quinta-feira, 10 de março de 2016

O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO XIV







O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO XIV





Durante as férias de 1947, o pai não pode ir vê-la. Precisou acompanhar Madame Fonseca em uma viagem, pois ela desejava vender uma de suas propriedades, uma fazenda em São Paulo. Mal sabia ele que, lá chegando, veria o rosto de sua falecida mulher, Vicentina, mãe de sua filha, no rosto de outras duas crianças, dois meninos! Ao conversar com o casal que era responsável pela manutenção da fazenda, foi logo perguntando sobre as crianças, e a mulher confessou que os meninos tinham sido adotados quando ainda eram bebês, e lá deixados por uma linda jovem de Petrópolis que nunca mais voltara. Ao ouvir tal história, Régis não pode deixar de se emocionar, pois sem querer, encontrara os irmãos de Regiane! Explicou ao casal o que descobrira, contando-lhes parte de sua história. Quando terminou sua narrativa, todos – inclusive Madame Fonseca – tinham lágrimas nos olhos. Os dois meninos, alheios a tudo o que os adultos conversavam, brincavam no pátio lá fora, correndo atrás das ovelhas e cães. Régis sabia que eles não eram seus, e que nenhum direito tinha sobre eles; também sabia que eram amados, e que talvez tivessem uma sorte melhor do que sua própria filha, pois eram meninos, e jamais sofreriam discriminação por causa de sua origem, porque tinham sido oficialmente adotados por um casal de pessoas honestas, tornando-se filhos legítimos. Madame Fonseca não sabia que seus empregados tinham as duas crianças, e ao constatar que a venda da fazenda faria com que suas vidas fossem totalmente modificadas, decidiu não vendê-la mais, enquanto os meninos precisassem dela. Aumentou o salário do casal, dando-lhes o cargo de administradores. Régis agradeceu-lhe efusivamente. Antes de partirem, Régis deixou com os pais dos meninos um cartão com seu endereço em Niterói, caso um dia eles desejassem ir à cidade de Petrópolis e  conhecer sua irmã.

Na viagem de volta, enquanto estava sentado diante de Madame Fonseca no trem, aproveitou-se do fato de que ela estava olhando a paisagem à janela do trem,  e passou a reparar melhor em sua patroa. Viu que, apesar de ser quase quinze anos mais velha que ele, Madame Fonseca ainda era uma bela mulher. Tinha cabelos fartos e castanhos, sempre presos em um coque comportado, o rosto alvo e quase sem rugas, lábios cheios e sensuais e olhos esverdeados encimados por longos e grossos cílios. O corpo era bem cuidado, forte e esguio. Madame gostava de manter-se sempre bem vestida e penteada, e cuidava da dieta. Usava cremes que vinham de Paris e também conhecia receitas caseiras para a pele, que ela mesma preparava na cozinha da mansão. Régis pensou no quanto seu patrão tinha sido tolo ao abandonar tal mulher, sempre tão forte e tão bondosa!

Era a primeira vez que Régis a olhava daquela forma. Estava tão absorto em seus pensamentos, que quando voltou a si, deu com os olhos dela cravados nele. Faíscas percorreram a distância entre os dois. Foi ele quem baixou os olhos primeiro, sentindo o rosto avermelhar. Régis estava confuso, pois nunca na vida uma mulher causara-lhe aquela reação. Era sempre ele quem determinava o rumo da relação, início, meio e fim, e era sempre ele que colocava o ponto final. Mas tinha tanto respeito e admiração por aquela mulher, que sentia-se alguns níveis abaixo dela. Ao olhá-la novamente, viu que ela ainda não parara de olhar para ele, e sustentou o olhar por mais tempo. Um solavanco nos trilhos fez com que ambos desviassem os olhos.


.    .    .    .    .    .


Regiane, após um final de semana na companhia dos tios e primas, percebeu que seu grande sonho de morar com eles não era mais verdadeiro. Amava os tios e primas, e gostava dos momentos em que passeavam juntos pelas calçadas da Avenida Koeller e Rua Ipiranga, olhando as mansões tão bonitas, ou de quando ajudava Tia Rosa a preparar macarrão caseiro, pendurando a massa em varais pela cozinha para que a mesma secasse. Gostava da companhia deles, mas não desejava mais viver no casarão. Acostumara-se à escola. Não sentia mais aquela casa como sendo seu lugar, e nem aquelas pessoas como parte de sua família. Crescer fez com que ela percebesse que há coisas dentro das pessoas que as crianças ignoram – e que só passam a compreender quando elas próprias tornam-se adultas. Regiane sentia cada vez mais a rejeição que sofrera por parte deles quando ela mais precisava. Não a quiseram vivendo naquela casa. Não abraçaram sua infância, não a protegeram das tantas coisas ruins que aconteceram a ela; coisas que poderia ter sido evitadas, dores das quais ela poderia ter sido poupada, não fosse a omissão de todos. Aquele amor morno que lhe dedicavam servia-lhe apenas nos dias de férias, nas horas vagas. Era um amor com regras (eu a aceito se você for boa e obediente), um amor que não tocava em assuntos que ela precisava discutir.
Regiane sentia-se acolhida no velho porão, na presença de Ricardo, que a envolvia em uma nuvem de amor, compreensão e acolhimento. Ele era a sua verdadeira família, o seu refúgio. Fora ele quem a acalmara quando, numa manhã de domingo, ela acordou para descobrir que seu lençol estava coberto de sangue. Assustada, ela caminhou pelos corredores vazios, mas ainda era cedo demais – estava escuro – e todos dormiam. Percebeu de onde o sangue vinha, e pensou que fosse um castigo pela sua condição de filha de uma prostituta, e que aquele fluxo a acompanharia pelo resto de sua vida, a não ser que Jesus viesse até ela e fizesse um milagre, como na Bíblia, naquela passagem na qual ele salvara uma mulher que sofria de um fluxo de sangue.

Ela precisava pedir perdão. Foi até a capela vazia, e sem acender as luzes, postou-se de joelhos diante do altar, e chorou. O sangue, que manchara suas pernas, estava sob suas unhas, e sem perceber, ela sujara a camisola branca. Havia uma grande mancha sobre suas nádegas, como se fosse alguma coisa cômica, algo do qual as pessoas teriam rido naquele circo onde as irmãs a levaram há alguns anos. Então ela se lembrou de Ricardo, e atravessando o pátio gelado em plena madrugada, bateu à sua porta. Mal ele a abriu, ela agarrou-se em seu corpo magro e frio. Ele tentou acalmá-la, notando as manchas de sangue e imediatamente, compreendendo o motivo de tanto desespero. Mandou-a entrar, colocou um cobertor sobre seus ombros, abriu um de seus livros e mostrou a ela a causa de tudo aquilo, e aos poucos, ela foi se acalmando, compreendendo melhor a função da menstruação. Ele abriu uma outra página, e Regiane descobriu, maravilhada, de onde vinham os bebês. Não houve sinal de constrangimento por ser Ricardo quem estivesse explicando-lhe aquelas coisas; pelo contrário, aquela parecia ser a coisa mais certa do mundo. Quando Regiane já estava bem calma, Ricardo mandou que ela fosse tomar um banho, mas antes procurasse uma das irmãs e pedisse alguma coisa que ela pudesse usar a fim de conter o sangue no lugar certo. Irmã Dulce abraçou-a, e deu-lhe uma toalhinha higiênica forrada com um pedaço de plástico, e mostrou-lhe como ela deveria costura-la na calcinha, trocando-a quando estivesse molhada demais. Também disse que ela agora era mulher, e que deveria tomar muito cuidado com meninos, mas não deu detalhes (porém, ela já sabia de tudo). Mostrou-lhe um tanque escondido atrás do pomar, dizendo a ela que lavasse ali suas toalhinhas, longe da vista de todos. Naquela semana, ela foi dispensada das aulas por quatro dias, e não deixaram que ela lavasse a cabeça durante o banho.

Ricardo era seu amigo, irmão, pai, professor. Ajudava-a com as lições da escola, ouvia seus pensamentos, dava-lhe conselhos. Mas Regiane sentia que ele era muito mais que apenas amigo. Porém, ela não sabia explicar nem a si mesma o que sentia por ele. Apenas passou a perceber que gostava de olhar para ele, o que passou a fazer com mais intensidade. Quando estavam muito próximos, ela sentia uma coisa estranha que nunca sentira antes, quando era só uma menininha. Era uma espécie de calor, um aceleramento das batidas do coração. Se ele a tocasse por acaso, ao virar a página de um livro, ela se arrepiava. E Ricardo percebia aqueles sentimentos brotando, mas não parecia querer corresponde-los, embora fossem mútuos. Ela chegava com seu uniforme, e sentava-se na cama dele displicentemente, a saia erguendo-se até os joelhos, e então chamava-o para que se sentasse ao lado dela, e encostava seu ombro no dele, colocando os pés sobre os pés dele, como fazia quando era criança. E ele sentia seu hálito cheirando a pitangas, maçãs e laranjas do pomar. Às vezes, ela chegava mastigando folhas de hortelã. Ele começava a ler para ela uma de suas muitas histórias, e ela às vezes dormia, a cabeça deitada sobre seu peito. Ele achou que precisava fugir, afastar-se de Regiane um pouco, fazer com que ela percebesse que ele nada tinha a oferecer-lhe. Por isso, ela passou a não encontrá-lo mais com tanta frequência quando ia ao porão. Batia à porta que não era atendida, e ao olhar sob a greta, não enxergava nenhuma luz. Voltava mais tarde, e a mesma coisa ocorria, até que, dias depois, para seu alívio, ela o encontrava. Aqueles dias sem vê-lo, ao invés de arrefecerem seus sentimentos, apenas os incendiava. Ele abria a porta e ela jogava-se sobre ele, os braços em volta de seu pescoço, num longo abraço de saudades do qual ele gostaria de poder esquivar-se.

Ela tinha apenas treze anos, mas a natureza, talvez pelo fato de ela estar há tanto tempo acrescentando dois anos à sua idade real, tinha acelerado seu crescimento, e ela passava tranquilamente por uma moça de quinze, com todos os sentimentos, ânsias e desejos de uma adolescente. Ela resolveu assumir a sua idade de mentira, e com o tempo, tratou de se esquecer sua idade real. E foi assim que ela chegou aos quinze anos reais – dezessete anos oficiais. Aquilo significava que, dentro em breve, ela teria que deixar a escola, pois eles só mantinham meninas até os dezoito anos. Regiane sabia que não poderia simplesmente dizer às freiras que tinham mentido sobre sua idade, e que ela, na verdade, tinha apenas dezesseis anos, o que lhe daria mais dois anos na escola. Assumira seu segredo, e teria que conviver com aquela decisão.

Em uma de suas visitas à casa das tias durante as férias escolares, Regiane saiu para um passeio com Régis. Era uma linda e iluminada manhã de verão, e ambos caminhavam pelas ruas Petropolitanas, onde o clima ameno convidava as pessoas a um passeio à pé. Algumas carruagens e carros passavam vagarosamente, seus ocupantes desfrutando a beleza da paisagem. Régis comprou-lhes dois algodões doces, e sentaram-se em um dos muitos banquinhos da Praça da Liberdade para comê-los. Ele olhou para a filha, e viu que ela transformara-se em uma cópia quase exata da mãe, só que ainda mais bela. O destino dela muito o preocupava. Queria ter certeza de que sua filha seguiria por um bom caminho, e não seria envolvida por um crápula como ele mesmo fora em sua juventude. Régis pensava em uma maneira de casar sua filha, mal ela deixasse a escola, e já tinha em vista alguns rapazes que julgava serem bons candidatos. Ele não sabia que Regiane tinha planos bem diferentes. Arriscou tocar no assunto:

-Filha, oficialmente, este é o seu último ano na escola Nossa Senhora da Ajuda, e no ano que vem, deverá deixa-la. Precisamos discutir o seu futuro. Suas tias disseram que a aceitarão no casarão, o que é uma ótima notícia!
Regiane pegou um bom pedaço do doce e deixou que derretesse na boca antes de responder:
-Quando eu mais precisei, elas não me quiseram naquela casa. Agora, que Lea cresceu e foi mandada para um colégio interno luxuoso, não represento mais nenhuma ameaça para a moral e os bons costumes, não é?
O pai ralhou com ela:

-Não seja mal-agradecida, Regiane! Se elas não a aceitaram antes, foi porque não podiam cuidar de você. Não gosto que fale assim de suas tias!

-É... o senhor tem razão! Quando passo o final de semana com elas, sou sempre muito bem tratada, e também não faltam tarefas caseiras. Da última vez, deram-me uma pilha de lençóis para passar, e tive que lavar os banheiros da casa. Quem sabe, elas queiram uma empregada, não é, meu pai?

Régis perdeu a paciência, erguendo um pouco a voz:

-Quando foi que você aprendeu a ser assim, tão ingrata e irônica? As mulheres são responsáveis pela limpeza da casa, e já que elas a aceitaram como hóspede, é seu dever ajudar nas tarefas.

Regiane não se intimidou:

-Pai, quero um dia poder cuidar da minha própria casa. Da minha própria família, e não ser uma intrusa na casa dos outros! Não quero viver com minhas tias.

-E o que você sugere, então? Só há uma saída: casar-se! Ou então virar freira.

Regiane engoliu em seco. Não queria casar-se apenas por não ter outra alternativa, e não tinha fé o suficiente para tornar-se uma religiosa. Havia muito da vida que ela queria descobrir. Desejava viajar, ter uma profissão, ser uma mulher independente.

-Eu quero ser independente, ter minha casa e meu dinheiro, pai.

Régis riu com desdém:

-Independente? Que coisa é essa, filha? Quem foi que pôs essas ideias absurdas na sua cabeça? Mulheres nasceram para casar e ter filhos! Devem cuidar dos maridos e de suas casas.

-Minha mãe nunca se casou! Graças ao senhor.

Aquelas palavras tiveram o impacto de um forte soco em Régis. Regiane percebeu a força negativa de suas palavras:

-Desculpe, pai... eu não queria...

-Cale-se! Não quero mais ouvir nada de você hoje.  (Ele ergueu-se do banco, jogando o algodão doce em uma lata de lixo próxima) Quando terminar seu doce, vá para casa.

Dizendo aquilo, Régis afastou-se. Regiane ficou sentada no banco da praça, segurando o doce, e acabou jogando-o fora. De uma coisa o pai tinha razão: ela precisava decidir o que fazer de sua vida. Tinha apenas um ano e dois meses na escola. E ainda havia Ricardo... será que, caso deixasse a escola, nunca mais o veria? Aquela possibilidade deixava-a cheia de pavor! Queria ter uma vida inteira com ele; gostaria de leva-lo para fora daquele porão, e passear de mãos dadas com ele pela calçada. Queria sentar-se com ele em um banco de praça como aquele, e dar muitas risadas, e fazer planos de terem uma pequena casinha branca de janelas azuis, onde poderiam criar seus filhos.

Apenas com Ricardo aquela possibilidade existia, e era algo feliz.

Mas por dentro, Regiane sabia que havia muitas coisas sobre Ricardo que ela não imaginava, e que aqueles segredos que ela tanto temia poderiam afastá-los um do outro. Cada vez mais, desejava saber quem era a mãe de seu amigo, e por que ele tinha sido condenado a permanecer ali para sempre, perdendo sua infância e parte de sua juventude em um porão escuro e sem janelas, saindo apenas à noite ou quando ninguém estivesse por perto, tornando-se tão esquivo a ponto de virar uma lenda, um fantasma que habitava a imaginação das pessoas.


(continua...)









segunda-feira, 7 de março de 2016

O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO XIII






O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO XIII


Uma semana após a aventuras de Regiane, e muita ansiedade por parte da menina - para uma criança, uma semana é tempo suficiente para sentir-se decepcionada ao não ter um pedido realizado-, algo aconteceu. Irmã Malvina interrompeu a aula a fim de fazer um comunicado. Pela primeira vez, ela não parecia carrancuda ou disposta a ser insuportável. Trazia uma expressão contente e satisfeita, o que fez com que as crianças relaxassem ao vê-la (sempre que ela adentrava a sala de aula fora do período em que deveria estar administrando suas temidas aulas de matemática, todos tremiam, pois boa coisa não poderia ser).

Ela comunicou que a escola recebera uma honraria muito grande: o Presidente da República em pessoa desejava fazer-lhes uma visita. Ela acabara de receber um documento expressando seu desejo, e no tal documento, que ela leu em voz alta para que todos ouvissem, ele dizia sobre uma carta que recebera de uma das alunas (não declinara o nome da mesma) demonstrando que as condições da escola deveriam ser melhoradas. Assim, ele determinara que a partir do dia de sua visita, a escola Nossa Senhora da Ajuda passaria a receber mensalmente, ajuda financeira a fim de melhorar o cardápio das crianças e instalar chuveiros com água quente.

Ao ouvirem as novidades, as meninas aplaudiram; menos Regiane, que decepcionada, não tivera seu maior pedido atendido. Ele não dizia que lhe daria uma casa de presente. Nem sequer mencionara seu nome, e ela sabia que mesmo que revelasse a todos que tinha sido ela a autora da carta, ninguém acreditaria nela. 

Naquele final de semana, seu pai fora visita-la. Chegou com um grande pacote cheio de doces: havia goiabada cascão, doce-de-leite de corte, balas coloridas, e duas grandes fatias de bolo confeitado da Padaria Alemã, embrulhadas em papel encerado. Regiane agradeceu pelos quitutes, mas não demonstrou nenhum entusiasmo. Régis percebeu que a menina estava triste:

-O que aconteceu, filha? Está tudo bem?

Ela fez uma pequena carranca:

-Mais ou menos... sabe que o Presidente da República vem nos visitar na próxima semana? 

-Ah, sim, Irmã Margarida me falou sobre isso enquanto estava esperando você chegar... que grande honra, não é?

-É... agora teremos chuveiros quentes e a comida vai melhorar também... mas...

-E isso não é maravilhoso? Você não ficou contente?

Regiane começou a chorar. Surpreso, o pai passou o braço em volta da menina:

-Mas por que você está triste, filha?

-Porque ninguém acreditaria em mim!

-Mas... o que?...

Ela enxugou os olhos na manga da blusa, e virando-se para o pai, revelou:

-Fui eu quem escrevi a carta. Mas só que eu não pedi nada disso! Pedi uma casa para morar com você!

O pai tentou compreender o que Regiane estava tentando dizer, e então, mal crendo no que acabara de ouvir, admirou-se:

-Você quer dizer que escreveu uma carta ao Presidente da Nação?

-Sim, eu escrevi... mas parece que ele não lê muito bem, ou então alguém leu no lugar dele e fez tudo errado!

-Mas... como assim?

-Eu queria uma casa. Irmã Dulce disse que ele era o homem mais poderoso e mandão do país todo, e pensei... pensei... (ela recomeçou a chorar). Eu bem que falei que as coisas aqui na escola não eram muito boas, mas meu pedido foi a casa!

-Filha... o que você fez foi maravilhoso! Pense bem: você prestou uma grande ajuda não apenas às Irmãs, mas também e principalmente às outras crianças. Agora, elas desfrutarão de mais conforto por sua causa.

Regiane ficou pensando no que aquilo significaria, mas não conseguiu ver vantagem nenhuma para si. Resolveu não falar mais no assunto. Ao invés disso, perguntou:

-E você conseguiu falar com a mamãe, pai?

Régis entristeceu-se:

-Não, querida... nós tentamos, mas ela não pode vir. Quem sabe, mais tarde...

A menina concordou com a cabeça. Gostaria de dizer ao pai que tinha um amigo de verdade, mas lembrou-se de sua promessa de jamais falar a ninguém sobre a presença de Ricardo. Mas não faria mal fazer outro tipo de perguntas, e ela disse:

-Papai... freiras podem ser mães?

-Claro que não, Regiane! Elas são casadas com Jesus, eu já disse isso a você. 

-E Jesus não pode ser pai?

-Ele já é o Pai de todos nós, filha!

-Então... nós somos irmãos?

-Espiritualmente, sim; somos todos irmãos. Eu já expliquei a você. Mas não somos irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, fisicamente falando.

-Mas... então... se uma das freiras tivesse um bebê eu seria irmã dele também?

-Mas que história é essa, filha? É... bem... seria sim, você seria irmã espiritual desse bebê... mas eu já disse, freiras não tem bebês, não podem, são casadas com Jesus – de maneira espiritual, é claro.

-Mas... e se elas tiverem um bebê sem ninguém saber?

-De onde você tirou essa ideia absurda, menina?

Sem responder ao pai, ela continuou:

-Mas se elas tivessem um bebê, com certeza o esconderiam em algum lugar onde ninguém achasse, não é? E se alguém encontrasse esse bebê, seria muito ruim para todos, não é?

Régis decidiu não ir muito fundo no assunto, pois sempre ficava constrangido quando a filha fazia tais perguntas. Vacilou ao responder:

-Acho que sim... mas vamos mudar de assunto: como estão suas notas na escola? 
E assim passaram o tempo de visita, falando sobre as notas da escola, as matérias e as coleguinhas de Regiane. Sempre que ela tentava voltar ao assunto do ‘bebê de freiras’, Régis mudava o rumo da conversa.

Após rever sua filha, Régis foi fazer uma rápida visita às irmãs e sobrinhas antes de voltar a Niterói, de onde só voltaria a sair no mês seguinte. Madame Fonseca estava muito deprimida, e exigia sua presença mais do que normalmente o fazia. Parecia não se importar mais com os comentários dos demais empregados. Ficavam horas conversando na varanda, e naqueles momentos, ela falava de sua infância, de sua família e do quanto fora triste não ter conseguido ser mãe, e que provavelmente, por aquele motivo, seu marido a deixara. Demonstrou sentir muitas saudades de Paulinho, e disse que gostaria muito de saber o que acontecera com ele, aonde estava o menino, se ele era feliz. Régis acabou fazendo também algumas confissões íntimas; falhou-lhe de Vicentina, e da desgraça que se abatera sobre a vida dela depois que ele a conheceu. Não se isentou de responsabilidades, foi verdadeiro e demonstrou estar profundamente arrependido. Madame Fonseca chorou ao ouvir a história de Vicentina, e teve muita pena dela. Ele achou que talvez aquela seria uma boa hora para voltar a falar-lhe de Regiane, e pedir a ela mais uma vez que permitisse a vinda da filha para a mansão; mas ela continuou firme em sua decisão: não queria apegar-se mais uma vez a uma criança que não era sua, que não lhe pertencia e que poderia desaparecer de sua vida a qualquer momento.  

Após a visita de Getúlio Vargas – na qual o nome de Regiane nem sequer foi mencionado – a vida na escola voltou ao normal, mas com condições bem melhores para as crianças. Receberam uniformes novos, as refeições melhoraram e novos cobertores e roupas de cama foram comprados. Além disso, passaram a receber frutas todos os dias, após as refeições. Às sextas-feiras, as freiras escolhiam um grupo de meninas para ir passear pela cidade, e elas ganhavam doces da padaria. Também passaram a passear pelos jardins do Museu Imperial, e em algumas ocasiões, três ou quatro meninas (as que se comportavam bem e tinham as melhores notas) eram escolhidas para passear no Rio de janeiro, quando as freiras tinham que visitar a matriz da escola. Regiane foi selecionada uma vez, e adorou a viagem!

Sempre que voltava de algum passeio, ela dava um jeito de, na primeira oportunidade, ir até o porão e contar tudo a Ricardo. Ele a escutava com atenção, fazendo perguntas e comentários. Em uma destas ocasiões, Regiane perguntou-lhe:

-Você conhece o Rio de Janeiro?

-Não... como já disse, não saio muito.

-Você não gostaria de conhecer?

-Na verdade, poderia, se quisesse... mas não. Prefiro ficar por aqui mesmo. Acho que todos os lugares são iguais, ou seja, há pessoas, casas... e as pessoas sonham coisas iguais dentro de casas parecidas, aborrecem-se sobre as mesmas ninharias, criam e resolvem seus conflitos...
(ele percebe o olhar confuso da menina)

-Mas... fale-me mais sobre o Rio de Janeiro!

Regiane, que era uma menina insistente, pareceu não ter escutado, e continuou:

-Você me disse que sua mãe é uma freira; qual delas?

-Você faz muitas perguntas, Regiane. Há certas coisas sobre as pessoas que devemos respeitar. Isso se chama m privacidade. Existem assuntos sobre os quais não se deve fazer perguntas, é falta de educação.

Ela ficou muito vermelha, e baixou a cabeça. Ele percebeu, e tentou animá-la:

-Mas deixe isso pra lá, menina! Fale sobre o Rio.

Ela ergueu os olhos e olhou para ele com certa tristeza:

-É que... eu pensei que fossemos amigos.

-Mas nós somos!

-Amigos partilham tudo. Eu contei a você sobre o meu pai, e sobre as coisas que vivi, e das coisas que eu gosto. Você nunca fala de você mesmo.

-É que eu não tenho muitas coisas para contar, Regiane. Não saio nunca daqui. Você tem uma vida bem mais interessante.

-Você acha? Eu não acho... gostaria de poder ter uma casa, e morar com meu pai. Gostaria de estudar na outra parte da escola, onde estão aquelas meninas que tem uniformes mais bonitos, sapatos de verniz...

Ele fez uma carícia nos cabelos dela:

-Mas se fosse assim, não teríamos nos conhecido.
Ela pareceu pensar:

-É mesmo! Bem, então eu prefiro estudar deste lado aqui. Mas um dia, ainda quero ter  a minha casa. Você acha que eu vou conseguir?

-Acho, sim.

-E se eu conseguir, você acha que pode vir morar comigo?

Ele riu:

-As coisas não são simples assim, Regiane.


-Por que? Qual o problema?

-Você já percebeu que faz perguntas o tempo todo, menina? As pessoas não gostam de certos comportamentos. Ninguém leva um estranho para viver dentro da própria casa. São as regras sociais. Meninas não podem morar com meninos, a não ser que sejam casados.

-Então você pode se casar comigo!

Ele ficou perplexo, e respirou fundo. Regiane o deixara constrangido. Tentou disfarçar com um sorriso amarelo, e deixou uma resposta vaga, pois se dissesse não, sabia que ela faria ainda mais perguntas.

-Quem sabe, não é? Um dia...

E assim a vida corria entre as paredes daquela escola.  Regiane aprendia sobre o pecado e a culpa. Estudava as matérias, procurava tirar boas notas e não fazer tantas perguntas – embora esta parte fosse a mais difícil. Lá fora, seus primos cresciam. Os irmãos que ela não sabia que existiam, cresciam também. Seu pai continuava a tentar contatos com sua falecida mãe, que nunca se manifestou, e as tias Rosa e Fiorela, e o tio João,  levavam suas vidas no casarão, que recebia sempre muitos gatos perdidos dos quais elas cuidavam. Alguns desapareciam, outros adoeciam e morriam, e poucos envelheciam.

A amizade com Ricardo fortalecia-se cada vez mais. Ela levava suas angústias até ele, e ele a 
escutava e aconselhava. Lia os livros que ele lhe mostrava, e ambos discutiam as histórias e personagens, o que fez com que Regiane adquirisse muita sagacidade e espírito argumentativo, o que lhe rendia algumas broncas durante as aulas, pois ela não aceitava os dogmas religiosos que as freiras impunham, e queria sempre saber com detalhes os porquês das coisas. 

E foi assim que ela chegou aos seus quinze anos de idade (na verdade, treze). O pai procurava prepara-la para ser uma boa esposa e mãe, uma mulher direita, de família, pedindo que as freiras focassem nas lições de economia doméstica, corte e costura e administração do lar, mas a ideia de casar-se com qualquer outro homem que não fosse Ricardo  não a agradava. Regiane não desejava casar-se. A não ser que Ricardo aceitasse casar-se com ela. Mas ela sabia (e ele estava sempre lembrando-a) que não podia revelar a ninguém que ele estava ali, ou então, poderia perdê-lo para sempre, e então, como poderiam casar-se? Achava que o tempo resolveria aquela questão.

Ela as vezes ficava observando as freiras, fingindo prestar atenção às aulas, e imaginando qual delas seria a mãe de seu amigo: será que Irmã Regina poderia guardar aquele segredo? Não... ela era velha demais, assim como Irmã Malvina, que além de velha, era muito beata. Talvez Irmã Teresa... não; era muito jovem! Quem sabe, Irmã Carmina? Podia ser, se ela não fosse tão negra. Ricardo era branco, tinha a pele mais alva que ela já vira, e cabelos loiros. Irmã Dulce? Talvez; ela era a que mais tinha o perfil de mãe. Não sabia qual era a cor de seus cabelos, escondidos sob o hábito, mas ela tinha os mesmos olhos azuis de Ricardo. E sempre que pensava naquilo, Regiane ia adquirindo a certeza de que seu pensamento era correto, apesar de haver uma outra freira na escola do Rio de Janeiro que também se parecia com Ricardo, e tinha a idade certa para ser sua mãe... ele nunca dissera se sua mãe permanecia naquela unidade da escola.

Respeitava o segredo de Ricardo, mas cada vez mais, achava que precisava fazer alguma coisa para ajudar seu amigo que morava no porão. Notava que ele não crescera muito em relação a ela, e pensava ser a falta de sol e exercício físico as causas de sua palidez e aparência demasiadamente jovem para a idade que tinha: vinte e dois anos. Ele nunca comia na frente dela, não aceitando as guloseimas que ela lhe trazia, alegando ser alérgico a doces e a trigo. Talvez por isso fosse tão magro. 

Regiane sabia que os rapazes deviam estudar e procurar um emprego. Como poderiam casar-se, se ele não trabalhava? Ela às vezes perguntava aquilo para ele, mas Ricardo apenas ria tristemente. Se ela insistisse, ele mudava de assunto. 

(continua...)

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO XII









O ANJO NO PORÃO- CAPÍTULO XII




A escola estava em polvorosa; Getúlio Vargas, o então Presidente da República, estava em, Petrópolis, hospedado no Palácio Rio Negro, e fora anunciado que ele passearia pelas ruas da cidade naquela tarde. As freiras preparavam as crianças, fazendo anúncios nas aulas da manhã, e avisando que as aulas da tarde estariam canceladas, e que todas elas deveriam estar usando seus uniformes de gala após o almoço, pois iriam para a frente da escola a fim de verem o Presidente passar. Bandeirinhas de papel eram distribuídas entre as crianças, que eram instruídas a agita-las a fim de saudar o chefe da nação. Getúlio Vargas, uma criatura simpática e acessível, parava para falar com as meninas e cumprimentar as freiras. Às vezes, apertava as mãos de algumas delas. As alunas mais antigas estavam acostumadas àquele ritual, mas ele era novidade para as alunas mais novas, como Regiane. Ansiosa, a pequena perguntou à Irmã Dulce:

-O que é um Presidente da... da.. República?

-Presidente da República, Regiane, é um homem muito importante que manda em todo o país. Ele toma decisões muito sérias em nome da Nação. 

-Que tipo de decisões? O que são decisões?

-Decisões são coisas que decidimos, ou seja, que queremos ou precisamos fazer. As decisões de um Presidente da República tem a ver com o bem-estar do povo e a segurança do país, por exemplo.
Regiane refletiu por um momento, os olhos perdendo-se pelas nuvens que passavam à janela. A sala de aula estava vazia, e as outras crianças tinham ido brincar no pátio, pois era a hora do recreio. Irmã Dulce ficou aguardando pacientemente enquanto corrigia alguns cadernos, pois sabia que Regiane teria mais perguntas. 

-Ele pode fazer o que quiser, pois é a pessoa mais importante do país,. Certo?

A freira parou de corrigir o caderno, pousou o lápis sobre a mesa e baixou os óculos:

-Hum... quase isso. Um Presidente pode fazer quase tudo.

-Se eu pedir uma coisa a ele, a senhora acha que ele pode me dar?

Irmã Dulce sorriu:

-Mas o que é isso que você tanto quer, minha pequena?

Regiane arregalou os olhos:

-Eu queria ter uma casa para poder morar com o meu pai. 

Irmã Dulce sentiu que os olhos ardiam e que ela poderia começar a chorar. A simplicidade das crianças sempre a surpreendia e encantava. 

-Sinto muito, querida, mas acho que se você pedisse a ele uma casa, ele não poderia dar-lhe uma...
-Mas ele não é a pessoa mais importante do Brasil? Ele não pode quase tudo?

-Sim, mas...

Regiane a interrompeu:

-Então ele pode me dar uma casa de presente!

-Mas uma casa custa muito dinheiro, querida...

-Então o Presidente não é rico?

Irmã Dulce ficou sem saber o que responder, e achou melhor não explicar muito. Buscou uma resposta que satisfizesse a urgência daquele momento, e depois achou melhor desconversar:

-Não muito, Regiane...

De repente, ela lembrou-se de Ricardo, que morava no porão. Esqueceu-se de que tinha prometido não contar a ninguém que ele estava ali:

-Eu poderia levar meu amigo que mora lá no porão para morar comigo.

Irmão Dulce retirou os óculos, assumindo uma postura séria que espantou a menina. Regiane viu que a freira empalidecera, e que suas mãos tremeram ao retirar os óculos. Imediatamente, lembrou-se da promessa que fizera a Ricardo, de jamais dizer a ninguém que ele estava ali, e pensou rapidamente em uma saída. Irmã Dulce balbuciou:

-Que amigo é esse, menina? De quem você está falando?

Regiane hesitou, depois assumiu um olhar confiante ao afirmar:

-De um gatinho que vi por lá... quando as meninas me trancaram.

Ela percebeu que as feições de Irmã Dulce relaxaram, e que a cor voltou ao seu rosto. Irmã Dulce olhou a menina longamente, e disse, encerrando o assunto:

-Vá brincar lá fora. Preciso terminar estas correções.

Regiane deixou a sala de aula correndo em direção ao pátio, sem escutar as ordens da freira:

-Não corra, menina!

Mal Regiane saiu, Irmã Dulce deixou-se perder em suas memórias. Lembrou-se do menino no porão. Ricardo, seu filho, que ela tivera apenas duas semanas após chegar naquela escola, há dezessete anos. Irmã Malvina queria força-la a entregar o menino a um casal de americanos que desejavam adotar uma criança, mas ela implorou tanto para que ela não o fizesse, que a Madre Superiora cedeu; mas com a condição de não dizer a mais ninguém que a criança existia, e de cria-la longe dos olhos curiosos dos outros e dela mesma. Confinou o menino ao porão, de onde ele quase nunca saía. Às vezes, quando ela finalmente tinha tempo de visitar a criança, o encontrava chorando muito, e parecia que estava chorando há horas. Ela o pegava no colo, embalava, alimentava, banhava e punha para dormir, cantando-lhe baixinho as canções de ninar das quais  conseguia lembrar-se. Aos domingos e feriados, quando a escola estava mais vazia, Irmã Dulce levava seu filho lá para fora, em um canto escondido do pomar, e deixava que ele tomasse sol e visse a luz do dia durante algum tempo. Aqueles momentos eram os mais felizes de sua vida!

Gostaria de poder cria-lo como qualquer criança normal e saudável era criada, mas sendo mãe solteira, e dependendo da caridade de outros para ter o que comer, ela sabia que não podia fazê-lo. Para onde levaria seu filho? A ideia de entrega-lo para adoção e nunca mais vê-lo causava-lhe uma dor excruciante! Planejava deixa-lo crescer, e educa-lo nas horas vagas. Conseguiu que uma de suas amigas do lado de fora ficasse com ele a cada quinze dias, a fim de livrá-lo um pouco do confinamento no porão. Ela dizia a todos que o menino era de um orfanato, e que gostava de leva-lo para casa de vez em quando a fim de prestar um pouco de caridade. Era seu dever cristão. 
 Já crescidinho, Ricardo era instruído a nunca fazer barulho, e nunca permitir que alguém o visse. A porta do porão era mantida sempre trancada. A mãe dizia a ele que havia monstros do lado de fora que gostavam de devorar crianças que saiam sozinhas, e confiando na mãe, Ricardo nunca saía, vendo no porão um refúgio contra os perigos do mundo lá fora. Desenvolveu certa síndrome do pânico, e começou a não querer mais sair nem mesmo nos finais de semana, quando a amiga da mãe vinha busca-lo, e quando era obrigado, sentia tanto medo que passava mal. Aquelas ocasiões antes tão esperadas passaram a causar-lhe verdadeiro pavor, até que finalmente, a mãe concordou em encerrar as suas saídas – com a condição de que ele concordasse ir com ela até o pomar algumas vezes, e sentar-se ao sol e fazer um pouco de exercício. Se alguém o visse, poderia mentir, dizendo que o menino era filho de um dos jardineiros da escola, mas nunca ninguém o viu, pois ela tomava muito cuidado, levando-o sempre para a parte mais distante da escola, onde as crianças não tinham permissão de ir e as outras freiras jamais frequentavam. Ela o fazia apenas nos finais de semana, ou quando os jardineiros não estavam trabalhando.

Ao voltar para a segurança do porão, Ricardo sentia-se em paz. A mãe levava-lhe muitos livros, alfabetizando-o e ensinando-lhe matemática, história, geografia e ciências. Ele tinha pelo menos duas horas de aulas durante a semana, e quatro aos sábados e domingos. Irmã Dulce deixava-lhe bastante tarefas caseiras para que Ricardo se ocupasse, e muitos livros para ler e resumir. O menino foi crescendo, tornando-se muito instruído, exageradamente pálido e demasiadamente quieto. Sabia que Irmã Dulce era sua mãe, e assim a chamava, mas sabia que não deveria chama-la de mãe, caso os dois fossem vistos juntos. 

Vivia isolado de tudo e de todos, mas era assim que se sentia seguro. Na janelinha do seu quarto havia uma cortina que encobria a visão de quem estava do lado de fora, mas ele às vezes, quando estava sozinho, levantava uma das pontas e assistia através da pequena greta no vidro às outras crianças brincarem no pátio, ao longe. Às vezes sentia vontade de juntar-se a elas, mas sabia que era proibido. Sua mãe deixara bem claro, que caso o descobrissem, ambos seriam expulsos e devorados pelos monstros do mundo lá fora. Mesmo assim, algumas das meninas o tinham visto à janela rapidamente – e ele sempre tentava ser o mais discreto possível, baixando a cortininha assim que achava que o estivessem olhando. A brancura do seu rosto fez com surgisse uma lenda que dizia que o porão era habitado por um fantasma. Irmã Dulce, ao descobrir o que as meninas andavam comentando, achou que o melhor seria alimentar aquela lenda, a fim de desencorajá-las a desejarem investigar, e inventou uma história: Há muitos e muitos anos, um menino louco e muito malvado escondera-se naquele porão. Alimentava-se de ratos e outros insetos, além das frutas e legumes que roubava do pomar e da hortinha. Sempre que encontrava alguma menina caminhando sozinha nas imediações do porão, ele a sequestrava, e ela nunca mais era encontrada viva. A lenda foi o suficiente para causar pavor nas meninas, e deixa-las bem longe do porão.

Aos poucos, Ricardo compreendeu que os monstros dos quais sua mãe falava eram uma alegoria, uma maneira que a mãe encontrara de mantê-lo quieto no porão; mesmo assim, os tais monstros viviam dentro dele, para onde se mudaram com o passar do tempo. Ricardo não queria sair. Não poderia, mesmo se quisesse.

Irmã Dulce sacudiu a cabeça, enxotando aquelas lembranças, encaixotando-as novamente em uma parte não acessada frequentemente que mantinha dentro da própria cabeça. Aqueles pensamentos faziam-na sofrer, mas logo o sinal tocou, encerrando o recreio, e ela foi cuidar de preparar as crianças para verem o Presidente passar, esquecendo-se de seus tormentos.

Ela organizou a fila no pátio, distribuindo as bandeirinhas e aconselhando as crianças a não fazerem nenhuma algazarra, mas a serem educadas e silenciosas. Se o presidente as cumprimentasse, deveria fazer-lhe uma reverência. Estava programado que ele passaria pelos portões da escola às três da tarde. Ainda eram duas e trinta. De repente, Regiane teve uma ideia: pediu licença à freira, dizendo que precisava ir ao banheiro. Irmã Dulce permitiu, contrariada, e pediu-lhe que não demorasse, pois se a Madre Superiora chegasse e não a encontrasse por lá, haveria motivos para uma grande bronca.

Regiane saiu da fila correndo, mas ao invés de dirigir-se ao lavatório, foi até o quarto e pegou lápis e papel. Ia escrever uma carta ao Presidente da República. 

Sentou-se em sua caminha, no dormitório vazio. Sabia que precisava ser muito rápida, e colocando o papel sobre a capa dura de um livro, começou:

“Senhor Presidente: Meu nome é Regiane, e vivo nesta escola. Meu maior sonho é ter uma casa. Não que a escola seja de todo ruim, mas eu prefiro morar em uma casa com meu pai. Ele trabalha longe e não pode ficar comigo, e minha mãe morreu. Eles dizem que ela foi viajar, mas eu sei. A bruxa da dona Celeste me contou. Dona Celeste é uma pessoa horrível que meu pai pediu para tomar conta de mim antes de me mandar para cá. Nesta escola a comida nem sempre é boa, e não temos sobremesa todos os dias, a não ser do outro lado, onde vivem as meninas ricas. Às vezes a gente encontra insetos grandes no feijão, mas temos que tirar os bichos e continuar a comer assim mesmo, ou a Madre Superiora nos deixa de castigo. Também sou obrigada a partilhar os doces que meu pai me traz com as outras meninas, e não me sobra quase nada! E ainda somos obrigadas a tomar banho gelado. É muito ruim! Se eu tivesse uma casa, meu pai poderia morar comigo e eu poderia levar minhas melhores amigas também e poderia ter um cachorrinho, e comer doces, e tomar banho quente. Por favor, me compre uma casa. O senhor é muito poderoso, e manda em todo mundo. Obrigada. Assinado: Regiane.”

Ao terminar a carta, que ficou cheia de erros, mas não havia tempo de consertá-los, a menina dobrou-a e escondeu-a sob a blusa da escola, no cós da saia, voltando para a fila.
Irmã Dulce ficou brava  com ela pela demora, pois Irmã malvina ralhara com ela por tê-la deixado sair da fila. Regiane desculpou-se. Levou a mão até a carta. Seu coração batia muito forte. Estava nervosa e cheia de expectativas, pois não sabia se conseguiria entregar sua carta ao Presidente. 
Finalmente, chegou a hora, e as meninas foram encaminhadas em fila até as grades de ferro que separavam o pátio da rua. Regiane tratou de empurrar as outras até conseguir um lugar bem na frente. Logo, viram a comitiva se aproximando, e de repente, Regiane compreendeu que não sabia quem o Presidente era. Virando-se para a menina ao lado, perguntou: 

-Quem é o Presidente?

A menina, mal olhando para ela, disse:

-É aquele baixinho de chapéu.

Com o coração aos pulos, Regiane viu o Presidente da República se aproximando, e enquanto as outras meninas agitavam suas bandeirinhas e as freiras aplaudiam, ela tirou sua carta de dentro da roupa, e assim que ele estava perto, esticou a mão bem na frente do rosto de Getúlio Vargas! Surpreso, ele deu uma meia parada, e olhou-a bem de perto. Sorriu, apanhou a carta, na qual ela tinha desenhado uma flor bem grande, acariciou seu cabelo brevemente e continuou andando. Ela estava emocionada: o homem mais importante do Brasil tocara em seu cabelo, e leria a sua carta! Será que ela conseguiria a tão sonhada casa?

Cheia de expectativas, Regiane quase não dormiu naquela noite. Na manhã seguinte, estava muito quieta e distraída durante as aulas, o que rendeu-lhe algumas broncas, mas ela não ligou. Achava que logo estaria bem longe dali, em sua própria casa. O Presidente a ajudaria. 

Naquela tarde, após as aulas, foi visitar Ricardo para contar-lhe as novidades:

-Adivinha só, Ricardo. Eu vou embora!

O rapaz pareceu triste, mas mesmo assim, deixou escapar um pequeno sorriso:

-Vai mesmo? Mas... bem, estou feliz por você. Não vai sentir minha falta?

Ela não tinha pensado naquilo; se fosse embora, talvez nunca mais o visse. Mas de repente, teve uma ideia.

-É que o Presidente da República vai me dar  uma casa, e eu vou poder levar quem eu quiser. Você está convidado para morar comigo e meu pai e minhas amigas, e meu cachorrinho também. 

Ricardo não parecia muito entusiasmado. Abriu um dos seus livros, e passou a lê-lo, ignorando Regiane.

-Você não ficou contente, Ricardo?

-Estou feliz por você... isso é, se conseguir a casa. Mas não posso ir. Não posso sair daqui, já te disse. Este é o meu lugar, a minha casa. 

Regiane ficou triste, mas tentou não demonstrar:

-Então... eu venho visitar você quando eu puder.

Ele fechou o livro:

-Não acredito nisso. Você vai embora, e eu vou ficar sozinho de novo, pois você é a única que... 
Ele deixou a frase sem terminar. Regiane olhou para ele, e percebeu que ele ia dizer alguma coisa que não deveria. Sabia que quando as pessoas grandes faziam aquilo, nem adiantava perguntar, pois elas não abriam a boca! Achou que Ricardo, sendo bem mais velho que ela, não seria diferente. Não argumentou com ele; chegou mais perto, e colocou a mãozinha sobre a dele:

-Você não vai ler uma história para mim hoje? Gosto daquela que tem a princesa que dorme cem anos. 

Ele sorriu, e foi procurar A Bela Adormecida na prateleira. 

(continua...)





terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO XI










O ANJO NO PORÃO
CAPÍTULOXI



Após o que ele pensou terem sido as visões da filha, Régis conversou com os médiuns no centro espírita, e dois deles encarregaram-se de comparecer à casa de suas irmãs para fazer uma sessão durante a qual invocariam o espírito de Vicentina. Era o final da tarde de uma quinta-feira quando eles chegaram: Veridiana, uma mulher de meia-idade, antiga e respeitada médium do centro espírita, e Heitor, seu filho, um rapaz cuja mediunidade estava ainda em desenvolvimento. Foram recebidos no salão da casa principal, onde Régis e suas irmãs o aguardavam (João preferiu não participar, ficando no quarto de brinquedos com as crianças). Regiane, que já tinha retornado à escola, nem suspeitava do rebuliço que uma pequena mentira causara no coração do pai.

Fiorela serviu a todos xícaras de chá – não era aconselhável que comessem antes da sessão. Veridiana, observadora e calada, concentrava-se no que estava para acontecer, enquanto Régis e Heitor discutiam os detalhes do ritual, que aconteceria na casa da colina. Após o chá, juntaram algumas velas, e munidos de lanternas, subiram as escadas que levavam à casa. Rosa carregava consigo as chaves do chalé, sendo que ela já tinha varrido e espanado a sala principal antecipadamente para a ocasião, já que a casa não era limpa há anos, e Régis arrastara para o centro uma velha mesa de madeira e alguns caixotes que serviriam de bancos. Colocaram as velas sobre a mesa – único recurso de luz daquele cômodo.

Veridiana mandou que todos se sentassem em volta da mesa e dessem as mãos. Respirou profundamente algumas vezes, enquanto Heitor começava uma oração acompanhada pelos demais, de olhos fechados. Após a oração, permaneceram em silêncio por um tempo que pareceu a Fiorela, que não acreditava em nada daquilo mas era curiosa, uma eternidade. Rosa não sabia no que acreditar, mas dava a tudo o benefício da dúvida, enquanto Régis aguardava, ansioso. Veridiana pediu que  a sessão fosse assistida pelos bons espíritos, e que estes os protegessem dos espíritos zombeteiros e sem luz. 

Após algum tempo, como nada tivesse acontecido, Veridiana disse:

-Estamos aqui reunidos para pedir aos espíritos de luz que conduzam a nossa presença a boa alma de Vicentina Leme. Vicentina, você pode nos ouvir? Dê-nos um sinal de sua presença!

Após aguardar durante alguns minutos, ela repetiu:

-Vicentina Leme, você está entre nós? Por favor, se estiver presente nesta sala, dê-nos um sinal!

Foi quando todos sentiram um vento gelado soprando em suas costas. Alarmada, Fiorela abriu os olhos, mas Heitor pediu-lhe que permanecesse em silêncio e não soltasse as mãos, quebrando a corrente. Motivada, a médium continuou:

-Vicentina... posso sentir uma presença... quer se comunicar conosco?

Heitor começou a rezar novamente. Régis mal podia conter sua emoção, mas permaneceu calado. Após alguns segundos, a mesa estalou, assustando a todos. Fiorela e Rosa se entreolharam, mas permaneceram sentadas e em silêncio. A médium revirou os olhos, e o frio na sala tornou-se ainda mais forte. Veridiana inclinava a cabeça para a direita, e parecia estar ouvindo alguém que falava com ela. De vez em quando, balançava a cabeça. Régis olhava para ela, querendo saber o que ela estava escutando:

-É Vicentina? Ela está presente?

Heitor fez sinal para que ele se calasse. Finalmente, a temperatura da sala voltou ao normal, e Veridiana abriu os olhos, murmurando uma oração e dizendo a todos que a sessão terminara. Régis estava indócil:

-Mas... o que aconteceu? O que ela disse?

Veridiana encolheu os ombros:

-Ela não pode vir. Um espírito-guia veio em seu lugar. Veridiana ainda se encontra em estado de sono, pois seu períspirito precisa curar-se e restaurar-se. Isso pode levar muito tempo ainda. 

-Mas... Regiane a viu! Falou com ela! As duas brincaram de pegar... e Vicentina colocou uma flor em seu cabelo! Disse que voltaria!

A médium cruzou as mãos sobre o tampo da mesa, lamentando:

-Bem, talvez tenha sido por um momento apenas... ou então a menina imaginou toda a situação. Crianças tem a imaginação muito fértil! Ela pode ter visto o que desejava ver.

Quando os médiuns se retiraram, Fiorela serviu o jantar, convidando Régis para passar a noite no casarão. João juntou-se a eles, e as crianças já dormiam. Durante o jantar, Régis manteve-se calado e triste. Ao vê-lo tão angustiado, Rosa indagou:

-Irmão... por que você quer tanto falar com o espírito de Vicentina? Há alguma coisa que precisa dizer a ela? Porque se houver, você pode fazê-lo através de uma oração. 

Régis pousou os talheres na beirada do prato intocado:

-Fiz muitas besteiras na vida. Cometi muitos erros, Rosa... você é uma das pessoas a quem eu prejudiquei através do meu egoísmo e da minha irresponsabilidade.

Rosa não respondeu. No fundo, ela concordava com ele, mas não desejava magoá-lo ainda mais. Fiorela ergue as sobrancelhas:

-Ora, Régis, de nada adianta lamentar o passado! Você errou por irresponsabilidade e egoísmo, mas aprendeu a lição. Ficar preso ao passado não vai mudar nada, o que aconteceu está escrito no livro da vida e não poderá ser apagado. Mas você pode criar um futuro melhor. Você tem que fazer a coisa certa daqui para frente. Faça o melhor que puder! Deixe que os mortos enterrem seus mortos.

Régis olhou para a irmã. Ela era sempre tão prática e sincera! Às vezes, sua sinceridade exacerbada cortava a pele da alma. Perdoou-a do fundo de seu coração, pois sabia que ela tinha razão. Fiorela sempre fora a mais sensata entre eles, enquanto Rosa era toda emoção. João pigarreou, e pôs a mão sobre a mão da esposa:

-Minha amada, acho que você está sendo dura demais com seu irmão. Todos nós cometemos erros! 
-Não estou sendo dura, apenas digo a verdade. Se a verdade é dura, a culpa não é minha.
Rosa colocou o guardanapo sobre a mesa. Lembrou-se do quanto a irmã lhe dissera coisas que a magoaram em seu momento mais triste, quando seu ex-noivo cancelou o casamento. Apesar de saber que ela estava certa – precisava seguir em frente, esquecer Alfredo e cuidar da vida – Fiorela era sempre tão dura! Por sua causa, Regiane não estava ali com eles, partilhando daquela casa e daquela refeição. Ela recordou-se da ocasião em que pediu a ela que recebesse Regiane, e a resposta que teve fora:

-Ora, ela não é responsabilidade minha, ou sua! Você precisa parar de passar a mão na cabeça de 

Régis, ele tem que amadurecer e assumir os próprios atos. Regiane será bem tratada na escola. Terá a chance de receber uma boa educação e aprender boas maneiras. Além disso, a criança é muito rebelde, e conviver com as freiras em um ambiente onde haja disciplina será bom para ela. Eu já estou cansada! Já tenho duas crianças – uma a caminho -, esta casa, um marido, você, minha irmã. E se você tiver boa memória, lembrar-se há que você não se casou com Alfredo por causa de Régis, que envolveu-se com uma prostituta.

-Ela não era uma prostituta antes de conhecer nosso irmão, Fiorela!

-Mas era uma mulher fraca, e não tinha boa índole, ou não teria caído nas artimanhas dele! Mamãe sempre dizia: “Diga-me com quem andas, e te direi quem és!”

Aquelas memórias vieram à tona à mesa do jantar, naquela noite de quinta-feira. Após colocar o guardanapo sobre a mesa antes de terminar sua refeição – o que fez com que os outros olhassem para ela surpresos – Rosa disse, antes de erguer-se e deixar a mesa:

-Você é uma pessoa muito dura, irmã. Não conhece o significado da palavra tato.

Fiorela ficou boquiaberta. Fez menção de ir atrás da irmã, mas João a impediu, segurando-a pelo braço e fazendo com que permanecesse sentada:

-Deixe-a, Fiorela. Você já falou demais por uma noite.

Indignada, ela respondeu:

-E eu disse alguma mentira? Não sei o que significa a palavra ‘tato?’ E como ela pode ter coragem de dizer isso, depois que a acolhi em minha própria casa, sob o meu teto?

João mandou-a calar-se:

-Cale-se! Não quero que sua  irmã a ouça e se sinta ainda mais humilhada!

A expressão de Fiorela era de alguém que acabara de ouvir algo para o qual não estava preparada, uma verdade que desconhecia totalmente. Estarrecida, ela conseguiu balbuciar:

-Humilhada? Mas eu... eu nunca a humilhei...

João respirou fundo, acalmando-se e voltando a controlar o tom de voz:

-O tempo todo. O tempo todo, Fiorela. Você faz questão de deixar claro para Rosa que a casa é sua, que você é a senhora. Ela sabe disso, não há necessidade de lembrá-la o tempo todo. Rosa passou por momentos muito difíceis, e você poderia ser mais solidária com sua irmã. Além disso, ela a ajuda muito com a casa e as crianças.

Régis permanecia calado, e sem conseguir tocar na comida. Pediu licença e retirou-se da mesa. 

.    .    .    .    .    .    .    .
Naquele domingo, a maioria das crianças foi passar o final de semana em casa dos pais ou parentes. Somente ficaram na escola algumas das crianças órfãs, pois as outras foram escolhidas para acompanharem Irmã Dulce e Irmã Malvina a um passeio no Rio de Janeiro – e Regiane não ficou surpresa quando não foi uma das escolhidas. Apenas entristeceu-se porque suas amigas, Dora e Célia, foram escolhidas, o que significava que ela teria que ficar sozinha. Bem, pelo menos, suas três arqui-inimigas também tinham sido escolhidas, o que a deixava um pouco mais tranquila, já que as freiras que permaneceram na escola, olhando as poucas meninas, trancavam-se em seus dormitórios para ler e passavam horas lá dentro, sem se preocuparem com o que estava acontecendo do lado de fora. Apenas as meninas mais velhas ficavam olhando as menores, mas estas também tratavam de arranjar outras atividades, deixando as menores à mercê da sorte.

O pai e as tias também não poderiam visita-la naquele final de semana. Ele precisava trabalhar, pois Madame daria uma recepção, e as tias estariam ocupadas com convidados. 
No fundo, aquele arranjo não era tão ruim: Regiane lembrou-se de seu amigo que vivia no porão, e que poderia passar o sábado inteirinho em sua companhia, se desejasse. E foi o que ela fez. Ela agora já tinha sete anos de idade (nove para os demais), e sentia-se muito grande! Disseram que ela era uma mocinha, o que fez com que ela se sentisse ainda mais orgulhosa de si mesma. Sentia saudades do seu vestido novo e de seus sapatos de verniz, que ficaram em casa das tias. Lamentava não poder mostra-los a Ricardo. 

Regiane às vezes escutava as meninas mais velhas conversando sobre os meninos que conheciam fora da escola quando faziam passeios ou iam para casa nos finais de semana e nas férias, ou então sobre Padre Augusto, que lecionava História às meninas mais velhas. Elas comentavam o quanto ele era bonito, e que era um pecado que tivesse se tornado padre. Regiane não compreendia muito bem aquela parte, mas ria quando as meninas fingiam estar abraçando e beijando o ar quando se referiam a ele. Ela mesma já o tinha visto algumas vezes saindo de salas de aula, e ele sorrira para ela. Regiane o achou muito simpático e bonito, mas não conseguia entender o que as outras realmente enxergavam nele que ela não enxergava. Sua sexualidade ainda não tinha sido despertada.
Porém, quando ela pensava em Ricardo, seu coração batia mais forte, embora ela também não entendesse o porquê. Só sabia que gostava muito dele. Ele conversava com ela como se ela fosse uma pessoa importante, digna de ser ouvida, digna de ouvi-lo. Ajudava-a de boa vontade nas matérias que tinha dificuldades, sem demonstrar tédio ou impaciência. Lia para ela histórias fantásticas, de reinos encantados e terras que ela só poderia visitar em sua imaginação ou então em seus sonhos. Aquelas histórias ficavam, em sua cabeça quando ela ia dormir, e Regiane sonhava que estava com Ricardo passeando por aqueles reinos encantados. Ele era a pessoa que ela mais gostava no mundo, mais ainda do que seu pai e suas tias. 

Ela entrou no porão, sem a preocupação que tinha de não ser vista quando a escola estava cheia de freiras e alunas circulando o tempo todo. Levava seu caderno de matemática como desculpa para estar ali, mas na verdade, apenas queria conversar com seu amigo. Ela viu a luz sob a porta e ficou feliz que ele estivesse em casa – nem sempre ela o encontrava. Bateu e esperou. Ele disse lá de dentro:

-Entre, Regiane! A porta está destrancada. 

Ela entrou, abrindo a porta devagarinho e olhando para dentro antes de entrar:

-Como você sabia que era eu?

-Um amigo conhece a respiração de outro amigo. Mas venha sentar-se! Trouxe seu caderno de matemática outra vez?

Ela balançou a cabeça, concordando.

-Mas nós tivemos uma aula de matemática ainda ontem!

Regiane, que era sempre sincera, respondeu:

-Mas eu queria ver você.

Ricardo sorriu:

-Não precisa de desculpas. Venha sempre que quiser.

E eles passaram a tarde de sábado debruçados sobre livros de histórias coloridos à mão por Ricardo. Tão bem coloridos que pareciam ter sido pintados por um artista! Ele ensinou-a a desenhar e pintar algumas coisas, e Regiane adorou saber que tinha jeito para desenhar. Nunca tinha dado importância àquilo antes, pois nunca mostrava seus desenhos a ninguém. Os adultos que a cercavam não os valorizavam. Ricardo elogiou seus trabalhos, dizendo que ela poderia tornar-se uma grande artista. 

Ela encolheu os ombros, tímida. Ele perguntou:

-Não acredita em mim, Regiane?

-Acho que sim, não sei... mas é que ainda não sei o que eu vou querer ser quando crescer. Meu pai diz que eu devo aprender a costurar e cozinhar, limpar a casa e ser uma boa mãe, pois as mulheres devem sempre casar-se. Mas eu acho que eu não vou querer me casar! A não ser...

Ela ficou bem vermelha de repente, deixando a frase suspensa no ar. Ricardo olhou para ela, divertido:

-A não ser o quê?

Ela olhou para o livro, para disfarçar seu constrangimento. Ia dizer: “A não ser que você se case comigo!” Mas não soube explicar por que não achou que fosse uma boa ideia dizer aquilo. Ao invés disso, ela só disse:

-Deixa pra lá. Eu acho que não vou me casar, e pronto. E não quero ter bebês. Bebês são um problema.

Ricardo notou que ela estava repetindo algo que ouvira.

-Por que você acha que bebês são um problema, Regiane?

-Porque eu sou um problema, desde que eu era bebê. Por minha causa, mamãe morreu e papai está infeliz, e minha tia não se casou. 

Ricardo tentou não dramatizar o que ela dissera, procurando tornar sua fala o mais leve possível.

-Ora, bebês não são problemas nunca! O problema são os adultos, que não tem responsabilidade e não cuidam deles como deveriam! Você não é problema para ninguém, querida, e se alguém disser que você é, está errado e não enxerga um palmo diante do nariz. Fui claro? 

Dizendo aquilo, ele fez uma carícia na ponta do nariz dela, o que a fez sorrir. 

(continua...)





domingo, 21 de fevereiro de 2016

O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO X






O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO X



Régis passou a evitar relacionamentos após a fuga de Hanna. Decidiu que, aos quarenta aos de idade, já tinha namorado o suficiente, e não pretendia mais casar-se ou envolver-se com outras mulheres, arriscando-se a colocar no mundo mais filhos ilegítimos. Não queria mais que ninguém fosse vítima de sua insensatez. Abraçou o espiritismo, e também as ciências ocultas. Passou a investigar as coisas do espírito, com as quais ocupava a maior parte de seu tempo, e chegou a colecionar tantos livros sobre o ocultismo e o espiritismo, que após a sua morte, anos depois, os herdeiros mal sabiam o que fazer com tantos livros.  Sempre que alguém adoecia, Régis pegava seu crucifixo (carregava-o sempre no bolso do casaco) e, portando seu livro de orações, passava a rezar pela recuperação da pessoa, administrando-lhe passes mediúnicos. Os sobrinhos pequenos gostavam de imitá-lo quando ele virava as costas, mesmo sabendo que sofreriam represálias da mãe, pois Fiorela não admitia que brincassem com “As coisas de Deus.” Tornou-se amigo e protetor dos animais, e vegetariano convicto. Gostava de dizer, ao ver os amigos alimentando-se de carne, que seu estômago não era cemitério. 

Os antigos amigos de farra não entendiam o que tinha acontecido com o velho Régis, e aos poucos foram se afastando. Régis passou a viver para o seu trabalho, sua religião e sua filha Regiane, que continuaria morando no internato até os dezoito anos de idade. A única mulher com quem se relacionava, era madame Fonseca – mas era um relacionamento respeitoso entre empregado e patroa. Mesmo assim, na solidão das horas, ela gostava de chama-lo ao final da tarde, e ambos sentavam-se na varanda da casa, saboreando suas xícaras de chá e falando sobre a vida. Naqueles momentos, a distância entre patroa e empregado era menos nítida. Eles falavam do passado, de religião, de seus conceitos sobre Deus e às vezes, surgiam confissões um tanto íntimas para serem consideradas apenas como entre patroa e empregado. Eram amigos, embora tal palavra jamais tivesse surgido entre eles – havia a distância social. Aos poucos, madame passou a desenvolver por ele uma paixão platônica que ela escondia até mesmo de si mesma, mas os empregados da casa comentavam pelos cantos. 

Madame Fonseca promoveu-o a administrador, dando-lhe a responsabilidade de comandar os demais empregados e os negócios, e aumentando-lhe consideravelmente o salário. Régis até mesmo especulou com ela a possibilidade de trazer Regiane para viver na casa com ele, mas madame imediatamente recusou-lhe o pedido: não queria mais apegar-se a nenhuma criança. Mas faria sempre o possível para que nada faltasse à menina (ou ao pai da menina). Teriam se tornado amantes, se Régis tivesse aceito os convites mudos das portas entreabertas e dos olhares lascivos que madame lhe dirigia; apesar de ser quase quinze anos mais velha que ele, madame ainda era uma bela mulher, mas ele achou melhor não cair em tentação, pois além de não desejar mais envolvimento com mulheres, precisava manter seu emprego.

Eram amigos, embora não admitissem ou pensassem sobre o assunto. Havia entre eles uma relação de carinho mútuo, e por parte dele, de respeitosa distância que jamais seria violada, para infelicidade dela. Mas mesmo assim, madame Fonseca gostava de fantasiar sobre Régis; suas fantasias traziam-lhe a esperança de um dia serem realizadas, e isto servia como um incentivo para viver e sonhar. Não pretendia casar-se com ele, mas adoraria tê-lo em sua cama algumas noites por semana, e alimentou aquele sonho durante o resto de sua vida. O sonho a ajudava a viver e sentir-se mulher.

Na escola Nossa Senhora da Ajuda, Regiane levava sua vidinha. Tentava ficar longe das três colegas agressoras, e aplicava-se nos estudos a fim de conseguir acompanhar as outras crianças. Cumpria a promessa que fizera a Ricardo de não revelar seu segredo aos demais. Ela mesma esquecia-se dele a maior parte do tempo, pois levava sua vida do lado de fora daquele porão, onde estudava, brincava aprendia trabalhos manuais, frequentava a igreja católica (havia missas todos os domingos na capela da escola, ocasião em que as crianças mais abastadas misturavam-se às crianças pobres) e crescia. Só voltou a vê-lo pela segunda vez seis meses depois da primeira, e nesse intervalo de tempo, mal pensava nele. Regiane era apenas uma criança; Às vezes, se perguntava se Ricardo existia de verdade ou se era apenas um amigo imaginário (uma de suas colegas tinha um amigo imaginário). 
Irmã Malvina ainda implicava com ela, e sempre exigia mais e mais. Ela tinha a impressão de que jamais seria boa o suficiente para Irmã Malvina. Mas entendia que ninguém era! A sorte, era que tinha ao seu lado seu anjo bom, Irmã Dulce, que a ajudava com aulas de reforço e a protegia contra as meninas mais malvadas. Mesmo assim, era difícil para uma menina tão pequena sobreviver entre crianças mais velhas, algumas delas, hostis.

Certa vez, durante uma das aulas de Irmã Malvina, a classe fazia as tarefas em silêncio. Regiane estava concentrada em resolver uma multiplicação, quando sentiu alguma coisa cair sobre seu ombro. Distraída, ela levou a mão ao ombro a fim de livrar-se do que quer que fosse, quando sentiu alguma coisa mexer-se entre seus dedos. Ao olhar para trás, deparou com as patas de uma caranguejeira saindo por entre seus dedos. Seu susto foi tão grande, que ela não pode conter um grito, erguendo-se da cadeira com tanta rapidez que derrubou-a ao chão, enquanto a aranha foi parar do outro lado da sala de aula, causando muitos gritos e correrias entre as demais meninas! Regiane tinha pavor de aranhas, e ter uma entre os dedos quase a matou de susto. No instante em que tentava entender o que tinha acontecido, viu que as suas três inimigas riam baixinho, e logo entendeu que acabara de ser vítima de suas maldades mais uma vez. Mal compreendera isto quando Irmã Malvina agarrou-a pelo braço:

-Mas que mal comportamento! 

Regiane ficou muda de medo e indignação, e Irmã Malvina acrescentou:

-Como pode ser tão má a ponto de trazer um inseto daqueles para a sala de aula?

Sem querer, Regiane lembrou-se das aulas de ciência, e corrigiu-a:

-Não é um inseto, é um aracnídeo, Irmã! E... e não fui eu que a trouxe, morro de medo de aranhas.

Irmã Malvina gritou para que todas as meninas se sentassem, e pediu silêncio, sem largar o braço de Regiane. Levou-a até a aranha, que subia pela parede:

-Não se atreva a me corrigir, mocinha! Pegue já este animal dos infernos e leve-a embora daqui! Você está suspensa por três aulas!

Regiane olhou para o rosto furioso de Irmã Malvina, e depois para a aranha, e não conseguiu decidir qual delas ela mais temia. Sentia um pavor enorme, e ao mesmo tempo, muita raiva por estar sendo acusada de algo que não fizera. Tentou explicar:

-Não fui eu quem trouxe esse bicho, Irmã Malvina. Juro por Deus! Alguém a colocou em meu ombro!

Irmã Malvina sacudiu-a:

-E ainda se atreve a jurar pelo nome de Deus, usando-o em vão em suas artimanhas! Menina má! Pegue já este animal e coloque-o lá fora! Eu deveria expulsá-la desta escola, mas se o fizer, quem ficará com você? Lembre-se, antes de ser tão ingrata, que se você está aqui, é porque lá fora ninguém mais a quis! Nem mesmo seu próprio pai!

Aquelas palavras feriram Regiane profundamente, e seus olhos se encheram de lágrimas. Ela viu a imagem raivosa da freira tornar-se cada vez mais turva. Nem percebeu que os gritos dela tinham atraído o jardineiro, que trabalhava no canteiro sob a janela da sala de aula, e que ele pegara a aranha e a levara para fora. Não percebeu o silêncio das outras meninas, nem o quanto estava sendo humilhada pela freira. Apenas sentiu a dor do impacto daquelas palavras dentro dela como se fossem um soco, uma verdade que ela até então não tinha ainda conseguido digerir. Era verdade: ninguém lá fora a queria! Como foi que ela nunca percebera aquilo antes? Celeste dissera a mesma coisa, mas naquela época, o pai ia visita-la com frequência, e por isso, ela não acreditou.

Irmã Malvina, ainda arrastando a menina consigo, foi até a mesa e, abrindo a gaveta, puxou um objeto de madeira – uma palmatória – aplicando três golpes doloridos na palma da mão direita de 

Regiane, que estava tão assustada, que nem sequer reclamou. 

Após a punição, Regiane foi levada pelo braço até o corredor. Sem enxergar direito, devido às lágrimas, escutou quando Irmã Malvina lhe disse para voltar ao dormitório e ficar lá até as aulas terminarem, quando ela lhe aplicaria uma punição devida. Regiane estava magoada, furiosa, e sentia-se injustiçada por estar sendo acusada de algo que não fizera. Mas, mais que tudo, aquelas palavras eram o que mais lhe doía. A mão latejava, vermelha, e começava a inchar. Ela foi caminhando pelo longo corredor silencioso. Tinha a impressão de que todos sabiam de sua humilhação, de sua derrota. Passava pelas outras classes, cujas portas estavam abertas, e via as outras meninas tendo aulas. Todas a olhavam enquanto ela passava, o rosto vermelho, as lágrimas escorrendo pela face. Regiane achava que todas tinham ouvido o que acontecera.

Ao chegar ao final do corredor, Regiane deparou com uma antiga cristaleira, onde ficavam algumas imagens de santos. Olhou para aqueles rostos piedosos, e para as mãos estendidas. Teve ódio de todos eles, que nada faziam para ajuda-la. Não a defenderam das infâmias, não a protegeram dos inimigos, não impediram que sua mãe fosse embora. Lembrou-se de um pequeno altar que tinha no quarto da mãe, sempre com algumas flores, e uma santa parecida com uma daquelas. A santa não a ajudara em nada. De repente, com um golpe de fúria, Regiane ergueu o braço, e com a mão ainda dolorida fechada, desferiu um soco no vidro, que se espatifou aos seus pés. 

Depois  daquilo, ela saiu correndo, e desobedecendo as ordens de Irmã Malvina, foi para o único lugar onde ela sabia que não seria molestada – pelo menos, até o término das aulas: o porão. 
Escancarou a porta, e o cheiro de coisas velhas e poeira encheu-lhe as narinas. Olhou para dentro, e esperou que seus olhos se acostumassem à escuridão. Puxou a cordinha e a mesma luz fraca de antes se acendeu. Regiane entrou. Procurou pelos gatinhos, mas eles já tinham crescido e ido embora. Ou então, quem sabe, aquela malvada da irmã Malvina tinha mandado leva-los! 

Ela sentou-se no chão e chorou. Sentia-se muito sozinha. Nunca se sentira tão sozinha como naquele momento. Seu pai estava longe. As tias só a visitaram uma única vez, desde que tinha chegado naquela escola, e os finais de semana no casarão que o pai havia prometido, nunca aconteceram. Ela estava há meses naquela escola, esquecida por todos, jogada fora, porque exatamente como Irmã Malvina dissera diante de todas as outras crianças, ninguém mais a queria. Achou que era tão importante quanto aquela aranha feia e repugnante. Mesmo os gatinhos tinham uma mãe amorosa que cuidara deles, mas ela, não tinha ninguém que a amasse.

Abraçada aos joelhos, a menina só chorava, e chorava, e chorava, os olhos fechados, seus soluções prpfundos contidos pelas paredes mofadas do porão, que não admitiam ecos.

De repente, ela sentiu um toque leve sobre seu ombro. Ergueu os olhos, e deparou com o rosto suave de Ricardo. Sem nada dizer, Regiane levantou-se e deixou que ele a abraçasse, e consolasse, até que o choro acalmou-se e foi cessando aos poucos. Quando ela finalmente parou de chorar, secando as últimas lágrimas com a manga do casaco do uniforme, ele disse:

-Querida, a vida nem sempre é justa. Mas você não precisa se conformar, nem se revoltar. Quando estiver passando por um momento ruim, entenda que é só um momento ruim, e que ele vai passar, e que a vida não é toda de momentos ruins. Há coisas boas também. E tudo passa, tudo... não se entristeça demais, nem se alegre demais.

Ela concordou com a cabeça, e compreendeu as palavras dele. 

-Às vezes, as pessoas nos fazem mal porque elas mesmas estão infelizes. Quem está infeliz não consegue ver outras pessoas felizes, então acabam fazendo ou dizendo coisas que deixam os outros tristes... mas não é você o problema, são elas mesmas. Um dia, você vai crescer e entender melhor o que eu estou dizendo. Mas por enquanto, pare de chorar e seja corajosa, está bem?

Regiane concordou com a cabeça.

-Por onde você andou?

-Ele sorriu:

-Eu? Não saí daqui. Estive sempre aqui, minha menininha. Mas você não precisou de mim, não é? Não veio me visitar!

-É que... não deu tempo! Tenho que estudar muito para conseguir acompanhar as aulas. Tenho que fazer as pessoas acreditarem que eu sou mais velha do que sou de verdade. Mas é tão difícil...

-Hum... eu sou muito bom em matemática. Gostaria que eu a ajudasse? Se quiser, venha aqui todos os dias após as aulas, e eu a ajudarei. Mas lembre-se: não conte a ninguém, ou terei que ir embora e nunca mais nos veremos.

Ela beijou os dedos em cruz, já quase esquecida de suas dores recentes:

-Está bem, Ricardo. 

.    .    .    .    .    .    .    .

No dia de seu aniversário de nove anos (na verdade, de sete anos) Regiane teve uma agradável surpresa: foi convidada para ir ao casarão. Tia Rosa foi busca-la bem cedo, no sábado pela manhã. Ela estava com muitas saudades da tia, e ficou muito alegre ao vê-la. Gostaria de poder contar-lhe sobre seu mais novo amigo, Ricardo, mas lembrou-se de sua promessa, e calou-se. Após despedir-se das colegas da escola,  as duas foram caminhando de mãos dadas pela Avenida Koeller, que estava linda naquela manhã de maio, quando pássaros de todas as cores cantavam nas magnólias, e depois de cruzarem a praça da Liberdade (parando alguns minutos para que Regiane pudesse usar os balanços e demais brinquedos), chegaram ao casarão. 

Mal abriram a porta, e Regiane não pode conter sua alegria: todos – Tia Fiorela, Tio João, seu pai e Lea, sua priminha mais velha, estavam lá e cantaram parabéns para ela. Aquela fora a primeira vez que ela tivera uma festa surpresa. Regiane abraçou a todos, muito feliz, conheceu sua nova prima, que ainda era um bebê, e depois sentaram-se à mesa para tomar o café da manhã com bolo confeitado. O pai deu-lhe de presente um lindo vestido novo com uma fita cor-de-rosa na cintura, que Tia Fiorela bordara na gola. Das tias, ela ganhou um par de sapatos de verniz e meias novas. Regiane teve autorização para vestir suas roupas novas, e ficou desfilando na frente do grande espelho do quarto da tia, e quando caminhava, olhava para os próprios pés, admirando os sapatos novos. Sabia que assim que voltasse para a escola, teria que usar os uniformes feiosos novamente, então tratou de aproveitar aqueles momentos. Depois, ela foi ao quintal dos fundos, para matar a saudade dos muitos gatos de Tia Rosa. Brincou com eles por alguns minutos, lembrando-se de seus nomes, e viu que havia novos membros na família dos felinos, que fugiam quando ela tentava se aproximar deles. 
Contou-os, e descobriu que eram onze no total. 

Bem nos fundos do quintal, havia uma escadaria que levava colina acima. Era cansativo subi-la, e por isso, os adultos não iam muito lá, mas Regiane gostava muito de subir as escadas de cimento meio-quebradas, apoiando as mãos no musgo verde e aveludado que cobria o morro. De vez em quando, ela parava para descansar e olhava a vista da cidade: de lá, podia avistar a torre da catedral São Pedro de Alcântara ao longe, algumas ruas próximas, as muitas montanhas azuladas e a sua tão querida Praça da Liberdade. 

No alto daquele morro, havia um pequeno chalé abandonado. Fazia parte do terreno da casa, mas ninguém nunca vivera ali. Junto à casa, algumas toras de madeira, sobras  da serraria de tio João. O chalé estava sempre fechado. Regiane já tentara entrar (adorava coisas misteriosas), mas as portas estavam sempre trancadas. Ali, o silêncio era total. Havia alguns pessegueiros em volta da casa, e naquela ocasião, eles estavam começando a florir, deixando a paisagem ainda mais bonita. Regiane sentou-se nas escadas da porta da frente, e ficou escutando os passarinhos enquanto admirava seus sapatos novos. 

Gostava de fingir que sua mãe morava naquela casa. Fingia que ela estava lá dentro, preparando o doce-de-abóbora que ela tanto adorava, e que logo o doce ficaria pronto e ela seria chamada para comê-lo. Não haveria nenhuma visita dos “tios” para interrompê-las, e ela não teria que apertar os olhos e  fingir que estava dormindo enquanto a mãe fazia coisas com eles, e as duas poderiam estar sozinhas, desfrutando da companhia uma da outra e brincando de pegar, correndo entre os pessegueiros, e a mãe colocaria flores em seus cabelos. A mãe estaria usando um vestido branco esvoaçante, cujas saias dançariam quando o vento soprasse. De olhos fechados, Regiane imaginava a cena. 

Ela não conseguia lembrar-se bem do rosto de Vicentina, e quando aquilo acontecia, Regiane pegava uma fotografia que o pai lhe dera – mas a foto já estava gasta e um pouco amassada, começando a amarelar. Na foto, ela via uma moça séria, de cabelos escuros presos em coque e olhos que olhavam adiante, para algum lugar misterioso que Regiane não podia alcançar. Aquela seria a única fotografia que ela teria da mãe para o resto de sua vida. Não havia outras. Sem aquela foto, a imagem de sua mãe aos poucos tornava-se a de uma mulher sem rosto, e aquilo a deixava apavorada! Às vezes, quando sonhava com ela e não conseguia ver seu rosto, enxergava apenas uma criatura de cabelos  soltos emoldurando uma face translúcida e amedrontadora. Acordava suando, assustada, e agarrava a foto que trazia sempre consigo e olhava o rosto da mãe para certificar-se de que ele ainda estava ali, e agarrada à foto, ainda ofegante pela força do sonho, adormecia.

Regiane despertou de suas fantasias com o grito do pai, que a chamava. Ela sabia que o pai e os tios não gostavam que ela brincasse ali, pois temiam que ela rolasse a colina ao cair da escada. Ela pensava: “adultos sempre acham que as crianças são tolas!” ela começou a descer as escadas, devagar, para não sujar os sapatos novos, e quando chegou lá em baixo, levou uma bronca do pai:

-Menina, eu já não lhe disse para não subir aí?

Sem pensar, e apenas tentando justificar sua desobediência, ela respondeu:

-Eu estava com a mamãe!

Régis sentiu o coração dar um salto dentro do peito. Seria aquela a resposta para suas preces? O tempo todo, Vicentina estava ali, naquela casa, esperando que ele a procurasse? Tantas vezes tentara contato com a alma dela, sem obter sucesso! Ele segurou a pequena pelos ombros, ajoelhando-se para ficar na frente dela:

-Querida, com quem você disse que estava?

Regiane continuou a deixar fluir sua fantasia:

-Com a mamãe! E ela estava tão bonita, de vestido branco! Disse que ia fazer doce-de-abóbora para mim.

Régis abraçou a filha, os olhos cheios de lágrimas, sem conseguir conter a emoção. Vicentina estava ali naquela casa, e se Deus quisesse, ele a veria de novo! 

-E o que mais ela disse?

-Mais nada... a gente brincou de pegar e ela colocou uma flor no meu cabelo... mas eu acho que caiu.

Naquele momento, os dois estavam cercados pelas tias e por João. Régis gritou:

-Vocês ouviram? A menina a viu! Regiane acaba de ver Vicentina!

Regiane, sentindo-se feliz e importante com toda aquela atenção, acrescentou:

-E ela estava tão bonita! Disse que um dia ela vai voltar.

Para ela, mentir um pouquinho não fazia mal, se deixava os adultos felizes e despertava a atenção deles para si. Régis declarou:

-Organizarei uma sessão espírita na casa da colina, isso é, se vocês não se opuserem!

Rosa, Fiorela e João se entreolharam, confusos. Foi João quem falou:

-Bem... eu não acredito em nada disso, você sabe, meu cunhado. Mas se vai deixa-lo feliz, que seja feito! 

(Continua...)








A RUA DOS AUSENTES - Parte 12 (FINAL)

  A Rua dos Ausentes - parte 12 - Final E naquela noite, havia pessoas na Rua dos Ausentes reunidas cada qual por um propósito diferente: Al...