segunda-feira, 30 de maio de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - Parte 7





 Parte 7


Jonathan passa algumas horas na minha casa. Depois que termina o trabalho na instituição, por volta das quatro da tarde, pelo menos duas vezes por semana ele vem para cá. Estamos juntos há quase dois meses, e apesar disso, ainda não fizemos sexo, apesar dos carinhos e da vontade quando estamos juntos. Eu digo a ele que ainda não me sinto totalmente pronta, e ele respeita minha decisão. Ele sabe que eu ainda sou virgem.

Minha avó me telefonou, convidando-me para passar as próximas férias lá – garantiu a passagem na primeira classe, e me disse que a estadia seria em seu apartamento. Meu avô melhorou, segundo ela, mas a saúde dele ainda inspira cuidados. Ela soou um pouco triste ao telefone, e me disse que meu avô estava falando muito de mim ultimamente, e dizendo que gostaria de me ver de novo antes de morrer. Não sei se aquilo foi uma pequena chantagem emocional para me convencer a ir até lá. Mas depois que desligamos o telefone, fiquei pensando neles e nas poucas lembranças que tenho deles. Eram sempre atenciosos e muito legais comigo. Talvez eu aceite o convite, quem sabe. Mas ao mesmo tempo, eu não gostaria de me afastar agora, que Johnatan e eu começamos a nos relacionar. Bem, ainda faltam meses até as férias.

Tia Atena acha que eu não deveria ir, pois para ela, meus avós e eu somos praticamente estranhos, e ela teme que meus avós possam tentar destruir a imagem que tenho de meu pai. A imagem que tenho de meu pai... e que imagem seria essa?

Sinto a falta dele. Todos os dias, quando acordo, ainda preciso repetir para mim mesma que ele morreu, que eu estou sozinha. A realidade vai aos poucos se assentando conforme a manhã avança, enquanto me dirijo à escola, assisto aulas, converso com meus colegas. Aliás, existe um grupinho que gostaria de organizar uma festa aqui em casa (sem pais para atrapalhar, segundo eles). Mas eu não quero. Não vou deixar que me usem desse jeito. Sempre me trataram como se eu fosse Carrie, a Estranha, e agora precisam de um local para dar suas festinhas? Sou melhor que isso, e nem gosto de festas. Nunca gostei. Imagino meu pai, lá do outro lado, me vendo dar uma festa nesta casa! Com certeza, pensaria que eu estou sucumbindo a tudo contra o qual ele me ensinou a lutar toda a minha vida: a superficialidade, os amigos interesseiros supérfluos e sem conteúdo, a vida sem objetivos.

E eu passo meus dias dividida entre a escola, Johnatan, os cuidados com a casa, e livros e mais livros que Johnatan traz para mim. Será que arranjei um outro tutor?

Não sei nada sobre a vida dele fora daqui, a não ser o que ele me contou nos primeiros dias. Não faço perguntas. Nós conversamos sobre livros, filmes, filosofia, e às vezes, arriscamos falar sobre o futuro – mas tais momentos são breves e entrecortados de silêncio. Eu tenho um certo medo do futuro. Porque eu já senti o que ele pode estar preparando para nos surpreender ali na esquina da vida. Assim, tento viver a minha vida sem pensar muito. Johnatan acha a minha atitude um tanto pessimista e melancólica. Vive me dizendo que tive muita sorte em ter tido um pai e uma mãe, em ter avós que se preoupam comigo, e meus tios Atena e Heitor. Ele me faz ver que eu não sou tão sozinha assim. Me diz sempre que cresceu sem ter ideia sobre o que é ter uma família, pais que se preocupam, tios, avós, casa, lar. Desde bebê ele foi criado na instituição, ocupando o quarto com uma porção de outras crianças, fazendo suas refeições em refeitórios, sem ter roupas que fosse realmente suas, ou brinquedos que pertencessem apenas a ele (tudo é compartilhado entre todos) ou momentos de privacidade, pois até os banheiros são coletivos. Quando precisa ficar sozinho, ele vai para um banco de praça e se senta lá por algum tempo, ou então acorda bem cedo e vai dar uma volta à pé, ou então se levanta de madrugada e vai se sentar no pátio para ouvir música (ele coneguiu juntar dinheiro e comprar um celular). Fora isso, ele precisa trabalhar na instituição se quiser continuar tendo um lugar para viver. E obedecer ordens o tempo todo. Um dia, eu perguntei a ele:

- Quando a gente se conheceu, você me disse que era livre. Isso é ser livre?

Logo me arrependi do que disse, pois vi uma sombra passando sobre o rosto dele, enquanto seu olhar caiu no chão, bem junto aos próprios pés. Percebi que aquela história de “Não tenho nada, mas sou livre” era apenas alguma coisa que ele criou para tornar as coisas mais fáceis. Andei até ele e o abracei forte. Ele não respondeu, apenas me beijou.

Às vezes eu percebo uma tristeza dentro dele maior ainda que a minha, mas Jonathan nunca foi uma pessoa de reclamar das coisas. Ele se mostra sempre grato, se contentando com pouco. Uma vez perguntei se ele sentia falta da Pri. Ele me respondeu o seguinte:

- Eu a vejo todos os dias. Continuamos amigos. Mas embora eu a ame, o que eu sinto por ela mudou, virou alguma coisa de irmão para irmão. Acho que já estava assim há muito tempo, mas a gente não percebia. Precisou que você aparecesse na minha vida para eu perceber.

-E quanto a ela? Acha que ela está bem com isso tudo?

Ele encolheu os ombros:

-Não sei... penso que não, ainda não. Ela está tão acostumada com a gente, que de repente se sentiu sem chão. Pensa que ainda precisa de mim, do que a gente achava que tinha.

-Então ela está mal?

-Está. Mas vai superar. A Pri é jovem, bonita... logo vai aparecer outra pessoa.

Pensei que encontrar alguém legal vivendo em uma instituição para crianças e jovens abandonados ou sem lar não deveria ser muito fácil. Sinto pena dela. É como seu eu tivesse roubado alguma coisa muito preciosa de alguém que só tinha aquilo.

Uma vez pedi que Jonathan me mostrasse uma foto dela. Ele abriu uma no celular uma foto onde ela aparecia ao lado dele e de alguns outros jovens. Vi uma menina de estatura baixa, magrinha, olhos bondosos, sorriso tímido. Não uma linda garota, mas delicada, bonitinha. Priscila tem cabelos cacheados na altura dos ombros, castanho-claros, sem um corte moderno. Suas roupas simples e parecendo muito usadas não ajudam na sua aparência. Mentalmente, me vi fazendo comparações entre nós duas, e em todos os quesitos, eu venci: sou mais bonita, mais alta, me visto bem, tenho um corte de cabelo channel moderno e bonito, estudo em uma ótima escola, tenho dinheiro, tenho casa, tenho família, tenho todos os sonhos na palma da minha mão. E tenho Jonathan. 

Até hoje, embora só tenha visto a foto uma vez, me lembro muito de todos os detalhes. E me sinto mal quando penso nela. Ter conhecido o Jonathan me fez perceber o quanto eu tenho sorte, apesar de tudo. Não trocaria a minha vida com a deles de jeito nenhum. Eu tive e perdi meus pais, mas pelo menos, eu os tive. A maioria das crianças e adolescentes daquele lugar não fazem ideia do porquê estão lá, por que foram abandonados, quem são seus pais, onde estão suas famílias. 

Olho meus colegas da escola – todos pertencem a famílias senão ricas, pelo menos bem de vida. Todos têm os celulares da moda, usam roupas de marca, têm pais ou mães que os levam de carro para a escola, comem bem, não precisam se preocupar com o futuro. E vivem reclamando de tudo. Alguns tomam remédios para depressão (eu mesma já tomei) e não se dão bem com a família. Outros se drogam, bebem, são promíscuos, vão a festas e ficam com uma porção de gente em uma só noite. Suas mentes são completamente fodidas.

Jonathan me contou que na instituição também tem muitos jovens assim, que tomam remédios para depressão e ansiedade, que são agressivos, inacessíveis emocionalmente, e que reclamam de tudo. Alguns se drogam, mas se forem descobertos, sabem que serão imediatamente levados para uma unidade correcional. Não vão para nenhuma clínica de reabilitação luxuosa. 

Penso que de qualquer forma, a vida é a vida. A vida não poupa ninguém de nada.

 (Continua...)





quarta-feira, 18 de maio de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - PARTE 6


 



Parte 6


Nem sei como, mas eu me apaixonei pelo Jonathan. Ele acaba de sair da minha casa após ficar conversando comigo na varanda durante quinze minutos, e todo o meu corpo está formigando. Ele não sabe nada de mim, e eu não sei nada dele. Ele só sabe que meu pai morreu, mas sequer sabe que eu estou totalmente só, que não tenho mãe, que fui emancipada. Só falamos de coisas banais, como o quanto está frio, que ele não gosta de futebol, como a maioria dos meninos, mas que adora livros e filmes (a minha TV ainda estava ligada quando ele entrou na sala, e passava um filme) e eu disse a ele que meu autora favorita é Ali Shaw, e ele me responde que nunca tinha ouvido falar dela, então eu entro e pego o livro “A Garota dos Pés de Vidro” na estante e dou para ele. 

Quinze minutos depois, ele vai embora, levando as caixas cheias de roupas, sapatos e livros do meu pai. Promete voltar para me devolver o livro assim que terminar de ler. Penso: tomara que ele leia bem rápido. Ficamos tão envolvidos, que sequer nos lembramos de trocar nossos telefones.

Meus tios me ligam para saber como eu estou, e minha tia percebe que minha voz está melhor, como ela mesma diz. Me convidam para jantar, mas eu não quero, nem mesmo depois que ela diz que meu tio pode passar para me buscar de carro. Quero apenas ficar em casa, pensando em Jonathan. 

Mas os dias passam, um, dois, três, quatro... dez, vinte. Ele não volta. Minhas aulas recomeçam na escola, e chegar na escola e ter os olhos de todos os meus colegas voltados para mim, é constrangedor. Eles todos querem saber como é ser órfã de pai e mãe. A essa altura, descobriram que fui emancipada, e alguns deles me dizem que sentem inveja. Respondo que daria tudo para não ser emancipada e ainda ter meu pai sendo responsável por mim. Eles baixam a cabeça, constrangidos. Penso no quanto as pessoas dizem coisas idiotas tentado ser gentis. 

Penso também que aquele seria meu último ano na escola, e fico feliz. Porque com certeza, eu não sei como lidar com os outros jovens, sou a esquisita, a “misfit”, a “weirdo.” Alguns me olham como se quisessem me conhecer melhor. Os meninos me olham com olhos famintos, mas jamais tentam se aproximar, pois meus cortes são impiedosos. Nenhum deles me interessa, e também não quero saber sobre vestidos, sapatos, maquiagem, times de futebol e bandas de hip-hop. Parece que ninguém lê, ninguém sabe quem são Ali Shaw, Richard Bach, Fernanda Young. Inútil tentar conversar com eles.

Tia Atena e tio Heitor vêm aqui às vezes, mas suas visitas são cada vez mais raras e curtas, porque não temos assuntos a conversar. Eu não sinto falta deles, e nem eles de mim. Após um mês e meio da morte de meu pai, as visitas deles praticamente terminam, e eu dou graças a Deus por isso. De vez em quando, mandamos mensagens que respondemos com emoticons. Mas sei que elas logo também vão parar, pois já usamos quase todos eles. 

Minha rotina: acordar, tomar café, ir à escola, fazer os deveres de casa, preparar minhas refeições, limpar a mina d’água de vez em quando, cuidar da hortinha, pagar as contas da casa, ir ao banco, fazer algumas compras pela internet (detesto ir ao mercado), assistir filmes, limpar a casa uma vez por semana. O jardineiro vem três vezes ao mês. Mal conversamos, ele entra, faz seu trabalho, eu o pago e ele vai embora. Nem sei se ele sabe que meu pai morreu. Também assisto muitos filmes e leio, leio, leio. Sinto falta do meu pai, mas como ele mesmo previu, estou superando. Já não dói mais. De vez em quando, converso com ele. Conto sobre algum filme ou livro, ou sobre alguma idiotice dos colegas de escola. Quando estou na mina é quando me sinto mais perto dele. Parece que sinto ele me ensinando a cuidar dela. Mergulho minhas mãos na água gelada de olhos fechados, e escuto o riso dele.

Quase três meses após a primeira vez que nos vimos, Jonathan reaparece. É uma manhã de sábado, e ainda estou sonolenta quando a campainha toca, sem que eu sequer imagine que poderia ser ele. Tento ignorar, mas ele insiste. Quando finalmente abro a porta, ainda de pijama, e deparo com aqueles olhos intensos, desperto completamente. Ele me estende o livro. Eu mando ele entrar, e vou vestir alguma coisa melhor; escolho um par de jeans e uma camiseta preta novos. 

Nos sentamos diante um do outro, ele na poltrona, eu no sofá, as pernas cruzadas. 

-E então? Gostou do livro?

Ele demora um pouco a responder:

-É muito legal. Sabe, imaginei o que poderia estar transformando as pessoas em gelo... e pensei muito em você, Valentina. Você e a personagem principal parecem ter muito em comum.

Me surpreendo, interessada. Finalmente, alguém para realmente conversar! Me mexo na almofada, pronta para assumir uma posição confortável para que eu possa ficar sentada por horas.

-Mesmo? O que?

- Então... quando eu a vi pela primeira vez... não fique chateada, com isso, mas... pensei que você era uma pessoa fria. Até mesmo seu choro era contido, como se chorar fosse um sinal de fraqueza. Senti raiva no seu choro. Acho que você deveria ter cuidado com esse gelo nos seus pés.

Me sinto corar, e não respondo. Olho para a ponta dos meus pés descalços, me concentrando no esmalte vermelho das unhas. Ele está certo. Aprendi que chorar é sinal de fraqueza. Raramente choro. Olho para ele:

-Ok, ponto pra você. Agora me fale um pouco de você.

Ele parece confuso por um momento, como se estivesse escolhendo que tipo de informação quer me passar. Foi devagar:

- Hum... eu tenho vinte e um anos, trabalho e moro na instituição – fui criado lá – sou órfão, nunca conheci meus pais. Não fui para a faculdade porque não tenho grana. Aliás, eu não tenho nada. E mesmo assim, tenho tudo. Porque eu sou livre. Materialmente, tudo o que eu tenho, está em um quarto que mede 3 X 3. 

Fico chocada com a sinceridade dele. 

-Uau! 

-Uau! – ele repetiu. 

Nós rimos. Ele continua:

-Eu... namoro uma garota. O nome dela é Priscila, e ela também foi criada na instituição. Quando ela chegou lá, eu tinha cinco anos, e praticamente crescemos juntos.

Meu coração murcha, e eu engulo em seco. Tento não demonstrar a minha decepção, mas sinto que ele a percebe. Suspiro e dou um sorriso nada espontâneo:

-Bem, esta é a sua vida. Ela... a Priscila... você gosta muito dela?

Ele concorda com a cabeça:

-Muito. Mas... ah, deixa pra lá.

- Não, fala! Mas...?

Os olhos dele são tão bonitos, e se derramam tanto em cima de mim, que antes que ele diga alguma coisa, eu sei o que estava na cabeça dele: ele gosta de mim.

-Eu não consigo parar de pensar em você. 

-Ah, então foi por isso que demorou tanto a aparecer?

Falo aquilo em tom de brincadeira, mas ele concorda:

-Foi sim. Eu nunca questionei o que eu sinto pela Pri. Até ver você. Tive a impressão de que já nos conhecíamos antes. Sei lá. Foi.... esquisito.

- Uau... isso é muito estimulante. Saber que me conhecer foi esquisito pra você.

Ele ri, e eu também. Comento:

- Mas você tem uma namorada.

-Eu tenho uma namorada. E não costumo ser infiel, aliás, eu jamais fui infiel com ela.

Mudo o tom da conversa:

-Sabe... depois que meu pai morreu, descobri que ele e minha mãe se conheceram quando ele ainda era casado com outra mulher. Ela era meio-surtada, e quando ela descobriu sobre os dois, cometeu suicídio. Quando minha mãe ficou doente, ele teve um caso com outra mulher, bem durante a doença dela, quando ela mais precisou dele. O suicídio da primeira mulher de meu pai, de alguma forma, impediu que meus pais fossem realmente felizes. Eles brigavam muito, e embora se amassem, o que aconteceu sempre pairou sobre a vida deles.

Ele me ouve em silêncio, os olhos presos nos meus. Depois que eu falo, ele permanece quieto, mas os lábios dele se entreabrem, e ele fica vermelho. Está chocado com a minha história. Como ele é lindo! Eu continuo:

-Jamais serei como a minha mãe. Nunca vou construir a minha vida em cima da ruína de alguém. 

Naquele instante, ele se ergue feito uma bala e sai pela porta, batendo-a atrás de si. Eu não me levanto para segui-lo. 

Horas depois, enquanto eu termino de lavar a louça de um almoço que eu não consigo comer, a campainha toca de novo. Abro a porta, já sabendo que é ele, mas sem saber o que ele me diria:

- Eu terminei com a Pri. 

Dizendo aquilo, ele me beija. E quando ele me beija, todas as pontas da minha vida se ligam. Tenho uma sensação de força, alegria, uma certeza de que dali em diante, as coisas vão melhorar muito para mim, e que eu finalmente saberei o que realmente significa ser feliz.

E esse foi o dia em que Jonathan me beijou pela primeira vez.

(CONTINUA)





terça-feira, 3 de maio de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - PARTE 5



Parte 5


Aqui estou eu, sentada em minha sala de estar limpa e cheirosa sem saber o que fazer do resto do meu dia – ou da minha vida. Silêncio de uma manhã de sexta-feira. Meu pai foi enterrado ontem. Minha mãe morreu quando eu tinha sete anos. Nunca vejo meus avós. Minha mãe tinha sido amante de meu pai antes de se casar com ele. Fernanda, a ex-mulher de meu pai, se matou ao saber que minha mãe estava grávida de mim, o que, de certa forma, significa que eu tive alguma culpa nisso. Meu pai mentiu para mim a vida toda, dizendo que ele e mamãe eram um casal perfeito cujo amor transcendental superava a morte, enquanto escondia o fato de ter tido uma amante durante dois anos enquanto minha mãe estava doente.

Tenho 17 anos, e acho que é tarde demais para reconstruir minha relação com meus avós, pois eles já são bem idosos e não estão interessados em novidades em suas vidas. E se quisessem saber de mim, teriam tentado me visitar, teriam enfrentado meu pai. Mas quem sabe, a minha visão pudesse despertar neles algumas memórias de coisas que eles preferiam não lembrar? Eles tinham perdido uma filha. Perderam a filha duas vezes: quando ela saiu de casa para se casar com meu pai e depois que ela morreu. Lembro de meus avós me visitando quando eu era pequena, e são lembranças vagas, mas eu também me lembro que depois daquelas visitas sempre tão raras e breves, meu pai e minha mãe sempre brigavam, e meu pai nunca estava presente quando meus avós vinham. Minha mãe se afastou dos próprios pais por causa de meu pai. E se hoje meus avós e eu não temos nenhuma intimidade, é por causa dele.

Mas lá vou eu estabelecendo culpas de novo. Minha tia me pediu para não julgar o meu pai. Ela disse que ele cometeu erros, mas que me amava, e eu sinto que era verdade. É estranho que crescer signifique desconstruir a imagem que temos dos nossos pais. Eles são apenas pessoas comuns, que erram e falham, e dizem coisas absurdas, e fazem coisas bizarras. Não são os heróis que às vezes imaginamos.

Mas eu sinto falta do meu pai. Eu sinto falta dele, e me arrependo das vezes em que olhei ele desacordado na cama de hospital e desejei que ele morresse. Eu só estava cansada, exausta, para ser mais precisa, e os médicos diziam que ele não ia melhorar, só ia piorar cada vez mais, exatamente como a minha mãe. 

Eu tenho lembranças muito vagas da minha mãe. Nenhuma memória inteira, só pedaços enevoados de momentos. Temos alguns vídeos que meu pai fez de nós três juntos. Bia – minha mãe – era uma mulher um pouco acima do peso, de cabelos pretos e lisos cortados na altura dos ombros, grandes olhos castanho-claros, enfim, uma pessoa comum, diferente da imagem que minha tia Atena fizera de Fernanda. Mas quando ela sorri, seu riso se espalha em luz na tela do computador. Os olhos dela são expressivos e cheios de vida, principalmente quando ela me olha. Não me lembro da maioria daquelas cenas que ficaram gravadas, é como ver o vídeo sobre a vida de outra pessoa a maior parte do tempo, mas eu digo a mim mesma que se trata de mim, aquela criança sou eu, é a minha vida, a minha família. 

Minha mãe não era nenhuma beldade. As roupas dela eram comuns, jeans e camisetas lisas e vestidos estilo boho. Meus pais pareciam um casal de hippies. Mas minha tia Atena me disse que minha mãe era de família muito rica. Meu pai me dizia a mesma coisa. Talvez ela fosse bonita quando conheceu meu pai. 

Vou até o quarto dele, abro o armário dele a procura de mais memórias. É muito estranho mexer nas coisas de alguém que já morreu. A todo momento, penso que estou invadindo a privacidade dele. Eu nunca abri o armário do meu pai, a não ser para pegar roupas para levar para o hospital. Esta é a primeira vez que eu abro o armário do meu pai a procura de segredos ou memórias. Sim, isso configura uma invasão de privacidade, então, para me sentir melhor, vou até a garagem e trago algumas caixas de papelão; assim, posso fingir que estou separando as roupas e sapatos dele para doar – e não há muita coisa, na verdade. Coloco tudo em três caixas de tamanho médio. Tem coisas aqui que eu nunca o vi usar. Elas cheiram a mofo.

Mas logo encontro o que eu estava procurando: uma caixa de papelão na prateleira de cima, bem no fundo. Ali, encontro documentos – a certidão de nascimento de minha mãe, a escritura da casa, algumas contas antigas pagas. E debaixo de tudo, uma fotografia colorida grande, meio-desbotada e um pouco amassada. Meu pai bem jovem e bonitão está ao lado de uma mulher lindíssima, loira, alta, parece uma modelo de revista. Ela é séria, e tem olhos tristes. Só pode ser a Fernanda. Talvez esta seja a única lembrança que meu pai tinha daquela fase de sua vida, e me pergunto se minha mãe sabia sobre essa foto. Fico muito tempo olhando a foto. Chego à janela, tentando reter a imagem na minha cabeça, caso um dia a foto desapareça, e depois volto a olhar para confirmar se consegui.

Após arrumar as coisas em caixas, ligo para uma instituição de caridade que vai buscar tudo horas depois. Enquanto espero, assisto filmes na TV. Como cookies de chocolate. Durmo no sofá da sala. Me arrasto até a varanda, onde me sento embrulhada em uma manta, olhando a rua vazia. De vez em quando, um carro passa. Às vezes as pessoas nos carros me olham, e fico pensando no que elas pensam ao me verem. Não sabem nada de mim, da minha vida, do que eu estou enfrentando. É assim com todo mundo: ninguém sabe o que a pessoa que está sentada ao lado dela no ônibus está passando. Não sabem que aquele menininho no consultório médico, esperando sua vez enquanto brinca com um carrinho, tem uma doença incurável. Muitas vezes, eles mesmos tem doenças incuráveis e não sabem, nem desconfiam. Estão a ponto de descobrir, o que mudará todas as suas perspectivas, expectativas e sonhos.

Uma vez eu vi um filme em que o marido saía de casa ao descobrir que sua mulher estava doente; não conseguia lidar com o problema. A vida da gente pode mudar a qualquer momento, de forma radical, e tudo o que sempre foi certo pode se mostrar bem diferente. 

A caminhonete da casa de caridade encosta junto ao meu portão. O motorista sai, e ao olhar para ele, percebo que não deve ter mais que vinte anos de idade, e que ele é lindo. Ele sorri ao me ver, e eu me levanto (ainda embrulhada na manta) e sem retribuir o sorriso, vou até o portão e o abro para que ele entre. Ele me diz boa tarde, e eu respondo entre os dentes. Não quero ser mal-educada, mas falar dói. Ele me segue casa adentro, e aponto as caixas para ele no chão da sala. Ele me pergunta:

- Isso é tudo?

Concordo com a cabeça. Ele me olha longamente, e sinto meu coração acelerar. Ele me pergunta:

-Você está bem?

E eu não sei mais quem eu sou, ou o que acontece, ou porque acontece: de repente, estou me debulhando em lágrimas bem na frente dele. Não é um choro doce, mas um choro quase raivoso, de revolta mesmo. Ele fica estupefato, sem saber como agir, mas de repente ele caminha até mim e me envolve em seus braços com manta e tudo.

Eu me deixo abraçar por ele, o rosto em seu pescoço, sentindo o cheiro de malva dos seus cabelos curtos e pretos cortados em camadas. Sinto o formato do seu queixo quadrado contra a minha testa. Sinto as mãos dele, fortes, me amparando. Ele é mais alto do que eu, mais forte, e me sinto segura aninhada contra ele. Raramente, alguém me abraça. Nem mesmo meu pai me abraçava muito. Ele não diz nada, apenas me deixa chorar. E eu choro. 

Quando finalmente eu pareço ter esgotado todas as minhas lágrimas (pelo menos, naquele momento), ele me encara com seus olhos castanhos, emoldurados por sobrancelhas negras arqueadas. Ele é realmente lindo, penso. Eu poderia me apaixonar por ele, se... mas eu nunca me apaixonei, nem sei o que é paixão. E talvez nem seja a hora apropriada, então eu o empurro, devagar e docemente, para cada vez mais longe de mim. Ele se deixa levar pelas minhas palmas, cumprindo a distância que eu ponho entre nós. Murmuro um “desculpe” cheio de vergonha. Ele diz que está tudo bem, e me pergunta se tem alguma coisa que ele poderia fazer por mim. Sacudo a cabeça, dizendo um “não”. Ele me olha, e os olhos dele parecem lavas quentes escorrendo pelo meu rosto, ombros, corpo. 

Largo a manta sobre uma poltrona, porque de repente, eu começo a sentir calor. Logo me arrependo, pois me lembro de que estou vestindo calças de moletom rasgadas nos joelhos e uma blusa de lã velha e cheia de bolinhas. Tarde demais: ele me olha da cabeça aos pés, muito sério. De repente, a boca dele se abre, e espontaneamente, ele diz:

- Você é tão linda!

Fico surpresa. Nunca ninguém me disse aquilo antes. Dou um meio sorriso (porque acho que uma garota que acaba de perder o pai não tem o direito de sorrir tão cedo). Ele corresponde, e me estende a mão:

- Meu nome é Jonathan. 

E assim termina meu primeiro dia como órfã.


(CONTINUA...)





segunda-feira, 18 de abril de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - Parte 4

 





Parte 4

 

Depois do velório, entrei no carro dos meus tios, e tio Raul nos levou até a minha casa, deixando-nos lá sozinhas. Eram quase cinco da tarde quando chegamos, e eu estava exausta, tanto emocional quanto fisicamente. Eu estava acostumada à presença dos meus tios – crescera tendo-os em minha vida – mas agora que eu sabia que durante todo aquele tempo eles tinham escondido coisas de mim, de repente não me sentia mais tão à vontade com eles. Para mim era como se eu estivesse cercada de pessoas estranhas, que sabiam tudo de mim sem que eu soubesse o suficiente sobre elas. A sensação de solidão era excruciante.

Na varanda, encontramos sobre a mesinha alguns cartões de pêsames e também vasilhas com comida, como uma lasanha, salada, bolos e biscoitos caseiros. Todos com um cartãozinho. Senti gratidão e simpatia por aquelas pessoas, vizinhos que nem moravam tão perto e que eu mal cumprimentava, e que estavam demonstrando solidariedade. Eu me sentia grata também pelo fato de que por causa da generosidade deles, eu não precisaria comer a comida da minha tia.

Eu e Tia Atena levamos tudo aquilo para dentro e guardamos. Ela colocou a lasanha semipronta no forno e começou a pôr a mesa para o jantar. Com toda aquela comida, eu concluí que não teria que me preocupar em cozinhar por pelo menos uma semana, o que é um alívio para quem está passando por um momento de luto.

Nós comemos – ou seja, tia Atena devorou a maior parte da lasanha, enquanto eu dei apenas algumas garfadas, desmanchando o resto no prato em uma massa disforme e repugnante. Fiquei me perguntando se algum dia eu teria fome outra vez. Depois que eu a ajudei a limpar a cozinha, nós nos sentamos no sofá da sala, cobertas pelas mantas que estavam sempre jogadas sobre o sofá. Acendemos a lareira, pois a noite era fria, e deixamos apenas as luzes dos dois abajures acesas. E então ela me contou a história dos meus pais.

Meu pai era um homem casado quando conheceu minha mãe. O nome da primeira esposa dele era Fernanda. Aquela informação, por si só, já me deixou boquiaberta. Ele tinha 36 anos, e minha mãe, 25 quando se conheceram em um bar. Eles começaram a se relacionar naquela mesma noite. Meus tios sabiam de tudo, pois eles namoravam naquela época, e os quatro – meu pai, Fernanda e meus tios - saíam juntos algumas vezes. Naquela noite, Fernanda tinha ficado trabalhando até mais tarde. Minha tia me disse que meu pai e minha mãe trocaram olhares durante alguns minutos (meu tio Heitor tentando fazer ele não perder o juízo) e depois ele a convidou para dançar. No começo do relacionamento do meu pai com minha mãe, meu tio Heitor foi totalmente contra, pois não gostava da ideia de meu pai estar traindo a esposa com quem estava casado há cinco anos e meio. Tia Atena, porém, passou a gostar muito de minha mãe e as duas ficaram muito amigas.

Fernanda, a primeira esposa de meu pai, era uma pessoa difícil e problemática, muito ciumenta, quase sempre em estado depressivo. Meu pai se apaixonou por ela porque ela era extremamente bonita, segundo minha tia me contou. A paixão dos dois era puramente sexual, quase uma doença da qual eles não conseguiam se curar, mas ela não sentia que havia amor entre eles, pois na opinião dela, nenhum tipo de amor poderia causar tanta discórdia e tantos problemas. Na cama, eles se davam perfeitamente bem, segundo confissões da própria Fernanda a ela, mas fora dela, eram como água e óleo. Mesmo assim, agiam como se não pudesse respirar sem a presença um do outro, até que Bia – minha mãe – surgiu.

No começo, meus tios pensaram que seria apenas um caso passageiro, mas à medida que o tempo passava, eles viam que era muito mais que isso. Logo, a paixão sexual que meu pai nutria por Fernanda diminuiu, e ela percebeu logo que alguma coisa estava errada. Mas meu pai não tinha coragem de se separar de Fernanda, pois tinha medo de que ela cumprisse sua promessa de se matar caso ele fosse embora. Ao mesmo tempo, Bia também cobrava dele uma escolha. Fernanda desconfiava que ele estava tendo um caso, mas tio Heitor o ajudava a encobrir tudo, e minha tia Atena também procurava se envolver o menos possível naquela história, já que era amiga de Fernanda e tinha se tornado também amiga de Bia.

E quando meus avós - pais de Bia - descobriram quem era o homem com quem a filha deles vinha saindo, a pressão aumentou ainda mais. Não queriam o escândalo de ter sua filha sendo amante de um homem casado. Fizeram tudo para separar os dois, mas não conseguiram. Quanto mais tentavam, mais os dois se uniam. Até que eles acharam que a única saída seria procurar Fernanda e contar tudo a ela.

E foi o que eles fizeram. Meu pai e minha mãe já vinham se relacionando há quase um ano quando aquilo aconteceu. Exatamente naquela época, minha mãe ficou grávida. Quando Fernanda soube de tudo, ela procurou minha mãe e pediu a ela que se afastasse, mas quando minha mãe disse que estava grávida, Fernanda não suportou, já que ela mesma não podia engravidar. Naquela mesma noite, Fernanda cometeu suicídio.

Aquilo arruinou o relacionamento que meu pai poderia ter tido com meus avós para sempre, pois meus avós culpavam meu pai, e ele, aos meus avós, pelo que tinha acontecido com Fernanda (eles ficaram com muita pena dela). E a família de Fernanda passou a perseguir meu pai e minha mãe, o que fez com que ele vendesse a casa e se afastasse, e foi quando fomos morar em Lumiar. Mesmo desaprovando o relacionamento, meus avós jamais deixaram de proteger a filha, e fizeram questão de dar a ela uma casa decente para morar, mesmo ela tendo se casado com um homem que eles detestavam. Pelo menos, sua filha e sua neta teriam uma vida confortável, como eles mesmos disseram. No começo, meu pai não queria morar na casa, mas com o tempo, achou que seria egoísmo privar a mim e à minha mãe de conforto apenas por causa do seu orgulho ferido.

Naquele trecho da história, senti raiva de meu pai; a vida toda, ele me dissera que meus avós não gostavam dele porque ele não era rico, e que eles só nos presentearam com uma casa porque não queriam que os seus amigos ricos ficassem sabendo que nós morávamos em seu apartamentinho. Privou-me de ter um relacionamento com meus avós e minha tia e primos porque não queria que eu soubesse da verdade. Minha tia respondeu, à minha observação:

- Jamais duvide do amor do seu pai por você. Ele cometeu muitos erros. Talvez mais erros do que a maioria das pessoas, mas depois ele caiu em si, ele compreendeu o quanto ele tinha magoado Fernanda e sua mãe, e se arrependeu. Se ele não queria que você ficasse sabendo da verdade, foi apenas por medo de perder você. Eu e seu tio sabemos o quanto ele sofreu depois que sua mãe se foi. A vida para ele nunca mais teve sentido, ele nunca mais conseguiu amar outra mulher.

No fundo, eu sabia que ela estava dizendo a verdade, mas não era fácil para mim aceitar que meu pai não era o homem que eu crescera acreditando que fosse. Eu não sabia quase nada sobre ele durante todo o tempo em que cresci. E agora eu ficava sabendo que ele era um homem egoísta, mulherengo e tóxico. Minha tia arregalou os olhos ao ouvir aquilo:

-Não diga isso, Valentina, porque a vida particular dele era a vida particular dele, e você... você era a melhor parte dele.  Otávio faria qualquer coisa para te proteger.

Os olhos dela se encheram de água, e percebi que minha tia Atena também tinha sido apaixonada pelo meu pai. Ao falar dele, os olhos dela brilhavam, seus lábios tremiam. Ela estava a ponto de explodir. Aproximei-me dela:

-Tia Atena... você era apaixonada pelo meu pai não era?

Ele enrubesceu e tentou negar, mas eu insisti:

- É claro que era. Senão, por que teria passado tempo tomando conta de mim, uma menina que sequer é seu parente de sangue?

Ela levou a mão à garganta, e vi o rosto dela se transformar em uma careta, antes que as lágrimas pulassem de suas órbitas. Fiquei sem saber o que fazer, então permaneci sentada perto dela, sem tocá-la. O choro de tia Atena era convulsivo.

- Que baita cliché, não é, uma mulher se apaixonar pelo próprio cunhado. Sim, você está certa, Valentina, eu fui apaixonada por ele, mas ele nunca ficou sabendo. E eu te peço que jamais comente nada com seu tio Heitor. Ele não merece isso.

Eu me levantei, caminhando até o outro lado da sala, e me voltei para encará-la:

-E quanto a Natália, tia?

Ela enrubesceu, respirando profundamente:

-Ela foi amante de seu pai enquanto ele era casado com sua mãe. Aconteceu nos últimos dois anos de casamento, antes de sua mãe ir embora. Ela já estava doente na ocasião, e acho que Natália foi uma válvula de escape.

-Pensei um pouco sobre aquilo antes de perguntar:

-E onde ela está agora?

-Não sei. Ele deixou de vê-la depois que sua mãe morreu. Nunca mais se encontraram.

-Você a conheceu?

-Superficialmente. Ela era frívola, engraçada... como eu disse, acho que foi apenas uma válvula de escape.

Concordei com a cabeça, pensando que a minha ida toda, eu nunca soubera muito sobre meu próprio pai. Caminhei de volta até o sofá, e segurei as mãos de tia Atena, fazendo-a me olhar de frente:

-O que mais eu não sei sobre esta família, tia Atena? Seria um bom momento para me contar.

Ela negou com a cabeça, colocando as mãos sobre o colo:

-Não há mais nada, eu juro. Mas agora seu pai se foi, tudo isso ficou no passado. Você deveria deixar o passado no passado.

Achei que aquele era um bom conselho, mas era mais fácil falar do que fazer. Pensei que eu precisaria de tempo para digerir tudo aquilo. Então, fui para o meu quarto. Tirei a roupa e entrei na banheira, enchendo-a com espuma de banho e água bem quente. Foi reconfortante o calor da água sobre a minha pele, que ficou avermelhada. Quando saí da banheira, uma hora e meia depois, a água estava fria. Depois, enfiei uma camiseta velha que tinha sido de meu pai sobre a cabeça e me deitei na cama desarrumada da noite anterior. O sono foi quase instantâneo. Há muito tempo eu não dormia daquele jeito.

Acordei na manhã seguinte com o barulho do aspirador de pó. Passava das dez da manhã. Levantei-me, escovei os dentes e fui para a sala, onde minha tia Atena estava finalizando a limpeza. Tudo estava limpo e organizado. Ela ergueu os olhos para mim, apontando para a cozinha:

-Bom dia, querida. Tem café e panquecas na cozinha. Sirva-se enquanto arrumo o seu quarto.

-Bom dia, tia... não precisava arrumar nada...

-A casa estava uma bagunça, e muito empoeirada. Parecia que não via uma faxina há meses. Aproveitei e coloquei as mantas do sofá ao sol, não se esqueça de recolhê-las mais tarde. Parece que vai chover.

Me lembrei que a última faxina que eu fizera tinha sido mesmo há meses.

Sentei-me à mesa, e devorei as panquecas. Meu apetite tinha voltado. A casa cheirava bem, e o chão de madeira brilhava de novo. Sobre o fogão, meu almoço me esperava entre dois pratos sobre uma panela de água para que eu o esquentasse em banho-maria quando tivesse fome. Me senti grata. O ruído do aspirador recomeçou, e quando acabei de comer, cerca de dez minutos mais tarde, minha tia passou carregando minhas roupas de cama:

- Troquei sua roupa de cama, vou colocar esta para lavar. Mais tarde, estenda-a para terminar de secar. Daqui em diante, você terá que fazer essas coisas sozinha ou então contratar alguém.

Eu não disse nada, mas estava acostumada a fazer metade do serviço de casa. Às vezes, tínhamos uma arrumadeira, mas na maior parte do tempo, eu e papai nos virávamos sozinhos.

Ela desapareceu em direção a área de serviço, e segundos depois escutei o barulho da máquina trabalhando. Depois que terminou de arrumar tudo, tia Atena me abraçou, dizendo:

-Se precisar de mim, sabe como me encontrar. Quer que eu passe aqui mais tarde?

Neguei com a cabeça:

-Não tia, obrigada. Obrigada por tudo, obrigada por me dizer a verdade.

Ela saiu e fechou a porta atrás de si.

Eu fiquei sozinha.

Começaria aquele que foi o dia seguinte ao funeral de meu pai, e o resto da minha vida sem ele.



(continua)




 

quarta-feira, 6 de abril de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - PARTE 3

 




Parte 3

 

Cada um dos muitos amigos de meu pai compareceram ao velório, e também muitas mulheres que vi no hospital e outras que eu nunca tinha visto na vida. Todos eles ficaram me paparicando, e conversando entre eles e olhando para mim com pena. Eu só queria que fosse todo mundo embora e me deixassem ter um momento a sós para que eu pudesse me despedir do meu pai.

Ninguém da família compareceu, a não ser Tio Heitor e Tia Atena, mas minha tia Agnes me telefonou, perguntando se eu gostaria de morar com ela na Europa. Meus avós me ligaram fazendo a mesma proposta. Quando eu disse a eles que não precisava, pois estava bem financeiramente e meu pai tinha me emancipado, todos pareceram aliviados, mas disseram que caso eu precisasse de alguma coisa, não deveria hesitar em pedir. Agradeci polidamente, feliz por me livrar deles.

Alguns colegas da escola passaram por lá, dizendo que sentiam muito, e que se eu precisasse de alguma coisa, não deveria hesitar em ligar para eles a qualquer ora do dia ou da noite. Achei engraçado, pois eles nunca tinham se importado comigo antes. Alguns professores compareceram também, rapidamente. Fiquei surpresa de que aquelas pessoas tivessem se dado ao trabalho. Meus professores também me disseram que se eu precisasse de alguma coisa, não deveria hesitar em pedir.

Aliás, ouvi aquela frase dezenas de vezes naquele dia, quando tudo o que eu queria era ser deixada em paz, mas certamente, não poderia pedir aquilo a eles.

Meu pai estava lá, deitado, indiferente a tudo o que acontecia. As pessoas olhavam para ele, tocavam as mãos deles por alguns instantes enquanto murmuravam coisas, jogavam água benta nele. Aquilo era tão patético. Velórios são sempre tão patéticos. E no final, um padre todo paramentado chegou. Olhei para o meu tio, que me olhou de volta e encolheu os ombros, olhando na direção da tia Aurora, querendo dizer que aquilo era coisa dela. Meu pai não gostava de padres, nem de igrejas, e ela o estava forçando a ouvir um sermão em seus últimos momentos na Terra.

Sem pensar, eu me levantei como um raio do banco onde estava sentada, caminhando na direção do padre no momento em que ele começou a abrir a Bíblia:

- Vá embora, por favor. Meu pai não era religioso e nem gostava de padres.

Falei aquilo baixinho, olhando nos olhos dele. Ele pareceu confuso por um momento:

-Bem, eu fui chamado aqui...

- Foi um engano, o senhor pode ir, por favor.

Ele abriu a boca para dizer mais alguma coisa, mas eu o fuzilei com os olhos:

-Por favor!

As pessoas já tinham percebido o que estava acontecendo. Minha Tia Atena chorava. O pobre homem recolheu sua Bíblia e saiu, humilhado. Mas antes, parou diante do caixão e fez o sinal da cruz. Tia Atena chegou perto de mim, falando baixinho:

-Me desculpe, eu não deveria...

-Não deveria mesmo. Ele era meu pai. A decisão teria que ter sido minha.

-Mas... as pessoas... é que eu pensei...

-A última coisa que preocupava meu pai era a opinião alheia, tia, e você sabe disso. Além disso, quem são todas essas pessoas? Meu pai as conhecia de verdade? Eu nunca vi a maioria delas. Precisava chamar toda essa gente?

Ela hesitou, e respondeu:

- Eles são... conhecidos, querida, ex-vizinhos do bairro antigo, a gente avisa as pessoas nessas horas...

-Ou seja: são curiosos. E carpideiras.

Ela me olhou, zangada:

- Seu pai tinha uma vida social que você desconhecia, ele não era só o ‘seu’ pai. Ele tinha amigos. E amigas também, se é que você me entende. Mas ele não gostava que você ficasse sabendo disso.

-Ou seja, esse pessoal aqui são amigos de copo, amigos de bar, amigas de cama.

Ela concordou com a cabeça:

-Mais ou menos, sim..., mas são pessoas que se importavam com ele, que gostavam dele.

-Interessante eu nunca ter visto a maioria deles no hospital, ou visitando meu pai em casa depois que ele adoeceu.

Ela me pegou pelo braço, me arrastando para o corredor:

- O que você quer que eu faça, Valentina? Que eu expulse os amigos do seu pai? Que eu mande todos embora, que impeça as pessoas de se despedirem dele? Você acha que ele vivia apenas para você, por você, que a existência dele se resumia apenas a tomar conta de você? Este é um pensamento egoísta!

Naquele momento, enquanto lágrimas quentes e grossas queimavam meu rosto, eu percebi que estava com ciúmes do meu pai. Eu tinha ciúmes por não conhecer a maioria das pessoas que ele conhecia, por ele ter isolado de mim aquela parte importante da sua vida. Eu estava revoltada porque, no fundo, eu não conhecia meu pai de verdade. Ele me mantivera dentro daquela casa, me dizendo para escolher bem as pessoas que fariam parte da minha vida, enquanto ele tinha uma vida cheia de pessoas que eu não conhecia. Eu percebi que ele não estava, na verdade, me ensinando a ser livre e independente, como ele dizia, mas poupando a si mesmo das preocupações que teria, caso eu tivesse sido uma adolescente que gostasse de sair com amigos e ter muitos namorados. Naquele momento, eu me senti muito magoada com meu pai. Enquanto ele viajava quase todo final de semana e chegava tarde em casa muitas noites para estar com seus amigos, eu ficava isolada naquela casa junto à floresta, lendo os livros que ele dizia que seriam bons para a formação da minha personalidade. E a maioria daquelas pessoas nem deveria saber que eu existia, que eu era a filha dele!

Meu pai me protegia do mundo apenas para que eu não desse trabalho a ele, para que eu não ficasse no caminho dele.

De repente, lembrei-me de uma discussão que eu ouvira entre ele e minha mãe quando eu tinha seis anos, uma cena da minha vida que tinha sido totalmente apagada da minha memória. Eu acordei no meio da noite, e ouvi vozes alteradas vindas da sala de estar. Eu abri a porta do quarto e me sentei nos primeiros degraus, e vi meus pais discutindo. Minha mãe chorava, e perguntava a ele: “Você estava com ela, não estava? Você está sempre com ela, nem liga mais para nós! Só quer saber dessa... Natália!” Meu pai estava sentado no sofá, a cabeça entre as mãos: “Sim, eu estava com ela, e sabe por quê? Porque lá eu tenho paz!”

Meu estômago revirou. Corri até o banheiro, seguida pela minha tia, que segurou meu cabelo enquanto eu vomitava. Eu não estava pronta para aquele torvelinho de memórias repentinas.

Eu nunca, até hoje, compreendi como aquela cena tinha voltado tão de repente, se eu nunca pensava nela, nem sequer me lembrava daquele dia. Eu cresci acreditando que o casamento dos meus pais era alguma coisa sagrada, e que o amor dele pela minha mãe era tão puro e profundo ao ponto de ele jamais querer se casar de novo. Ele me fez acreditar naquilo. Eu cresci com aquele pensamento. Mas ele mentiu. Ele não se casou de novo porque, na verdade, nunca foi talhado para o casamento. Sua vida era ter muitas mulheres e não ser de nenhuma.

Aquele nome nome não me saía da cabeça: Natália. Eu ouvira minha mãe gritar aquele nome naquela noite, há anos atrás, quando eu tinha seis anos.

Lavei o rosto na pia do banheiro, enxugando-o com uma toalha de papel que tia Atena me entregou. Me olhei no espelho, e vi que eu estava muito pálida. Tia Atena me olhava, preocupada. Ela me perguntou:

-Você está melhor?

Não respondi; ao invés disso, perguntei:

-Quem é Natália? Ela está aqui?

Vi minha tia empalidecer e gaguejar:

- Quem? Natália... que Natália? Não conheço nenhuma Natália.

Eu tinha certeza de que ela estava mentindo. Insisti:

- Se você não me disser a verdade, eu vou entrar lá agora mesmo e gritar o nome dela. Então eu vou saber quem ela é.

Ela sabia que eu faria exatamente aquilo. Tia Atena concordou com a cabeça, vencida.

-Eu vou te dizer quem é Natália. Mas será que você pode esperar até o final do velório? Vamos enterrar seu pai primeiro.

-Mas você promete que vai me contar?

- Eu prometo que vou te contar. Vou passar a noite na sua casa hoje, só nós duas, e te conto tudo. Mas por favor, não faça nenhum escândalo. E não importa o que eu te disser, quero que saiba de uma coisa: seu pai amava muito você. Você era o centro da vida dele. E se ele mentiu para você, foi para poupar você de qualquer sofrimento. Mas por favor, Valentina, agora não. Não é hora.

Dizendo aquilo, ela voltou para a sala onde meu pai estava sendo velado, e eu a segui, em silêncio. Quando entramos, notei que algumas pessoas me encararam. Ergui a cabeça e as encarei de volta, e elas baixaram os olhos.

E foi assim o dia em que eu enterrei meu pai.



(CONTINUA...)






 

quinta-feira, 3 de março de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - Parte 2

 





Parte 2

 

Desperto na manhã seguinte com um barulhinho na vidraça. Abro a cortina devagar, e vejo que é um passarinho bicando o vidro. Ele voa para longe quando me vê. Pela posição do sol eu percebo que já passa das dez da manhã, e ao olhar o relógio na mesa de cabeceira, confirmo. De repente, o tal passarinho volta a pousar à janela, bicando o vidro e piando de mansinho. É uma saíra azul, a espécie preferida do meu pai. Ela agora parece não ter medo de mim. Fico olhando para ela, me deixando acreditar que aquela é apenas uma manhã normal, como tantas outras.

São as férias de julho da escola. Estou no último ano. Penso em voltar ao hospital, e ao mesmo tempo, me pergunto o que eu vou fazer lá, se meu pai já não está mais lá. Mas é o meu dever estar lá quando acontecer. Não quero que ele se vá sozinho, então visto meus jeans, calço meus tênis de lona encardidos, escolho uma camiseta cinza no armário e um casaco de moletom preto. Passo as mãos e uma escova pelo meu cabelo ondulado e castanho, desembaraçando os fios. Me olho no espelho: apenas uma adolescente normal, penso.

Mas quando pego meu celular, percebo que houve várias ligações do hospital naquela manhã, e eu me esqueci de ligar o som do telefone antes de dormir. Enquanto seguro o aparelho, ele toca. Atendo.

- Por favor, é da casa do senhor Otávio Moreno?

Concordo com a cabeça, engolindo em seco. Ela repete a pergunta, e percebo que não a respondi em voz alta.

-Sim.

-Com quem falo, por favor?

-Sou Valentina, filha dele.

- Senhorita Valentina, precisamos que compareça ao hospital e que traga documentos e uma muda de roupas para o seu pai.

-Ele... melhorou?

- Não posso informar. Por favor, peço que compareça ao hospital imediatamente.

Desligo o telefone, pensando que se me pediram para levar roupas para o meu pai, é porque ele acordou e melhorou. Escolho uma camisa azul que ele adora e um par de jeans. Antes de sair, ligo para o tio Heitor:

-Tio, ligaram do hospital pedindo para eu levar documentos e uma muda de roupas. Acho que o papai melhorou!

Ele diz alguma coisa para minha tia, mas não consigo ouvir o que é. Depois, ele responde:

-Estamos indo para lá também.

Entro no ônibus após esperar durante vinte intermináveis minutos. O ar frio da manhã deixa meus dedos arroxeados, mas eu não ligo. Entro no ônibus e dou bom dia às pessoas, e algumas respondem, enquanto outras me olham com uma cara indiferente. Começa a chover no caminho até o hospital, e a chuva bate no vidro da janela do ônibus. Após uma viagem de meia hora, finalmente chego ao hospital. Meus tios estão me aguardando na recepção, e me abraçam de uma forma estranha. Digo:

-Eu trouxe as roupas e os documentos. Como ele está?

Olho por cima do ombro e vejo o médico de braços cruzados, e a cara dele não é boa. Ele se aproxima ao me ver.

Entendo tudo, meu pai não melhorou. Ele não melhorou, e eu não estava lá com ele. Eu o deixei ir embora sozinho. Digo aquilo em voz alta. Tio Heitor diz para eu ficar calma, e não me preocupar, pois ele “vai cuidar de tudo.” Só quero ver o meu pai, mas o médico me diz que ele ainda está no necrotério, e me pede as roupas. Meu tio pega a sacola da minha mão e faz sinal para Tia Atena me tirar dali, e ela me puxa para a cafeteria do hospital. Eu me deixo levar, pois não sei o que mais eu poderia fazer. Olho para trás e vejo meu tio conversando com uns homens de terno, que mais parecem urubus. Minha tia me diz que são agentes funerários. Ela me diz para não me preocupar com nada, pois o Tio Heitor ia cuidar dessa parte.

Estou sentada em frente a minha tia na cafeteria do hospital. Ela assopra um café preto, dando pequenos golinhos, e eu seguro uma xícara de café com leite entre as mãos sem tomar nada. Diante da gente, um cesto com cookies de chocolate que me embrulham o estômago só de olhar. Ela me pede para comer algo, pois o dia seria longo. Mas eu não consigo. Minha tia começa a mastigar os biscoitos um a um, enquanto chora. Mas eu não consigo chorar. Ela segura a minha mão por cima da mesa:

- Valentina, você não está sozinha, e é importante que você entenda isso. Vamos arrumar um quarto lá em casa para você passar a noite, não se preocupe com nada. Depois tratamos da sua mudança para a nossa casa...

Eu a interrompo:

- Não precisa, tia Atena. Eu vou para a minha casa. É lá que eu vou morar.

-Mas você não pode... ainda é menor de idade.

-Posso sim, eu sou emancipada. Meu pai me emancipou. Ele sempre soube que eu posso tomar conta de mim mesma.

Ela parece surpresa, e ao mesmo tempo, aliviada. Não consegue suprimir um longo suspiro que eu interpretei como sendo de alívio. Tia Atena é uma ótima pessoa, mas nunca gostou de tomar conta de crianças, e eu sei que ela pensa que eu sou uma criança.

Alguns minutos depois, meu tio senta-se à mesa conosco. Diz que o velório foi marcado para a manhã seguinte, e que ele já estava avisando a todo mundo. Agradeço, pois eu não saberia como fazer isso: “Oi, aqui é a Valentina, e estou ligando para avisar que o meu pai morreu.” Olho para o meu tio, e de repente ele me parece dez anos mais velho. Ele e meu pai eram muito próximos. E eu sei que ele me ama. Pergunto:

- Você avisou aos meus avós?

-Sim, Valentina. Eles disseram que sentem muito por não poderem comparecer, mas seu avô está com a pressão muito alta. Disseram que vão te ligar mais tarde.

Pensei que nem precisaríamos avisar à tia Agnes, pois ela com certeza não conseguiria chegar a tempo, e talvez nem estivesse interessada. Ela e meu pai nunca tinham sido exatamente amigos, mas meu tio disse que tinha mandado uma mensagem para ela.

Quando terminamos o café, fomos novamente até a recepção do hospital, pois eu queria ver o meu pai antes de ir, mas me informaram que ele já tinha sido levado para ser preparado para o velório. Olhei para meu tio zangada, pois ele tinha me prometido que eu ia ver meu pai. Ele me disse:

-Querida, é só o corpo dele, ele não está mais entre nós. Eu só quis te poupar de um sofrimento desnecessário. Amanhã você terá a chance de se despedir do seu pai.

Meus tios disseram que iam passar a noite na capela mortuária, mas perguntei a eles:

-Para quê? Vão para casa. Meu pai não está lá, é só um corpo.

 E foi assim o dia em que meu pai morreu.


 (continua)




terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - Parte 1






Esta é a história de uma adolescente que precisa seguir com sua vida após a morte do pai, que a emancipou antes de morrer. Porém, antes, ela precisa descobrir a verdadeira história de sua família, aquela que ninguém lhe contou.


SOZINHA

Parte 1

Quando alguém está muito doente, quem o acompanha é quem mais sofre, e é visitado por sentimentos inconfessáveis. Estar diante da dor de quem se ama em uma posição totalmente impotente é, talvez, uma das piores dores. Chega um momento em que não aguentamos mais. Passamos a desejar que alguma coisa – qualquer coisa – possa acontecer e mudar aquela situação. Porém, não se pode dizer isso aos outros, pois eles não estão prontos. Eles não sabem como é. Eles têm suas crenças e opiniões sobre tudo, e gostam de acreditar que as outras pessoas pensam e sentem da mesma forma. Eles passam por aquele quarto, e da porta, lamentam e dizem palavras que consideram como sendo motivadoras: “Ele vai melhorar.” “Confie em Deus.” “Você precisa ter fé.” Depois, caminham pelo corredor, se afastando cada vez mais, tentando esquecer o que viram e voltar para suas vidas e seus problemas, dando graças a Deus por não estarem no nosso lugar.
Mas eu não os culpo. Não há muito mais que se possa fazer.
Certa vez, achei absurda a fala de alguém que há muitos anos me disse; “Só quero que tudo isso acabe.” 
Mas hoje, sou eu quem digo a ele: “Só quero que tudo isso acabe.” E peço aos céus que seja logo. Eu me sinto presa aqui, eu me sinto impotente, fraca, vulnerável, imensamente triste, e com aquela sensação de que ainda temos um longo caminho pela frente, um caminho cheio de dor, noites sem dormir, crises de desespero (que preciso viver o mais silenciosamente possível, trancada no banheiro do quarto de hospital para que ele não me escute).
E a comida esfria na mesa, me embrulhando o estômago. E a cada dia, um pouco mais dos meus ossos se tornam visíveis sob a blusa de malha. Às vezes, chego a pensar que eu vou primeiro, e que não seria nada mal. Assim, não teria que lidar com o que vem depois que tudo acabar.
Os amigos e familiares telefonam para saber como ele está. Mas na verdade, eles não querem ouvir. Raramente, me perguntam como eu estou. E nas raras vezes em que eu respondo – estou um caco, não sei mais como eu estou, já passei do desespero – eles só me dizem para ter fé e continuar acreditando. Daí eu olho para ele, deitado naquela cama, cercado por aparelhos e tubos, e me pergunto se essas pessoas sabem, realmente, com o que eu estou lidando.
Ontem, após três dias, ele acordou e me olhou. Abriu os olhos lentamente. Não sei se me reconheceu (eu ando irreconhecível até para mim mesma). Depois, fechou os olhos novamente, como quem não deseja mais ficar. Falei com o médico, e ele me disse que isso pode acontecer nessa fase, mas ele me disse que isso é normal, e não significa que o paciente está melhorando. É apenas um reflexo. O médico me olhou com aquela cara de pena e me disse para ir para casa. Que se houvesse alguma mudança, eles me avisariam.
Pela primeira vez em dias, eu concordei com ele.
A visão da minha cama me trouxe sentimentos controversos: eu só queria me jogar nela e dormir para sempre. Ao mesmo tempo, como eu podia estar pensando em dormir quando meu pai estava naquele estado? Achei melhor comer alguma coisa, forçando cada gole de café e cada pedacinho de pão garganta abaixo. Depois, tomei meio iogurte. O resto eu joguei fora. Simplesmente não desceu. 
Fico feliz que meu pai tenha antecipado a minha maioridade. Aos dezessete anos, por lei eu teria que ser acolhida por algum parente ou então ir para uma instituição. Mas assim que ele soube do quão grave era a sua doença, ele fez questão de me antecipar: “Não quero que ninguém estrague o trabalho que eu e sua mãe fizemos em você.” Ele também cuidou de toda a parte legal da coisa, para que eu não tivesse que me preocupar com nada. Pelo menos, não com nada material.
Meu pai só tem cinquenta e seis anos. Poderia viver muito, ainda, poderia ver eu me formar, casar, e quem sabe, me transformar naquilo que ele mais temia: uma pessoa comum. Ele vivia me dizendo o quanto eu sou extraordinária, o quanto eu tenho talento, e que eu jamais deveria me deixar levar pelas pressões alheias para ser isso ou aquilo. 
Minha mãe morreu quando eu tinha apenas sete anos e meio, e meu pai fez questão de terminar de me criar. Ele me ensinou a ser seletiva quanto às minhas amizades, e só desejar a companhia de pessoas que me acrescentassem alguma coisa. No começo, eu não entendi bem, mas depois, quando cheguei ao ginásio, eu compreendi o que ele quis dizer: a superficialidade das outras meninas me enjoava. Elas só queriam saber de garotos, vestidos, roupas, maquiagem. Falavam mal umas das outras sempre que podiam, competiam entre si, mesmo sendo “amigas” e viviam contando vantagem, como se estivessem em algum tipo de concurso de popularidade.
Os meninos, ah, os meninos... eles só queriam uma coisa. Só uma coisa. E achavam que tinham o direito de ter o que queriam, o que era concedido sem muito esforço da parte deles pela maioria das meninas. E foi no ginásio que eu comecei a me afastar cada vez mais de tudo. Achava que eu e meu pai nos bastaríamos. E passamos muitos bons momentos juntos. Ele lia para mim, ele me indicava livros e músicas. Mas às vezes, ele sumia nos finais de semana, ou chegava tarde em casa à noite. Minha tia Atena costumava tomar conta de mim naquelas ocasiões, ou então ele contratava uma baby sitter.
Quando minha mãe morreu, ele vendeu a nossa casa de condomínio em Teresópolis e comprou uma outra bem menor, junto a uma floresta que ficava em Lumiar, em uma rua afastada do centro da cidade. Eu não me lembro muito da outra casa, mas todos diziam que ela era muito bonita e bem maior do que esta, e que tinha sido um presente dos meus avós quando minha mãe se casou com meu pai. Meus avós eram muito ricos, e aquela casa era apenas uma das muitas propriedades que eles tinham. Eles não eram muito próximos da gente, pois não gostavam muito do meu pai, como fiquei sabendo mais tarde. Depois que minha mãe morreu, eles se afastaram ainda mais, embora me mandassem presentes de Natal e aniversário, cartões e convites para passar férias com eles, mas meu pai sempre arranjava outras coisas para fazermos nas férias, então eu nunca cheguei a visitá-los.
 A nossa casa é rústica, feita com largas toras de madeira. É aconchegante. Mas a Grota do Retiro não é exatamente um bairro residencial, é mais uma estrada, uma passagem. Os vizinhos mais próximos ficam a quinze minutos de carro, e não há muitos deles. A nossa água vem de uma mina, que meu pai me ensinou a limpar e a cuidar, e a nossa eletricidade vem de painéis fotovoltaicos e também de um gerador de emergência que fica no celeiro. Plantamos muitas coisas: tomates, verduras, frutas, para consumo próprio. Meu pai me ensinou a cuidar de tudo e a ser o mais independente possível. Mesmo assim, temos um senhor que vem duas ou três vezes na semana para fazer algum serviço de manutenção e dar uma olhada nas minas e nas hortas. 
Meu pai trabalhava como marceneiro, e ganhava o suficiente para termos uma boa vida. Minha mãe deixou para mim sua parte na herança da avó dela, mas meu pai jamais usou o dinheiro, dizendo que ele ficaria para eu usar como eu quisesse. Tive acesso às contas, através do advogado do meu pai, e é uma boa quantia de dinheiro que vai me permitir fazer muitas coisas e ficar anos sem ter que trabalhar. Se eu poupar bastante, pode ser que eu nunca precise, pois as nossas despesas são muito baixas, já que nossa casa é totalmente sustentável e nosso estilo de vida, bem simples.
Nossa casa, em si,  não é muito grande; temos cerca de 80 metros de área construída e um terreno de aproximadamente quatrocentos metros, por onde corre um riacho que nasce no alto da montanha e cruza toda a floresta até chegar ao nosso quintal. Usamos a água para regar as hortas e abastecer a cozinha e o banheiro. Estamos próximos a uma área de preservação, então eu acho que não vou ter problemas quanto a isso.
Nosso estilo de vida fez com que eu fosse vista na escola como a ermitã esquisita. Mas na maior parte do tempo, meus colegas me deixavam em paz, pois percebiam que seus ataques não surtiam nenhum efeito em mim. Além disso, hoje eu tenho nos fundos da casa uma pequena plantação de algo que eles adoram, e sendo eu uma boa fornecedora, eles me deixam em paz.
Temos muito pouco contato com alguns dos nossos poucos parentes – Tia Agnes, irmã de mamãe, que mora na Europa com meus dois primos; Tio Heitor, irmão de meu pai e sua mulher, Atena, que moram por perto, e com eles, temos contato regularmente; e meus avós por parte de mãe moram em outro estado. A última vez que vi Tia Agnes, meus avós e meus primos, foi no velório de minha mãe. Tio Heitor e tia Atena costumam vir nos finais de semana para jogar cartas com meu pai, e passamos alguns momentos divertidos, isso é, quando Tia Atena não resolve cozinhar, pois a comida dela é péssima. Mas depois que meu pai piorou, eles só o visitam no hospital e não vem mais aqui quando sabem que eu estou sozinha em casa. Acho que é porque não sabem o que me dizer, ou o que fazer comigo quando meu pai se for. Acredito que não querem a responsabilidade de assumir uma garota de dezessete anos, já que nunca tiveram filhos por opção. Mas eles não sabem que meu pai me emancipou.
Estou sentada no sofá da sala, enrolada em uma toalha de banho. Tenho na minha frente, sobre a mesinha, os documentos que me conferem a minha liberdade, e também os números das contas bancárias e os dados e documentos de um pequeno apartamento que meu pai aluga para uma família no centro da cidade. Estou ciente de tudo. Eu ficarei bem, financeiramente. Meu pai me ensinou a ser forte e independente. Segundo ele, eu ficarei bem. 
Mas eu não sei se posso. É muita coisa. É assustador. Minha vida é um grande ponto de interrogação. Mas quando ainda estava bem, meu pai me disse um dia que a vida de todos era um grande ponto de interrogação, mas as pessoas gostavam de fingir que tinham tudo sob controle. 
Ele também me ensinou a aceitar a morte, e eu fingi que aprendi. Meu pai me explicou que morrer faz parte da vida, que todos morreremos um dia, que o que importa não é com quantos anos, e sim viver de forma intensa, etc., etc., e mais um monte de clichês. Meu pai nunca foi um homem religioso, mas ele me confessou que acredita que a vida continue em algum lugar, e me falou sobre umas coisas que aconteceram com ele após a morte de minha mãe. Ele me disse que a viu em vários sonhos, e que uma noite, enquanto ele estava tomando café na cozinha, ela apareceu para ele. Acho que ele me disse a verdade – ou pelo menos, o que ele acha ter sido verdade. Porque meu pai jamais mentiu. E eu acho que por achar que minha mãe continua viva em algum lugar, ele nunca se casou, embora ainda fosse jovem, bonitão e muito assediado pelas mulheres. Saiu com algumas delas – ok, muitas delas – mas jamais trouxe nenhuma para a nossa casa.
De vez em quando, no hospital, uma delas aparece com flores, derrama algumas lágrimas, olha para o meu pai com saudades. Elas se apresentam como “amigas” de meu pai.  Depois, elas me abraçam talvez pensando que poderiam ter se tornado minhas mães, e vão embora, dizendo que se eu precisar de alguma coisa, é só chamar. Mas elas nunca se lembram de deixar um telefone ou um endereço. Todas são sempre muito bonitas, e vi que algumas tinham alianças de compromisso na mão esquerda. Meu pai gostava de viver perigosamente, pelo jeito.
Às vezes, ele viajava por alguns dias, geralmente, um final de semana, e eu ficava com o Tio Heitor e Tia Atena, ou seja, eles vinham ficar comigo. Mas meu pai sempre voltava na segunda-feira. Sempre sozinho, e às vezes, calado e cabisbaixo. Uma vez perguntei por que ele não se casava de novo, e ele me disse: “Quem teve uma mulher como a sua mãe, jamais encontrará outra à altura.” Pensei que aquilo soou como uma maldição.
Me deito para dormir entre os lençóis e cobertores macios e aconchegantes da minha cama. Meu último pensamento é para o quarto impessoal e frio onde meu pai dorme.
(continua...)




A RUA DOS AUSENTES - Parte 12 (FINAL)

  A Rua dos Ausentes - parte 12 - Final E naquela noite, havia pessoas na Rua dos Ausentes reunidas cada qual por um propósito diferente: Al...