... meu bebê nasceu prematuramente. 

Não pudemos levar nosso bebezinho para casa. Ela teria que ficar no hospital durante mais algumas semanas, até que amadurecesse o suficiente. Eu ia ao hospital todos os dias para ficar perto dela, mas apesar da visão otimista dos médicos, eu sentia que minha bebê não estava bem... eu a sentia sempre fria quando a segurava, e ela quase nunca abria os olhos. Além disso, tinha dificuldades para alimentá-la, mas meu médico e as enfermeiras me encorajavam, dizendo que em breve tudo ficaria bem. Mas a minha intuição de mãe me dizia o contrário, e eu me angustiava!

Ao final do quarto dia da internação de nossa bebê, enquanto caminhava pelo corredor do hospital, notei uma menina grávida em uma cadeira de rodas, aguardando vaga para a sala de parto. Ela era realmente linda e muito jovem, estava sozinha e parecia assustada. Eu me aproximei e comecei a conversar com ela, tentando acalmá-la. Ela me disse que tinha quinze anos, e que seu nome era Mayara. Também me disse que daria à luz a gêmeas. Segurei a mão dela até que a enfermeira finalmente viesse e a levasse para a sala de parto. Ela estava muito nervosa. Perguntei por seus pais, e ela me disse que seu pai morrera quando ela era criança, e que sua mãe não aceitava sua gravidez, e portanto, não estaria presente. Perguntei se ela tinha irmãs, mas ela negou com a cabeça. Seus amigos também não a procuraram mais quando souberam de sua gravidez.
Lamentei pela situação dela; o que ela faria quando deixasse o hospital? Como cuidaria sozinha de dois bebês aos quinze anos de idade? Ao perguntar-lhe sobre aquilo, ela me encarou e encolheu os ombros, dizendo: “Acredito que exista um propósito para cada coisa na vida. Vai dar tudo certo. Quando sair, irei para uma instituição que acolhe meninas como eu, e depois... bem, depois, só Deus sabe.” Perguntei pelo pai das crianças, mas ela apenas baixou os olhos, e decidi não insistir no assunto que parecia magoá-la. Afinal, no fundo, ela era apenas uma estranha. 

No dia seguinte, fui visita-la em seu quarto. As meninas eram lindas, mas não eram univitelinas, e portanto, não se pareciam muito, apesar de serem gêmeas. Confesso que invejei-a, pois as bebês eram coradas e saudáveis, ao contrário da minha tão pequenina menininha, que parecia uma bonequinha de vinil. Ela me disse que logo seria liberada para deixar o hospital, e fiquei feliz por ela. Deixei com ela o número do meu telefone, caso ela precisasse de alguma coisa.
Naquela tarde, o hospital estava muito calmo. Era um hospital de cidade pequena, não muito movimentado.  O médico me aconselhara a passar a maior parte do tempo possível ao lado da minha filha, pois assim seu desenvolvimento seria melhor, e então Jairo, o médico e eu concordamos que eu deveria ficar no hospital durante a maior parte do tempo, e ao final da tarde, eu poderia ir para casa. 

Era o sexto dia de internação. Eu estava tão exausta, que acabei adormecendo na enfermaria da maternidade, com minha bebê no colo. Entre tubos e gazes, ela não chorava e quase não se movia. No começo, eu ficava apavorada ao segurá-la, mas já tinha me acostumado. Eu a coloquei de bruços em meu colo após amamenta-la e então acabei adormecendo. Alguns minutos depois, acordei com uma enfermeira entrando no berçário. Ela me olhou e sorriu, e eu sorri de volta. Me perguntou se eu queria que ela pusesse a bebê de volta na caminha, mas eu disse que eu mesma o faria. 

Ela saiu após verificar as gêmeas de Mayara e eu fiquei sozinha no berçário. Ia colocar minha filhinha na cama, mas quando olhei para ela, constatei que ela estava arroxeada e totalmente imóvel. Acidentalmente, eu a tinha sufocado! Um grito me veio à garganta, e eu o reprimi com as costas da mão: minha bebê estava morta! Engoli em seco: o desespero estava de prontidão. Imaginei minha vida sem ela, e também os dias que eu tinha pela frente, tendo que enfrentar aquilo tudo, convivendo com as consequências da minha irresponsabilidade... foi quando olhei por cima do ombro e vi as gêmeas, dormindo pacificamente. 
Sem hesitar, eu rapidamente olhei para a s meninas e percebi que uma delas era bem parecida com a minha bebezinha morta. Era a menor das irmãs, tinha os cabelos ralos e quase brancos e a pele mais clara. 

Rapidamente, eu troquei as roupinhas das bebês, temendo que eu fosse descoberta, o coração aos pulos. Depois, troquei também as pulseirinhas de identificação e coloquei a minha bebê morta ao lado da outra gêmea, deitando a bebê saudável no leito da minha filha.
Esta bebê era você, Aisha. 

Na manhã seguinte, o médico surpreendeu-se com o progresso da minha menininha, e na outra manhã, nos deu altas. Nem sei como pude ir até o quarto de Mayara e despedir-me dela, consolando-a pela perda da sua filha e dizendo que Deus sabia o que era melhor, e que ela deveria tentar ver as coisas de maneira positiva... abracei-a, e então eu, você e Jairo partimos. 

Logo após seu nascimento, eu disse a Jairo que seria uma boa ideia se nos mudássemos de cidade. Eu estava nervosa e agitada, e tanto ele quanto o médico achavam que eu estava sofrendo de depressão pós-parto, e que uma mudança de ares me faria muito bem. Eles não sabiam que eu estava apavorada pelo que tinha feito, e que temia ser descoberta! Jairo pediu transferência de Campos do Jordão para Belém do Pará, e recomeçamos nossa vida.

Dois anos mais tarde, recebi um telefonema; era Mayara! Ela me dizia que tinha desconfiado do que acontecera no dia em que eu deixara o hospital, pois ao segurar a bebê morta nos braços, logo percebeu que ela não era a sua filha. Porém, preferiu nada dizer, sabendo que a sua bebê verdadeira estava viva e seria bem cuidada. Eu fiquei apavorada, tentei negar tudo, mas ela me disse que ficasse tranquila, pois não queria a bebê de volta. Só queria saber se ela estava bem. Também me assegurou que não me denunciaria. Perguntei como ela tinha me encontrado, e ela disse que contratara um detetive particular. Pensei em como ela tinha conseguido pagar por seus serviços, já que era tão pobre, mas eu estava tão nervosa que achei melhor não perguntar por detalhes.

Naquela noite, quando Jairo chegou em casa, eu contei a ele toda a verdade. Ele ficou muito zangado 
Comigo, nós discutimos e ele saiu de casa. Mas voltou uma semana depois, dizendo que me compreendia e que não poderia suportar a vida sem nós duas. Contamos a verdade também a sua avó Beatriz, que apesar de ser totalmente contra o que fizemos, no fundo não queria que a família fosse destruída. Assim, nos mudamos de novo, desta vez, para o interior de São Paulo. A firma onde Jairo trabalhava não tinha filiais por lá, e ele precisou deixar o emprego. Foram tempos difíceis! Mas Mayara descobriu nosso endereço novamente. Desta vez, ela dizia que tinha se casado com um homem muito rico, e que queria ver você, conhece-la pessoalmente. Eu prometi a ela que conversaria com Jairo e que ligaria para ela de volta, marcando um encontro.

Mas o medo de perder você me fez querer sumir novamente, e foi o que fizemos, indo para Curitiba. Mas como você já sabe, seis anos após a nossa mudança Mayara nos redescobriu. Desta vez, ela me disse que queria conviver com você como filha: naqueles quase seis anos em que moramos em Curitiba, Georgina, sua outra filha, tinha contraído uma doença e falecido. Apesar de todo o dinheiro que tinham, ela e o marido não conseguiram salvá-la. Ela parecia desolada, realmente triste, e eu percebi que não havia qualquer sentimento de raiva em sua voz, mas eu não podia simplesmente desistir de você, abrir mão de nossas vidas, Aisha! Mayara me prometeu mais uma vez que não nos denunciaria, e que eu e Jairo poderíamos fazer parte de sua vida. Ela não queria arrancar você de nós, mas gostaria que você soubesse que ela existia, que você tivera uma irmã. Mas o medo me fez convencer seu pai a fugir novamente.

Quanto a Tina, ela sempre soube de tudo, mas jamais interferiu nos assuntos da família e agiu de maneira sempre discreta.

O restante da história você já conhece, filha. Sua avó Beatriz nunca foi favorável às nossas escolhas, e por isso, nós nos distanciamos. 

Na verdade, descobri que ela era quem sempre avisava Mayara de onde estávamos, e também mandava fotografias suas para ela. Eu jamais a perdoei por isso. Mas agora eu sei que estou morrendo, e seu pai já se foi. Sei também que a primeira coisa que sua avó faria, mesmo antes que nós descêssemos à sepultura, seria contar a versão dela dessa verdade, então preferi fazê-lo eu mesma. Só espero que você nos perdoe, minha querida filha, e que tente compreender as nossas razões. Vá conhecer sua verdadeira mãe. Mas por favor, não se esqueça de nós. Jamais. 

Com amor,

Fernanda, sua segunda mãe."

(CONTINUA...)





segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

MADRE - CAPÍTULO 4






MADRE -Capítulo 4

Eu ia e vinha. Tudo era branco quando eu abria os olhos. Logo caía no sono. Havia coisas apitando em volta de mim – aparelhos. Eu não conseguia me mexer nem engolir. Havia rostos estranhos à minha volta de vez em quando, mas eu não conseguia identificar quem eram aquelas pessoas, até que vi o rosto preocupado de minha avó Beatriz. Mas embora ela falasse comigo, meu ouvido só escutava um zumbido insistente, e então eu caía no sono outra vez.

Fiquei naquele limbo durante algumas horas. 

Mas depois eu descobri que na verdade, foram 22 dias. 

Abri os olhos de verdade pela primeira vez, e então a realidade branca mostrou-me suas cores reais: eu estava em uma cama de hospital, cercada de aparelhos e tubos. Um deles entrava pela minha garganta. Minha avó dormia em uma cadeira aos pés da minha cama. Parecia bem mais magra, envelhecida e exausta. Fiquei olhando para ela. Eu ainda não conseguia me mexer, então olhei em volta devagar – minha cabeça doía – e descobri uma pequena janela com as persianas fechadas. Era noite. Minha cabeça doía, minha garganta doía, meus ouvidos zumbiam, e eu tinha a impressão de que toda a parte inferior do meu corpo não existia mais. Fiquei com medo de que minhas pernas tivessem sido amputadas. Olhei para baixo e percebi que elas ainda estavam lá, e o pânico passou. Pensei nos meus pais pela primeira vez: onde eles estavam? Estariam bem? A porta se abriu e uma enfermeira entrou. Quando olhou para mim e meu viu de olhos abertos, ela voltou para o corredor e voltou com um médico: eu estava de volta. Minha avó despertou e segurou minha mão, chorando. 

Então descobri que estava mesmo em um hospital, e que estivera em coma por 22 dias. Meus pais também tinham se machucado bastante e estavam em recuperação em outro quarto. Eu teria que passar por vários tratamentos de fisioterapia antes de andar novamente, pois machucara a coluna, mas o médico me garantiu que meu problema não era definitivo. Eles tiraram os tubos da minha garganta, mas ela ardia tanto, que falar era um sacrifício. O médico me assegurou que eu ficaria bem em alguns dias. 

Minha avó Beatriz só chorava; ela tentava disfarçar, tentava não chorar, mas ela era uma manteiga derretida. Dizia que estava chorando porque estava feliz em me ver bem de novo, me recuperando. Mas depois que comecei a caminhar, após alguns dias de fisioterapia, eu quis visitar meus pais. Só que eles não estavam mais lá. 

Minha avó teve que me contar a verdade: meu pai morreu na hora do acidente, e minha mãe, cinco dias depois. 

No começo, eu não consegui sentir nada. Era como se ela estivesse me contando sobre um filme que tinha assistido, aquela não era a minha vida. Não podia ser. Meus pais não tinham morrido. Se eu, que não estava usando o cinto de segurança, ia ficar bem, como é que eles, que estavam usando o cinto e tinham airbag, poderiam estar mortos? Minha vó então me contou sobre o incêndio após a batida, e me deu detalhes: um caminhão avançou na nossa direção em uma transversal; aparentemente, o motorista caíra no sono enquanto dirigia. O carro foi arrastado e capotou na pista molhada, e então pegou fogo. 

Minha avó me contou que minha mãe ainda sobreviveu por cinco dias, e eu só queria saber se ela tinha sentido dor. Minha vó só concordou com a cabeça, e então me entregou um envelope: ela me deixara uma carta. Minha mãe, apesar da dor, conseguiu ditar uma carta que a enfermeira escreveu para ela e entregou à minha avó. Agora que eu já estava melhor e teria altas do hospital no dia seguinte, minha avó finalmente achou que já era hora de eu ler a carta. Trêmula, ela me estendeu um envelope lacrado. Notei que seu olhar era de medo, e não compreendi o porquê.

(Continua...)




A RUA DOS AUSENTES - Parte 12 (FINAL)

  A Rua dos Ausentes - parte 12 - Final E naquela noite, havia pessoas na Rua dos Ausentes reunidas cada qual por um propósito diferente: Al...