terça-feira, 26 de maio de 2015

As Ruas das Árvores que Choram - Histórias em Petrópolis





Petrópolis é uma cidade charmosa. O Centro Histórico é um lugar gostoso de se percorrer à pé, pois o trânsito, com o passar do tempo, tornou-se muito mais intenso do que a cidade pode suportar. Muitas pessoas estão vindo morar aqui, o que tem causado uma lamentável explosão demográfica. É só percorrer as ruas de Correias e Itaipava para ver a quantidade absurda de condomínios de luxo que estão sendo erguidos por la´. Só fico pensando no que será da cidade depois que estiverem prontos e habitados; haverá água para tanta gente, já que com as mudanças climáticas e o aumento de população a falta d'água já se faz notar? Como ficará o trânsito, o que as pessoas terão que fazer para ir ao trabalho todas as manhãs? Imagino quilômetros de engarrafamentos. Acho que Petrópolis não foi feita para crescer assim, não há espaço.

Ao mesmo tempo, opostas aos condomínios de luxo, há as comunidades que surgem em todos os lugares: encostas de montanhas, beiras de estradas, terrenos baldios que são invadidos sem que ninguém faça nada para impedir. A violência já começa a aparecer por aqui, e já não é mais tão seguro andar pelas ruas de Petrópolis à noite. Há histórias de assaltos a residências, estupros, assassinatos e tráfico de drogas. Lamento muito pela nossa cidade... nosso pequeno paraíso está sendo destruído aos poucos. 

Mesmo assim, Petrópolis será sempre uma das cidades mais lindas que conheço. Já estive em  alguns lugares ao redor do Brasil, e digo, com certeza, que ainda não vi cidade melhor para se viver. E tanto é verdade, que todos os dias pessoas se mudam para cá, deixando suas cidades. Conheço muitos Petropolitanos que preferem ter que comutar para o Rio todos os dias a fim de chegar ao trabalho a mudar-se para lá, e cariocas que, mesmo continuando a trabalhar no Rio, mudam-se para Petrópolis. 

O mercado de trabalho aqui é restrito; não há investimento nesta área. Os impostos são altos e não há incentivos fiscais, o que não ajuda em nada para que o quadro melhore. Os aluguéis de imóveis comerciais no centro da cidade são um verdadeiro absurdo, e as lojas não conseguem sobreviver à especulação imobiliária que está nas mãos de poucos proprietários da maior parte dos imóveis, que exigem luvas gritantemente absurdas na renovação de contratos, o que obriga comerciantes a fecharem suas lojas. Há um verdadeiro cartel imobiliário na cidade. 

O valor dos imóveis residenciais para aluguel e vendas também ultrapassa bastante os valores encontrados em outras cidades. Viver em Petrópolis é caro. 

É preciso que alguma coisa seja feita, antes que nossa cidade se perca para sempre. Tenho medo de que, daqui a alguns anos, as árvores que choram tenham, realmente, motivos para chorar. 


FIM

segunda-feira, 18 de maio de 2015

AS RUAS DAS ÁRVORES QUE CHORAM - Histórias em Petrópolis


foto de família: minha irmã Dal e meu falecido sobrinho Ricardo; minha sogra, minha mãe, Tia Rosa, eu e meu marido, então, namorado. Há 30 anos.




Meu avô era da época em que todo homem usava chapéu e gravata. Lembro-me de quando ele nos visitava - morava em Niterói, pois trabalhava como copeiro na casa de madame Nair de Tefé. Chegava trazendo sempre bolsas e mais bolsas cheias de guloseimas, e algumas ele distribuía entre os meninos que ajudavam-no a carregar as sacas do táxi até  a nossa casa. Era sempre uma festa quando ele chegava, e apesar de sua morte ter ocorrido quando eu tinha apenas oito ou nove anos de idade, ainda me lembro dele muito bem; meu avô tinha características marcantes. Por exemplo, não comia carne, era espírita Kardecista, chegou a fazer parte do Partido Integralista por algum tempo (minha mãe contou-me que quando Getúlio Vargas assumiu a Presidência, ele e muitos outros queimaram seus uniformes verdes nos fundos de quintais), sempre usava chapéu e teve muitas mulheres.  Além disso, era extremamente generoso, ao ponto de abrir mão de suas casinhas para abrigar pessoas que não tinham onde morar. Tais pessoas abusaram muito de sua boa vontade. Meu avô sempre dizia que imóvel não se vende, se compra.

Quando ele e sua família, os D'Agostinni, chegaram a petrópolis fugindo da Primeira Guerra, vindos da Itália, meu avô era bebê. Naquele tempo, ele se chamava Rezier D'agostinni, mas ao fazer o registro de nascimento aqui no Brasil, não sei por que cargas d'água ele foi rebatizado como Rogério Agostinho. Acho que abrasileiraram seu nome. Mas meu avô acabou usando ambos os nomes, o que causou muita confusão na hora de preparar o inventário dos poucos bens que ele deixou. A família D'Agostinni acabou se dispersando, entre Agostinhos, D'Agostinhos e outras variações. Minha mãe, por exemplo, era Ruth Agostinho. 

Quando chegaram por aqui, meus avós compraram a casa onde, mais tarde, minha família veio a morar. Também compraram uma bela casa na antiga Rua João Pessoa, atual Nelson de Sá Earp, que existe até hoje. Hoje, no andar térreo funciona um restaurante e também uma franquia das Empadas Brasil. Na divisão de bens, meu avô ficou com a casinha onde minha família morou a vida toda enquanto nós, os filhos, éramos solteiros. Mais tarde, ele também comprou um pequeno terreno no antigo Bairro Indaiá - hoje São Sebastião - e outro em Visconde de Itaboraí.  Minha mãe dizia que tudo o que compraram foi conseguido juntando dinheiro com as vendas das frutas e legumes que vendiam de porta em porta. 

 Na época que ele comprou o nossa casa,  não havia absolutamente nada naquele bairro. A estrada era de terra, cheia de matos, e com pouquíssimas casas. O bairro foi sendo construído em volta da nossa casa. Minha mãe contava que, quando foi morar lá, ao casar-se, sentia-se muito sozinha. Aos domingos, depois que as crianças começaram a nascer, a família ia à pé para a casa de minha avó, mãe de meu pai, no Bairro Duchas. É bem longe. Muito longe para se ir à pé levando crianças no colo, bolsas com fraldas e mamadeiras e outras coisas. Mas durante muito tempo, não havia ônibus. No final do dia, eles faziam todo o caminho de volta. Imagino a cena: meus pais com crianças adormecidas subindo no escuro a enorme ladeira que levava à nossa casa, cansados, após um domingo cheio. 

Quando meu avô morreu, minha mãe vendeu os terrenos do Indaiá e de Visconde de Itaboraí, indo contra a máxima sagrada de meu avô de que terra não se vende, se compra. Mas no fim, o que nos resta mesmo é "Aquela parte que nos cabe nesse latifúndio..."

As fotografias do meu avô , em preto e branco, mostram um homem bonito e elegante, sentado em um dos bancos da Praça D. Pedro, ou caminhando pelas calçadas quadriculadas da antiga Petrópolis, ou vestido de índio com amigos, fingindo caçar. Meu avô era um homem bastante bonito, e talvez por isso tivesse muitas mulheres. Aos poucos, minha mãe foi fazendo contato com seus irmãos "ilegítimos:" um deles, meu tio David, que ninguém sabia se era realmente filho de meu avô, e mais dois irmãos em Taubaté, São Paulo. Quando os irmãos de São Paulo vinham passar uma temporada com alguns membros da família, a nossa pequena casa ficava cheia! Era uma festa... aliás, duas: quando chegavam e quando iam embora. 

Passeando pelas ruas e praças de Petrópolis, constato que muitas das árvores que choram hoje são as mesmas que choravam na época em que meu avô vivia. Ele também passou por elas. Ele sentou-se nessas praças por onde eu passo, e talvez tenha visto muitas carruagens onde eu hoje vejo carros e ônibus. Ele fazia compras em lugares como a Casa D'ângelo - hoje, um bar e restaurante badalado - e quem sabe, na Sapataria Schettini, Casa Sloper, Confeitaria Obelisco (atual Padaria Petrópolis) e Modas De Carolis. Passo pelas casas onde minha mãe morou quando pequena: em uma delas, hoje funciona a Águas do Imperador. O Colégio Nossa Senhora do Amparo ainda existe, mas sem o internato. No Bairro Duchas, onde meus avós por parte de pai moravam, ainda moram alguns parentes daquelas épocas, mas perdi contato com eles. A casa de meus avós foi demolida. 

Havia um rico senhor da família Moscatel que comprou todas as casas simples daquele bairro. Eu não me lembro dele, era muito pequena quando meus pais iam passear no gramado da chácara dos Moscatel após o almoço de família na casa de minha avó. Meu avô por parte de pai trabalhou para aquela família, e por isso, tínhamos permissão para circular por lá. A única coisa da qual eu me lembro, é de um gramado muito verde, inclinado, sobre o qual eu rolava. E o sol passando pelas folhas das árvores, o brilho em meus olhos quando eu olhava para cima. E é claro, uma sensação de estar segura e protegida. Ainda tenho algumas peças do faqueiro que minha mãe recebeu de presente de casamento da família Moscatel. Ela enrolou as poucas peças que restavam com um elástico, embrulhadas em um bilhete que dizia mais ou menos o seguinte: "Ana, guarde estas peças, você que dá valor a estas coisas. São uma relíquia de família, as únicas peças que restaram do meu faqueiro de casamento."

As peças ainda existem... estão no sótão, enroladas no bilhete, da mesma maneira que ela as deu para mim. Há muito tempo eu não me lembrava delas, até agora... acho que vou mandar descê-las e conseguir um lugar de honra para elas na minha cristaleira.

(continua...)




segunda-feira, 11 de maio de 2015

AS RUAS DAS ÁRVORES QUE CHORAM - HISTÓRIAS EM PETRÓPOLIS






Quando pequena, e durante minha adolescência, eu brincava nas ruas do meu bairro. Cresci no Caxambu. Mal eu e minha irmã chegávamos da escola e almoçávamos, procurávamos reunir os colegas para jogar queimado, brincar de pique-bandeira ou pique-esconde ou simplesmente, conversar. Lembro-me de algumas festas de São João que fizemos num terreno baldio que nós mesmos capinamos e acertamos. Enfeitávamos tudo com bandeirinhas e bambus, e certa vez, um dos amigos "conseguiu" um pneu usado com o qual alimentamos uma fogueira... aquela fogueira deu muita confusão quando o dono do pneu descobriu!

Durante alguns anos, houve uma casa em obras perto da nossa, e nós íamos lá quando não havia ninguém. Brincávamos de pular nos montes de barro, e chegávamos em casa tão imundas, que um dia a mãe nos impediu de entrar em casa; chovia, e tínhamos feito guerra de lama. Ela ficou furiosa, e mandou que aguardássemos o pai chegar para que ele decidisse o que faria conosco... ficamos no velho barracão onde ele tinha sua oficina, olhando a chuva cair até escurecer. Lembro-me que estava com fome e frio. Depois que ele chegou, deu-nos uma boa bronca, mandou que tomássemos um banho e entrássemos em casa. 

Naquela mesma obra, em outra ocasião, enquanto olhávamos a chuva cair sentados em troncos de madeira, nós sonhamos com o que gostaríamos de ser no futuro... muitos daqueles sonhos (e sonhadores) se foram cedo, arrancados de nós pela realidade. Recordo-me de colegas que morreram jovens, como o Nando e o Cacau. Eram irmãos, sendo que Cacau era filho de criação, e negro. Foi-se aos dezoito anos, com cirrose hepática, e o Nando, aos vinte e quatro, com meningite. 

Um dia, o prefeito decidiu construir uma pista de esqui no bairro Floresta. As obras eram visíveis dos fundos do nosso quintal. Vimos o teleférico sendo instalado, e logo tivemos a ideia de dar uma olhada mais de perto... a gente levava pipas para soltar por lá (eu não gostava de soltar pipas, pois meus olhos nunca aguentaram muita claridade). Lá, nós também pulávamos nas imensas pilhas de barro macio... depois escalávamos a encosta, afundando no barro até os joelhos, e pulávamos lá de cima de novo. 

Uma vez, quando finalmente a 'pista de esqui' foi inaugurada, eu finalmente dei uma volta no teleférico, que já parecia ser velho... eu olhava tudo lá de cima, enquanto um alto-falante  mandava ver na música "Every Little Thing She Does is Magic," do grupo The Police. Até hoje, sempre que escuto esta canção, eu me lembro daquele dia.  Foi a primeira e a única vez. Logo a pista foi desativada, e as obras nunca foram concluídas. Hoje, dizem que ainda existem as ruínas daqueles tempos pretensiosos em que todos pensávamos que nossas casas com vista para o teleférico seriam supervalorizadas, e nosso bairro se tornaria famoso e procurado por turistas do mundo inteiro. A obra toda deve ter sido apenas uma forma de justificar gastos públicos, mas éramos inocentes demais para perceber.

As minhas solas estão acostumadas ao barro vermelho e macio e à água que corria pela rua quando chovia e eu afundava os pés tentando não perder meus chinelos... Parece que a essência daquele barro e daquela água penetrou sob a pele e chegou ao coração, e acho que eu jamais serei capaz de passar muito tempo longe de Petrópolis. Sinto saudades dos tempos em que o clima era mais frio, e nós nos aconchegávamos a cobertores no sofá da sala para ver filmes nas tardes de sábado, comendo doce de abóbora ainda quente. E das vezes em que eu andava sozinha pelas ruas, mãos afundadas nos bolsos de um casaco marrom comprido, com gola de pelo que "herdei" de minha irmã, encaminhando-me para a loja onde encontrava minha outra irmã aos sábados para que, depois do expediente, encontrássemos alguns amigos e fossemos ao cinema ou a algum outro lugar. 

As ruas são as mesmas, as árvores centenárias ainda choram. Mas muitas pessoas se foram, ou simplesmente mudaram, tanto que hoje somos apenas estranhos. As significâncias tomaram outros sentidos menos alegres. Ou quem sabe, elas sempre tenham sido assim; eu é que nunca percebi antes. Só sei que a menina que eu fui ainda caminha por essas ruas levando sua fé de criança, embora esteja à procura de algo ou alguém que jamais encontrará. Eu às vezes tenho pena dela.

(continua...)



terça-feira, 5 de maio de 2015

As Ruas das Árvores que Choram -Histórias em Petrópolis




Às vezes chove forte em Petrópolis. As árvores que choram ficam com seus troncos quase negros, embebidos de tanta chuva, e algumas delas caem. Assim como caem as casas que ficam nos altos dos morros, construídas sem qualquer critério ou noções de engenharia. Elas se desfazem feito papelão, escorregando pelas encostas, levando consigo vidas e histórias. Aqui, todo mundo conhece alguém que morreu em um desabamento. Mesmo assim, as construções ilegais continuam sempre acontecendo, e ao invés de serem detidas, assim que ficam prontas as autoridades responsáveis enviam-lhes carnês de IPTU e contas de água e de luz. Todo mundo sabe, só de olhar, que cedo ou tarde, elas vão cair; inclusive quem vive nelas. Mas quando a defesa civil passa seus alertas, ordenando que sejam desocupadas, ainda há quem prefira permanecer nelas e arriscar a própria vida em prol de fogões e geladeiras.

Uma vez, contaram-me a história de uma dessas famílias que sofreu durante as enchentes de 2011. Vou tentar recontá-la aqui, omitindo nomes e tentando recriá-la, fazendo uma narrativa em primeira pessoa. Não me lembro com detalhes de toda história, e preencherei suas lacunas com minhas próprias conclusões, mas a história é real, aconteceu com pessoas reais, e enquanto eu a ouvia, o terror daquelas pessoas passava diante dos meus olhos. Chorei ao final da narrativa. Tudo aconteceu em janeiro de 2011, dias antes da morte do meu sobrinho, e por isso lembro-me bem daquele ano. Enquanto vivíamos a nossa própria tragédia, outras pessoas também viviam as suas. Alguns perderam tudo o que tinham: casas, negócios, carros e membros da família. Esta é uma destas histórias.

Era noite, e chovia forte no Vale do Cuiabá, onde eu vivia com meu marido. Meus sogros e um sobrinho de cinco anos estavam em nossa casa. Eu estava grávida de oito meses. Tínhamos certeza de que morávamos em local seguro, pois não havia, próximo à nossa casa, morros ou rios. Mesmo assim, quando a luz acabou por volta das dez da noite, senti um calafrio percorrer meu corpo, apesar de ser uma noite quente.

Estávamos no primeiro andar da casa, e eu procurava algumas velas, quando de repente, ouvimos um estrondo indescritível de coisas se quebrando. No escuro, não sabíamos o que estava acontecendo. Lá fora a chuva caía forte. Começamos a ouvir um barulho ensurdecedor de água de rio, e quando meu marido olhou para fora, viu a água brilhando e aproximando-se da casa muito rapidamente. Era uma forte tromba d'água. Logo ele gritou que fôssemos todos para o segundo andar. O tempo todo, eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo.

Ouvíamos pessoas gritando na escuridão, mas não podíamos fazer nada para ajudá-los. Tinham sido pegos de surpresa, como nós. Troncos de árvores, carros e outros objetos passavam por nossa janela. Logo, a água subiu tanto, que fomos para o telhado, mas foi por pouco tempo, pois a casa ruiu e caímos na água. Não enxergávamos nada, apenas íamos sendo carregados pela correnteza, eu, meu marido e meu sobrinho de cinco anos, nossas mãos fortemente entrelaçadas, e àquela altura, não tínhamos a menor ideia de onde estavam meus sogros. Escutávamos pessoas gritando o tempo todo enquanto éramos arrastados, escapando por pouco - e por acaso - de sermos mortalmente atingidos por um pedaço de árvore. 

O tempo todo, eu tentava também proteger a minha barriga e a criança que carregava dentro dela. Sentia minhas roupas sendo arrancadas aos poucos pela força da tromba d'água, e o pavor que sentia era algo surreal. De repente, minhas forças começaram a falhar. Eu não tinha mais como segurar a mão do meu pequeno sobrinho, que escorregou da minha, e ele se afastou rapidamente. Eu gritava em desespero, quando chegamos ao que pensei ser uma margem do rio e meu marido, mandando que eu segurasse firme no tronco de uma árvore, disse que iria atrás do menino e que logo voltaria. Gritei para que ele não me deixasse só, mas senti quando ele largou minha mão e desceu na correnteza.

Fiquei ali, agarrada o quanto pude, sentindo um frio e um medo imensos. Tentava proteger minha barriga com um dos braços e segurar-me com o outro, mas o tronco começou a soltar-se da margem lamacenta, e senti que eu descia novamente pela correnteza. "É o fim," pensei. Fechei meus olhos e deixei-me ir, pois não havia mais nada que eu pudesse fazer. Mesmo assim, meu instinto materno fez com que eu abraçasse minha barriga, envolvendo a criança não nascida em um gesto protetor.

A escuridão tornou-se ainda mais negra, e por incrível que pareça, fui envolvida por um silêncio fora de contexto enquanto perdia os sentidos e mergulhava no que eu acreditava que seria a minha morte.

Quando despertei, eu estava deitada de bruços, totalmente nua, sobre um banco de areia. pessoas na outra margem gritavam meu nome e perguntavam se eu estava bem, mas eu não sabia responder. Minha pele ardia em todas as partes do corpo. Percebi que tinha muitos cortes e hematomas, e sangrava. passei a mão pelo rosto, e com as pontas dos dedos, procurei meus olhos. Aliviada, notei que ainda os possuía. Foi quando lembrei-me do meu filho, ao desvirar o meu corpo e sentar-me no banco de areia, olhei devagar para a minha barriga para notar que ela estava intacta, sem um arranhão sequer. Chorei de alívio, enquanto as pessoas pediam-me para ficar calma. Alguém se aproximou e jogou um cobertor sobre mim. Deitaram-me em uma maca. Perdi os sentidos novamente.

Acordei em um hospital. Estava viva e meu filho estava bem. Mais tarde, soube que o corpo do meu marido e sogros tinham sido encontrados, mas o do meu sobrinho continua desaparecido, como tantos outros que foram tragados por uma densa camada de lama naquela noite horrível. Perdi tudo o que tinha. Tive que recomeçar a vida do zero. O que me deu esperanças e forças, foi quando olhei nos olhos do meu filho recém-nascido e enxerguei a vida que vinha deles, e que exigia ser retomada.

Este é o fim daquela história, mas na verdade, ela continua.


(continua...)




terça-feira, 28 de abril de 2015

AS RUAS DAS ÁRVORES QUE CHORAM - HISTÓRIAS EM PETRÓPOLIS





Havia a Rua da Feira. Nunca soube, e até hoje não sei, o nome daquela rua. Só sei que era lá que eu ia com minha mãe uma ou duas vezes por semana, bem cedinho, quando o dia mal amanhecera. Saíamos de casa com nossas bolsas de feira coloridas feitas de couro sintético. A minha era pequena, com quadrados verdes e vermelhos, e eu carregava nela as verduras mais leves: alface, couve, cheiro-verde. Mal chegávamos à feira, e aquele mundaréu de gente carregando sacas enormes, cheiros misturados de flores, peixes, verduras e coisas em decomposição, cães abandonados, os sons dos pregões dos feirantes, tudo ia entrando pelos meus olhos, ouvidos e nariz. Uma confusão de cores, sons e cheiros.

Começávamos ali no início da feira com as sacas vazias. Minha mãe escolhia os tomates, as batatas, as cenouras, as maçãs. Pechinchava com os feirantes. Reclamava quando achava que estava caro. Eu ficava com medo de me perder no meio daquele monte de gente, e ficava praticamente grudada na barra da saia dela. De repente, uma voz atrás da gente: "Dona, deixa eu carregar?" Era um garoto pequeno, pouco mais velho que eu, e eu me perguntava se ele aguentaria carregar aquela saca enorme cheia de legumes. Minha mãe deixava ele pegar em uma das alças, só para dar a ele uns trocados mais tarde. Ele nos seguia por toda a feira, até que acabássemos de comprar tudo, e nos levava ao ponto de táxi ou de ônibus. Hoje, seríamos acusadas de escravizar uma criança!

Eu gostava quando minha mãe ia às compras com minha irmã mais velha, aos sábados, e eu, já adolescente, ficava com a casa só para mim: eu escrevia em meu diário, fumava cigarros "Charm" e escutava música no último volume. Também gostava quando íamos todos juntos às compras: eu (criança), minhas duas irmãs (a outra irmã e o irmão mais velho estavam no trabalho) e nossos pais. Entrávamos no antigo supermercado ENSA - que mais tarde, virou CB, e depois, ABC, e depois EXTRA, e mais tarde, Princesa, e hoje eu nem sei mais. A gente circulava pelo mercado tentando lembrar as regras: "Não peçam nada!" Minha mãe às vezes tinha pena, porque eu ficava olhando os iogurtes caros que não podíamos comprar, e ela pegava um, dizendo: "Termine antes de chegarmos ao caixa!" E eu comia com a mão, passando o dedo no fundo do pote.

As compras de roupas aconteciam uma ou duas vezes ao ano. Meu pai nos levava à loja Mona Modas e fazia um crediário gigante. Comprava um vestido para minha mãe e algumas roupas para nós, crianças. Tínhamos excelentes lojas em Petrópolis, como a antiga Casa Sloper, que vendia de tudo, desde roupas e sapatos a brinquedos, bijuterias e cama e mesa. Era uma loja grande e luxuosa, bem no centro da cidade. Eu adorava comprar lá, mas isso raramente acontecia. Tínhamos a Sapataria da China, a Sapataria Moderna, a Schetini... comprar sapatos era um evento! Eu chegava em casa e ficava andando pelo quintal, olhando meus sapatos novos, com cuidado para não arranhá-los. A vida era difícil. Logo minha mãe ralhava: "Vá tirar esses sapatos, que são de sair!"

Meu pai comprava tudo a crediário: nossa geladeira demorou dois anos para ser totalmente paga. Os móveis de cozinha, as camas, colchões, a TV... tínhamos uma preto-e-branca, daquelas de válvula, que precisava esquentar um pouco antes da imagem aparecer. Ela ficava tão quente, que se tocássemos nela, queimávamos a mão. Meu pai a desligava durante os comerciais, "para esfriar." Um dia, ela queimou. Ao levá-la ao conserto, meu pai exclamou: "Mas eu não sei o que houve! Até desligava na hora dos comerciais, para esfriar!" O técnico riu, e disse: "Foi por isso que ela queimou! Esse liga/desliga/liga/desliga..." Nunca mais ele desligou na hora dos comerciais, mas comprou um estabilizador que pesava uma tonelada e esquentava feito o inferno. Quando ele chegava do trabalho, colocava a mão rapidamente sobre o estabilizador, e se estivesse quente, ele brigava: "Vocês ficam vendo TV o dia todo! Vai acabar queimando, e depois, o ferrado sou eu!" Assim, desligávamos alguns minutos antes que ele chegasse... eu me lembro de ter assistido à suposta chegada do homem à lua, em 1969, aos quatro anos de idade, naquele aparelho de TV...

Quando a TV dos vizinhos queimava, era comum que a família inteira aterrissasse de para-quedas na nossa sala de estar e ficasse lá até tarde da noite. Meu pai ficava furioso, mas não queríamos ofender ninguém, então, quando ele achava que estava na hora dos vizinhos irem embora, ele dava boa noite a todos, e dando a volta por fora da casa, ia até o local da antena e a virava, para que os canais saíssem do ar. Ele fazia aquilo sempre. Não sei como eles não desconfiavam...

Acho que uma das poucas lojas da cidade que resistiram até hoje, é a filial das Lojas Americanas. Quando eu saía do colégio, geralmente ia até lá com alguns colegas. Eles vendiam balas à varejo, e era comum todo mundo pegar uma ou duas quando passava por elas. Todos faziam aquilo, adultos e crianças, e ninguém considerava aquilo como roubo, mas uma vez, sem querer, acabei 'roubando' um caderno: coloquei-o no meio dos outros para pagar quando saísse. Minha mãe pegou um outro caderno, sem reparar que eu já havia pego um. Ela pagou por ele. Ficamos algum tempo fazendo compras, e esqueci-me totalmente do caderno que estava comigo. Só percebi quando chegamos em casa.

Infelizmente, as boas lojas de Petrópolis fecharam. Hoje, o que mais se vê por aqui são drogarias e lojas de 1,99, a não ser na Rua 16 de Março, onde ainda se pode comprar alguma coisa. Fico pensando: Por que será que todas as lojas que abrem por aqui hoje em dia acabam fechando? Parece que alguém enterrou uma cabeça de burro em algum lugar... quanto às tentativas de shopping centers, elas sempre falham. Acho que petropolitanos não gostam de shoppings. Preferem andar pela rua ao fazer suas compras, mesmo debaixo de chuva ou com frio. Os petropolitanos adoram novidades; quando abre um novo restaurante, loja ou clube, fazem fila na porta; depois de algum tempo, desaparecem, e o negócio acaba falindo por falta de clientes. Não dá para entender!

Temos fama de sermos ricos. Se chegamos a alguma outra cidade e dizemos que somos de Petrópolis, todo mundo nos olha com uma certa reverência ou inveja: "Hum, você é de Petróópolis?!?!" A fama que a Família Imperial deixou por aqui permanece até hoje, e acho que eles pensam que todo mundo aqui tem sangue nobre. Muito pelo contrário: Petrópolis hoje é uma cidade que sofre devido à invasão de suas encostas, desmatamento, uso indevido da água, explosão demográfica - basta dar uma olhada em Itaipava o número absurdo de condomínios que estão sendo construídos, e  eu não sei como essa gente vai circular por aqui quando todos estiverem prontos e ocupados, ou se vai ter água para tanta gente. 

Mesmo assim, ainda desfrutamos de boa qualidade de vida por aqui, na maioria dos bairros.

(continua)








segunda-feira, 20 de abril de 2015

AS RUAS DAS ÁRVORES QUE CHORAM - HISTÓRIAS EM PETRÓPOLIS





"Midnight, not  a sound from the pavement. Has the moon lost her memory? She's smiling alone..."

Ao som desta canção e sob uma lua cheia fantasmagórica, eu fui atraída para fora de casa em um anoitecer frio. Minha mãe veio atrás de mim, para saber de onde vinha a canção. Vinha da casa vizinha. Barbra Streisand cantando "memories."  Nós ficamos escutando aquela música linda no quintal, enquanto o luar branqueava a superfície brilhante das folhas de bananeiras. Quando a música terminou, ficamos algum tempo ainda mudas, como que encantadas por alguma espécie de magia. 

Eu às vezes caminhava pelas ruas invernais de Petrópolis com músicas na minha cabeça, as mãos nos bolsos do casaco marrom de capuz que chegava aos joelhos, os olhos grudados na calçada. Na minha cabeça, como se fosse uma play list, iam surgindo as letras musicadas de Supertramp, Queen, Barbra Streisand, Elton John, Peter Frampton - a galera que fazia sucesso naqueles tempos. Eu às vezes erguia os olhos e olhava para os carros passando, as pessoas, as árvores, o céu. Criava vídeo clipes em minha mente.

Certa vez me perguntaram, enquanto caminhávamos pela Rua Paulo Barbosa em uma sexta-feira movimentada: "Por que você anda olhando para o chão?" Não sabiam que eu via tudo, menos o chão. Mas a partir daquele dia, com medo de que me achassem esquisita, passei a andar de cabeça erguida, olhando para frente. E não vi mais nada. Muitas pessoas reclamavam e me perguntavam por que eu não as cumprimentava. É que eu ia focada naquilo que eu precisava fazer, eu respondia. Tentando não parecer esquisita, eu parecia mais esquisita do que antes.

Eu amava ir ao cinema sozinha nas tardes de sábado. Sentava-me nas cadeiras do balcão do cinema Casablanca, que fica em um hotel que, naquela época, era luxuoso. Não tinha quase ninguém no cinema. Eu ficava ali, totalmente envolvida pela história que rolava na tela, como se fizesse parte dela. Uma vez, estava tão absorvida que nem percebi quando alguém sentou-se ao meu lado. Só notei quando senti uma mão atrevida sobre o meu joelho.

Aquilo foi chocante... acho que eu tinha apenas doze ou treze anos. Olhei para o lado com o canto do olho, e vi que era um homem que fingia estar assistindo ao filme enquanto tentava me bolinar. Ergui-me de repente da cadeira, assustada, e acho que o assustei mais ainda, pois ele levantou-se e saiu, de cabeça baixa, sem olhar para trás.  Nunca contei aquilo para ninguém, pois temia que meus pais nunca mais me deixassem ir ao cinema, mas aprendi que, em um cinema vazio, toda vez que alguém senta-se ao nosso lado, devemos levantar e ir embora o mais rápido possível.

E um dia, cantando "Bohemian Rhapsody," do Queen, entrei na loja onde uma de minhas irmãs trabalhava. Me perguntaram que música era aquela, e eu repeti o que havia aprendido traduzindo a letra com um dicionário. Me disseram que a música era horrível, ridícula, e aprendi que a gente não deve sair por aí falando das coisas que gosta com qualquer um, pois corremos o risco de ser ridicularizados. 

Caminhando pelas ruas de Petrópolis, aprendi a olhar muito, imaginar muito, pensar muito e falar bem pouco. Adolescente, eu às vezes ia sozinha às palestras do Centro de Cultura. Certa vez, assistia a uma palestra sobre racismo, onde a palestrante era uma moça negra muito bonita, mas com o cabelo esticado para ficar como o de uma branca. De repente, ela convidou a platéia a fazer perguntas. Meu coração batia na garganta. E eu me vi abrindo a boca e perguntando a ela por que ela esticava o cabelo, pois se ela se orgulhava de ser negra, não deveria esticar o cabelo. Eu estava tão nervosa que nem me lembro da resposta que ela me deu. Meus ouvidos taparam-se. Só sei que algumas pessoas da plateia se viraram para me olhar, e ao constatarem a minha pouca idade (deveria ter uns quatorze anos), apenas balançaram a cabeça em desaprovação. Aprendi que não se deve fazer perguntas embaraçosas durante palestras.

Eu saía para andar sozinha. Quando tinha dinheiro, comprava algum disco de vinil, e amava andar com meus discos debaixo do braço e levá-los aonde quer que eu fosse. Literalmente, Petrópolis me viu crescer com trilha sonora. Havia uma loja chamada A Musical, que deixava a gente escutar trechos dos discos antes de decidirmos se queríamos realmente comprá-los. Eu ficava sempre muito tempo por lá. Adquiri um gosto eclético, pois escolhia os discos pelas capas, pedia para ouvir e muitas vezes, descobria verdadeiras pérolas. Foi assim que conheci alguns compositores clássicos, e também o Aerosmith, Rick Springfield ( a capa me atraiu porque havia uma foto dele e eu o achei bonito demais), Bee Gees, Pink Floyd e muitos outros. A música era a minha vida. Não fazia nada sem que houvesse uma trilha sonora. Até quando eu sonhava acordada, punha uma musica ou a imaginava. 

Tantas e tantas vezes, lá no meu bairro, nós levávamos o aparelho de som para a rua e cada um levava um disco diferente! Ficávamos lá, escutando música após fazermos ligação direta da caixa de luz de um vizinho... conversávamos, dançávamos, tomávamos Coca-cola com rum e fumávamos escondido. Organizávamos festas de São João incríveis... cada um contribuía com alguma coisa. Eu adorava morar naquele bairro. Hoje, quando vou lá, vejo que quase nada mudou, e fico feliz de ter saído.

(continua...)





terça-feira, 14 de abril de 2015

AS RUAS DAS ÁRVORES QUE CHORAM - Histórias em Petrópolis

O ipê próximo à Praça da Liberdade


Cresci na Petrópolis das baixas temperaturas. No inverno, às vezes elas atingiam quase zero. A cidade era bem mais úmida, o que favorecia o crescimento das hortênsias que pintavam as ruas de vários tons de azul. Minha avó paterna morava em um bairro chamado Duchas. A casa dela ficava no topo de uma ladeira, de frente para a rua, e havia na lateral da casa um morro coberto de Marias-sem-vergonha brancas. Estas flores também são conhecidas como Impacient (já ouvi um jardineiro dizendo “impachent”). Eram muito comuns em Petrópolis, especialmente na subida da Serra, onde proliferavam na beira das estradas em cores que variavam entre branco, laranja, vermelho, rosa-claro, lilás, roxo, rosa-choque e vinho. Com a mudança do clima, hoje são bem mais raras. Crianças, brincávamos de ‘pintar as unhas’: passávamos água nas unhas e colávamos as pétalas sobre elas. Durava pouco, mas era divertido... havia muitas moitas destas flores lá em casa, e minha mãe era uma defensora feroz delas. Quando meu pai capinava o terreno, ela ia olhar toda hora para ver se ele não as estava arrancando. Minha mãe gostava de olhar da rua para a casa e ver as flores espalhadas pelo caminho. 

Mais tarde, as hortênsias foram sendo substituídas por lírios amarelos. Os canteiros da cidade passaram a apresentar estas flores. As hortênsias sumiram, praticamente desapareceram, e a alcunha de Cidade das Hortênsias deixou de ter sentido. Hoje eu as tenho em meu jardim, e adoro abrir a janela de manhã e deparar com elas, plantadas junto ao muro.

Na época da quaresma – e isto acontece até hoje, graças a Deus – Petrópolis cobria-se de amarelo e roxo. As quaresmeiras e manacás-da-serra em flor são uma coisa linda de se ver! A gente olha para as florestas e, entre as muitas espécies de árvores, vemos aquelas manchas coloridas de flores. Em setembro, são os ipês... rosas, amarelos e roxos. Árvores enormes - ou bem pequenas ainda, como as que foram plantadas no centro histórico - proporcionam um espetáculo inesquecível que dura apenas uma semana. Próximo à Praça da Liberdade existe um ipê famoso. Fica no jardim de um prédio, bem na entrada, e a floração é tão abundante e magnífica, que todo mundo para a fim de fotografar e admirar. Eu mesma tenho várias fotos dele. 

Cresci entre as hortênsias, Impacients, quaresmeiras, manacás-da-serra, lírios amarelos e Ipês. Quando comecei a trabalhar, acordava nas manhãs geladas de inverno, bem cedo, tomava banho e me vestia para ir ao trabalho, e enquanto caminhava eu via a minha respiração e as das outras pessoas acumulando-se diante dos nossos rostos feito nuvens brancas. 
A luz da manhã é sempre linda no inverno. Adoro ver quando ela começa a dissolver a névoa ainda sonolenta que descansa sobre as montanhas e ruas! Aos poucos, o dia branco transforma-se em um dia de céu azul límpido como não existe em nenhum outro lugar do país. O céu de Petrópolis é o céu mais azul que eu já vi; quando ele cisma de ser azul, nada o supera. É tão bom sentar-se ao sol de inverno e sentir como ele aquece sem esquentar demais, sem invadir ou incomodar! Sentir o vento frio deixando o rosto rosado é delicioso, e a pele esticada parece até ficar mais jovem. Eu amo o frio e o inverno, e lamento profundamente que o clima tenha mudado tanto nos últimos anos. 

Quando criança, eu podia brincar com várias espécies de besouros coloridos, alguns nacarados, e outros, listrados, que comiam as folhas dos bambuzais, e com as joaninhas coloridas que se alimentavam das vassourinhas (arbusto baixo que antigamente era amarrado em feixes e usado para varrer). Havia também muitas espécies de lagartas vermelhas, cor-de-laranja, verdes e pretas. Dizem que elas queimam muito, mas felizmente, nunca toquei em uma delas. Também havia aquelas de pele muita fria e lisa, verdes, amarelas, listradas, azuladas, algumas muito grandes, que eu deixava passear sobre os meus braços. Havia muitas espécies de insetos que já não se vê mais por aqui. 

E os vaga-lumes... eram tantos, que pareciam estrelas descansando sobre o capim e as árvores. Eu gostava de pegá-los e coloca-los dentro de um vidro. Amava vê-los acender e apagar. Mas sempre os soltava logo depois. As noites Petropolitanas eram cheias dessas criaturinhas, piscando e piscando, em luzes azuladas, amareladas, verdes e brancas. Hoje em dia, dificilmente eu vejo algum. Às vezes eles aparecem por aqui no verão, e eu os vejo na mata em frente à casa. Raramente um deles aventura-se pelo jardim. E as joaninhas e besouros também são bem mais raros... 
Eu morava no bairro Caxambu, rua Flávio Cavalcante. A rua tinha este nome em homenagem a um grande apresentador de TV daqueles tempos. Ele era nosso vizinho. Muitas vezes, quando brincávamos na rua, ele passava em seu carrão com motorista, e acenava para nós, crianças, que precisávamos interromper o nosso jogo de bola toda vez que passava um carro. As pessoas gostavam de fazer turismo na chácara de Flávio Cavalcante, e as visitas eram permitidas. Ele era uma pessoa simples e acessível. Quando eu era bem pequena, fui com minha família, mas acho que eu era tão pequena que não me lembro. Quando ele foi embora, o terreno onde ele morava foi loteado e algumas casas de luxo foram construídas por lá. Não sei como se encontram, ou quem mora nelas hoje em dia; mas ficou o Morro do Flávio. Adolescente, fazíamos excursões para o morro. Chegávamos lá em cima e tínhamos diante dos olhos a vista do nosso bairro e cidade, cercada de montanhas azuis.

Certa vez, na ocasião da passagem do Cometa de Halley, meu então namorado, eu e algumas pessoas organizamos uma subida ao Morro do Flávio à noite para ver o cometa passar. Estava muito frio. Subimos tudo no escuro, à luz de nossas lanternas e com muita neblina. Chegando lá, nós no sentamos cobertos por um enorme plástico preto para evitar de ficarmos molhados pela neblina gelada, e aguardamos. Mas tudo o que vimos, foi a neblina. Após algumas horas, descemos o morro, frustrados e quase congelados. 

Eu também subi algumas vezes o Morro do castelinho, no Bairro Morin. A subida era cansativa, mas valia a pena, pois a trilha era linda, cercada de árvores e pequenos riachos. Lá em cima, podíamos ver a Bahia de Guanabara. Venta muito por lá, e o tempo todo, e por isso, nos agasalhávamos bem. Certa vez, cismei em calçar um par de tênis novos para fazer a subida. Cheguei lá com os pés cheios de bolhas, mas para não dar o braço a torcer, aguentei tudo calada. Dizem que hoje é perigoso subir o castelinho, e que há muito lixo nas trilhas. Infelizmente, nada fica para sempre. Parece que aonde quer que o ser humano chegue, em breve só resta destruição. 

(continua...)




domingo, 12 de abril de 2015

As Ruas das Árvores que Choram - Histórias em Petrópolis




AS RUAS DAS ÁRVORES QUE CHORAM – PARTE II

Caminhar pelas ruas arborizadas de Petrópolis, sem pressa. Olhar bem os casarões antigos, as mansões bem conservadas que ficam ao longo da Avenida Koeller, Rua Ipiranga, Santos Dumont, D. Pedro, Barão do Rio Branco, Rua da Imperatriz. Muitas delas foram transformadas em pontos comerciais, devido ao alto custo de manutenção e o tombamento pelo Patrimônio Histórico. Caminhar pelo centro da cidade, e ver os poucos sobrados históricos que sobraram e conservaram-se como eram originalmente. Visitar pontos turísticos como o Museu Imperial,  A Encantada( casa onde viveu Santos Dumont) o Museu de Cera, O Palácio da Princesa Isabel, O Trono de Fátima, o Palácio de Cristal... percorrer o burburinho da Rua Teresa, ficar engarrafado no trânsito da Rua do Imperador, tomar café nas padarias, lanchonetes e casas de chá da Rua Dezesseis de Março depois de fazer compras nas lojinhas, e finalmente, sentar-se para descansar em um dos bancos da Praça D. Pedro, enquanto se observa as pessoas e carros passando. 

Uma cidade pequena. Uma cidade planejada – a primeira cidade planejada do Brasil, embora haja controvérsias. Mas o planejamento há muito “desplanejou-se” com a invasão das encostas, a superpopulação e a construção desenfreada de prédios e condomínios de luxo em áreas que deveriam estar preservadas. 

Mas eu quero falar de uma outra Petrópolis, uma cidade que foi planejada, antes de tudo, no céu. A cidade onde as árvores choram. Não sei se elas choram também em outros lugares, mas sempre que alguém senta-se sob uma das árvores de Petrópolis, ou permanece sob elas durante algum tempo, se ficar atento logo perceberá que está sendo espargido de leve por um líquido misterioso. Não sei se é seiva ou chuva acumulada nos galhos, mas mesmo em épocas de seca, quando eu fico no jardim de casa sob meu pé de laranja, sinto um leve borrifo que faz a pele arrepiar. Eu não quero saber se o mesmo acontecesse nas outras cidades, com outras árvores. Quero acreditar que somente as árvores Petropolitanas choram. Prefiro erguer os olhos para as copas verdejantes e ver a água borrifada de repente, assim do nada, e acreditar que alguma fada invisível está sentada em um dos galhos espargindo seu perfume. 

Nestas ruas eu escrevi a minha história. As casas são testemunhas da passagem do tempo sobre a cidade e seus habitantes. Muitas das pessoas que conheci, e com quem convivi, já não mais fazem parte desta paisagem, mas é como se os seus passos tivessem ficado marcados nas calçadas, e seus olhos permanecesse entre as copas das árvores, e eles me veem enquanto eu passo. Me perdoem se um dia vocês por acaso (ou por vontade própria) vierem parar aqui e não conseguirem enxergar nada do que eu digo; se a magia e a beleza que eu vejo e sinto em Petrópolis não chegar até o coração de vocês, eu peço desculpas. É que eu nasci aqui. A primeira coisa que eu enxerguei quando vim ao mundo, foi o céu Petropolitano pela janela do quarto onde fui parida, num 29 de setembro obscuro. Meus primeiros passos foram dados aqui, e minhas primeiras palavras – lidas e escritas – foram proferidas aqui. E é enxergando esse mesmo céu que me recebeu que eu pretendo fechar os olhos, quando chegar a minha hora. 

(continua...)



sexta-feira, 10 de abril de 2015

As Ruas das Árvores que Choram - Histórias em Petrópolis






As Ruas das Árvores que Choram  Parte I


Quando caminhei por aqui pela primeira vez, foi segurando a mão de minha mãe. Eu era bem pequena. Minha mãe gostava de passear à pé pela cidade, e assim, acabei passando grande parte da minha infância entre o casario antigo, as ruas ornadas de magnólias e hortênsias, cruzando praças e atravessando pontes, ao mesmo tempo em que ouvia as histórias que minha mãe contava:

-Está vendo esta casa? Eu já morei aqui quando pequena. (E ela apontava para um enorme casarão branco de dois andares, janelas verdes, na Avenida Presidente Kenedy, bem em frente à descida da Rua Montecaseros. E ela continuava:)

-Eu era pequenininha, e minha mãe trabalhava de empregada doméstica nesta casa. Mas não ficou muito tempo, porque ela logo adoeceu e morreu quando eu tinha quatro anos de idade. Meu pai costumava vir me visitar aqui, e os donos desta casa deixavam que a gente se encontrasse nos fundos, na cozinha.

Às vezes, entrávamos pela Presidente Kenedy, e ela apontava uma ruazinha adjacente, uma espécie de vila bem estreita:

-Aqui mora a minha prima.

E de vez em quando, nós íamos tomar café na casa da tal prima. Para os nossos padrões de vida naqueles tempos, era uma casa grande, bonita e luxuosa, mas se eu a visitasse hoje, talvez a achasse bem menor e menos glamourosa. A prima de minha mãe era uma mulher tremendamente bela. Tinha o rosto bem emoldurado por cabelos loiro-escuro cacheados, maxilares largos que abrigavam um sorriso lindo de dentes muito alvos e, compondo o rosto belíssimo, um par de olhos azuis. Era casada e tinha quatro belas crianças, e eu tinha uma paixonite platônica pelo mais velho, embora eu fosse apenas uma criancinha. Todos eram lindos e tinham olhos azuis. Lembro-me de algumas festas as quais comparecemos naquela casa, e do quanto dava gosto de ver aquela gente bonita se movimentando: parecia um comercial de margarina! Ela era a prima que dera certo na vida.

Minha mãe e eu também caminhávamos muito pela Avenida Koeller, parando para admirar as enormes mansões. Ao final da rua, nós atravessávamos para a Praça da Liberdade, onde eu passava algum tempo feliz, esquecida de qualquer desejo, a não ser o de balançar bem alto, até que as pontas dos meus pés quase tocassem as pontas verdes das copas da árvore. Ali, eu não tinha tempo para pensar nas canetinhas coloridas que eu não tinha para usar nas aulas de desenho da escola, ou na boneca Amiguinha do meu tamanho que eu jamais ganharia, nas roupas bonitas que desejava. Ali naquele balanço, olhava lá de cima as outras crianças que aguardavam que eu me cansasse para que elas mesmas tivessem a sua vez de balançar bem alto, e eu me sentia superior a elas. E eu só desistia quando minha mãe parava ela mesma o balanço, arrancando-me dele enquanto eu, aos prantos, gritava e esperneava, vendo o 'meu' balanço sendo ocupado por outra criança. E minha mãe dizia, irritada:

-Todo mundo está olhando! Olha que coisa feia! Nunca mais eu trago você.

Mas ela sempre me levava naquela praça. E eu sempre gritava e esperneava na hora de sair do balanço. Íamos para casa ao crepúsculo, quando as luzes dos postes começavam a acender e a garoa fria de Petrópolis começava a cair. Tomávamos o ônibus e eu adormecia no colo de minha mãe, que me acordava quando chegávamos em casa. Ela ainda precisava preparar o jantar, e como sempre, meu pai reclamava pelo atraso quando chegava do trabalho.

Eu adorava caminhar pela Rua Ipiranga, que na minha infância, era bem pouco movimentada. Lá estavam as mansões de veraneio, casas tão velhas e tão mágicas, que pareciam guardar muitos mistérios. Eu parava na frente da Casa dos Sete Erros e a imaginava assombrada, e estranhamente, apesar do medo que sentia, desejava entrar nela, o que só aconteceu quando ela virou ponto turístico, e eu já era casada. Subíamos a Ipiranga e descíamos pela Rua Dom Pedro, uma outra de casas também antigas e muito bonitas.

Cresci caminhando entre estes casarões e inventando histórias na minha cabeça sobre o que se passava dentro deles. Passei por jardins inacessíveis onde, com certeza, moravam fadas e outras criaturas mágicas, e eu os recriava em nosso pequeno quintalzinho ao chegar em casa: recortava das revistas e livros infantis imagens de fadas e as espalhava pelos galhos da figueira plantada por meu avô. Fingia que elas eram reais. Passava horas brincando sozinha, pois para mim, não era (nunca foi) muito fácil fazer amizades. minhas amigas eram as da escola, ou então as irmãs mais novas das amigas de minha irmã mais velha. Eu gostava de brincar sozinha, tomar todas as decisões, escolher os finais das minhas histórias sem ter que pedir a aprovação de ninguém ou entrar em acordo com os gostos das outras meninas. minhas histórias, eu mesma criava e encenava - com a ajuda de minhas inseparáveis bonecas.

Lembro-me da Petrópolis de quando eu era criança e as temperaturas no inverno chegavam, às vezes, a atingir números negativos. A gente saía de manhã cedo para ir à escola ou a o trabalho, e os vidros dos carros estacionados ao longo da Avenida XV de novembro - hoje Rua do Imperador - estavam cobertos por fina camada de gelo. Também andei muito através da neblina gelada, branca e densa, tão densa, que quando alguém falava tinha a impressão de estar falando dentro de uma caixa. Nada se via. E assim como aparecia, ela ia sendo dissipada conforme o sol se erguia.

Sentada à mesa de madeira da cozinha, eu fazia meus deveres de casa e escutava as muitas histórias de quando minha mãe era criança como eu. E ela me contava que crescera em um colégio interno - o Colégio Nossa Senhora do Amparo - depois que sua mãe morrera quando ela tinha apenas quatro anos de idade. Ela me falava das freiras boas e das freiras más. Dos banhos de água gelada que as crianças eram obrigadas a tomar às seis da manhã. Um dia, ela me contou que achou uma barata em sua comida, no caldo do feijão. Coisas assim eram comuns. Ela chamou a freira e mostrou a ela. a freira mandou que ela tirasse o inseto e continuasse a comer. E foi o que ela fez, pois era o que todas as crianças faziam.


quarta-feira, 25 de março de 2015

Eu a Vejo - minimalista

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Ela passa por mim segurando o regador. Molha as plantas da varanda, os vasinhos na janela, a roseira no canto do jardim. Dá um longo suspiro, coloca a mão na cintura como sempre faz, num gesto inconsciente. Olha em volta, dirigindo o olhar para a esquerda, em direção à montanha. Vê a neblina que beija a superfície lisa da pedra com delicadeza. Contra o pôr do sol, observa os milhares de criaturas que voam na maciez da tarde, as asas transparentes. 

Ela olha para a casa. Imagina coisas que eu não sei contar. Desce o caminho, passa novamente por mim, mas não me olha. Lava algumas louças que estão na pia da cozinha, passa  a vassoura no chão. Pensa no que poderá preparar para o jantar enquanto estende a roupa. O crepúsculo cai sobre a casa, e ela acende as luzes - não gosta muito do escuro. Encostada à parede do corredor, eu a vejo passar em direção à sala de estar. Liga a TV, e tenta assistir alguma coisa, mas os pensamentos voam para longe, pela janela, perdem-se naquela estrelinha que começa a brilhar lá longe... será que ela pensa em mim?

Desliga a TV e coloca uma música suave. Caminha descalça pela casa. Acende um incenso. A casa olha para ela, e a entende. As duas se conhecem muito bem e sentem-se à vontade juntas. Ela chega à janela, e olha o jardim. Aspira o perfume da grama recém-cortada. Um beija-flor faz charme, chegando bem perto dela, e depois voa para longe, desaparecendo por trás do muro de hera. Estou bem ao lado dela. Nossos cotovelos se tocam, e posso ouvir o som de seu coração batendo. Mas ela não me olha.

Pega um livro, enrodilhando-se na poltrona. Abre ao acaso em uma das páginas, e lê com atenção, e eu sei porque: ela acredita que os livros tem poderes mágicos e que podem interagir com os leitores, dando-lhes as respostas que eles procuram. Ela suspira. Sussurro em seu ouvido o meu nome. De repente, ela ergue a cabeça e olha em volta. Parece inquieta; leva uma das mãos à garganta, e vejo a pele do seu braço arrepiar. Ela me sente. Uma sombra de tristeza passa sobre seu rosto, criando pequenas dobras em sua testa. Seus olhos ficam marejados.

Eu a vejo. Ela me sente, e se pergunta onde estou.


terça-feira, 17 de março de 2015

Nem Tudo é Bem Assim - Parte III - FINAL






Nem Tudo é Bem Assim - Parte III - FINAL



Roberto tomou um gole grande de café quente, que queimou-lhe  a garganta. Ainda tentou fingir que não sabia do quê o amigo falava. Notou as olheiras roxas sob os olhos de Carlos:

-Ela quem?


Carlos olhou-o magoado:

-Bia. A minha  mulher Bia está apaixonada por você.

Naquele momento, um grupo de moças que estava entrando na sala do café estancou à porta, e olhando para eles muito sérias, deram meia-volta. Com certeza, pensaram eles, elas tinham ouvido a última frase. Ao constatar aquilo, Carlos bateu na própria testa com força. Roberto ouviu a própria voz:

-Sinto muito. Também estou apaixonado por ela, Carlos. 

Ao chegarem em casa após o almoço na tarde do último sábado, Bia e Carlos acabaram tendo uma briga muito séria, na qual ele a acusara várias vezes de não amá-lo mais. Ela tentara ser paciente, pois afinal de contas, tinha feito algo que traíra a confiança dele, e sentia-se culpada. Mas ele fora tão vil e insistente, dizendo palavras tão duras e cortantes, que ela acabara gritando bem alto:

-OK! Eu estou apaixonada pelo Roberto! E daí?

A discussão terminou imediatamente. Como sempre, ele saiu batendo a porta, e não voltou para casa. Passou a noite no carro, após dirigir até uma estrada deserta. Pensou muito sobre tudo o que estava acontecendo, e a iminência de estar perdendo Bia fazia com que seu estômago desse voltas. A vida que conhecera até então, tudo o que ambos construíram juntos, estava ameaçado de acabar. Ela ainda tentou falar com ele por telefone, mas ele desligou o celular. 

Na manhã de domingo, voltou para casa e encontrou-a sentada no sofá da sala, os olhos inchados e vermelhos. Eles se olharam em silêncio, e ela se levantou:

-Quer café? Acabei de fazer. 

Quantas vezes ele ouvira aquela mesma frase, mas dita de forma alegre, casual e totalmente caseira? Agora, a casa toda parecia uma geleira. Carlos disse 'sim' através de um aceno, e ambos foram para a cozinha, onde ela serviu-lhe uma xícara. Foi ele quem falou primeiro, sem tom acusatório, apenas como forma de constatação:

-Então eu estava certo o tempo todo.

Ela enxugou as lágrimas que tinham voltado a cair:

-Olha, vamos esquecer tudo isso, está bem? A gente pode recomeçar. A gente pode ... você pode pedir demissão, eu também,  e nós podemos abrir um negócio próprio, uma firma de arquitetura, como sempre desejamos.

Ele teria pulado de alegria há apenas algumas semanas, se ela tivesse lhe dito que desistiria do emprego para trabalhar com ele, como ele sempre sonhara. Mas agora, a proposta dela pareceu-lhe movida pela piedade, ou pelo desespero de que tudo ficasse como sempre tinha sido. Mas ele sabia (e ela também) que algo tinha sido quebrado. Se teria conserto ou não, nenhum dos dois poderia dizer. Não ainda. Ele pensou que talvez aquilo tudo tivesse acontecido por um motivo: a vida deles estava calma demais, certinha demais, sem atrativos. Quem sabe, aquilo desse uma sacudida neles, de forma a trazer de volta o entusiasmo perdido? Afinal, se ainda havia amor... mas ele se lembrou que, na noite passada, ela confessara que estava apaixonada por outro!

-Como pode dizer isso, após confessar que está apaixonada por outro, Bia?

Ela concordou com a cabeça:

-Foi apenas... uma ideia. Mas eu... eu não quero me separar de você, Carlos! Na verdade, eu e Roberto mal nos conhecemos. Nós... eu... é tão difícil, Carlos...

Ele se levantou, abraçando-a, e ambos choraram, ali, de pé, encostados à pia da cozinha.  Depois, sem nada dizer, ele foi para o quarto. Minutos depois, ela o seguiu. Viu que ele estava arrumando as malas. Ela recomeçou a chorar. Ele hesitou um instante à porta do quarto, segurando as malas. Sem olhar para trás, saiu, batendo a porta da frente - daquela vez, para sempre. 

Roberto suspirou, após ouvir a história de Carlos. Passou a mão pela testa. Parecia muito cansado. Ele ouvira a história toda sem que houvessem mais interrupções dos colegas na sala do café.   

-Acho melhor a gente sair um pouco, tirar o dia de folga, Carlos. Precisamos conversar. O chefe vai entender.

Quando ambos saíram da sala do café, havia um silêncio constrangedor no escritório. As pessoas não olharam para eles, mas por mais que tentassem agir normalmente, ficou claro para eles que todos já sabiam do que estava acontecendo. Eles passaram pelas escrivaninhas sem olhar para o rosto de ninguém, dirigindo-se à porta. 

Foram para um café do outro lado da rua. Estava vazio àquela hora, pois todos já estavam trabalhando. 

-Então você saiu de casa?

Carlos tomou um gole de café, e sem olhar para Roberto, respondeu:

-O caminho está livre para vocês. Hoje é segunda, então Bia estará trabalhando em casa. 
Roberto hesitou:

-Eu sinto muito. Essas coisas não acontecem porque a gente quer.

Carlos pareceu furioso quando olhou novamente para ele. Levantou-se, fazendo com que Roberto se encolhesse na cadeira. Mas ele apenas caminhou para fora do café, sem olhar para trás.
Quando Roberto chegou à casa de Bia, a porta estava destrancada e entreaberta. Ele entrou devagar, vendo a névoa gelada  da manhã desenhar-se em feixes pelos raios fracos de sol que entravam pela vidraça. Ele chamou por Bia. Ouviu-a responder da estufa. Seguiu o som da voz dela. 

Passou pela cozinha em desordem, sentindo o mesmo aconchego que sentira da primeira vez que ela o conduzira por ali. 

Encontrou-a de avental, podando algumas das plantas. Parou à porta, extasiado com a beleza daquela cena. Bia vestia pijamas, e estava de pé, de costas para ele, e o sol da manhã penetrava o vidro da estufa espalhando finos arco-íris pelos seus cabelos curtos e desgrenhados. Olhou em volta, pensando que em breve, talvez estivesse vivendo com ela naquele lugar, e aquele pensamento pareceu-lhe estranho. Talvez fosse melhor se morassem em outro lugar, um lugar só deles. Teriam filhos, quem sabe... ele caminhou até ela, o coração aquecido pela expectativa de tê-la em seus braços sem culpas e sem medos. 

Quando ele a tocou, ela virou-se, caindo nos braços dele. Ambos beijaram-se apaixonadamente. E foram indo para o quarto daquela maneira, beijando-se e abraçando-se desajeitadamente, enquanto ela ia retirando o avental, deixando-o caído no chão da cozinha, e ele descalçava os sapatos e tirava o casaco, deixando-os sobre o sofá da sala, e ela retirou a parte de baixo do pijamas, deixando-a no corredor, e quando estavam diante da cama, eles se entreolharam em silêncio. A atmosfera em volta deles, antes carregada pela estática apaixonada que os envolvia, pareceu esfriar de repente. Ele passou um dedo pelo rosto dela, sabendo que aquilo tudo não poderia ser. A melancolia crescia. Ela sentiu o desejo diminuir, murchar, e morrer. Eles se abraçaram. Quando se olharam novamente, eram apenas amigos. 


FIM



A RUA DOS AUSENTES - Parte 12 (FINAL)

  A Rua dos Ausentes - parte 12 - Final E naquela noite, havia pessoas na Rua dos Ausentes reunidas cada qual por um propósito diferente: Al...