segunda-feira, 7 de março de 2016

O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO XIII






O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO XIII


Uma semana após a aventuras de Regiane, e muita ansiedade por parte da menina - para uma criança, uma semana é tempo suficiente para sentir-se decepcionada ao não ter um pedido realizado-, algo aconteceu. Irmã Malvina interrompeu a aula a fim de fazer um comunicado. Pela primeira vez, ela não parecia carrancuda ou disposta a ser insuportável. Trazia uma expressão contente e satisfeita, o que fez com que as crianças relaxassem ao vê-la (sempre que ela adentrava a sala de aula fora do período em que deveria estar administrando suas temidas aulas de matemática, todos tremiam, pois boa coisa não poderia ser).

Ela comunicou que a escola recebera uma honraria muito grande: o Presidente da República em pessoa desejava fazer-lhes uma visita. Ela acabara de receber um documento expressando seu desejo, e no tal documento, que ela leu em voz alta para que todos ouvissem, ele dizia sobre uma carta que recebera de uma das alunas (não declinara o nome da mesma) demonstrando que as condições da escola deveriam ser melhoradas. Assim, ele determinara que a partir do dia de sua visita, a escola Nossa Senhora da Ajuda passaria a receber mensalmente, ajuda financeira a fim de melhorar o cardápio das crianças e instalar chuveiros com água quente.

Ao ouvirem as novidades, as meninas aplaudiram; menos Regiane, que decepcionada, não tivera seu maior pedido atendido. Ele não dizia que lhe daria uma casa de presente. Nem sequer mencionara seu nome, e ela sabia que mesmo que revelasse a todos que tinha sido ela a autora da carta, ninguém acreditaria nela. 

Naquele final de semana, seu pai fora visita-la. Chegou com um grande pacote cheio de doces: havia goiabada cascão, doce-de-leite de corte, balas coloridas, e duas grandes fatias de bolo confeitado da Padaria Alemã, embrulhadas em papel encerado. Regiane agradeceu pelos quitutes, mas não demonstrou nenhum entusiasmo. Régis percebeu que a menina estava triste:

-O que aconteceu, filha? Está tudo bem?

Ela fez uma pequena carranca:

-Mais ou menos... sabe que o Presidente da República vem nos visitar na próxima semana? 

-Ah, sim, Irmã Margarida me falou sobre isso enquanto estava esperando você chegar... que grande honra, não é?

-É... agora teremos chuveiros quentes e a comida vai melhorar também... mas...

-E isso não é maravilhoso? Você não ficou contente?

Regiane começou a chorar. Surpreso, o pai passou o braço em volta da menina:

-Mas por que você está triste, filha?

-Porque ninguém acreditaria em mim!

-Mas... o que?...

Ela enxugou os olhos na manga da blusa, e virando-se para o pai, revelou:

-Fui eu quem escrevi a carta. Mas só que eu não pedi nada disso! Pedi uma casa para morar com você!

O pai tentou compreender o que Regiane estava tentando dizer, e então, mal crendo no que acabara de ouvir, admirou-se:

-Você quer dizer que escreveu uma carta ao Presidente da Nação?

-Sim, eu escrevi... mas parece que ele não lê muito bem, ou então alguém leu no lugar dele e fez tudo errado!

-Mas... como assim?

-Eu queria uma casa. Irmã Dulce disse que ele era o homem mais poderoso e mandão do país todo, e pensei... pensei... (ela recomeçou a chorar). Eu bem que falei que as coisas aqui na escola não eram muito boas, mas meu pedido foi a casa!

-Filha... o que você fez foi maravilhoso! Pense bem: você prestou uma grande ajuda não apenas às Irmãs, mas também e principalmente às outras crianças. Agora, elas desfrutarão de mais conforto por sua causa.

Regiane ficou pensando no que aquilo significaria, mas não conseguiu ver vantagem nenhuma para si. Resolveu não falar mais no assunto. Ao invés disso, perguntou:

-E você conseguiu falar com a mamãe, pai?

Régis entristeceu-se:

-Não, querida... nós tentamos, mas ela não pode vir. Quem sabe, mais tarde...

A menina concordou com a cabeça. Gostaria de dizer ao pai que tinha um amigo de verdade, mas lembrou-se de sua promessa de jamais falar a ninguém sobre a presença de Ricardo. Mas não faria mal fazer outro tipo de perguntas, e ela disse:

-Papai... freiras podem ser mães?

-Claro que não, Regiane! Elas são casadas com Jesus, eu já disse isso a você. 

-E Jesus não pode ser pai?

-Ele já é o Pai de todos nós, filha!

-Então... nós somos irmãos?

-Espiritualmente, sim; somos todos irmãos. Eu já expliquei a você. Mas não somos irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, fisicamente falando.

-Mas... então... se uma das freiras tivesse um bebê eu seria irmã dele também?

-Mas que história é essa, filha? É... bem... seria sim, você seria irmã espiritual desse bebê... mas eu já disse, freiras não tem bebês, não podem, são casadas com Jesus – de maneira espiritual, é claro.

-Mas... e se elas tiverem um bebê sem ninguém saber?

-De onde você tirou essa ideia absurda, menina?

Sem responder ao pai, ela continuou:

-Mas se elas tivessem um bebê, com certeza o esconderiam em algum lugar onde ninguém achasse, não é? E se alguém encontrasse esse bebê, seria muito ruim para todos, não é?

Régis decidiu não ir muito fundo no assunto, pois sempre ficava constrangido quando a filha fazia tais perguntas. Vacilou ao responder:

-Acho que sim... mas vamos mudar de assunto: como estão suas notas na escola? 
E assim passaram o tempo de visita, falando sobre as notas da escola, as matérias e as coleguinhas de Regiane. Sempre que ela tentava voltar ao assunto do ‘bebê de freiras’, Régis mudava o rumo da conversa.

Após rever sua filha, Régis foi fazer uma rápida visita às irmãs e sobrinhas antes de voltar a Niterói, de onde só voltaria a sair no mês seguinte. Madame Fonseca estava muito deprimida, e exigia sua presença mais do que normalmente o fazia. Parecia não se importar mais com os comentários dos demais empregados. Ficavam horas conversando na varanda, e naqueles momentos, ela falava de sua infância, de sua família e do quanto fora triste não ter conseguido ser mãe, e que provavelmente, por aquele motivo, seu marido a deixara. Demonstrou sentir muitas saudades de Paulinho, e disse que gostaria muito de saber o que acontecera com ele, aonde estava o menino, se ele era feliz. Régis acabou fazendo também algumas confissões íntimas; falhou-lhe de Vicentina, e da desgraça que se abatera sobre a vida dela depois que ele a conheceu. Não se isentou de responsabilidades, foi verdadeiro e demonstrou estar profundamente arrependido. Madame Fonseca chorou ao ouvir a história de Vicentina, e teve muita pena dela. Ele achou que talvez aquela seria uma boa hora para voltar a falar-lhe de Regiane, e pedir a ela mais uma vez que permitisse a vinda da filha para a mansão; mas ela continuou firme em sua decisão: não queria apegar-se mais uma vez a uma criança que não era sua, que não lhe pertencia e que poderia desaparecer de sua vida a qualquer momento.  

Após a visita de Getúlio Vargas – na qual o nome de Regiane nem sequer foi mencionado – a vida na escola voltou ao normal, mas com condições bem melhores para as crianças. Receberam uniformes novos, as refeições melhoraram e novos cobertores e roupas de cama foram comprados. Além disso, passaram a receber frutas todos os dias, após as refeições. Às sextas-feiras, as freiras escolhiam um grupo de meninas para ir passear pela cidade, e elas ganhavam doces da padaria. Também passaram a passear pelos jardins do Museu Imperial, e em algumas ocasiões, três ou quatro meninas (as que se comportavam bem e tinham as melhores notas) eram escolhidas para passear no Rio de janeiro, quando as freiras tinham que visitar a matriz da escola. Regiane foi selecionada uma vez, e adorou a viagem!

Sempre que voltava de algum passeio, ela dava um jeito de, na primeira oportunidade, ir até o porão e contar tudo a Ricardo. Ele a escutava com atenção, fazendo perguntas e comentários. Em uma destas ocasiões, Regiane perguntou-lhe:

-Você conhece o Rio de Janeiro?

-Não... como já disse, não saio muito.

-Você não gostaria de conhecer?

-Na verdade, poderia, se quisesse... mas não. Prefiro ficar por aqui mesmo. Acho que todos os lugares são iguais, ou seja, há pessoas, casas... e as pessoas sonham coisas iguais dentro de casas parecidas, aborrecem-se sobre as mesmas ninharias, criam e resolvem seus conflitos...
(ele percebe o olhar confuso da menina)

-Mas... fale-me mais sobre o Rio de Janeiro!

Regiane, que era uma menina insistente, pareceu não ter escutado, e continuou:

-Você me disse que sua mãe é uma freira; qual delas?

-Você faz muitas perguntas, Regiane. Há certas coisas sobre as pessoas que devemos respeitar. Isso se chama m privacidade. Existem assuntos sobre os quais não se deve fazer perguntas, é falta de educação.

Ela ficou muito vermelha, e baixou a cabeça. Ele percebeu, e tentou animá-la:

-Mas deixe isso pra lá, menina! Fale sobre o Rio.

Ela ergueu os olhos e olhou para ele com certa tristeza:

-É que... eu pensei que fossemos amigos.

-Mas nós somos!

-Amigos partilham tudo. Eu contei a você sobre o meu pai, e sobre as coisas que vivi, e das coisas que eu gosto. Você nunca fala de você mesmo.

-É que eu não tenho muitas coisas para contar, Regiane. Não saio nunca daqui. Você tem uma vida bem mais interessante.

-Você acha? Eu não acho... gostaria de poder ter uma casa, e morar com meu pai. Gostaria de estudar na outra parte da escola, onde estão aquelas meninas que tem uniformes mais bonitos, sapatos de verniz...

Ele fez uma carícia nos cabelos dela:

-Mas se fosse assim, não teríamos nos conhecido.
Ela pareceu pensar:

-É mesmo! Bem, então eu prefiro estudar deste lado aqui. Mas um dia, ainda quero ter  a minha casa. Você acha que eu vou conseguir?

-Acho, sim.

-E se eu conseguir, você acha que pode vir morar comigo?

Ele riu:

-As coisas não são simples assim, Regiane.


-Por que? Qual o problema?

-Você já percebeu que faz perguntas o tempo todo, menina? As pessoas não gostam de certos comportamentos. Ninguém leva um estranho para viver dentro da própria casa. São as regras sociais. Meninas não podem morar com meninos, a não ser que sejam casados.

-Então você pode se casar comigo!

Ele ficou perplexo, e respirou fundo. Regiane o deixara constrangido. Tentou disfarçar com um sorriso amarelo, e deixou uma resposta vaga, pois se dissesse não, sabia que ela faria ainda mais perguntas.

-Quem sabe, não é? Um dia...

E assim a vida corria entre as paredes daquela escola.  Regiane aprendia sobre o pecado e a culpa. Estudava as matérias, procurava tirar boas notas e não fazer tantas perguntas – embora esta parte fosse a mais difícil. Lá fora, seus primos cresciam. Os irmãos que ela não sabia que existiam, cresciam também. Seu pai continuava a tentar contatos com sua falecida mãe, que nunca se manifestou, e as tias Rosa e Fiorela, e o tio João,  levavam suas vidas no casarão, que recebia sempre muitos gatos perdidos dos quais elas cuidavam. Alguns desapareciam, outros adoeciam e morriam, e poucos envelheciam.

A amizade com Ricardo fortalecia-se cada vez mais. Ela levava suas angústias até ele, e ele a 
escutava e aconselhava. Lia os livros que ele lhe mostrava, e ambos discutiam as histórias e personagens, o que fez com que Regiane adquirisse muita sagacidade e espírito argumentativo, o que lhe rendia algumas broncas durante as aulas, pois ela não aceitava os dogmas religiosos que as freiras impunham, e queria sempre saber com detalhes os porquês das coisas. 

E foi assim que ela chegou aos seus quinze anos de idade (na verdade, treze). O pai procurava prepara-la para ser uma boa esposa e mãe, uma mulher direita, de família, pedindo que as freiras focassem nas lições de economia doméstica, corte e costura e administração do lar, mas a ideia de casar-se com qualquer outro homem que não fosse Ricardo  não a agradava. Regiane não desejava casar-se. A não ser que Ricardo aceitasse casar-se com ela. Mas ela sabia (e ele estava sempre lembrando-a) que não podia revelar a ninguém que ele estava ali, ou então, poderia perdê-lo para sempre, e então, como poderiam casar-se? Achava que o tempo resolveria aquela questão.

Ela as vezes ficava observando as freiras, fingindo prestar atenção às aulas, e imaginando qual delas seria a mãe de seu amigo: será que Irmã Regina poderia guardar aquele segredo? Não... ela era velha demais, assim como Irmã Malvina, que além de velha, era muito beata. Talvez Irmã Teresa... não; era muito jovem! Quem sabe, Irmã Carmina? Podia ser, se ela não fosse tão negra. Ricardo era branco, tinha a pele mais alva que ela já vira, e cabelos loiros. Irmã Dulce? Talvez; ela era a que mais tinha o perfil de mãe. Não sabia qual era a cor de seus cabelos, escondidos sob o hábito, mas ela tinha os mesmos olhos azuis de Ricardo. E sempre que pensava naquilo, Regiane ia adquirindo a certeza de que seu pensamento era correto, apesar de haver uma outra freira na escola do Rio de Janeiro que também se parecia com Ricardo, e tinha a idade certa para ser sua mãe... ele nunca dissera se sua mãe permanecia naquela unidade da escola.

Respeitava o segredo de Ricardo, mas cada vez mais, achava que precisava fazer alguma coisa para ajudar seu amigo que morava no porão. Notava que ele não crescera muito em relação a ela, e pensava ser a falta de sol e exercício físico as causas de sua palidez e aparência demasiadamente jovem para a idade que tinha: vinte e dois anos. Ele nunca comia na frente dela, não aceitando as guloseimas que ela lhe trazia, alegando ser alérgico a doces e a trigo. Talvez por isso fosse tão magro. 

Regiane sabia que os rapazes deviam estudar e procurar um emprego. Como poderiam casar-se, se ele não trabalhava? Ela às vezes perguntava aquilo para ele, mas Ricardo apenas ria tristemente. Se ela insistisse, ele mudava de assunto. 

(continua...)

5 comentários:

  1. Tantas indagações, tantos segredos!
    Como trabalha a cabecinha de Regiane!
    Aguardando o próximo, obrigada Ana!
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  2. Ana, tem uma indicação ao Prêmio Dardos, lá no Teceramor!
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  3. Ana, não li os 13 capítulos (li apenas este) da história. Mas foi suficiente para perceber o seu enorme talento para as letras, já que este conto tem uma excelente narrativa e conta uma história que surpreende.
    Fiquei cliente...
    Beijo.

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  4. PS:
    No título está "O Ano do Porão...".
    Não devia ser "O Anjo..."?

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  5. Boa noite Ana.
    Fique feliz porque no fim, muitas crianças foram ajudadas, mas, imagino os sentimentos de Regiane.
    Louca para saber o que acontecerá com Ricardo, amando demais ele.
    Sigo... Meu carinho

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